Disclaimer: I do not own Relic Hunter – Relic Hunter e seus personagens não me pertencem. I do not own Teen Wolf – Teen Wolf e seus personagens não me pertencem.
Summary: Relic Hunter; Teen Wolf Universe; fusion; horror, adventure; Festival de Crossovers Casa-de-Ideas. De volta à cidade natal, Beacon Hills, o órfão Nigel se encontra à mercê de lobos, feiticeiros e caçadores. Ele descobre que os monstros que assombravam seus pesadelos sempre foram reais.
Advertências: sangue; violência.
Beacon Hills (T-PG13)
(Parte Final)
Um trovão acordou Nigel. A primeira coisa que notou foi o quarto escuro. No reflexo de acender o abajur antes de entrar em pânico, deparou-se com o rosto de alguém diante do seu na cama. O homem deu um berro e um salto para trás, e Sydney pulou do leito. Os dois caíram no chão de lados opostos da cama.
A licantropa ficou de pé imediatamente, pronta para o ataque. No fundo da mente, ralhou consigo por ter pegado no sono em uma noite em que estavam vulneráveis com aquela chuva. Suas presas estavam à mostra, e Nigel encarou-lhe os olhos vermelhos, que brilhavam na escuridão, ao espiar tentativamente por sobre as cobertas. O homem enrugou o rosto, balançando a cabeça, e começou a se afastar.
Ela atiçou os sentidos procurando a ameaça. Não ouviu muito além do ruído da chuva, apenas o susto de Nigel e os galhos das árvores debatendo-se com o vento, sentiu o cheiro pungente do pânico dele no quarto, viu a gata acuada no canto, o homem tentando rastejar para a porta… Algo estava errado, e não era a reação dele.
A atmosfera da casa mudara, eles tinham um intruso. Sydney deu um salto sobre a cama e o homem ao mesmo tempo e estava no corredor em duas passadas. O quarto antes da escada continuava selado, a chuva mascarava o cheiro do invasor, mas a sensação de mágica estava ali.
A mulher caminhou até a entrada do quarto de feitiços e pairou a palma da mão sobre a porta. Era diferente. O que selava a madeira havia sido modificado. A emissária estava ali, tendo acesso aos livros e encantamentos de Lonell. Um inspiro rápido veio com a sensação conhecida, e a mulher-loba correu de volta para o quarto. Agarrou Nigel pela cintura ignorando os protestos dele e saltou da janela para fora da casa. A onda de energia que se ergueu pelas paredes do sobrado naquele exato momento repeliu a loba com força absurda enquanto os dois caíam da altura do segundo andar.
Sydney abraçou o homem para protegê-lo dos cacos da janela, mas os dois despencaram desastrosamente sobre o carro que ela deixara estacionado perto da calçada. A tramazeira da casa fora acionada pela emissária, mas a licantropa conseguira escapar. Ela precisou de segundos para se recompor. Balançou o homem, que havia apagado um instante e permanecia estonteado. Desceu de cima do teto amassado do automóvel, gemendo ao sentir o peso sobre seus joelhos, agarrou o homem novamente e começou a correr mesmo que suas pernas ainda não estivessem curadas.
A chuva caía fortemente, encharcando os dois. Ela passou o braço direito dele sobre seus ombros e enlaçou sua cintura para facilitar a fuga em direção ao carro dos caçadores estacionado adiante.
Mais alguns passos, e uma segunda onda de força os apanhou fazendo-a travar em um solavanco. Havia outra barreira. Era enorme, afastada da casa. Sydney deixou seus olhos mudarem de cor e não enxergou ninguém dentro do carro dos caçadores. A emissária havia cuidado deles. Além da chuva, a licantropa viu as casas fechadas dos vizinhos ao longe e a reserva do lado oposto. Estava presa dentro do círculo e Nigel não tinha condições de fugir sozinho. Precisavam de ajuda, precisavam dos outros caçadores.
"Me solte!" Nigel agitou-se, com a voz rouca.
"Eu já disse que não é pra você falar! Quer ficar mudo pra sempre?" ela ralhou, começando a correr pela chuva e levando-o consigo. Procurou os limites do perímetro com sua visão sobrenatural. Deixou ainda mais da força se manifestar para reforçar o poder de seus olhos - as orelhas ficando pontiagudas e pelugem cobrindo as laterais de seu rosto. Sentiu para onde fugir. Conseguiram escapar da casa, mas este círculo era muito maior. Quem o forjou tivera tempo para andar pela reserva e pela vizinhança.
Ela verificou Nigel novamente ao ouvir sua respiração chiar. Ele encarava transtornado o rosto gotejante da licantropa, agora com a fisionomia feroz de sua metamorfose. "Invadiram a casa e o quarto de Lonell. Temos que escapar e avisar Alistair e os outros," ela explicou em uma voz que soava com um grunhido ao fundo. Ajeitou o braço que o segurava na cintura e escorregava sobre as roupas molhadas. A hesitação dele fazia pouco para atrasá-los.
Bailey continuou com os olhos apertados, tentando olhar para cima contra a chuva. "Você…" Ela fez uma expressão ainda mais séria de reprovação ao homem por ele estar forçando a voz de novo. Ele usou novamente a garganta abusada pelos ferimentos e o fôlego pelos solavancos da fuga. "Você é real… o que aconteceu… foi tudo real…" Se ela não tivesse a audição superdesenvolvida não teria distinguido as palavras suaves e falhas. "Não foram os remédios, foi tudo real…"
A mulher suspirou e assentiu. "Eu te explicarei mais tarde. Agora pare. De. Falar."
