Disclaimer: I do not own Relic Hunter – Relic Hunter e seus personagens não me pertencem. I do not own Teen Wolf – Teen Wolf e seus personagens não me pertencem.
Summary: Relic Hunter; Teen Wolf Universe; fusion; horror, adventure; Festival de Crossovers Casa-de-Ideas. De volta à cidade natal, Beacon Hills, o órfão Nigel se encontra à mercê de lobos, feiticeiros e caçadores. Ele descobre que os monstros que assombravam seus pesadelos sempre foram reais.
Advertências: sangue; violência.
Beacon Hills (T-PG13)
(2a parte)
Sydney sentiu cheiro de sangue e escutou o uivo. Estava acontecendo longe da fronteira, não eram os caçadores. Com um simples aviso, correu embrenhando-se na reserva, ouvindo Christine e Alistar alertarem os demais.
Ela seguiu na direção do som, e o odor metálico e instigante ficou ainda mais forte, misturado ao de invasores. Não eram os Hale. Ela não conhecia o bando que acabara de chegar.
Ao passar perto do mercado de Marta, sentiu que era de Bailey o gosto do sangue no ar. Acabara de conhecer o homem, e ele já havia sangrado o suficiente para ela ser capaz de reconhecê-lo. Os olhos da alfa brilharam, unhas transformaram-se em garras afiadas e caninos alongaram-se com a fúria. Focou-se na corrida, mantendo o controle de seu corpo que vibrava querendo extravazar, querendo punir a criatura que ousara entrar em seu território e causar dor.
Sydney encontrou o homem dentro da reserva, refém de um lobisomem beta aparentemente sozinho. Ela farejou o restante do bando nos arredores, então eles haviam percebido que ela chegara. Ainda não ouvia os caçadores e calculou mentalmente quanto tempo eles demorariam a chegar. Avançou.
"O seu alfa não lhe ensinou que invadir territórios e atacar humanos é um grave crime?"
O lobisomem continuou se escondendo atrás de Bailey. "O que você é?" perguntou farejando o ar, seus olhos confusos, sem diminuir o poder que tinha sobre o homem.
O sobrinho de Lonell estava quase irreconhecível; o rosto contorcido, machucado, as roupas rasgadas e sujas; seu coração quase não descansava entre um batimento e outro, e ele lutava debilmente contra a mão em sua garganta - mais por reflexo do que intenção. O braço esquerdo pendia imóvel, e o odor provindo dos cortes e ferimentos permeava o ar ainda mais forte, tingido com desespero.
"Eu ajudo a cumprir o código nesta área," ela disse. Percebeu que o refém estava praticamente inconsciente pela restrição de oxigênio. Deu mais um passo.
"Aqui é o território dos Argent," uma voz mais grave parte falou, parte grunhiu de entre as árvores. A mulher parou. "Uma alfa seguindo o código dos caçadores? Que piada."
Sydney contou três lobisomens ao seu redor além do beta que estava com Nigel Bailey. Mais alguns instantes, e o reforço chegaria. "Eu já fui humana. Terão que me perdoar por abraçar a causa."
"Foi por isso que matou Robert?"
Ela exalou o ar. "Ele assinou a própria sentença quando veio matar pessoas em Beacon Hills."
O rosto metamorfo do alfa revelou-se de trás de um dos troncos. "E você assinou a sua!" Os outros dois betas surgiram arreganhando as presas e estendendo as garras. Ela estava cercada.
Sydney puxou a minibesta e apontou para a cabeça do lobisomem maior. Eles sentiram o cheiro do acônito nas flechas e pararam imediatamente. O ruído dos caçadores perturbou a mata neste entrementes, nítido aos licantropos.
Um dos betas que estava mais próximo de Sydney saltou para atacá-la e foi atingido em meio ao pulo por uma flecha longa, vinda das árvores. Caiu, gemendo.
O alfa urrou ao ver um dos seus ferido e partiu para Sydney. Ela atirou em seu ombro, mas ele arrancou a flecha dali com rapidez. Os dois se colidiram numa disputa de força onde ele bofeteou a minibesta para longe e em troca quase teve a jugular atingida pelas unhas certeiras de Fox.
