Capítulo 5 – Encrencas e choques

- Será que você não entende, fio idiota, que se você não entrar nessa tomada no exato minuto eu vou chegar atrasado na escola pelo segundo dia seguido? – falei e continuei, inutilmente, tentando encaixar o cabo –

Naquela manhã, quando eu estava com a mão na maçaneta da porta da frente, minha mãe gentilmente me pediu para ajudá-la a instalar o novo aparelho de telefone que havia comprado.

Ela tinha grande fascínio por máquinas e coisas tecnológicas, mas era tão azarada quanto eu, e vivia de estoques de band-aids e pomadas para queimaduras. Resumidamente, ela tinha o bom senso de ficar apenas na teoria e observar atentamente os outros trabalhando. Naquele dia, pelo jeito, ela tinha coisa melhor para fazer do que ver seu filho levando uma surra de um fio de cobre.

E chegar atrasado na escola duas vezes em uma única semana é ruim. A diretora, carinhosamente apelidada de bruxa, tolera apenas três atrasos por semana, não importa se você é um semideus perseguido por monstros e com a sorte de um gato preto derrubando sal sob uma escada. Não que ela soubesse que meu pai não morrera em um acidente de carro como eu havia espalhado, mas eu não podia me dar ao luxo de ter direito a só mais um atraso. Ainda havia três dias de aulas para sobreviver!

Por favor, por favor, por favor, por favor – pedi enquanto batia o final do fio na entrada da tomada.

Então o cabo pareceu me ouvir.

Quando eu tentei encaixá-lo pela milésima vez, simplesmente deu certo, como se fosse a coisa mais fácil do mundo. E então eu recebi um pequeno choque, como se ele falasse "porque não pediu por favor antes boboca" e estivesse meio irritado pelas batidas na parede.

Às vezes ser filho de Hefesto pode ser bem estranho.

Ou tinham conseguido me deixar louco.

Não perdi mais um segundo, coloquei a mochila no ombro enquanto corria em direção à porta. Como no dia anterior, forcei minhas pernas ao máximo sem que elas caíssem.

Logo apos atravessar o portão, suspirei aliviado. Infelizmente, ainda estava atrasado comparado ao meu normal. Ouvi o sinal estridente tocando dolorosamente e sabia que tinha apenas 5 minutos. Atravessei uma multidão de pessoas apertando as orelhas com as mãos para chegar ao meu armário, joguei tudo que encontrei pela frente na mochila, não conseguindo fechá-la por completo depois e saí correndo.

Deslizei para a minha carteira bem no momento que o professor entrou na sala. Drew se esticou para frente em sua carteira e sussurrou enquanto eu acalmava minha respiração.

- Qual é a desculpa hoje? Uma gangue de brócolis vorazes te assaltou no caminho para a escola?

O professor abriu sua pasta em cima da mesa e mandou todos pegarem os livros.

- O que aconteceu? Você geralmente surta quando se atrasa – ele continuou.

- Hoje de manh... – parei de falar pra direcionar toda minha capacidade para achar meu livro na mochila.

Virei-a de cabeça para baixo e derramei todo seu conteúdo em cima da carteira. O livro não estava em lugar algum.

- Esqueci o livro, droga. – cochichei.

- Não esquenta, ele nunca checa essas coisas.

Logo que Drew acabou de falar, o professor ajeitou umas canetas de pena com aparência mortífera em cima da mesa e anunciou que naquele dia seriam descontados pontos por material esquecido.

- Corre no seu armário. – Micali disse.

Drew assentiu com a cabeça. Pera, desde quando os dois concordam com alguma coisa?

Felizmente, eu sentava perto da saída. Escorreguei da cadeira e me agachei, engatinhei por entre uma fileira de carteiras, grudei as costas na parede e fui me aproximando da porta. Para sair, dei uma cambalhota, desnecessária, mas deixava tudo mais legal. Tentei escapar ao máximo das câmeras de segurança nos corredores e quando vi já estava de frente do meu armário.

Coloquei a senha e o abri. Lá estava o livro maldito. Eu tinha posto o armário inteiro na mochila, e tinha sobrado um único livro. Suspiro e estou pronto para pegar o livro e voltar sorrateiramente para a sala de aula quando sou empurrado contra o armário.