Ele continuou com a expressão consternada, atento ao rosto metamorfo e ofegante dela, não podendo negar ou acreditar no que via.
Um estrondo veio da casa, e a licantropa acelerou o passo em direção à reserva. Nigel suprimiu a reclamação de dor em um ressalto particularmente forte, então baixou o olhar perplexo e distante, preso ao que acabara de desvendar. "Naquela noite… Os meus pais… Preston…"
Sydney apertou os lábios, as pontas dos caninos escapando. O ataque há dezesseis anos. A noite em que um bando inteiro foi abatido e inúmeras famílias da cidade foram destruídas, inclusive a de Sydney. Foi a noite em que ela recebeu a mordida, a noite em que seus olhos se tornaram amarelos e depois vermelhos. Pessoas seguiram suas vidas sem saber da verdade, como Nigel, ou passaram a viver em razão disso, como ela e os Argent.
A mulher-loba parou de correr de uma vez só, e Nigel fez careta com o ressalto. Ela esticou o braço, guiando-se para encontrar o ponto mais afastado da casa dentro do círculo de pó de tramazeira. O rastro encantado no chão sob a chuva era imperceptível, mas isso não diminuía sua força.
O som de passos ecoou pela escuridão da noite, mais nítido que o barulho da água e das árvores. A pessoa que os prendera ali estava se aproximando. O que Sydney temia estava acontecendo: a emissária não apenas invadira o quarto de feitiços de Lonell, ela os estava perseguindo, ela queria Nigel. A morena escondeu-se com ele por entre as ramas e troncos do início da floresta e forçou o homem a se ajoelhar ao seu lado. Eles tinham pouco tempo para romperem o círculo. Apontou para a linha invisível no chão. "Ali! Mexa no rastro, quebre a linha!"
"O quê?"
Onde ela apontava não tinha nada além das folhas úmidas que decoravam o assoalho da reserva. Sydney o empurrou, e ele caiu enterrando o rosto na sujeira, mal escapando do galho que desprendera-se do alto caindo exatamente onde eles estavam. O homem segurou o braço machucado e, com trabalho, levantou a vista o suficiente para ver Sydney rosnando para outra mulher. Reconheceu imediatamente aquela pessoa. Era a mulher de cabelos pretos que estava junto com os homens… monstros… as pessoas que o atacaram no mercado.
"Eu só preciso dele," disse a mulher, "afaste-se, Sydney Fox."
A ordem não convenceu a alfa, que postou-se na frente de Bailey apontando para a emissária o punhal que retirou da bota. "Quebre a barreira, Nigel. Como você fez pra eu entrar na casa," falou sem afastar a atenção de seu alvo. A outra deu mais um passo, e Sydney lançou a arma. O objeto cortou o ar mas perdeu a velocidade, pairando inofensivo diante do peito da oponente.
A risada ecoou quando a lâmina voltou-se contra a dona e esta mal conseguiu desviar.
"Eu sei lidar com lobisomens," a outra disse e elevou os braços, revelando um frasco. Espirrou o líquido lilás, que misturou-se à chuva salpicando Sydney. A mulher-loba urrou e caiu, esfregando a face. "É isso que os caçadores usam," a emissária explicou. Então juntou as mãos, e Fox foi lançada pelo ar por uma força invisível. A licantropa chocou-se com brutalidade contra algo no ar. Foi como se uma parede de luz se formasse por um segundo e depois sumisse novamente quando Sydney caiu no chão sem conseguir passar dali.
Nigel ouviu, chocado, os gemidos de agonia e o uivo desesperado da loba. Foi um som forte que vibrou pelos troncos das árvores, fazendo-o cerrar os olhos e cobrir os ouvidos, arrepiado. Quando cessou, ele viu a forma encolhida da mulher ao chão e a expressão de satisfação no rosto da outra, que se aproximava. Poderia rastejar pela floresta, tentar se afastar do perigo. Mas Sydney estava ferida.
Se o que estava acontecendo era real e o que ele lembrava era verdade, ela o havia salvado na floresta quando fora atacado, e ela tentava protegê-lo agora. Ele não poderia simplesmente abandoná-la. Sydney era sua amiga – ou ao menos agia como uma. Ela estava de seu lado.
O homem começou a engatinhar pelo lodo com o braço são para se aproximar da licantropa, sem saber ao certo se acabara de tomar uma péssima decisão. Ao mover as folhas, sentiu uma diferença peculiar, que conhecia: um sentimento de que estava protegido, como quando entrara no sobrado pela primeira vez. Ele olhou para o chão e não distinguiu nada diferente na lama com restos de folhagens, mas sabia que ali havia se formado o campo de força com o qual Sydney se chocara.
Fora isso que ela pedira que ele quebrasse. Havia uma barreira ali.
Bailey concentrou-se, e a emissária o fitou. Ele fechou os olhos, focalizando-se ao máximo na barreira. "Está tentando ser a fagulha?" A voz meiga soou próxima. Ele se assustou, olhando para cima, e a viu à sua frente. Embora chovesse, os negros cabelos e as roupas dela permaneciam secos.