A voz de Gerard ecoou junto com o ganido indefeso do outro beta. Com mais um de seu bando no chão, dessa vez pela espada de Argent, o alfa irou-se conseguindo rasgar a carne de Sydney em um golpe que deixou as marcas de quatro garras no antebraço da morena.
Ela tremeu com a dor e agachou-se para tomar impulso. Com o alfa prestes a golpeá-la novamente, ela saltou inclinando-se para trás e acertando em cheio com os pés na mandíbula do lobisomem antes de aterrissar de volta sobre os quatro membros. Ele caiu para trás, cuspindo sangue, e mais uma flecha de Alistair zuniu pelo ar, acertando-o no abdome. O homem-lobo segurou seu ferimento, e o engatilhar de espingardas e pistolas ao redor denunciou que estava encurralado pelos caçadores.
Lis, a líder da patrulha e dos Argent, destacou-se dos demais dando um passo a frente. Seus cabelos brancos contrastavam com o breu do local. "Entregue-se e solte o homem ou seu bando morre agora."
O alfa respirava com dificuldades, o veneno das flechas em seu corpo. Viu um beta contorcendo-se no chão ainda com a flecha cravada em seu ombro e o outro inconsciente com um enorme corte na lateral. Restava aquele que se escondia, agora ainda mais, atrás do refém. Rosnou para Lis, prestes a atacar, e uma rede caiu sobre ele.
O lobisomem gritou em agonia, sentindo a força dos materiais que compunham a tela. Recebeu um chute no maxilar por Sydney e desmoronou, apagado. Os caçadores direcionaram sua atenção ao beta de olhos azuis que sobrava.
Este grunhiu com ódio, cravando as unhas na garganta de Nigel, e Lis atirou. O tiro acertou o alvo no meio da testa, e o licantropo despencou levando consigo o homem.
Bailey caiu de joelhos, o corpo de quem o segurava agora sem vida às suas costas. As garras o libertaram, e líquido começou a jorrar de seu pescoço. Ele pôs a mão sobre a ferida, e sons que não eram palavras borbulharam de sua garganta.
Os caçadores se aproximaram com as lanternas. Christine surgiu apressada de entre os arbustos. O homem se retorceu enquanto era deitado no chão, tentando se debater. "Segurem as mãos dele!" Ela ordenou.
Sydney ajoelhou-se ao lado dos dois. Ela e Alistair imobilizaram e tentaram acalmar o jovem. A mulher mais velha examinou os ferimentos, e a licantropa encarregou-se de manter o rosto do homem para cima.
Bailey contorcia-se em clara aflição. As tentativas abortadas de respirar e tossir traziam cada vez mais terror aos seus olhos, que vasculhavam todas as direções em súplica. O peito dele queimava na busca desesperada por oxigênio. Impedido de reagir, distinguiu um rosto conhecido sobre o seu, embora tivesse a visão marejada naquele escuro e a dor aumentasse de forma insuportável. Não conseguiu se concentrar e entender quem era. Apertou os olhos, sentindo a força esvair-se de seu corpo. Estava morrendo.
Ele sabia que morreria desde o momento em que fora apanhado e jogado contra as árvores, a diferença era que estava demorando. Depois de tudo pelo que passara na vida, imaginou que teria a misericórdia de uma morte rápida, mas o mundo nunca fora justo para ele.
As mãos quentes que seguravam sua cabeça, de repente, ofereceram um conforto sem igual. Ele conseguiu piscar e focalizar o suficiente no rosto acima. A dor diminuía. Ele viu ali um par de olhos vermelhos brilhantes olhando dentro dos seus. Mas estes não eram assustadores. Eram gentis, piedosos.
Então Nigel perdeu a consciência.
Christine terminou de trabalhar na incisão conseguindo forjar uma passagem de ar na garganta do homem no último minuto. Ela esperou ele tragar oxigênio antes de dar a ordem de levá-lo ao hospital com a menor agitação possível.
