X.x.x.x 7 - Help
Meus passos ecoavam de maneira irritada pelas paredes milenares. Não era à toa: minha raiva estava direcionada para uma pessoa em especial. Um maldito grifinório setimanista.
Era de manhã, hora do café, num belo domingo. Eu até apreciaria o céu prateado e o sol tímido se não estivesse me sentindo tão... Aborrecida. Isso para não usar outro termo baixo. Sim, esse que você pensou.
Noite passada descobri o autor das brincadeiras das cartas, e McGonagall, pegando-me desprevenida, disse não estar tão surpresa com o culpado. Ah, mas eu estava! Edward Wylde! Aluno modelo! Capitão do time de Quadribol! Como ele pôde? Como? Toda aquela encenação no Três Vassouras era verdade! Tudo o que eu compreendi era real! Não havia outra palavra para descrever o que eu estava sentindo senão "traída". Agora eu seguia para o Salão Principal para tirar satisfações com Edward. McGonagall é quem devia estar tão irritada, eu sei. Mas eu estava apaixonada por ele! Por isso é que me sentia tão traída: por acreditar que ele pudesse ser perfeito. E como eu estava enganada!
Minerva provavelmente estaria lá, dever de professora, é claro. Aguardaria o fim do banquete para pegar o safado e aplicar o merecido castigo, aguardando tanto tempo para que eu não fizesse nenhuma besteira e talvez para tentar apanhar mais culpados. Mas eu iria até a mesa da Grifinória e falaria umas verdades na cara dele. Mesmo com os pedidos insistentes de Minerva para eu ficar calma e ser paciente. Jamais negaria um pedido dela, mas eu não estava em meu juízo perfeito. Não consegui dormir à noite, remoendo isso.
Eu estava tão envolvida em minha discussão interna que esbarrei em alguém. De início não reconheci quem era, mas surpreendeu-me perceber que era Benjamin, o irmão de Edward. Ele segurou meus braços, antes que eu levasse uma queda horrível. Minhas bochechas esquentaram e eu recuperei o equilíbrio.
- Obrigada, Benjamin. - Agradeci, arrumando os óculos em meu nariz sem necessidade alguma.
Ele pareceu surpreso, encarando-me com aqueles olhos azuis penetrantes. Olhei ao redor, minha raiva imediatamente esquecida.
- Você sabe meu nome. - Comentou Benjamin, parecendo maravilhado. Virei um pouco o rosto, observando como ele ficava bonitinho dessa maneira - Oh, perdoe-me. Allexandra, não é?
Percebi que Benjamin estava tentando disfarçar alguma coisa, então lembrei do comentário de Dean Madden no dia anterior e a reação dele com isso. Quase aborrecido com a suposta relação entre mim e Edward. A família deles não era contra "sangues impuros", então desconsiderei a aversão a mim (mestiça com orgulho), restando apenas... Ciúme. Gemi, mas ele não percebeu.
- Isso mesmo. - Confirmei, nervosa - Bela manhã, não acha? Exceto pelo frio intenso e...
Comecei, mas ele balançou a cabeça, negando meu falatório. Ainda sorrindo, explicou sua atitude.
- Creio que estava a caminho de algo, não estava? - Não me mexi, ainda surpresa - Estava andando mais rápido e mais distraída que o costume.
Agora que ele comentou, de fato estava fazendo tudo isso, então lembrei do motivo. Edward. Mesmo assim, uma parte de mim anotou também o "mais rápido que o costume", deixando claro que eu vinha sendo espionada sem ter percebido.
- Ah, sim. Preciso ir, desculpe. Tenha uma boa manhã, Benjamin! - E saí correndo dessa vez, acenando para ele sorridente.
Mesmo para um sonserino, ele me parecia bem melhor que o irmão grifinório. Mais íntegro também.
O Salão Principal estava mais perto do que eu previra, e então cheguei bem na hora que Edward estava se levantando do banco de madeira de sua mesa. Andei mais rápido, quase fazendo um buraco no chão a cada pisada.
- Hey, Ally! - Ele me cumprimentou com aquele sorriso confiante que quase me fez desistir. Quase - Eu estava pensando se podíamos sair-
Não deixei que terminasse, juntei forças e desferi um sonoro tapa em sua bochecha esquerda. Minha mão ardeu, mas a bochecha dele deveria estar em chamas agora. Seus amigos grifinórios me encaravam chocados, e creio que metade da escola também me olhava assim. Pelo canto do olho pude ver uma barba prateada e um chapéu cônico se mexendo na mesa dos professores. Eu tinha de ser rápida.
- Seu idiota! - Berrei, a raiva voltando a cada poro de meu corpo - Como se atreveu a fazer uma coisa tão repulsiva como aquela?! COMO DEIXOU QUE TODOS NESSA ESCOLA PENSASSEM QUE VOCÊ ERA UM MODELO?! Maldito, estúpido!
Avancei contra ele, dando-lhe tapas e socos direcionados, mas ele tampouco reagiu ou se defendeu. Acertei seu queixo uma vez e seu nariz, várias. Só parei quando braços me conteram e me puxaram para longe de Edward. Não sabia quem era, mas estava claro que não era um professor. Seguimos para fora do Salão Principal, comigo abraçada a essa pessoa, chorando. Que deprimente.
Continuava a não saber quem havia me puxado, mas sentia que estava segura. A pessoa me mantia junto ao peito, acariciando minhas costas e meu cabelo delicadamente. Deitamos na grama. Eu não conseguia ver onde estávamos, no entanto não havia sons de pessoas, então presumi que estávamos perto do lago. A brisa bagunçava de leve meu cabelo rebelde que hoje estava preso só na parte de cima, deixando os cachos chocolate (de que tanto me orgulhava, embora sempre presos) ao vento.