A mulher sorriu de forma admirada e esticou-se para apanhá-lo. Nigel inclinou-se para trás, apoiando-se no braço direito e sentiu sob a mão a força da barreira. Era ali, ele apertou a palma sobre a estranha energia. Seus dedos enterraram-se na magia e ele os arrastou sobre a linha imaginária, borrando-a e sentindo a força se dispersar. Tanto ele quanto a emissária ofegaram com a mudança no encantamento.
Nigel foi agarrado e levado dali com tanta rapidez que a mulher não conseguiu impedir Sydney de carregá-lo.
Os olhos da licantropa ainda doíam, a água da chuva não estava limpando com eficiência seu rosto, mas ela já podia enxergar. A dor era secundária, passaria quando seu sistema voltasse ao normal para curá-la totalmente. Nigel havia quebrado a barreira, eles podiam escapar.
Se ela fizesse a volta por dentro da reserva, teria vantagem sobre a emissária.
Os dois não entrariam novamente no círculo de tramazeira para voltarem pela rua. Não teriam tanta sorte uma segunda vez contra alguém tão forte. Sydney ouvira falar, certa vez, que para um emissário obter poder assim teria que se tornar um darach.
Risada retumbou pela floresta quando os dois passaram por uma clareira. O acônito da poção prejudicara Sydney de tal maneira que seu senso de direção os guiara erroneamente para dentro da reserva. Eles estavam diante da majestosa árvore do nematon. Mesmo naquela noite sem lua, o homem chocou-se com a magnificência da madeira escura e a altíssima copa.
O som da voz misturado ao barulho da chuva indicou que a emissária se aproximava e sabia exatamente onde eles estavam.
Sydney circundou a clareira sem conseguir escapar. Era como se estivessem cercados, como se a voz da mulher viesse de todos os cantos, como se qualquer direção levasse de volta a ela.
"Lonell usou sua força vital. Sacrificou a própria centelha para selar a força do Nematon," proveio do lado por onde Sydney pretendia escapar naquele instante. A mulher-loba recuou levando Nigel consigo. Os dois pararam quando suas costas tocaram o tronco largo e áspero do Nematon. A voz continuou: "Descobri como desfazer o encantamento." E a chuva cessou no mesmo instante. "Controlarei este território com a força deste templo." A emissária estava ao lado deles.
Sydney posicionou-se entre os dois, empurrando Nigel contra a árvore e usando seu próprio corpo como escudo.
"Se formarmos uma aliança, Sydney Fox, ninguém nos vencerá." Foi a oferta. A mulher aguardou a resposta, o rosto impassível. A licantropa apertou o braço direito de Nigel, pronta para puxá-lo e escaparem da clareira. Tinha uma ideia da direção da cidade, de acordo com o formato das outras árvores. "O que aconteceu há dezesseis anos nunca se repetirá."
O rosnado involuntário sumiu da garganta de Sydney.
A darach permaneceu olhando em seus olhos. Aproximou-se vagarosamente. "Eu matei Tate," declarou, fazendo a licantropa perder o ar. "Consegui minha vingança, como você fez ao matar o lobisomem que a mordeu. Sacrificamos tudo. Mas não é suficiente. Nunca será, Sydney. Há outros por aí que pretendem repetir o que aconteceu em Beacon Hills. Sempre haverá famílias que serão destruídas. Imagina quanto poder eu terei com o Nematon? Posso ser sua emissária, e você como a alfa deste território será invencível. Com o meu apoio, nenhuma criatura sobrenatural escapará do seu julgamento. Todos conhecerão a alfa Fox, todos respeitarão os humanos."
Sydney balançou a cabeça, centrando-se no coração acelerado e na respiração cortante do homem às suas costas. "Com o Nematon acordado, monstros serão atraídos à cidade. Foi por causa dele que Tate e seu bando vieram. Selá-lo foi a única forma que Lonell encontrou de acabar com o banho de sangue."
"Lonell era um velho covarde. Ele preferiu destruir a si e ao templo em vez de assumir a responsabilidade de controlá-lo. Não precisa ser assim, nós duas faremos o que ele não conseguiu, o que nenhum deles teve forças para realizar."
"E pra isso precisa de Nigel," Fox concluiu. O homem não dizia nada, a confusão e ansiedade dele alcançavam a loba pelo cheiro, pelos dedos frementes que agarravam o tecido encharcado de sua blusa.
A emissária deu de ombros. "Eu li nos documentos que Lonell deixou. A vida de outro Bailey poderá quebrar o selo." Baixou o olhar. "Será um sacrifício necessário."
"Sim. Os caçadores, Nigel, e quantos mais até conseguir controlá-lo? A cobiça pelo poder do Nematon nunca vai terminar. Lonell pôs um fim nisso e você quer trazer de volta o perigo."
Um sorriso zombeteiro invadiu o rosto da mulher. "Estou te oferecendo uma chance de continuar o que começou. O que acha que vai acontecer quando os Argent descobrirem que Tate está morto?" Sydney fechou mais ainda a expressão. A outra deu um passo na direção dos dois, seu tom condescendente permanecendo. "Eles não são tão generosos. O seu nome é o próximo na lista. Acha que vão te manter aqui agora que os lobisomens culpados foram caçados? Você tem que seguir o código."
Sydney retomou a postura ameaçadora. "Não importa. Você não vai tocar em Nigel."