Com a ajuda dos caçadores, eles puseram Bailey no banco de trás do automóvel dos Newell junto com a licantropa. A alfa escondeu o ferimento do próprio antebraço, que estaria curado no dia seguinte, e continuou absorvendo a dor dele com a pele das mãos em contato com seu rosto. Ela o manteve imóvel durante o caminho para a emergência.
Os Argent e os outros ficaram para tomar conta dos lobisomens e limparem o local.
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Christine ainda não havia retornado do atendimento, então Sydney deixou Alistair esperando por notícias no hospital e voltou à reserva. A morena foi até o mercado vinte e quatro horas, seguindo o cheiro do bando.
O lugar estava bagunçado. O carro da polícia local estacionado na frente da loja acabara de chegar. Sydney farejou o ar, sem ser vista, e soube que havia mais alguém. Alguém que fugira e que não estivera na reserva durante o ataque, alguém que não era Bailey mas que andou por ali cheirando a ervas e a pó de tramazeira.
Fosse quem fosse, ainda poderia atacar seus tios e o sobrinho de Lonell.
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Nigel abriu os olhos grogue, confuso. Antes de reconhecer onde estava, moveu-se para afastar a sensação estranha no pescoço. Seu braço esquerdo estava pesado, então usou a mão direita e foi imediatamente impedido por alguém que velava seu sono.
"Não mexa ali, querido." Ele levou vários segundos para entender que era uma mulher de cabelos curtos e loiros ao seu lado que segurava sua mão. Ele fez força tentando engolir a saliva, sua boca estava com um gosto horrível, e ela chamou novamente sua atenção. "Não tente falar ainda. Está tudo bem. Você está no hospital e vai ficar completamente são. Mas precisa ter paciência agora e ficar bem quietinho."
Ele tomou ar pela boca e quase engasgou, tendo um acesso de tosse. Dor lancinante irradiou-se na garganta, no braço que não conseguia mover, e tudo o que ele quis naquele momento foi apagar novamente. A mulher compreendeu sua agonia. Em alguns minutos, ele já dormia por efeito da medicação.
Christine saiu do quarto e encontrou Sydney e Alistair nas cadeiras de espera do saguão do hospital. "Ele vai ficar bem. Mas estava sentindo dor, então foi posto para dormir de novo."
A mulher-loba prontificou-se a montar guarda ali enquanto os Newell iam para casa descansar. Já estava amanhecendo, e a polícia viera conversar com eles nas últimas horas querendo depoimentos por terem informado que encontraram, por acaso, Bailey naquele estado no mercado. Infelizmente eles estavam acostumados com o procedimento e omitiram o necessário.
A informação de Sydney, de que havia mais alguém do bando à solta, deixou todos os caçadores atentos a algum humano visitante, provavelmente o emissário do bando. Provavelmente uma mulher.
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Depois de dois dias, o jovem Bailey teve alta do hospital. O gesso no braço esquerdo e a dor debilitavam seus movimentos, então Christine e Alistair o ajudaram a ir para casa. O homem foi acomodado no sofá, canja pronta aguardava na geladeira, e ela prometeu voltar naquela noite após o turno no hospital para trocar os curativos.
Era muito mais do que ele poderia esperar. Não conhecia aquelas pessoas, e elas estavam usando seu tempo para cuidar dele. Os Newell foram amigos de seu tio, como explicaram no hospital, e era como se tivessem automaticamente assumido a responsabilidade pelo jovem Bailey. Christine não lhe deixara espaço para contestação - não que ele estivesse em condição de reclamar ou negar a ajuda. A última vez que recebera tanta atenção e olhares preocupados fora de seus pais.
Bateram à porta quando o crepúsculo escurecia ainda mais as imagens já nubladas na janela. Nigel pegara no sono enrolado nas cobertas que a senhora loira preparara sobre o velho estofado da sala. Mafdet dormia e reclamou quando foi retirada da posição confortável sobre o peito do homem. Ele se arrependeu de não ter deitado de lado, suas costas latejavam por terem sido pressionadas muito tempo. Demorou vários segundos até alcançar a porta. Devia ser Christine. Não sabia que horas eram, seu relógio de pulso, única herança de seu pai, fora retirado no hospital e ele ainda não conseguia usar a mão esquerda para vesti-lo e fechar a fivela.
