Anatolyi abre os olhos e sua vista está um pouco escurecida. Percebe que estava deitado, coberto até o pescoço, em sua cama. Consegue identificar os vultos de seus irmãos que o olhavam apreensivos.
- Irmão, você acordou!
Anatolyi sente o estomago e faz cara de dor. Cobre a região com as mãos. Ao abrir os olhos novamente passa a mão direita sobre a cabeça de Misha e a esquerda sobre a cabeça de Sasha.
- Eu estou bem, só um pouco dolorido.
Anatolyi, já sentado, mira Valentin que está no fundo do quarto, encostado na parede, com os braços cruzados e olhos cerrados.
- O que aconteceu com Apostolis?
- Ele sumiu, bem como sua presença. Mas não se preocupe. Você está seguro agora.
Anatolyi volta-se para Misha.
- E nosso pai? Sabe onde está?
- Nosso pai não apareceu. Já são dois dias que ele está sumido.
- Entendo. De qualquer forma, ele sabe se virar sozinho.
- É...
- Anatolyi, devo dizer que você e seus irmãos correm muito perigo ficando aqui. Peço, por favor, que me acompanhem até a minha residência.
Anatolyi permaneceu calado por alguns segundos. Olhava fixamente para Valentin, que permanecia com os olhos fechados. Depois, de uma maneira severa, disse.
- Veja bem: eu sei que é uma boa pessoa, Sr. Valentin, mas devo dizer que esse perigo que se refere só chegou até mim porque o Senhor o trouxe.
- Está enganado.
- Ah é? Por quê?
- Porque Apostolis, ou qualquer um dos guerreiros de Hera, lhe encontrariam muito facilmente, estando eu aqui ou não. Da mesma forma que eu lhe encontrei. Já faz algum tempo que você despertou seu cosmos, não é verdade?
- Refere-se a quando quebrei os braços de Boris?
- Não me refiro apenas àquele evento. Tudo o que aconteceu depois, ou seja, o congelamento da bala e dos braços de Nazar, e também o nocaute de Boris, tudo isso foi mérito seu, por mais que não tenha percebido. Talvez o problema não seja a sua percepção. Creio que não acreditou em si mesmo e em sua capacidade. Naquela ocasião eu não movi um dedo para ajudá-lo, mas parece que você acreditou que fui o responsável por sua salvação. Você é forte e pôde salvar a si mesmo.
- Como? Eu fiz aquilo?
Um filme passou pela cabeça de Anatolyi. Lembrou de alguns fatos extraordinários de sua vida, aos quais sempre considerou que haviam acontecido por questão de sorte. Quando criança havia caído em um poço e, sem saber explicar direito como, havia saído de lá. Em outra ocasião fora atacado por um tigre, mas conseguiu afastá-lo. Lembrou de vários outros acontecimentos.
- Não é a toa que conseguiu copiar o golpe de um Cavaleiro de Ouro olhando apenas uma vez. Mas o mais impressionante é que antes de me conhecer você já possuía a capacidade de criar ar gelado com seu próprio cosmos.
Anatolyi ficou perplexo por alguns segundos. Buscava em sua mente algum momento em que tenha manipulado a temperatura ambiente, mas não conseguia se lembrar, a não ser quando congelara as mãos de Nazar. Aquilo foi perturbador.
- Entendo. Por isso Anatolis quis me matar.
- Sim. Você pode não ser um cavaleiro ainda, mas possui o potencial para se tornar um cavaleiro muito forte. Por isso peço que venha comigo até a minha residência. Principalmente porque seus irmãos devem ficar em segurança.
- Compreendo. Não consigo pensar em nenhuma alternativa, não temos nenhum parente para onde eles possam ir.
- Não apenas isso. Apostolis pode muito bem querer ferir seus familiares para atingi-lo.
- Antes preciso encontrar meu pai.
- Enquanto você esteve desacordado, eu saí pela cidade para procurá-lo. Segui a descrição que seus irmãos me deram e procurei seus rastros. Infelizmente não o encontrei em lugar algum. Não queria te preocupar, mas ele está desaparecido.
- Meu pai sumiu... feh, isso não é uma novidade. Sasha, por favor, me traga um pedaço de papel e uma caneta. Vou deixar um recado para que nosso pai nos encontre.
- Anatolyi, não posso deixar que faça isso. Seu pai correria perigo se nos seguisse. Além disso, facilitaria muito a busca de seu paradeiro para Apostolis.
- É, tem razão. Depois eu dou um jeito de contactá-lo. Não gosto muito da idéia de ir embora com o senhor, mas... partiremos quando?
- Devemos partir agora mesmo. Consegui um trenó, devemos chegar lá em duas horas.
