Capítulo 3 – Enganos e conversas

Eu posso enfrentar o Baker.

Eu posso enfrentar o Baker.

Eu posso enfrentar o Baker.

Ainda nem havia aberto os olhos. Tinha acordado há algum tempo e repetia meu novo mantra.

Não é como se ele fosse sem lógica. Apesar de o Dough ser 4 vezes maior que eu, o treinamento no Acampamento Meio-Sangue serviria para eu não apanhar... Muito. E eu tinha desenvolvido a arte de ignorar as pessoas para sobreviver às brigas de Micali e Drew.

Devidamente mais tranquilo, resolvi acordar de verdade e me arrumar para a escola. Foi quando eu percebi que minha mãe quase derrubava a porta do meu quarto com seus murros. Eu não estava brincando sobre a minha habilidade de ignorar gente, eu me desligo do mundo.

Dessa vez eu estava muito atrasado para a escola. Nem vi direito o que vesti, não me surpreenderia se tivesse saído de uniforme de baseball ou algo assim. Se eu corresse MUITO eu chegaria no horário.

Corri o máximo que as calcadas esburacadas permitiam. Minhas pernas doíam, mas eu não parei. Quando eu estava no estacionamento, vi o portão sendo fechado. Cheguei perto e encostei a testa nas grades frias.

Falta de sorte desgraçada.

Respirando fundo e contando até 100 entrei na secretaria. A senhora com o terninho rosa-choque e óculos de tartaruga atrás do balcão me olhou de cima a baixo. Depois indicou uma porta à direita com a cabeça.

Entrei na porta indicada e deu de cara com algumas peças de roupa como casacos, calças jeans e cuecas. Voltei para a parte central da secretaria e olhei o para a senhora com a minha melhor cara de indignação.

- Tem certeza que não precisa querido? – ela apontou para mim com lixa de unha que estava usando –

Olhei para mim mesmo. Até que me vesti bem para quem saiu de casa sem ver o que usava. Casaco de algodão cinza, uma velha camiseta azul-clara e jeans pretos.

Então olhei para os meus pés. Calçava um tênis azul e outro vermelho.

Repensei sobre a proposta da porta da direita. Entrei lá e comecei a procurar um par de tênis do meu tamanho. Achei um que cabia perfeitamente e ainda vinha com um bônus: não cheirava mal!

Parei na frente da secretária novamente, sem ter certeza sobre o que fazer. Ela me indicou uma porta a esquerda. Fui até lá, vagarosamente. Olhei para dentro, alguns alunos esperavam sentados em sofás de couro.

Esse era o que eu estava procurando, a sala dos atrasados.

Entrei, fechei a porta e sentei em um dos sofás, do lado de um garoto ruivo que se divertia mordendo uma borracha. Não é a melhor companhia do mundo, mas não havia outros assentos vagos. Se fosse me atrasar novamente, teria que chegar mais cedo para sentar num lugar melhor.

Espere. O que eu disse?

O sinal da primeira aula tocou eu uma grande porta de madeira foi aberta. Saí por ela e encontrei meus dois melhores amigos. Micali me abraçou com força extremamente desnecessária.

- Ainda bem que você está aqui. Quase liguei para sua mãe pensando que você tinha sido sequestrado por coelhos gigantes.

- Coelhos gigantes? Você realmente acredita nisso? – perguntou Drew –

- O que você queria que fosse? Minhocas do tamanho de prédios? – ela retrucou -

- Na verdade, a teoria de formigas gigantes é bem aceita.

Não me preocupei em ouvir o resto da discursão.

O resto do dia foi tranquilo, se não considerar que Micali e Drew brigaram 8 vezes, batendo seu antigo recorde. Voltei para casa e tentei fazer os deveres. Perda de tempo, desisti e fui dar uma volta pelo parque que tinha perto de casa. Fiquei algum tempo vendo um jogo de futebol que acontecia no gramado, mas não aguentei ficar por muito mais tempo.

Fui à lanchonete perto da área de piqueniques com o objetivo de comprar alguma coisa para comer. Enquanto esperava meu cachorro-quente ficar pronto, enxerguei o vulto de Silena sentada na grama, admirando alguma coisa ao longe.

Bom,- pensei – se eu for ajuda-la, vou ter que conversar com ela sem ficar vermelho a cada5 minutos.

Peguei minha comida e escolhi um algodão-doce da prateleira.

Sentei ao seu lado e lhe ofereci o doce.

- Ah, obrigada. – ela disse, surpresa -

- De nada.

- O que estava fazendo? – perguntei -

- Olhando as bolhas.

Olhei para frente, alguém estava fazendo bolhas em um canto remoto do parque e elas chegavam até o gramado.

- Elas me lembram de minha infância, minha mãe costumava a fazer bolhas comigo nas tardes de domingo no campo de flores perto da minha antiga casa.

Ficamos um tempo em um silêncio agradável enquanto comíamos.

- O que você estava fazendo aqui? – ela disse –

- Eu moro aqui perto, geralmente venho muito aqui.

A conversa começou a fluir naturalmente. De algum jeito, falamos sobre o Acampamento, a escola, o cachorro dela e o hamster da minha mãe. Descobri que era estranhamente fácil conversar com ela.

- Acho que temos que começar a estudar não? – ela perguntou –

- Ah, sim. Até tinha esquecido.

Silena sorriu levemente – Nós podemos estudar ali? – ela apontou para uma árvore grande e velha há alguma distância –

Sentamos debaixo da sombra da árvore e encostarmos as costas no tronco. Começamos a estudar.

Nenhum de nós dois percebeu que o espaço acima de nossas cabeças havia sido usado por outro casal, que tinham desenhado um coração no lugar, e escrito suas iniciais.

Curiosamente e coincidentemente, as iniciais eram C e S.

Charlie deixando de ser medroso, finalmente não?