Anatolyi, Valentin e Raisa seguiam até algum lugar ainda não revelado. Raisa havia pedido a seu pai para ir junto com eles, pois alegava estar muito curiosa para ver a Armadura de Bronze de Cisne, que todos julgavam perdida. Seu pai a autorizou e ela veio junto.
Já fazia algum tempo que estavam andando, Anatolyi imaginava que eles estavam andando há mais ou menos quatro horas. Valentin manteve-se calado este tempo todo. Quando Anatolyi virava seu rosto para trás, via que suas pegadas na neve já alcançavam o horizonte. Aquela região da Sibéria era muito acidentada, com muitos montes e paredes de pedra imensas, parcial ou totalmente cobertas pela neve depositada por muitos anos. A tundra, que ocupava todo aquele lugar durante o verão, agora, no inverno, estava quase imperceptível.
Anatolyi, por algumas vezes, olhava para Raisa. Todas as vezes que ele olhava, ela respondia imediatamente com um olhar frio. Anatolyi não conseguia imaginar o que aqueles olhos estavam tentando lhe dizer, o que significava aquele olhar. Como eles estavam só andando, e, aparentemente, ainda faltava muito para chegar ao lugar que Valentin prometeu levar-lhes, resolveu iniciar um diálogo para tentar conhecer melhor Raisa.
- Oi, er... Raisa. Sabe onde seu pai está nos levando? Parece que ele não quer me dizer...
Rompendo aquele clima, de forma bastante natural, Raisa respondeu aquela pergunta, para surpresa de Anatolyi, que se sentiu aliviado.
- Como meu pai disse, vamos até onde está a Armadura de Bronze de Cisne. Eu não sei onde ela está exatamente, somente o meu pai sabe. No entanto, eu sei que ela se encontra no interior de uma imensa parede de gelo eterna.
- Entendo. Você também possui uma armadura, Raisa?
Ela enrijeceu a sua tez e pareceu um pouco tensa com aquela pergunta. Porém, isso durou apenas um instante, mudando, no momento seguinte, para o mesmo rosto de frieza.
- Não. Treinei a vida toda com meu pai, adquiri a força de uma amazona, despertei o meu cosmos e aprendi quase todas as técnicas de meu pai. No entanto, meu pai não me nomeou uma amazona. Você será, provavelmente, o segundo Cavaleiro a ser nomeado por meu pai. O outro foi Evgeny, que treinou comigo e se tornou Cavaleiro de Prata de Coroa Boreal.
Anatolyi sentiu que a situação estava criando certa mágoa em Raisa. Imaginava que ela o estava odiando profundamente. E até concordava que aquilo que estava pra acontecer era uma injustiça. No entanto, inesperadamente, ela lhe mostrou um sorriso que embelezou bastante o seu rosto delicado.
- Não se preocupe, Anatolyi. Tudo dará certo.
Anatolyi ficou confuso com aquela frase. No entanto, antes que pudesse questionar-lhe, Valentin os interrompeu.
- Chegamos, esta é a Parede de Gelo Eterno.
Era um monte não muito alto feito de gelo semi-opaco, como um iceberg sobre a terra. Os raios de sol, que acabaram de aparecer no horizonte, refletiam as luzes e atrapalhavam parcialmente a vista de Anatolyi.
- Se prestarem muita atenção, poderão ver a Armadura de Cisne em seu interior. Para conseguí-la é necessário destruir esta parede.
Anatolyi esforça-se e vê um baú exatamente como ele havia visto na noite do dia anterior, quando Valentin mostrou sua armadura de Aquário. Entretanto, aquele baú era prateado. Em alto-relevo notava-se uma imagem que lembrava um cisne, bastante imponente.
- Sr. Valentin, sei que o que vou dizer agora será um desapontamento para o senhor. No entanto, já havia repetido isso várias vezes antes e não mudei de idéia agora que vi a armadura de Cisne, nem sequer me senti tentado em buscá-la no interior desta parede de gelo.
Valentin permanecia calado, com os olhos fechados. Parecia muito tenso, mas ao mesmo tempo preocupado e confuso.
- Anatolyi, não consigo compreender. A constelação de Cisne o escolheu, Atena o escolheu. Não se sente honrado? Ademais, como pretende proteger o seu corpo do ataque dos guerreiros de Hera? É o seu destino, por que quer fugir dele?
- Se quer saber, lhe contarei. Não acredito em deuses, não acredito em destino. Eu tenho meu livre arbítrio, eu tenho minhas convicções, eu tenho meus princípios, eu tenho minhas liberdades. Por que vou abandonar tudo isso, vestir essa armadura e me legitimar como servo de um deus grego? Logo aqueles deuses cheios de vaidades, deuses arrogantes, deuses...