A darach semicerrou o olhar. Assentiu com a cabeça. "Teria dado uma alfa espetacular." Ergueu uma das mãos, e o solo molhado ao redor da grande árvore cedeu. A loba e o homem foram engolfados pela terra, suas pernas e seus corpos sendo imobilizados dolorosamente pelas raízes da árvore. Sydney cravou as garras no chão para não ser ainda mais arrastada para dentro da terra.
"É só uma questão de tempo, Alfa Fox. Se você não concordar, encontrarei alguém que o fará." A emissária se agachou diante dos dois e puxou os cabelos de Nigel fazendo-o expor o pescoço enfaixado. O homem ganiu, mas não conseguiu se libertar de onde estava sendo soterrado.
A licantropa golpeou o ar sem conseguir arranhar a darach, e as raízes se contorceram e apertaram ainda mais, impedindo-a de se mover. Sydney urrou e uivou novamente, vendo o homem contorcer o rosto ao ter suas feridas reabertas com as raízes que subiam e dominavam os dois. Cheiro do sangue dele invadiu a floresta novamente, e o poder do Nematon pulsava mais forte com cada gota, sedento pela oferenda.
"Ofereço este sacrifício digno para libertar o Nematon," a emissária recitou, apanhando uma adaga da cintura. Posicionou a navalha na garganta de Bailey para o golpe final. "Com este sangue, eu quebro o selo."
Um zunido cortou o ar passando de raspão pela face da darach. A flecha cravou-se no tronco da árvore desviando do olho esquerdo da mulher por milímetros. A interrupção a surpreendeu, e as raízes perderam a força por um momento com a quebra da concentração. Sydney escapou da cova onde estava, com sua força sobre-humana, e atacou a emissária.
Alistair e Christine surgiram de entre as árvores. "Eles estão no Nematon!" a mulher mais velha gritou para trás e correu na direção de Nigel. Alistair não conseguiu um alvo limpo com as outras duas rolando no chão, mas continuou com o arco pronto para qualquer abertura na luta. Alguns segundos depois, Gerard e mais caçadores chegaram cercando a área.
Eles não se aproximaram, porque o terreno ao redor da árvore começou a tremer. A senhora Newell ajudou Nigel a escapar do meio das raízes que lhe arrancavam os curativos e causavam mais cortes. Brotos verdes floresciam nos pontos que tiveram contato com o sangue dele, e o lugar ameaçou desabar. Os dois rastejaram com dificuldade, saindo de perto da árvore. Lis e os demais os arrastaram para fora da clareira.
A darach lutava de igual para igual com a licantropa. Sydney, com saltos elaborados, fugia das raízes que escapavam do chão. Até que golpeou a oponente no abdômen com suas garras. A emissária gritou e agarrou-se aos ombros da outra, as íris dos olhos embranquecendo ao concentrar magia. A mulher-loba avançou em vez de esperar e lançou as duas ao chão. As raízes que apontavam do lodo envolveram a feiticeira, e Sydney escapou por pouco da madeira subterrânea que fora atiçada com o início do ritual de sacrifício. A magia não fez distinção de sua vítima, e as raízes puxaram o corpo para baixo, o peso da terra esmagando a emissária.
Antes de o rosto dela ser engolfado pelo chão, em seu último suspiro, a darach lamentou: "Nós teríamos… teríamos conseguido, juntas…" E afundou.
Com rapidez e destreza, Sydney saiu da clareira e alcançou o local seguro junto dos outros. "Nós ouvimos os seus pedidos de ajuda," Alistair explicou, colocando a mão sobre seu ombro. Ela agradeceu, aliviada. Os uivos chamaram seu bando. Christine e Alistair os salvaram. Então um ruído perturbador instalou-se na floresta.
A licantropa virou-se e observou com os caçadores, de forma assombrada, a árvore do nematon tremer e sibilar e o céu sobre ela fechar-se com nuvens e raios despencando em uma tormenta.
"O selo foi abalado com o começo do ritual!" Sydney teve que gritar para ser ouvida pelos outros. Viu Lis Argent e Christine ajoelhadas ao redor de Nigel na relva molhada e se aproximou.
Newell segurava o jovem inconsciente em seus braços. "Ele ficou gelado, tem alguma coisa errada!" a loira disse, tentando protegê-lo da violenta chuva. Sydney sentiu as variações de energia provindas do templo. Tocou o rosto pálido do homem e sentiu que ele se desvanecia. Ele terminaria como Lonell, só que muito mais rápido.
"Precisamos parar o Nematon!" Alistair falou.
A mulher-loba pôs-se de pé. Junto com os demais, retornou ao limite da clareira. O velho Newell apontou para a árvore. "Se causarmos dano suficiente, ele não conseguirá canalizar a força para quebrar o selo!" explicou. Os trovões não estavam diminuindo.
"E como pretende fazer isso?" Gerard gritou.
Sydney viu a espada dele brilhar refletindo um dos relâmpagos. "Vamos cortá-lo!" Decidiu. Não aguardou a descrença se apagar do rosto do caçador. "Se eu usar toda a minha força, tenho certeza que consigo!"
"Ela tem razão. No momento ele não passa de uma árvore. Tudo o que está sugando de Bailey está sendo usado para quebrar o encantamento. Não podemos esperar. Precisamos interromper isso," Alistair completou.
