Anatolyi mirava os olhos de Apostolis, mas, na verdade, parecia olhar para o nada. Sua boca estava um pouco aberta. Gotas de suor corriam por sua testa, mesmo com aquela temperatura fria. Suas sobrancelhas estavam levemente erguidas e os olhos bem abertos. Suas mãos tremiam.

- Eu sou um herói reencarnado? Impossível, deve haver algum engano.

Raisa estava confusa com todos os eventos e informações novas. A tão cobiçada armadura de Cisne, a qual esperava ter a chance de trajar por tanto tempo, havia escolhido um garoto que, por sua vez, rejeitou a armadura. Deveria haver alguma forma de conseguir a aceitação da armadura, afinal era apenas uma armadura de bronze, e Raisa sempre jurou defender Atena. Talvez o que lhe faltava seria uma nova demonstração da sua cosmo-energia. Talvez se ela lutasse com aquele guerreiro, ela poderia ser nomeada uma amazona.

Apostolis, que tinha sua atenção voltada para Iolaus, confirmou a informação que trazia. Seus lábios estavam arqueados do lado esquerdo de sua face, demonstrando total desprezo e o rosto um pouco inclinado para trás.

- Não há engano nenhum, garoto. O oráculo não mente.

- Impossível. Eu tenho pleno controle na minha vida, tenho consciência própria, não, eu sou diferente. Isso está errado.

Apesar das evidências, Anatolyi estava em negação. Realmente, ele tinha potencial além do que qualquer humano comum e capacidade de evolução e crescimento do cosmos semelhante ou até superior a dos cavaleiros. No entanto, ele não podia acreditar naquilo. Além de tudo isso, a armadura negra o havia protegido, prova máxima de que não possui a pureza de espírito e reverência aos deuses de um herói grego.

Todos os pensamentos de Anatolyi foram interrompidos, como se os houvessem lido.

- Não se preocupe. Terá muito tempo para tentar encontrar sentido na sua vida e refletir sobre como as coisas deveriam ser no outro mundo.

Valentin se põe a frente de Apostolis e o olhava de forma severa.

- Espere. Eu sou o seu adversário, Apostolis. Não encostará um dedo em Anatolyi sem antes me derrotar.

O Guerreiro Nemaeus Leo apenas cerra os olhos. Em seguida, demonstrou mais ainda sua indiferença.

- Está bem, Cavaleiro de Aquário. De fato, eu já imaginava que fosse proteger seu discípulo, mesmo tendo ele se tornado um cavaleiro negro, e trouxe reforços, de maneira que ele não fuja daqui durante nosso combate.

- Reforços?

- Venham Harpias!

Do céu, se escutam silvos ao longe, vários deles. O barulho de asas cortando o vento se aproximava na altitude, por entre as nuvens acinzentadas que cobriam os céus. Cada vez mais se aproximavam. Através de um dos feixes de luz do sol, que conseguiam atravessar as nuvens em direção a neve abaixo da tundra, surgem três meninas, adolescentes como Raisa e Anatolyi.

Elas possuíam asas enormes que saltavam de suas costas e armaduras idênticas, porem de cores diferentes. As três voavam como se estivessem traçando a forma de mechas de cabelo imaginárias que faziam uma imensa trança no céu. Junto com o vento, que esvoaçou o cabelo de todos, as três pousam atrás de Valentin e a frente de Raisa e Anatolyi. Uma delas vira parcialmente o rosto para Apostolis.

- Estamos ao seu dispor, mestre Apostolis.

- Aelo, Ocípite e Celeno, prestem bastante atenção. O menino é a reencarnação de um semi-deus e veste uma armadura negra. No entanto, não despertou seu poder e nunca foi treinado para combates. A menina foi treinada por um Cavaleiro de Ouro e possui, aparentemente, a força de uma amazona de bronze. Porém, foi rejeitada pela Armadura de Cisne. Imagino que não terão problema algum em derrotá-los.