Ao atender, não foi a enfermeira quem ele viu. Estava adiante a morena que vivia com os Newell. Sydney Fox. "Boa noite," a mulher ofereceu, com um sorriso enorme. Ele precisou de um momento até que a surpresa lhe permitisse reagir. "Não fale," ela avisou levantando uma das mãos ao vê-lo tomar fôlego para cumprimentá-la. "Christine não pôde vir, eu farei as honras, se me permite." Ele piscou uma vez e deu espaço para que ela entrasse. A mulher apanhou uma mala, que somente naquele momento Nigel percebeu estar depositada no chão ao lado do capacho, e antes de passar pela soleira, encarou o dono da casa intensamente. "Eu posso entrar?"
Ele voltou a assentir, mas ela reiterou. "Você tem que querer que eu entre na casa. Tem que querer que eu passe pela porta."
A mulher estava séria ao falar aquilo. Não existia uma lenda sobre vampiros não entrarem sem serem convidados? Nigel forçou o foco para a realidade, os remédios eram fortes. Observou a ponta da bota sobre o degrau do hall e encontrou novamente os olhos expectantes dela. Não entendia o que estava acontecendo. Observou ao redor: havia mais de um carro estacionado na rua, os vizinhos poderiam vê-la ali com a mala nas mãos, e se já não estivessem falando sobre aquilo, perceberiam logo; mas foi o início da noite que arrepiou as costas do homem e fez seu coração palpitar. A escuridão e a floresta ao lado, agitada com o vento, provocavam-no. Medo cru e irracional pelo que lhe acontecera três noites atrás o abraçou, e Bailey apertou os dedos na maçaneta. Sydney precisava entrar logo na casa para que ele trancasse a porta.
Ela subiu o degrau e passou por ele, indo para a sala. "Obrigada por me receber."
O homem chaveou a porta, mas a sensação de segurança dentro da residência ficou mais fraca. As paredes de madeira não pareciam mais impenetráveis.
"Sua casa fica no caminho oposto ao colégio. Será mais prático eu passar umas noites aqui. Posso ficar em um dos quartos?" Nigel parou de olhar com apreensão para a porta e as janelas, e encarou a mulher. "Não fale," ela avisou novamente. "Chris disse que quanto menos forçar a sua voz, mais rápido vai se recuperar."
A hóspede largou as malas ao lado do sofá e retirou o casaco. Fez carinho na gata, que continuava sobre o embrulho de cobertas no sofá. "Você já comeu? Chris disse que deixou sopa."
Ele balançou a cabeça levemente, o máximo que a mobilidade de seu pescoço permitia.
"Ótimo. Vai tomar banho, trocar os curativos, e eu esquentarei o jantar. Detesto canja."
Nigel juntou as sobrancelhas e ela revirou os olhos. Era como se fosse a coisa mais estranha do mundo não gostar de canja de galinha. Sua mãe, que lidava diariamente com seres das trevas, não cansava de dizer como isso a chocava.
Ela guiou o dono da casa até o banheiro no segundo andar. "Acredite, vai querer consertar o encanamento," comentou, abrindo a torneira da banheira e temperando a água.
O homem sentou-se sobre o assento da privada. Mafdet juntou-se aos dois e esfregou-se nas pernas de Sydney. "Ei, garota, está com fome?" O felino miou alto, sabendo que estava sendo mencionado, e a mulher sorriu. Nigel lançou um olhar de curiosidade para ela, que deu de ombros. "Somos boas amigas. Eu trouxe comida enquanto você estava no hospital."
Ele se surpreendeu. Achou que fora Christine a fazê-lo, e rapidamente inclinou-se agradecendo.
"Não há de quê. O banho está pronto."
Ele precisou de ajuda para cobrir o gesso do braço esquerdo e tirar a camiseta. Depois disso ela o deixou sozinho para se banhar - não antes de ter se oferecido para ajudar e receber um exasperado agitar de mãos e braços que diziam enfaticamente "não".
