Quando acordara naquela manhã cinzenta na cama de seu velho quarto uma sensação de nostalgia e casualidade apoderara de si. Sentia-se como estivesse de férias e sua mãe fosse a qualquer momento entrar pela porta do quarto e a arrastá-la para o centro de Londres onde ficariam a manhã toda, depois passariam em casa e convenceriam seu pai, que provavelmente estaria estirado no sofá lendo algo sobre ortodontia, a comer em um lugar novo. Queria poder voltar àquele tempo, mas ficar remoendo um passado distante não a levaria a lugar algum, sua vida era ali e agora. Foi com esse pensamento que levantara da cama e fora direto para cozinha arranjar algo para comer, estava extremamente faminta. Não havia nada de comestível na casa, é claro, no entanto com um simples aceno de varinha fora capaz de conjurar alguma comida. Enquanto degustava a tortilha e o suco de abobora ponderara que embora houvesse apagada a das memorias de seus pais para a vizinhança eles ainda eram o Sr. e Sra. Granger, assim talvez eles haviam visto algo ou saberiam de algo. Como havia crescido naquela região, com um simples feitiço de transfiguração mudara a aparência para que ninguém a reconhecesse.

A vizinha que Hermione mais conhecia e que seus pais tinham mais contato era a Sra. Bonnes que morava na casa ao lado desde que a castanha se lembrava. Ela era uma solteirona requintada que parecia sempre estar arrumada para ir a um luxuoso baile. Passara muito tempo com ela quando era criança. Adorava sua biblioteca, os doces que ganhava e o saudosismo em sua voz quando ela se lembrava dos tempos que era atriz. Porém, depois que se descobrira bruxa e fora para Hogwarts não tinha muito contato com ela, somente a via em sua varanda com um exemplar de algum livro que gostava em mãos. Lembrou-se de todas as essas coisas enquanto andava pelo jardim da frente rumo à porta da casa para tocar a campainha. Logo que a senhora abriu a porta a grifinória quase não a reconhecera parecia mais velha e com um semblante fechado e carrancudo. Nada daquilo que se lembrava da senhora que preenchera sua infância.

– Quem é você? O que quer? – a voz áspera e cansada saíra ríspida, mas isso não intimidou Hermione que forçara um meio sorriso e respondera brandamente.

– Me desculpe incomodá-la, mas sou Amélia Granger, uma prima distante dos dentistas que moram aqui ao lado, Jane Granger e Richard Granger. A senhora os conhece? – A idosa abrandou um pouco a face e a encarou ainda segurando a porta.

– Os Granger desapareceram do bairro há talvez um ano, eram boa gente.

– A senhora não teria alguma ideia de onde eles possam estar?

–Não! Estavam estranhos antes de irem embora, os perguntei sobre a menina deles, Hermione sabe, uma boa garota aquela e me disseram não ter filha alguma, Jane me dissera sobre algo de mudar de país e é só menina, não sei de mais nada! Desde então a casa deles tem estado ali abandonada sem ninguém. – Hermione assentiu dando um passo para trás e agradecendo a senhora pelas informações. Não era nada que já não soubesse, tirando o fato de mudaram de país. Quando os enfeitiçara somente colocara em suas cabeças um desejo de mudar dali, mas não achava que fossem mudar da Inglaterra. Não vasculhara mais pela vizinhança, pois se a senhora Bonnes não sabia mais que aquilo nenhum de seus outros vizinhos saberia, porque embora seus pais fossem pessoas bondosas e educadas, eram bastante reservados e ela acabara sendo assim também, afinal seu ciclo de amizade era bem restrito. Decidira, assim, que talvez se vasculhasse onde antes era o consultório de ortodontia de seus pais tivesse um pouco mais de sorte e descobriria mais coisas, e sem protelar mais aparatou no local tão conhecido por ela.

O consultório ficava em um ponto centralizado de Londres, ela sabia que seus pais eram ótimos no que faziam, talvez os melhores e por isso a localização tão estratégica do local. O prédio era alto e de uma cor cinzenta, lembrava-se bem do local, pois antes de ir para Hogwarts seus pais a levavam para ficar lá e conhecer a profissão deles e de fato achava interessantíssimo e jurava, quando tinha por volta de 10 anos, que seria uma dentista tão boa como seus pais, claro que depois que descobrira ser bruxa aquilo fora deixado para trás e cada vez mais viera menos naquele local, sempre envolvida demais com os problemas de Harry com Voldemort e com o mundo Bruxo. Sabia que seus pais não ficaram chateados com aquilo, mas fascinados por terem uma filha bruxa na família e tão curiosos quanto ela para descobrirem um pouco mais daquele mundo. Como sentia falta deles.