- Basta, Anatolyi! Você está blasfemando! Pare com isso ou sofrerá conseqüências.
- Sr. Valentin, não convém querer me calar com ameaças. O fato é que o senhor não pode me obrigar a fazer algo que eu não quero fazer. Pode me julgar estúpido, pode me chamar de inconseqüente. Eu não me importo, tenho total convicção.
Os dois nem perceberam quando Raisa, por trás deles, atacou a parede de gelo eterno com um soco certeiro. Ambos viraram-se com o barulho do ar se deslocando e os punhos da menina acertando a geleira.
E a parede cedeu. Varios cubos de gelo das mais diversas formas foram lançados em todas as direções a uma velocidade impressionante. E lá estava, novamente em contato com o ar, a armadura de bronze de cisne.
Ela conseguiu, ela destruiu a parede ao qual somente o merecedor da armadura conseguiria destruir.
A armadura estava lá no meio do gelo, inanimada, bem diferente da armadura de ouro de aquário quando Valentin a vestiu. Não emanava energia alguma. Muito contente por seu feito, e bastante ansiosa, Raisa gritou para a armadura.
- Vem!
Porém, nada acontecia. O baú sequer se abriu.
- Raisa, você é forte como um cavaleiro, e eu sempre lhe disse isso. Porém, esta armadura não é sua. A armadura de cisne não a protegerá.
- Mas... isso é impossível! Eu destruí a parede, ela é minha!
- Não é essa a lógica, Raisa. Você deve merecer a armadura, ela deve reconhecê-la como sua dona.
- Sr. Valentin, da mesma forma que ela não aceitou Raisa como sua dona, ela também não me aceitou tampouco. Por isso, nem se eu quisesse, não poderia vesti-la. E jamais a vestirei, porque vesti-la seria o símbolo de minha resignação, significaria que eu aceitei me tornar servo dos caprichos de uma deusa pagã. Uma máquina irracional de batalha, um mero instrumento descartável. Sou um ser humano, renego a isso.
O baú da armadura se abre e mostra um objeto em forma de um cisne. No entanto, muito diferente da armadura de aquário da outra vez, esta armadura mostrava um cosmos agressivo, demonstrava ódio. E esse cosmos estava voltado para Anatolyi. Nesse momento, Valentin cerrava com muita força seus pulsos e rangia os dentes. Seu cosmos estava tão irritado como a armadura de Cisne. Raisa estava muito confusa com o que estava acontecendo.
Anatolyi instintivamente virou-se de costas. Havia sentido uma cosmos energia diferente.
Atrás dele havia um objeto também, sobre a neve, com um baú recém aberto. Era também uma armadura de cisne. Outra armadura de cisne? Essa armadura era diferente da outra que estava na parede de gelo.
Essa armadura era negra. Uma armadura em forma de um cisne negro. O objeto se desmancha e se veste em Anatolyi.
- O que significa isso? Que armadura é essa?
Valentin olha para Anatolyi com um olhar furioso. As veias de seus olhos se mostravam vermelhas em seus globos oculares, bem como saltando a testa e os braços. Uma violenta nevasca se forma e Anatolyi se mantem de pé com muito esforço.
- IDIOTA! ANATOLYI, VOCÊ É UM IDIOTA!
Valentim destrói com seu cosmos o que havia sobrado da parede de gelo eterno e o baú com a armadura de cisne cai aos pés de Raisa. Ainda em seu acesso de fúria, esmurra violentamente o chão. Um terremoto treme toda a terra. Os cisnes que voavam nos céus ficaram agitados e começaram a voar para direções aleatórias, totalmente desorientados. Uma fenda no chão se abre e vai parar próxima aos pés de Anatolyi. Raisa fica assustada, pois nunca viu o seu pai assim.
- VOCÊ, ANATOLYI, AO RENEGAR ATENA, SE TORNOU UM PÁRIA! UM CAVALEIRO NEGRO! IDIOTA!
Valentin suspende o seu cosmos. Ele está muito decepcionado, mas não convém a um cavaleiro de ouro demonstrar sua raiva dessa forma. Recuperou a compostura e virou o rosto.
- O que quer dizer isso?
Raisa, agora mais calma, porém preocupada, se prontificou a respondê-lo.
- Anatolyi, os Cavaleiros Negros são pessoas ambiciosas que lutam por interesses pessoais. São cavaleiros renegados pelo Santuário e por Atena. Não o conhecia ainda direito, mas esperava algo totalmente de você.
- Anatolyi, entenda que eu, como Cavaleiro de Ouro, terei obrigação de destruí-lo, caso receba tal ordem do Santuário. Você tinha potencial, poderia ter se tornado um cavaleiro de Atena. Mas preferiu lutar por interesses próprios e foi amaldiçoado com uma armadura negra.