Sydney assentiu. "Eu farei. Se não der certo, terão que fazê-lo da forma convencional antes que o ritual se complete."
"Antes que Bailey morra," a voz de Lis soou forte sobrepondo-se à tempestade. "Faça o que for preciso!" a mulher determinou e arrancou as próprias luvas de couro, jogando-as para a licantropa. Esta assentiu e vestiu-as. Ofereceu a mão, pedindo pela espada. Gerard lançou um olhar incerto mais uma vez para a mãe, então entregou a arma de prata à outra mulher.
Fox carregou o peso da espada contra a chuva e o vento, evitando os pontos movediços e as raízes vibrantes no chão. Ela fechou os olhos diante do tronco que precisaria de ao menos quatro pessoas para ser abraçado. Tinha que conseguir. Precisava proteger a cidade dos horrores que testemunhara quando mais nova, precisava salvar a todos, salvar Nigel.
A licantropa procurou o poder que guardava dentro de si e libertou-o. Sentiu a metamorfose saciar seu corpo com a plenitude de sua forma alfa. As pontas das luvas rasgaram-se com as garras, e ela apertou o punho da espada gotejante. Urrou com a lembrança de seus pais, de todas as pessoas que morreram por causa daquele templo, e balançou a lâmina sem vacilar.
O brilho de um raio caiu do céu durante o golpe cegando a todos, e o estrondo misturou-se ao brado da mulher-loba. A espada cortou a madeira, ela sentiu a eletricidade correndo por seus braços, sentiu o impacto da energia do nemeton e lançou-se por completo contra a força que tentava escapar.
Tudo escureceu apagando-se junto com o raio, tudo ficou mudo depois daquele trovão.
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O ruído suave de uma página sendo virada saudou Sydney antes que ela abrisse os olhos. O sono profundo do qual despertava era agradável e convincente, e ela quase decidiu voltar a desfrutá-lo. Aguçou os sentidos para decifrar o ambiente claro e morno ao seu redor. Sentou-se na cama, subitamente. Nigel estava na poltrona ao lado do leito, perto da janela ensolarada, e tomou um susto deixando o livro cair.
A mulher procurou em todas as direções e não enxergou ou farejou ameaças. Reconheceu que estava em seu quarto na casa dos Newell. Controlou a respiração e notou suas mãos cobertas com gaze ao tocar o rosto.
"Você dormiu por alguns dias, mas está bem." Ele já estava de pé ao seu lado. "Lembra o que aconteceu? Lembra do Nematon?"
Ela estudou o semblante do homem, que lhe sorria de leve. As marcas em seu rosto e pescoço estavam fracas, mas ele tinha o curativo protegendo partes da garganta, e o gesso permanecia no braço esquerdo.
"O selo…" ela iniciou a pergunta. Precisou beber a água do copo que estava sobre o criado-mudo.
"Você conseguiu. Cortou a árvore com um golpe só." A mulher o encarou, e ele riu. "É. Nem eu acredito. Mas eu ainda não tive coragem de voltar lá pra ver."
Sydney respirou profundamente, o alívio relaxando seus ombros. Deitou a cabeça sobre o travesseiro. Sentia-se estranha. Entorpecida, como se estivesse debaixo d'água. Não conseguia identificar os sons do restante da casa ou usar seu faro. Observou suas mãos enfaixadas. Ela estivera inconsciente por dias e ainda não havia se curado. Na verdade, pensando no que fizera, estava surpresa de ter sobrevivido.
Percebeu que Nigel havia abaixado a cabeça mas não se afastara.
"Você salvou a minha vida. Mais de uma vez." Ele encontrou seu olhar. "Obrigado."
A mulher-loba sorriu. Então franziu o cenho e limpou a garganta. "Quem disse que você já pode falar?"
Ele riu. "Permissão médica. Eu juro." Pôs a mão direita sobre o coração. Algo saltou sobre a cama, e a morena levou um segundo para reconhecer Mafdet. A gata aproximou-se de seu rosto, ronronando e querendo ser afagada. "Sua visitante diária," Nigel comentou. "Chris achou melhor passarmos uns dias aqui até eu retirar os curativos." Fez carinho na gata, que havia se aconchegado sobre o colo de Sydney. "Acho que Mafdet nunca vai querer voltar."
A mulher fitou-o com seriedade. "Você está bem?"
"Estou." Ele se sentou na beirada da cama. "Depois que você cortou o Nematon, o selo voltou ao normal. Estou me recuperando. A darach conseguiu abrir aquele quarto com os livros de meu tio. Alistair está me ajudando a estudá-los pra descobrir como refazer a proteção."
Ela assentiu com a cabeça. O homem juntou as mãos mordendo os lábios. Sydney aguardou por quase um minuto, e como ele ainda se preparava para dizer, ou não, o que pretendia, ela parou de afagar a gata e cruzou os braços. "Diga logo."
Nigel fechou a expressão, mas obedeceu. "Chris me contou o que houve com você… o que aconteceu com as nossas famílias." Ela baixou o olhar. "Meu pai era um beta do bando que foi… exterminado." Ele tragou o ar com força, piscou várias vezes. "Ela também disse sobre o código."
A mulher acariciou a gata branca, que bocejou e acomodou-se ao seu lado. "Se um caçador é mordido, deve terminar a própria vida. Eu era criança, Alistair me acolheu. Depois disso eu continuei ajudando a caçar os responsáveis, mas agora não há mais motivos para adiar."
