- Cavaleiro... de Atena...?

Anatolyi não sabia o que significava ser um cavaleiro de Atena. Como não freqüentava a escola, passava um bom tempo na biblioteca municipal lendo sobre o mundo, sobre a História. Mas não se lembra de ter lido nada relacionado a esse respeito. Valentin andou na direção de Anatolyi, caminhou ao seu lado e parou atrás dele. Fechou os olhos e dirigiu-se a Anatolyi.

- Você está bem?

Valentin estica a mão amigavelmente na direção de Anatolyi e deixa seu capuz cair. Os longos cabelos azul-celeste cintilam com a parca luz solar. Era cedo no dia, mas já estava escurecendo, tendo em vista a posição no Circulo Polar Ártico onde se encontrava aquela cidadezinha. Sua pele era alva como a neve.

- Eu agradeço por ter me ajudado, Sr. Valentin. Não consegui entender muito bem o que aconteceu, mas sei que o Sr. me ajudou.

Os dois seguiram andando. Anatolyi voltava para sua casa e Valentin o seguia enquanto conversavam.

- É a função de um cavaleiro prezar pela paz. Em verdade, vim até aqui em uma missão, já que vivo aqui perto.

- O Senhor diz que é um Cavaleiro, que está em missão. O que significa tudo isso?

- Há milhares de anos, os gregos acreditavam que seus deuses assumiam a forma de pessoas e tinham as mesmas emoções e paixões que os seres humanos. Uma das principais divindades era Atena, a deusa da sabedoria, das artes úteis e da guerra defensiva. Símbolo de paz e prosperidade, Atena e seus ideais eram defendidos por poderosos guerreiros, capazes de rasgar os céus com um movimento das mãos e abrir a terra com um pontapé.

- Lembro de ter lido sobre Atena em um livro sobre mitologia grega, mas nunca soube que ela possuía um exército para defendê-la. Quer dizer que o Senhor acredita ser um destes tais guerreiros?

- Anatolyi, você não conseguiu ver, mas pôde sentir. Sentir o poder de um cavaleiro.

- Como sabe o meu nome?

- Como havia dito antes, vim aqui em uma missão. Eu pude ver do que você é capaz, senti a sua cosmo energia, e penso que você poderia me ajudar, se estiver disponível.

- Cosmo energia... deve se referir àquilo que me fez quebrar os braços do tal Boris.

- Vejo que é um garoto muito inteligente, Anatolyi.

- Certo, mas como sabe o meu nome?

- Eu estava bem aqui o tempo todo. Apenas ocultei minha presença.

- Não entendo, eu deveria ter visto. Mas como o senhor tem habilidades sobre-humanas, deve ser capaz de se ocultar dessa forma. Mas é impressionante.

- Você também é capaz de se tornar tão forte como eu. Eu pude avaliá-lo, sei que tem potencial.

- Eu entendo que tais guerreiros sejam úteis na mitologia, mas... por que um cavaleiro de Atena estaria aqui no interior da Rússia?

- Existem certos problemas que as pessoas comuns não conseguem resolver. Nós agimos quando Atena nos solicita, para manter a paz.

- E essa é a missão de vocês?

- Por isso eu estava indagando se você poderia me auxiliar, Anatolyi. Um grande cosmo maligno está prestes a trazer a maldade e a destruição para o mundo. Sua ajuda pode ser útil.

- E Atena existe mesmo? Digo, o senhor disse que os deuses gregos tinham a capacidade de assumir a forma humana. Ela fez isso? É uma humana?

- Ela vive no Santuário, na Grécia, em um lugar escondido desde a Antigüidade. As pessoas comuns não devem saber da existência dos Cavaleiros.

- Entendo. Temo desapontá-lo, mas não posso ajudá-lo.

- Como?

- Eu não pedi para ter essa força, e nem quero tê-la. Tenho meus irmãos para cuidar, não me parece justo abandoná-los como meu pai fez. Tenho que estar junto deles, não andando pela Sibéria ou Grécia defendendo uma deusa pagã que assumiu a forma humana.

Valentin fecha seus olhos. Aponta o dedo para cima bem lentamente.

- Veja, Anatolyi, naquela direção.

- O que tem naquela direção? As estrelas? Está apontando pra uma constelação, é isso?

- Sim.

- Qual constelação é aquela?

- Aquela é a constelação de Cisne. Faz mais ou menos 200 anos que ela não esteve tão brilhante como nesta noite.

- E o que isso quer dizer.

- Nós, os cavaleiros, somos protegidos pelas constelações. Hoje você despertou o seu cosmos, no dia em que as estrelas da constelação de cisne brilharam forte no céu. Vejo que ela é a sua constelação guardiã.

- Mas eu não quero ser um cavaleiro.

- É o seu destino, Anatolyi.

Já em frente de casa, Sasha e Misha vieram receber Anatolyi. Era uma casa simples e pequena em um bairro muito pobre. Os dois garotos franzinos encaravam o estranho e o mediam de cima a baixo. Eles não costumavam receber visita. Sasha se antecipou e expôs a sua curiosidade:

- Quem é você?

- Este é Valentin, Sasha, ele me ajudou e me acompanhou até em casa. Nosso pai já voltou?

- Não - respondeu Misha, ainda estranhando a Valentin que devolveu-lhe um sorriso.

Antes que a conversa pudesse continuar, o silencio da noite foi rompido por um forte som estridente que rasgou o céu. Valentin, muito preocupado, manda Anatolyi levar seus irmãos para dentro de casa. Uma bola de luz azulada descia lentamente há mais ou menos 200 metros a frente da casa da família de Anatolyi. Um cosmos maligno emanava daquilo que parecia uma pessoa em chamas. Mas não eram chamas de fogo comum, eram azuladas como o oceano. E o fogo não queimava, mas crescia e se dissipava no ar. Encoberto pelas sombras, de longe disse em tom ameaçador.

- Vim matá-lo, Valentin de Aquário.