Adentrou o prédio dando de cara com a recepcionista que coordenava toda a logística do local e de todos os andares, lembrava-se vagamente dela. Aproximara-se do balcão tendo a atenção da moça que tirara os olhos dos papeis e olhara para ela.

– Bom dia! Em que posso ajuda-la? – A moça usava um batom vinho e óculos retangulares, Hermione achara que ela tinha estereótipo de uma típica secretária.

– Procuro o consultório dos Granger.

– O Sr. e Sra. Granger não têm mais um consultório aqui, senhorita?

– Amélia! – Hermione completara rápido.

– Amélia, porém posso marcar algo com o outro dentista que agora atua no antigo consultório dos Granger, poderia ser? – Hermione ponderara o que faria, sabia que seus pais não estariam ali e que provavelmente venderam o consultório se mudaram mesmo de país, pelo menos ela achava que sim. Talvez a secretária soubesse de algo.

– Sabe onde eles podem estar senhorita? Ou se venderam o consultório para esse novo dentista? – A mulher a olhara estranhamente, fechando o semblante para Hermione.

– Não estou autorizada a dar esse tipo de informação a estranhos. – A castanha não queria ter que usar feitiços em trouxas inocentes, porém não tinha escolha sabia que não havia como convencer aquela mulher a dar as informações que precisavam, a não ser que desfizesse o disfarce e aparecesse como Hermione, no entanto ela não sabia se isso seria prudente afinal seus pais não sabiam da sua existência, não sabia o que de fato ocorrera ali e como eles saíram daquele prédio se como loucos ou não, afinal todos os conheciam Hermione. Estendendo a varinha de modo mais disfarçado que pode proferiu o feitiço de convencimento que havia aprendido com Sirius Black em uma das noites Na mui Nobre Casa dos Black, quando ainda tinha sua companhia.

–Arguere. – a mulher imediatamente ficara com um olhar sonhador e postura ereta olhando para Hermione. Ela sorrira e fizera a pergunta novamente.

– Sabe onde os Granger podem estar senhorita? Ou se venderam o consultório para esse novo dentista?

– Eles venderam o consultório para o dentista Carter Reynolds que está atendendo agora e sobre onde eles estão nesse momento, tudo que sei é que mudaram de país.

– Pode marcar um horário para mim com o dentista Reynolds hoje, por favor? – A mulher assentira e mexera em algo em seu computador, dizendo que ele tinha um horário vago as duas da tarde e ela poderia vir. A castanha assentira e saiu da vista da mulher, o efeito do feitiço iria passar logo e ela não se lembraria de nada concretamente. Já era hora do almoço e assim procuraria um lugar para poder comer algo, a gravidez com certeza a deixara com um apetite digno de Rony.

Quando sentara na recepção do consultório que tinha outra secretária e paredes pintadas de verde água, uma sensação de nostalgia se apoderara dela novamente, tinha algo diferente aqui e ali, porém em essência o lugar era perfeitamente igual a que se lembrava. Não demorou muito para que fosse chamada pelo dentista e fosse encaminhada para o local onde antes sua mãe trabalhava. O homem era alto e não parecia ter mais que trinta anos. Estava de costas lavando as mãos e trocando as luvas, ao acabar o procedimento virou-se para ela sorridente.

– Então senhorita... – Olhara na fixa que Hermione fizera com a secretária na recepção do consultório – Bonnes, em que posso ajuda-la? – Hermione não pretendia protelar nada ou ficar enrolando, não viera tratar de dentes, tinha magia para isso e pais rigorosos com a higiene bucal.

– Não vim Tratar de dentes Sr. Reynolds. Quero saber algumas informações sobre o casal que lhe vendeu esse consultório. Assuntos do governo, não queremos tomar muito de seu tempo- ela acrescentara a última parte rápido antes que o homem protestasse e não dissesse o que ela queria saber. Ele a olhara confuso, porém assentira rapidamente a convidando para se sentar no sofá de dois lugares que estava no canto da sala.