Os quatro partiram em seguida. A neve se acumulava nos telhados das casas conforme seguiam viagem. Depois se notava a ausência de qualquer som no cimo das montanhas, constantemente interrompido pelo vento gelado, que quase cortava o rosto ainda machucado de Anatolyi. O trenó deslizava nas encostas e eles viam passar por ele, cem vezes mais rápido, as árvores ao longe. Mergulhava velozmente naquele manto branco que cobria o chão. Ao longe se podia ver a casa de Valentin, conforme o mesmo havia confirmado, no meio do nada, completamente isolada. Misha e Sasha haviam cochilado no banco de trás. Anatolyi os acorda para avisar que haviam chegado.
- Peço que entrem, por favor.
Anatolyi e seus irmãos entram acanhadamente e logo miram a casa e todos os seus cantos. Não havia muitos móveis e era bem rústica. Não tinha os aparatos da vida moderna.
- Olá meu amor.
- Hã? Não vai me dizer que...
Anatolyi se espantou com a presença de uma mulher ali. Era uma moça de estatura normal e esbelta. Seus cabelos castanho-claros eram longos, porém amarrados, e aparentemente mais curtos que os de Valentin. Vestia um vestido azul claro que lhe cobria até os joelhos. Trajava também botas de carmuça marrom com fivelas pretas e luvas negras nas mãos. Era muito bonita.
- Exatamente, Anatolyi. Essa é minha esposa, Larisa. Este é Anatolyi, o garoto que lhe falei. E aqueles são seus irmãos, Misha e Sasha.
- Como está, Anatolyi? Muito prazer em conhecê-lo.
- Eu estou bem, acho. Muito prazer em conhecê-la também. Nossa. Não tinha passado pela minha cabeça que era casado. Porque, não sei, imaginei que os Cavaleiros não tinham tempo para se dedicar a uma vida normal.
- Bem, quando eu e Valentin nos casamos, havia algum tempo que os Cavaleiros não entravam em guerra. Fomos autorizados pelo Mestre do Santuário a nos casar e, inclusive, foi ele quem realizou o nosso casamento.
- Exatamente. Como você mesmo imaginava, Anatolyi, não é comum Cavaleiros se casarem, porque temos muitas tarefas. Mas como estamos em paz há muito tempo, o Mestre não viu problema nenhum e nos abençoou.
- Esse Mestre, ele é o governante do Santuário?
- Ele está atrás somente de Atena.
Sasha e Misha estavam brincando no tapete da sala até alguns minutos atrás. Sasha ouviu um barulho de porta se abrindo e foi ver quem era.
- Pois não?
- Hã? Quem é Você? O que faz aqui na minha casa, garotinho?
- Sou Misha, prazer!
A menina que estava na porta olha por cima da cabeça e vê Valentin. Um sorriso lhe abre sobre o rosto e vai ate lá, correndo e depois saltando sobre ele.
- Papai! Você voltou!
Anatolyi fica embasbacado com aquela cena. Uma menina, aparentemente da mesma idade que ele, e muito bonita por sinal, havia abraçado Valentin e o chamado de pai. Quantos anos Valentin têm? Ele aparenta ser tão jovem.
- Quem são esses aí, pai?
- Raisa, este aqui é Anatolyi e aqueles dois ali são seus irmãos, Sasha e Misha. Eles ficarão aqui em casa por um tempo.
Raisa tinha os cabelos loiros e lisos, bem curtinhos, na altura do ombro. Vestia um casado pesado, gorro e luvas grossas, bem como uma bota de neve. Ela tira o casaco e estava fitando a Anatolyi que estava um pouco acanhado.
- Oi, Raisa. Muito prazer. Desculpe-me se estou causando algum incomodo.
Raisa não respondeu e continuou olhando-o com desconfiança. Anatolyi não sabia mais o que dizer e manteve o sorriso no rosto depois do cumprimento.
- Pai, já vou dizendo que não vou dar meu quarto pra eles.
- Não se preocupe, Raisa. Eu e Anatolyi já estamos partindo de viagem.
- Já vai embora, papai?
- Como assim, Sr. Valentin?
- Lembra-se daquilo que lhe disse sobre a constelação de Cisne? Aliás, voce mesmo pôde notar, com seus próprios olhos. Ela esteve lhe protegendo esse tempo todo.
- Lembro. Mas o que tem isso?
- Os cavaleiros têm um corpo frágil como o de qualquer humano. O que nos protege das nossas técnicas destrutivas são nossas armaduras. Portanto, Anatolyi, se você for merecedor dela, nós vamos agora mesmo tentar buscar a sua armadura. A Armadura de Bronze de Cisne.