Olhando por cima de seus ombros, demonstrando certa tensão, Valentin olha para as três harpias. Sabe que seria muito difícil conseguir lutar contra quatro guerreiros ao mesmo tempo. Ele se vira para Anatolyi e fala de forma séria.

- Anatolyi, não poderei te ajudar dessa vez. E, agora que se tornou um cavaleiro negro, talvez eu não o ajude nunca mais.

Anatolyi entende perfeitamente o que Valentin lhe disse. Sentiu como se tivessem, nesse momento, rompido os laços. Anatolyi sente muito, já que não considerava ter feito algo que magoasse pessoalmente a Valentin. No entanto, entende que os Cavaleiros não são dados a impor seus gostos pessoais sobre seus princípios, e que por isso, faz todo sentido esse rompimento.

Valentin agora vira para sua filha. Suas pálpebras se erguem e seu olhar se torna perdido. Demonstrava certa melancolia.

- Raisa, eu não queria que se tornasse uma amazona, apesar de tê-la treinado para tal. Não queria que morresse em combate, gostaria que tivesse uma vida normal. Agora que estamos em uma nova guerra, posso perceber que tê-la treinado foi uma decisão sensata.

- Pai, eu entendo sua preocupação, mas o senhor não pode querer escolher o que devo ser. Sabe muito bem que eu quero ser uma Amazona e proteger Atena. E o Senhor sabe muito bem que sou forte e merecedora de tal título. Por que se põe em meu caminho?

Valentin abaixa um pouco a cabeça e percebe o quão tolo foi. Escolheu alguém que julgava ter potencial para se tornar o Cavaleiro de Cisne e que, no final, acabou frustrando suas esperanças e renegando Atena e a armadura sagrada. Por outro lado, negou à sua filha, que tanto quis ser uma Amazona, a honra que sempre quis: a de se tornar a Amazona de Cisne.

- Raisa, eu sou o Cavaleiro a quem Atena confiou a escolha do próximo Cavaleiro de Cisne. Antes dessa escolha a armadura não pode vestir-se em ninguém. Neste momento eu tomei uma nova decisão. Vá, Armadura de Cisne!

A Armadura de Cisne brilha em uma forte luz azul. O objeto se separa em várias partes: botas, saiote, peitoral, ombros, braços e tiara. Todas elas, uma a uma, vão em direção a Raisa e a vestem.

Raisa agora é a Amazona de Cisne.

Ela olhava para suas mãos e braços, agora revestidos pela armadura, com um certo sorriso contido. Apesar de rejubilar-se em seu interior, sabia que aquele não era o momento para tal. Uma das Harpias, a com armadura azul, se aproximava.

- Feh... não pense que o fato de estar vestindo uma armadura de bronze mudará o resultado de nosso iminente combate. Eu, Aelo, a Harpia, serei a sua adversária.

A harpia de armadura verde vai em direção a Anatolyi.

- Irmã, então ficarei com o Cavaleiro Negro. Sou Ocípite, a Harpia.

A terceira, de armadura negra, mantém-se atrás das suas irmãs e de costas para o cavaleiro de Aquário.

Apostolis e Valentin já sabiam, parcialmente, a capacidade um do outro. Já sabiam o que esperar do adversário. Neste momento, ambos liberavam uma energia imensa, de forma a demonstrar ao outro o quão forte são.

Valentin avança contra Apostolis e soca seu rosto. O Leão tenta desviar, mas sente ser atingido de raspão. Ele segura o braço do Cavaleiro de Ouro, que tenta resistir ao puxão, mas tem suas pernas atingidas por um chute e perde o equilíbrio.

Apostolis aproveita-se do impulso da queda e arremessa Aquario no ar. No segundo em que soltava Valentin, este, com o braço livre conseguiu tocar os braços de Apostolis.

Valentin tentava conter o impulso do arremesso, de forma a cair de pé. Os braços de Apostolis se congelavam aos poucos, das mãos aos ombros.

- O quê?!

- Pó de Diamante!