– Pois bem! O que querem saber?

– Sabe por que eles resolveram do nada vender um consultório tão conceituado? – Começaria de vagar para não parecer desesperada, falava em um tom calmo e forte. Sentia-se como se fosse alguma agente da Interpol em trabalho de espionagem. Quis rir com aquele pensamento bobo.

– Tudo que sei é que queriam mudar de país rápido. Venderam todo equipamento que tinham aqui por um preço abaixo do mercado e pareciam meio desesperados. Eles não são algum tipo de criminosos, são? – O homem a olhara estupefato e com medo. Ela não o julgava, afinal não era todo dia que um suposto agente do governo batia em sua porta e fazia um monte de perguntas.

– Não! São só alguns procedimentos do governo quando alguém deixa o país Sr. Reynolds. Eles disseram ao senhor para onde estavam indo? – O homem assentiu enchendo a castanha de esperança.

– Disseram ir para a Itália, algo sobre sempre quererem conhecê-la e morar por lá. Informalmente eu não fiquei perguntando, é claro. Mas eles acabaram me dizendo quando estávamos negociando tudo. Foram muito educados Jane e Richard! – Então eles haviam ido para Itália, Hermione não podia ter cem por cento de certeza, mas já era um começo. Quis abraçar o homem, mas se conteve somente agradecendo pela colaboração e dispensando o chá que ele oferecera. Já havia descoberto o que viera procurar.

Ao chegar a casa tudo estava escuro e cinzento, parte de Hermione se arrepiara com isso, não é que tivesse algum tipo de medo, porém gostava da sensação de casa cheia e de ter sempre alguém no outro cômodo com quem pudesse contar e era nessas horas que realmente sentia falta de seus pais ali naquele ambiente que preenchera sua infância. Sem protelar abriu a porta ascendendo às luzes da sala. Estava faminta e por isso passara em algum mercado pequeno para comprar alguns ingredientes para fazer uma sopa. Adorava esse prato e aprendera ele com a Senhora Weasley que a ensinara praticamente tudo que sabia fazer na cozinha, não é como se sua mãe soubesse cozinhar bem, seu pai sim era ótimo e ensinara a ela uma coisa ou outra. Não demorara muito para que tudo ficasse pronto e ela fosse para frente da televisão assistir algum filme que havia por ali. Amava filmes e como eles podiam a transportar para outra realidade e fazê-la esquecer, um pouco, de tudo a sua volta. Enquanto Orgulho e Preconceito começava com Elizabeth Bennet andando para a fazenda os olhos castanhos de Hermione passaram pelas frases ofensivas em vermelho sangue deixadas pelos comensais em sua casa. Aquilo a irritara profundamente de uma hora para a outra, deviam ser os hormônios e com um movimento rápido pegara sua varinha na mesinha ao lado do sofá e começara a lançar todo tipo de feitiço que conhecia para tirar aquilo dali, porém nada surtira efeito esperado. Ponderou por alguns minutos o que poderia retirar aquelas frases e então se lembrou de uma porção removedora poderosíssima que lera sobre no sexto ano, como não queria gastar tempo e nem podia fazendo uma poção um tanto complicada resolvera que iria ao beco diagonal de manhã comprá-la. Quando o filme terminara Hermione estava extasiada, amava aquela história e já lera o livro de Jane Austen umas quatro vezes, sorridente levantou arrumando tudo rapidamente e assim subiu para seu velho quarto no intuito de se arrumar para dormir. Estava sempre com tanto sono que até estranhava. Antes de despencar na cama, percebera passando em frente ao amplo espelho que ficava ao lado de seu guarda roupa a quase imperceptível protuberância em seu ventre sobre o tecido fino do pijama, sorriu colocando sua mão ali e fazendo uma série de poses para que a barriga ficasse mais evidente. Sabia que era muito nova e que seria difícil estudar para ser medibruxa e cuidar de seu bebê, mas ali naquele momento sentiu que faria tudo para que ele fosse amado e estivesse sempre bem. E isso a lembrara que precisava ir ao St. Mungus ver como estava sua gravidez. Suspirou caindo na cama e adormecendo rápido.