- Pois eu digo que essa armadura me veio a calhar, já que agora poderei, ao menos, me proteger com ela. E a minha família, se for o caso. E, além de tudo isso, não tenho obrigação alguma com Atena ou qualquer outro deus. Ou com ninguém.
- Hahaha que decepção, Cavaleiro de Aquário!
Um vulto surge do oeste, um cosmos maligno, conhecido dos dois cavaleiros. Era Apostolis quem retornava, tão imponente como da outra vez. As chamas que saiam de seu corpo refletiam-se na neve e mudava a cor do ambiente. O Guerreiro Leo Nemaeus, no entanto, trazia um cadáver, segurando-lhe a cabeça e arrastando seu corpo na neve.
- O seu querido aprendiz renegou a Atena e negou-se a serví-la. Isso é patético, uma grande humilhação. Uma vergonha.
- Apostolis... Decerto, não esperava que tivesse morrido com meus ataques.
- Eu nunca morreria com seus ataques, não seja ingênuo.
Apostolis ergue o cadáver, segurando-o com uma mão, pelo crânio, mostrando sua face para Valentin.
- Diga-me, o que significa isso, Valentin? É alguma brincadeira de mau gosto?
Valentin sabia muito bem quem era aquele.
- Este é Kyriakos, Cavaleiro de Prata de Hércules.
- Exatamente!
Pacientemente, Apostolis larga aquele cadáver no caminho e se aproxima lentamente de Valentin.
- Não vai me dizer que mandaram este cavaleiro para se sacrificar, é isso? O Santuário, por acaso, acha que eu sou um idiota para confundir o lendário Hércules reencarnado com um mero cavaleiro de prata protegido por uma constelação que apenas o representa?
- O Mestre do Santuário sabe muito bem que Kyriakos era apenas um cavaleiro de prata, jamais o confundiria com Hércules reencarnado. Por mais que a constelação de Hercules represente o poder do mesmo, o poder de um Cavaleiro vem de Atena, não de Hercules.
- E volto eu ao início e lhe pergunto se isso é alguma brincadeira de mau gosto. Ou acaso vocês do Santuário julgam-me um idiota? Ou fraco demais a ponto de ser derrotado por um cavaleiro de prata?
- Imagino eu que quem enviou Kyriacos para a morte foi algum dos generais subalternos ao Grande Mestre. Aparentemente sem o aval do mesmo, que certamente enviaria um Cavaleiro de Ouro ao invés de um Cavaleiro de Prata.
- Cavaleiro de ouro, de prata. Poderia mandar todos os 88 cavaleiros de Atena lutarem contra mim. Eu empilharei todos os seus cadáveres no Santuário de Atena.
- Não se esqueça que Hércules é um dos 88 Cavaleiros.
- Pouco me importa. Matarei Hercules e me vingarei da derrota nos tempos mitológicos.
Apostolis abre as mãos e mostra a ele os cinco dedos, um a um, conforme cita os nomes:
- Coroa Boreal, Hercules, Lince, Peixe Astral e Unicórnio. Cinco cavaleiros mortos até agora por mim. E nesse momento matarei o primeiro Cavaleiro de Ouro.
Apostolis, com um sorriso de confiança no rosto, olhava com deboche para Valentin. Num momento depois, vira o rosto e olha para Anatolyi.
- Querem saber por que tive que me ausentar na outra luta?
- Não me interessa, Guerreiro de Hera. Não tenho mais o que conversar com você. Cessarei suas matanças sem sentido neste momento.
- Acalme-se, Aquário. O que direi é muito interessante. No exato momento da luta, Hera me chamou com extrema urgência. O oráculo havia transmitido uma informação valiosíssima e eu deveria me inteirar naquela mesma hora.
- Por acaso descobriram quem é a reencarnação de Hércules?
Anatolyi, Raisa e Valentin ficam apreensivos. Apostolis move sua mão e aponta para Anatolyi. Este toma um susto. Mas antes que especulasse qualquer coisa, Apostolis passou a sua informação.
- Você é forte demais para um aprendiz de cavaleiro, forte demais para alguém que nunca teve um treinamento sequer. O seu cosmos é inato, provém da alma que está portando. Você não é um humano comum, sequer um Cavaleiro Comum.
Valentin e Raisa olham com uma tremenda surpresa para Anatolyi. Valentin, particularmente, estava muito espantado.
- Não, ele não é a reencarnação de Hércules, caso seja isso que estão pensando. Porém, ainda assim tenho um motivo muito especial para matá-lo. O que o oráculo revelou é que esse garoto é a reencarnação de um herói divino de Tebas, famoso por, em parceria com Hércules, completar os Doze Trabalhos. Este garoto é a reencarnação do filho de Iphicles e Automedusa, sobrinho de Hercules. Este garoto é, na verdade, a reencarnação de Iolaus.