Ele levantou-se. "A culpa não foi sua por ter sido mordida. Não pode fazer isso!" Mafdet achatou as orelhas com os movimentos bruscos do dono. "Você salvou todos nós, nunca fez nada de errado!"
"Não é assim que funciona, Nigel. Já estou aqui há muito mais tempo do que poderia. Eu devia ter morrido naquela noite."
"Então é isso? Tudo o que você fez até hoje não vale nada só porque não é humana?"
"Eu sou uma caçadora. Minha família era de caçadores. Nós crescemos sabendo dos riscos e sempre mantemos o código."
"Se alguém é um lobisomem, se torna automaticamente um monstro?" Sydney tensionou-se com a pergunta. "Se eles tivessem me mordido naquela noite contra a minha vontade, você teria me matado?"
Ela não o encarou nos olhos. "Provavelmente. Se tivesse perdido o controle."
"Mas você não perdeu. Que código absurdo é esse? Tirar vidas inocentes é errado!"
"Não matamos inocentes. Se trata de ameaça. Eu sou uma ameaça e uma vergonha aos caçadores, preciso ser eliminada."
"Olha pra você. Quase morreu salvando todos nós e agora não consegue sequer ficar de pé. A maior ameaça que faz no momento é me roubar o amor incondicional de Mafdet."
Sydney sorriu.
"Você sabe o que acontece com quem fica pra trás, Syd." Os dois se entreolharam em silêncio. O pai dela a chamava assim.
A voz alegre de Christine trazendo o almoço interrompeu a conversa.
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A morena deixou as flores sobre a lápide, suspirando o cheiro do terreno verde e bem cuidado do cemitério naquele começo de tarde. Estava sentada ali acompanhada da memória dos pais desde que se despedira dos Newell durante a manhã. Fechou os olhos, sentindo a brisa, convencendo-se que fizera o necessário, que a cidade estava mais segura do que quando criança.
A família Fox sempre vivera em Beacon Hills. Os dois, Randal e Cintia, conheceram-se durante a juventude em uma das caçadas e jamais esconderam de Sydney sua origem. Eles eram felizes, não havia conflitos com o bando de lobisomens que vivia ali antes de Tate e os demais alfas invadirem a cidade cometendo aquele massacre.
Sydney, recém órfã, matara o lobisomem que a mordera e assumira o território quando os demais escaparam. A última da família Fox também conseguira manter o Nematon selado, e o que restava da árvore agora não passava de um grande tronco cortado e ressequido no meio de uma clareira na floresta.
Após aquela noite, a caçadora não sentira mais a força de seu lobo interior e levara duas semanas para deixar a cama na casa dos Newell. Estava pronta para assumir seu destino. Tate, o último do bando, estava morto. Não restava nenhum lobisomem culpado pelas mortes há dezesseis anos e o Nematon não era mais um problema. Ela havia realizado sua função, concluiria o que mandava o código. "Logo nos encontraremos," murmurou uma última vez para as duas lápides e deixou o cemitério.
Christine prometera que não diria a Nigel onde a morena estava indo, então a visão do homem escorado no seu carro perto do portão fez a mulher suspirar e considerar abandonar o veículo, seguir a pé até a casa dos Argent.
Ele começou a caminhar na direção dela, e a morena lembrou que seus sentidos não estavam mais sobre-humanos. Se ela o enxergava e escutava, ele também conseguia. Nem a força ou a resistência, ou a capacidade de cura retornaram, seus sentidos continuavam medíocres e ineficientes. Ela se sentia fraca, ou, como Christine dissera: humana.
Nigel ainda tinha o gesso em seu braço esquerdo, mas não mancava e alcançou a mulher sem esforço no caminho de ladrilhos que levava para a saída do cemitério. "Eu li uma coisa, gostaria de confirmar isso antes que você… faça o que pretende."
Sydney trocou o peso de uma perna para a outra, olhando para os lados por um momento. Concordou. Ainda estava fraca, não seria fácil despistá-lo a pé.
Ele sorriu largamente e retirou algo do bolso. Entregou a ela a pequena imagem de um lobo esculpido na madeira e ajoelhou-se. A morena observou a estátua por alguns segundos e voltou a atenção para Nigel, que olhava para cima observando-a intensamente.
"O que foi?"
Ele mostrou no frasco a marcação de pó de tramazeira e o círculo que havia formado rapidamente ao redor dos pés dela. Sydney bufou, mas ele levantou a mão pedindo paciência. O homem concentrou-se um instante e voltou a ficar de pé. "Pronto. Tente sair."
Com as sobrancelhas levantadas, ela deu um passo adiante sem qualquer dificuldade. "Precisa treinar mais, Nigel. Tem que acreditar ou a barreira não funciona."
Ele balançou a cabeça. "Eu fui até os Argent e…"
"Quando você foi até lá?" Ela o interrompeu. "Você é filho de um lobisomem, é perigoso se envolver com eles, Nigel!"
"Eu fui com Alistair. Mas isso não importa. Perguntei a Lis Argent sobre algumas coisas que encontrei nos livros do meu tio, e ela concordou que existe a possibilidade de uma pessoa que foi mordida deixar de ser um lobisomem."
"Nem tudo o que está nos livros funciona."