Minutos depois, consegui me acalmar e enxugar o rosto, principalmente meus olhos. Fiquei de olhos fechados e senti meu salvador se mexer em meu lado. Murmurou uma desculpa inintelegível e senti uma breve pressão em meus lábios. Abri os olhos e dei de cara com Benjamin outra vez, me beijando. Afastei imediatamente, chocada ao perceber que era ele quem havia me tirado do Salão Principal. Eu estava confusa a respeito de Edward e agora o irmão dele estava me beijando! Que absurdo! Levantei, limpando as vestes com as mãos e depois, pegando a varinha, tentei desilusionar a mim mesma. Após algumas tentativas consegui executar o feitiço, embora estivesse consciente que não estava invisível. Não era como se não estivesse lá, como deveria ser, na verdade eu estava opaca. Deveria bastar. Corri para dentro do castelo (eu realmente estava perto do Lago), esbarrando em alguns Lufanos sem querer.
Não sabia para aonde ia, só corria como se estivesse fugindo de algum Trasgo ou algo do tipo. Corri até chegar numa porta de madeira conhecida. Engasguei, revertendo o feitiço de desilusão, e bati na porta de carvalho, nervosa.
- Quem é? - A dona da sala perguntou e parecia agitada. Gradualmente, a voz ficou mais perto e imaginei que ela havia se aproximado.
- Sou eu, Allexandra! - Respondi exasperada. - Professora, me deixe entrar!
Eu mal terminei a frase e McGonagall abriu a porta para mim. Pulei em sua frente, abrançando-a com força. Recomecei a chorar. Ela me abraçou também, bem forte, e me puxou para um sofá pequeno que eu não havia percebido antes.
- Vá, vá! - A ouvi sussurrar tão baixo que quase não escutei. Senti sua mão voltar aos meus cabelos e tirei os óculos, me encolhendo na curvatura de seu pescoço. Eu havia interrompido alguma coisa?
- Desculpe, eu não consegui me manter forte como você, Professora. - Confessei, tentando conter o choro para poder lhe explicar - Eu me senti traída. Não suportei uma "brincadeira" dessas. Não com a senhora. Não sobre isso. - Minha voz falhou na última palavra.
Ela continuou a acariciar minha cabeça, cantarolando alguma coisa que eu não entendia. Uma canção escocesa? Provavelmente.
Minutos depois um barulho estranho me fez prender a respiração e olhar em volta. Albus Dumbledore estava na ponta dos pés, deixando duas canecas na mesa de Minerva, tentando obviamente não ser descoberto. Olhei para minha professora e percebi compreensão em seus olhos. O diretor olhou para mim, constrangido.
- Perdoem-me, pensei que não se importariam em uma xícara de chocolate quente num dia tão frio como este. - Ele ergueu uma caneca parecida com a que Minerva havia me oferecido café outro dia, sorrindo como quem se desculpa por uma bobagem.
Meus olhos ardiam, e eu não conseguia compreender o que ele estava fazendo ali, parado no meio da sala, oferecendo uma xícara de chocolate quente para uma aluna que praticamente espancara outro aluno. Pensando bem, eu não conseguia compreender mais nada.
Neguei a xícara e me soltei de McGonagall, deslizando para o chão. Abracei minhas pernas, sentindo o vazio depois do choro. Fechei os olhos, me balançando debilmente para frente e depois encostando no sofá novamente. Ouvi alguns passos, mas Minerva não havia se mexido, então supus que tivesse sido Dumbledore. Ele se colocou em minha frente e eu abri os olhos, observando surpresa o buquê de rosas brancas em sua mão. Olhei confusa para ele, mas ele apenas sorriu para mim, bondoso.
- São para você. - Disse ele, se abaixando para ficar no mesmo tamanho que eu.
Fiquei olhando para o buquê por mais alguns segundos e depois procurei minha varinha nas vestes, com um plano para salvar meu dia. A encontrei e mirei para o buquê, imaginando um tipo específico de flor. No mesmo instante as pétalas brancas ficaram amareladas e se pareceram com botões de flor. Ouvi duas exclamações mudas de surpresa e sorri fracamente.
- Cardos! - McGonagall e Dumbledore murmuraram olhando para as flores.
Dumbledore olhou para mim perplexo e eu fiz um gesto para Minerva com a cabeça. Seu rosto se encheu de compreensão e eu quis rir do quão bonito era aquele sorriso em especial. Porque sabia o motivo dele. Olhei para Minerva e ela parecia tão surpresa quanto Dumbledore anteriormente. Piscou algumas vezes e finalmente notou que eu estava a observando.
- Como sabia...? - Começou, parecendo maravilhada, mas eu completei.
- Como não saber? - Eu perguntei retoricamente, minha voz afetada pelo choro - Tartan, sotaque... Meio óbvio, não é? Agora, Professor, o que acha?
Me virei para ele, mas me surpreendi ao perceber que Albus estava tirando vários pergaminhos dobrados do bolso das vestes (hoje azuis com estrelas prateadas) e os equilibrando sobre o chão. Sorria encabulado, mas ainda assim doce como sempre.
- Creio que deveria ter lhe dito, Minerva. - Disse ele antes de abrir uma das cartas e nos deixar ler a última frase de todo o pergaminho.
"Seu Admirador Secreto".