Sydney aproveitou o tempo para levar a mala ao quarto do lado oposto ao do anfitrião. No corredor, sentiu a força que a repelia do último cômodo antes da escada. Era ali que Lonell guardava os livros e ingredientes infinitamente úteis ao antigo bando, e posteriormente à Sydney. Ela entrara naquele aposento apenas uma vez, e a porta ainda estava trancada. Nigel não conseguira abri-la durante sua curta estadia no sobrado. Pelos arranhões próximos da fechadura, ele havia tentado. Ela retomou sua tarefa assim que viu a porta do banheiro ser aberta: Refazer os curativos.
O homem estava novamente sobre o assento da privada, enrolado no roupão.
A pele irritada e costurada parecia dolorida e sensível. Sydney forçou o rosto, não demonstrando a agonia de ter que mexer ali e causar ainda mais incômodo aos ferimentos. Ela respirou devagar e profundamente, inalando o cheiro forte dos antissépticos que estavam impregnados naquela pele e fez o procedimento no pescoço dele com rapidez e delicadeza. O braço esquerdo também estava deplorável nos locais que o gesso não cobria. Os vários cortes, que ela sabia terem sido causados pelos vidros do refrigerador espalhados pelo chão do mercado naquela noite, fizeram-na virar o rosto um segundo.
Sydney limpou a garganta. Para disfarçar os olhos sobrenaturalmente vermelhos pelo ódio aos lobisomens que fizeram aquilo, apertou a torneira da banheira, que pingava desde que ela lembrava das visitas a Lonell. Os Argent já haviam cuidado do bando. Ela só ressentia não ter testemunhado.
A mulher controlou seus instintos e retomou os curativos. Ele contou com a ajuda dela para vestir a regata branca, que não escondia os vários hematomas, e o trabalho estava encerrado. Por aquela noite.
"Certo. Eu e Mafdet traremos o jantar. Você vai deitar e não vai sair daquele quarto antes de Chris liberá-lo."
Nigel não contestou, esforçando-se o suficiente para levantar dali e ir para o leito com o apoio dela.
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Sydney deu comida para a gata e subiu com a canja. Bailey permanecia acomodado na cama, como ela deixara, escorado na cabeceira. Havia se virado de leve para observar o nada pela janela, distraído com seus pensamentos - ou com a dor, pela expressão constrita.
A noite descia gradualmente, e as copas das árvores escondiam a última claridade do sol. Sydney gostava de estar próxima da reserva, do cheiro de vida e liberdade que pulsava da mata. Mas ele tinha medo da floresta. E estava certo.
Ela fez a volta no leito, com os pratos e a dose do medicamento. Nigel agradeceu da mesma forma que fizera no banheiro, e ela procurou a poltrona do canto do cômodo, ao lado da cômoda com dois retratos. Reconheceu Nigel e quem deveriam ser os pais e seu irmão numa das fotografias. Na outra, mais antiga, uma mocinha sorria. Com certeza a mãe. Ele era parecido com ela – os mesmos olhos. Ela seria a próxima emissária, e o pai pertencia ao bando anterior, de acordo com o que Alistair explicara.
Sydney baixou a cabeça. O que restava da família dela também não passava de retratos. Sentou-se e começou a comer.
A luminosidade elétrica de um relâmpago clareou o quarto formando, por um segundo, a imagem de um rosto do outro lado da janela. Foi Nigel quem viu. O homem engasgou e tossiu, conseguindo a atenção de Sydney, que abandonou seus pensamentos e veio em auxílio.
Uma enxurrada despencou do lado de fora, cumprimentando o início da noite e engolfando o ambiente com o odor de terra molhada. A licantropa fez uma careta. Não gostava da chuva. Não quando era assim, forte e farta; a água em abundância obscurecia seu faro e sua audição. Nigel se acalmou, e ela retornou à poltrona.
Ele tentou voltar a comer. Estavam no segundo andar, a visão de um rosto em meio à chuva e à escuridão era impossível, era fruto de seu medo, resultado dos analgésicos e do choque pelo qual passara. Mais uma das imagens perturbadoras criada por sua mente para fugir da realidade e confundi-lo. Assim como no acidente que sofrera com seus pais, assim como três noites atrás. Não foram criaturas monstruosas, foram leões da montanha. Aquilo não foi um rosto na janela, foi ilusão de ótica.