"Mas pode ter funcionado desta vez. Por que a barreira não te segurou? Por que você não percebeu que hoje é lua cheia? Por que consegue segurar essa escultura de tramazeira sem nenhum problema?"
Ela encarou a imagem em suas mãos. Balançou a cabeça. "Posso estar apenas demorando a voltar ao normal. Já aconteceu antes."
"Chris disse que nunca por tanto tempo." Ela fechou os olhos. Os Newell estavam apoiando o homem mesmo sabendo que a esperança seria destroçada. Se não estivesse a caminho da última reunião com os caçadores, teria uma conversa com aqueles dois. Ele continuou, ainda otimista. "Você já voltou ao normal. Não nasceu assim, foi mordida. Perdeu toda a sua energia sobrenatural reforçando o selo do Nematon. Você matou o alfa que te mordeu, e agora voltou a ser humana."
Era absurdo, ridículo, mas Sydney viu-se, lá no fundo, querendo acreditar e até compreendeu por que Alistair e Christine se deixaram levar pela euforia inocente de Nigel. Contudo, ela não era mais criança. Não tinha a tola esperança de voltar ao que era antes de sua família ser atacada e destruída. "Não importa mais, Nigel, vou ver os Argent agora." Devolveu a escultura e afastou-se. Ia abrir a porta do veículo quando se surpreendeu com a figura esguia de Lis Argent do outro lado do carro.
A velha senhora tinha os braços apoiados sobre a cintura, como fazia quando estudava planos de ofensiva. "Interessante," disse ela. "Mas não é suficiente."
Nigel surgiu ao lado da morena. "Mas a senhora viu, o que teria efeitos sobre um lobisomem não afeta Sydney. Ela nem percebeu o acônito nos meus bolsos."
"O que está acontecendo aqui?" a mencionada na conversa exigiu.
"Seu amigo está disposto a provar que você não passa de um ser humano. Ele fez uma proposta… não usual." Lis exalou o ar e seu rosto ficou mais sério do que Fox jamais lembrava. Ela encarou Nigel. "Sabe as consequências. Se estiver errado, eliminaremos os dois."
A mulher mais velha deu as costas e caminhou em direção ao outro veículo estacionado adiante, ignorando a confusão da morena.
"O que você fez? Do que ela estava falando, Nigel?"
Ele esticou o braço, pairando a mão direita perto do rosto de Sydney. "Me morda." A expressão dela não precisou de palavras para demonstrar a incredulidade. Ele clarificou. "Se você me morder, nada vai acontecer e os Argent terão a prova de que não é mais uma portadora de licantropia ou uma ameaça. Você terá a prova. Vai ter certeza que não resta mais nada de lobo aí dentro e poderá viver. Eu diria para simplesmente atualizar o código, mas os Argent não são nada razoáveis," resmungou a última parte.
Ela afastou a mão dele. "Eu não vou te morder."
"Porque não tem mais presas," ele zombou.
"Porque você pode estar errado e Gerard irá te cortar ao meio."
Bailey fez uma careta. "Se eu estiver errado, irei me transformar. Se isso acontecer…" Pausou. Engoliu em seco. "Bem, os Argent cuidarão do resto. Você não tem nada a perder. Essa é a maneira de ter certeza."
A mulher balançou a cabeça. "Não posso te morder. Não vou arriscar."
"Eu não posso te deixar morrer." O rosto contrito e a súplica a obrigaram a desviar da visão.
Sydney olhou para trás, para onde ficavam os túmulos de seus pais. "Você tem que sobreviver", seu pai lhe dissera antes de morrer. Alistair repetira isso quando lhe acolhera. Lonell tornara tal possível sendo seu emissário, e Nigel repetia o mesmo agora. O olhar determinado de Bailey fora capaz de convencer Lis Argent, mas a morena jamais se perdoaria se o contaminasse.
"Eu preciso dizer que se não concordar, Chris e Alistair vão me ajudar a tomar essa providência mesmo sem a sua permissão?"
"Está ameaçando me usar contra a minha vontade?" Ela pôs as mãos na cintura.
Ele enrugou a testa, desculpando-se. "Não queremos te perder, Syd. Sei que faria o mesmo por outra pessoa."
Era verdade. Se fosse ele ou um dos Newell em seu lugar, ela faria o que fosse preciso mesmo que se arriscasse com isso.
Tomou fôlego. "Eu tenho uma condição." Nigel balançou a cabeça rapidamente, concordando de maneira afoita. Sydney continuou. "Se a mordida funcionar, e mesmo assim você sobreviver, tem que me prometer que buscará abrigo com os Hale. Se ficar ao alcance dos Argent será eliminado, como Lis prometeu. Em um bando forte, com um alfa justo e fora desta cidade, poderá tentar seguir sua vida."
Ele exalou o ar exasperadamente. "Seria infinitamente mais fácil atualizar o código, sabia?"
Sydney revirou os olhos. "Você aceita ou não?"
"Aceito. Eu tenho certeza que você não é mais uma loba."
"Licantropa."
"Exato. Agora…" Ele levantou a mão novamente.
A morena segurou o braço dele, a contragosto. "Vai doer," mal avisou e mordeu com toda a força antes que ele tivesse tempo de responder. Sem presas, era difícil romper a pele. Ela foi rápida concentrando-se ao máximo no que antes seria a fonte de seu poder sobrenatural. Quando sentiu gosto de sangue, soltou-o.