O vento frio sopra violentamente contra o corpo de Apostolis, que recebe em cheio o ataque. O Guerreiro ainda consegue liberar os seus braços do gelo e defender parcialmente o golpe, agora de joelhos. O sangue escorre de sua boca.

Ocípite voa rapidamente para cima de Anatolyi, que mal a vê acertar-lhe um potente soco no rosto com o punho direito, um segundo com o esquerdo e uma forte joelhada no estômago, que faz com que o cavaleiro negro vomite uma grande quantidade de sangue e sua vista embaçe.

Anatolyi gira no ar enquanto cai, de forma a ver a harpia de perfil, e olha nos olhos da Harpia. Seu punho corta o vento enquanto lança seu golpe.

- Pó de Diamante!

A Harpia se esquiva facilmente e, após Anatolyi cair de costas no chão, vai para cima dele para pisoteá-lo. Anatolyi gira no chão, enquanto uma cratera se abre do seu lado.

O Cavaleiro Negro segura a perna da harpia e, concentrando toda a sua energia, tenta congelá-la ao chão.

- É inútil, seu vento gelado é ridículo se comparado ao do Cavaleiro de Aquário. Solte a minha perna. Mas... o quê?

Apesar de tudo o que a Harpia disse, Anatolyi congelou seu pé esquerdo no chão. E ela não conseguia soltá-lo. Ele se levanta.

- Não me subestime, sua maldita.

E cospe uma última porção de sangue que ainda estava em sua boca enquanto olha para a Harpia tentando soltar-se do chão.

- É você quem não deve me subestimar, cavaleiro negro. Morra! Elevação Célere!!!

Anatolyi rapidamente sente uma poderosa ventania o erguer do chão, como se estivesse vindo do solo. O Cavaleiro Negro é arremessado para o alto perpendicularmente ao solo, muito rapidamente, até os céus, enquanto sofre severos ataques no interior daquele cilindro de ar. Sua pele sofre diversas escoriações e ele é muito ferido antes de ser violentamente jogado ao solo.

Levantando-se com dificuldade, ele vê a harpia se livrando somente agora do gelo e, novamente, voando em sua direção. A única imagem que Anatolyi vê é a da perna da harpia acertando seu queixo e o fazendo rodopiar no ar, caindo vários metros a frente.

Um pouco mais atrás de Ocípite, Raisa não estava olhando para Aelo, a sua adversária, mas sim para a terceira harpia, Celeno.

- Não se preocupe, Amazona. Celeno não se intrometerá neste combate, será só eu e você.

- Saia da minha frente, Aelo, você não é páreo para mim.

A harpia gargalha muito alto, consumindo todo o ar dos seus pulmões.

- Acha mesmo que só porque vestiu uma armadura de bronze será mesmo páreo para mim? Está delirando.

- Você não seria adversária para mim nem se eu estivesse nua.

- Veremos, Amazona de Cisne! Fúria de Trovões!

Vários raios saim da mão da harpia conforme ela apontava a palma de suas mãos para Raisa. Todos eles seguiam em direção da Amazona de Cisne, um após o outro.

Raisa olhou para o primeiro raio, com bastante atenção. No instante final ela se esquivou do primeiro deles, movendo o seu corpo para o lado. No momento seguinte ela se esquiva calmamente do segundo enquanto avança e vai desviando de todos os outros.

A harpia range os dentes, se desesperando e lançando cada vez mais raios. Porém, nenhum consegue atingir Raisa, que agora estava a menos de 3 metros da harpia. A Harpia deu dois passos para trás, mas já era tarde.

Raisa estava com seu nariz a alguns centímetros do da harpia e, subitamente, pois as palmas das mãos na região das orelhas da harpia, segurando sua cabeça, e desferiu-lhe um violento golpe com a cabeça.

Desnorteada, ela põe a mão na região do golpe e mantém-se alguns segundos apertando o lugar onde sentia muita dor. Ergue a cabeça e procura a Amazona, não a encontrando até olhar para os céus.

- Trovão Aurora Ataque!

E essa foi a última visão de Aelo, a Harpia. Ela morre em seguida.