Ele levou uma eternidade para terminar, de forma desajeitada, a pequena porção sobre seu colo. Não podia se movimentar propriamente e estava usando a mão direita, mas negou quando Sydney se propôs a alimentá-lo. Mafdet entrou no quarto em certo momento, subiu na cama, espreguiçou-se e escolheu um canto quente perto dos pés do dono antes de banhar-se e dormir.
O silêncio continuou perturbado apenas pelo ruído da chuva, e Nigel começou a fechar os olhos.
"Temos que conversar sobre o que aconteceu," Sydney comentou suavemente. O nervosismo dele retornou, e ela soube que o homem ainda precisava de tempo. "Está tudo bem. Descanse, podemos conversar quando se sentir melhor." A expressão de angústia perdurou no rosto maltratado, e ela levantou da poltrona. "Não se preocupe, Nigel. Eu não vou deixar nada de ruim acontecer com você."
A esperança inocente que passou pelos olhos de Bailey o fez parecer ter dez anos de idade naquele breve instante. Ele balançou a cabeça, concordando. A mulher apanhou os pratos e saiu do quarto.
Ela desceu para a cozinha. A casa ainda era a mesma, cheirando a tramazeira, mágica e pó. Indícios de que Lonell vivera ali restavam em todos os cantos, principalmente no seu antigo quarto agora abandonado e ainda repleto de runas e ervas. Nigel não havia ficado ali tempo suficiente para modificar qualquer coisa ou clamar o ambiente como seu. A mobília, as cortinas, tudo permanecia intacto. O homem não trouxera nada consigo além de um par de mudas de roupas, alguns livros e Mafdet, que perambulava mais pelo jardim e pela cozinha usando a fresta que Sydney deixara na janela sobre a pia.
A mulher-loba e alguns caçadores vinham guardando a casa desde que a saúde de Lonell piorara e qualquer forasteiro chegava na cidade. Um carro passava várias vezes por dia, conferindo se ninguém invadira em busca do que o emissário deixara no sobrado. A senhora Douglas, da casa florida três lotes acima, também vigiava qualquer movimento próximo dali.
A pessoa que escapara daquele bando, certamente a emissária, ainda não havia aparecido ou tomado qualquer ofensiva. Talvez já tivesse saído da cidade; mas qualquer um que chegasse a Beacon Hills com força sobrenatural suficiente para ser considerado uma ameaça saberia que a morte de Lonell sem a escolha de um aprendiz significava um tesouro de recursos aguardando para ser conquistado: aquele quarto, fechado com um encantamento que somente um Bailey poderia abrir.
Ou alguém com muita força de vontade, paciência e os encantamentos certos.
Sydney interrompeu a vigília pelos cômodos quando gemidos irromperam do segundo andar. Encontrou Mafdet atenta também, sobre as cobertas, no momento que entrou no quarto para verificar Nigel.
Ele estava tendo um pesadelo. Seu coração batia rápido, a respiração estava descompassada, suor formava-se no pescoço e na testa. A mulher sentou-se ao lado dele na cama e chamou por seu nome.
No sonho, ele revivia as sensações de garras e mandíbulas lhe atacando, imagens apavorantes somavam-se a uivos e rosnados ensurdecedores. Em um momento, vidros se quebravam, pneus começavam a derrapar e ele via os olhos assustados de sua mãe na última vez que ela dissera seu nome. Os gritos de seu irmão o deixavam tonto enquanto ele tentava levantar sentindo as folhas secas sob as mãos vermelhas e pegajosas. Uma voz pedia-lhe para correr acompanhada de olhos flamejantes, amarelos. Os olhos de seu pai. "NIGEL!"
Ele despertou, tomando ar pela boca. Sydney balançava delicadamente seus ombros, estava no quarto, na casa de seu tio. Estava a salvo. Ele soluçou e encolheu-se ao máximo. Sentiu a umidade em seu rosto aumentar com as lágrimas. Sentiu também os braços da mulher ao seu redor e continuou naquela posição até dormir de novo.
- continua