-x-
A lua cheia brilhou por trás das nuvens, revelando parte da beleza amarelada através da janela do sobrado. Sydney passou pela cozinha e desceu as escadas carregando um copo de água. No canto mais afastado, estava Nigel. Ele caminhava de um lado para o outro dentro da jaula reforçada no porão da casa de seu tio.
Agora ele entendia por que aquelas grades existiam. Sydney aproximou-se entregando-lhe o copo. Ela o impediu no meio do segundo passo - havia espaço para apenas duas passadas dentro das grades -, e puxou-lhe a mão verificando as marcas da mordida.
A ferida permanecia vermelha e inchada. Horas depois de ela ter se arrependido de concordar com aquela ideia, nenhum dos sintomas, como cura instantânea, se manifestaram no jovem Bailey. "Se parar de doer, eu te aviso," o homem reclamou.
Ela o soltou. "A ideia foi sua."
"E está funcionando… Pena que agora não há mais ninguém na cidade capaz de abrir a torneira da banheira que você fechou."
"Só teremos certeza ao amanhecer, Nigel." A mulher cruzou os braços.
"Mas Lis já fez os testes, nenhum de nós dois é um ser das trevas ou tem poderes sobrenaturais."
"E agora eu estou tendo a confirmação. Até o amanhecer."
Os ombros dele caíram. "Christine vai trazer o jantar?"
"Pode se tornar uma criatura feroz a qualquer instante. Como ainda consegue pensar em comida?"
"Eu não mando no meu estômago! Passar o dia inteiro numa jaula me deixou faminto," choramingou.
A caçadora simpatizou com ele. "Posso fazer uns sanduíches."
"Será que dá tempo de ir ao banheiro?" O homem conferiu a hora no relógio de pulso. Ela não respondeu. Ele segurou as barras. "Sydney!"
A mulher passou os olhos pelo porão e chutou um balde para perto da grade. Sorriu para a expressão de assombro no rosto dele. "Te darei privacidade." E subiu as escadas.
-x-
Eram seis da manhã. Nigel dormia sentado sobre as cobertas no chão frio da jaula. Sydney atravessou as marcações no piso ao redor das grades e abriu o cadeado. Balançou o ombro do homem. Ele esfregou os olhos e espreguiçou-se, soltando o ar com alívio ao notar que ela entrara deixando a jaula aberta.
Fox sorriu. "Dormiu bem?"
Ele negou com a cabeça. "Parece que Beacon Hills não tem mais uma alfa." Esticou o braço que não estava engessado e alisou as costas doloridas. Havia se escorado nas grades quando cochilara. "O que pretende fazer agora?"
Sydney sentou-se ao seu lado. "Lis e Gerard pretendem voltar a Paris. Sem o Nematon ou os lobisomens de Tate, nada os prende aqui. Outros irão segui-los, haverá pouca gente capaz no território."
"Vai continuar o trabalho de seus pais?"
"Sim, mas eu estava pensando que Hale é um bom alfa." Ela observou a reação do amigo. "Talvez ele queira ampliar o território. Será melhor contar com a proteção dele do que ficar à mercê de outro bando."
Nigel concordou. "E eu continuarei estudando o que meu tio deixou. Naquele quarto tem muitos livros e anotações que podem ser úteis."
Sydney fitou-o nos olhos. Ele não pretendia deixar a cidade? Abandonar as lembranças do que lhe aconteceu e seguir com a vida longe de todos os problemas que o sobrenatural poderia trazer, como os Argent fizeram? "Tem certeza que quer ficar? Nesta cidade, com o seu nome, será sempre associado a nós. O seu tio era bem conhecido."
Nigel soltou um suspiro. "Minha família fazia parte desse mundo. Agora posso honrá-los pelo que realmente eram. Eu sinto que faço parte disso. Desde que descobri a verdade, não tive mais pesadelos." Sorriu, pensativo. "Deveria ser estranho eu me sentir mais calmo e seguro agora que sei que os monstros existem de verdade. Mas ter todo esse conhecimento, saber o que pode estar lá fora, aprender a me defender, a ajudar os outros, isso é importante. Isso me dá forças." Deu de ombros. "Bom, conseguir dormir e saber que não estou louco, também."
Ela riu junto com ele. Os dois sabiam do sofrimento por trás daquelas palavras.
E naquela manhã, com o ar fresco pelo orvalho que vinha da mata trazendo o cheiro de vida pelas janelas, os dois amigos sabiam que estavam no caminho certo. Ambos teriam uma nova vida, um novo começo.
Fim
N.A.: Mafdet foi inspirada numa gata branca de pelos arrepiados, filhote de uma siamês que tivemos. Às vezes ela soltava uns miados altos e desafinados, e nem sempre atendia quando era chamada. Levamos meses para descobrir que ela era, de fato, surda.
Há tempos estou para publicar esta fic aqui. Não tive oportunidade de atualizar a outra fic em andamento, sabe, aquela outra que me nego a dizer o título T_T
Obrigada a todos pela leitura, esta história deveria ter sido bem mais polida, mas entre ficar sem publicar nada e editar novamente toda a fic, decidi deixá-la assim. Espero que não tenha ficado falha demais.
Abração, espero que as próximas histórias fiquem melhores, estou estudando bastante sobre escrita e acredito que surtirá efeito em trabalhos que eu escreverei a partir daqui. Obrigada novamente.
Até mais!
