A harpia Aelo fora coberta completamente pelo ataque de Raisa, mal podendo enxergá-la por detrás dos grandes pedaços de neve e gelo que caíram violentamente vindos de onde estava sua adversária. Não houve tempo para tentar esquivar-se ou defender-se, restando apenas recuar o pouco que pôde, recebendo toda a ofensiva abertamente.
No instante seguinte, Aelo estava no chão, sem vida, coberta quase que totalmente pela neve. Sua pele estava pálida, sua armadura praticamente destruída. Seu rosto expressava tão somente a surpresa. Aparentemente não teve tempo de sentir o terror da morte se aproximando.
Ocípite olhava para Raisa e tentava entender de onde havia vindo tanto poder. Esquecera, inclusive, do combate, aparentemente terminado, com o Cavaleiro Negro. Sua atenção estava voltada para a Amazona de Cisne que, imponente, aterrissava no chão. Pernas semi-flexionadas, corpo inclinado para frente, olhos cerrados. A harpia estava distraída, tentando explicar mentalmente o porquê de uma amazona de bronze possuir tamanha força.
- Preste atenção no seu combate.
Raisa não só percebeu que estava sendo encarada por Ocípite, como também percebeu que Anatolyi havia se erguido novamente.
Agora era o momento de lutar contra a terceira harpia.
- Não sou tão descuidada como Aelo.
- Isso não me interessa.
- Que seja. Sinta na pele o preço de sua arrogância.
Ondas negras circundam Celeno e se espalham pelo ar, como o efeito de uma pedra que cai em um lago. Essas ondas escurecem o ambiente e seguem em linha reta até o horizonte.
Raisa não espera ser atacada e avança velozmente contra a harpia, tentando acertar-lhe com um chute.
Celeno defende com uma das mãos. Com a outra, a que gerava as ondas, ela acumulava uma bola de energia púrpura.
- Arrebatamento das Trevas!
Aproveitando a proximidade da Amazona de Cisne, Celeno a atinge no estomago. Com o impacto, o cenário escurece por alguns instantes, como se toda a iluminação natural houvesse sumido, e Raisa é lançada para o alto.
Raisa não pôde calcular a força daquele impacto. Sente seu corpo paralisar-se. Não podia mexer um dedo.
Caiu violentamente no chão, formando um buraco com alguns metros de profundidade.
- Que tipo de amazona é você que ataca diretamente sem saber a força do inimigo?
Raisa ergue bem devagar as costas, sentando com dificuldade no chão. Cambaleia um pouco a coluna e, com as duas mãos na neve, apóia-se no chão. Ergue o queixo e olha para Celeno com um sorriso no rosto.
- Do que está rindo?
- Eu não estava só atacando, estúpida. Olhe ao seu redor.
- Mas o quê?
Círculos de gelo giravam em torno de Celeno. Ela não podia se mover, por mais que se esforçasse.
- Não adianta, você está presa no Koliso.
Raisa achou que havia suportado o golpe. No entanto, ela sente o corpo doer, e cobre o estomago com as mãos. Cai no chão, sofrendo as conseqüências do golpe sofrido.
- De que adianta me prender? Eu lhe feri mortalmente. Basta apenas me livrar desta técnica para acabar com sua vida, amazona.
Raisa ergue-se do chão e, de pé, cambaleia na direção de Celeno.
- Não terá tempo para se libertar.
O Cavaleiro Negro havia apanhado um bocado desde que imergira neste universo da Cavalaria Pagã. Já estava cansado, era hora de revidar de alguma forma. No entanto, agora que possuía uma armadura, pôde notar que as técnicas aplicadas contra ela não surtiam tanto efeito como antes. Somou a isso a possibilidade de estar evoluindo na compreensão e domínio daquilo que chamavam de cosmo. Concluiu que, após tantas surras, se tornou mais experiente e que talvez agora fosse a hora de provar que realmente era forte.
Ocípite, que antes encarava Raisa, agora voltava seus olhos para Anatolyi. O garoto estava de pé novamente, apesar de ter lançado uma técnica mortal. Apesar da perplexidade, ela ainda era mais forte que um mero cavaleiro negro sem treinamento. Entretanto, ele era o receptáculo de um semideus ainda não desperto. Se demorasse demais para derrotá-lo, poderia despertar completamente.
Sem perder mais tempo, novamente a harpia tentou um ataque frontal. Emitindo um grito terrível ela voava e planava contra Anatolyi a uma velocidade próxima ao mach 1, talvez mais rápido. Seus punhos preparavam para desferir um poderoso soco ao qual ela julgava ser suficiente para esmigalhar os ossos do cavaleiro.
- Morra!
Anatolyi saltou.
Ocípite travou seu impulso, com um forte impacto no ar, e tentou virar seus punhos para o novo espaço que Anatolyi ocupava no ar. Era tarde
Com o joelho, ele atingiu o queixo da harpia. O belo rosto juvenil se deformava enquanto seu corpo era lançado, dando uma volta quase completa no ar. Ela cai um pouco mais a frente, de costas e asas no chão.
Põe a mão na boca. Lágrimas caem involuntariamente de seus olhos. O sangue escorre por entre os dedos e três dentes são cuspidos de sua boca.
Sem que ela percebesse, Anatolyi senta sobre o ventre da harpia e olha de perto o estrago que fez. Ocípite se revolta e tenta derrubá-lo de cima dela, mas estava presa em uma posição de submissão.
Anatolyi admirava-lhe o rosto destruído, com um olhar de desprezo.
- Nunca imaginei que algum dia esmigalharia dessa forma o rosto de uma menina. Mas não tenho remorso algum. Você tentou me matar.
Vermelha de fúria, Ocípite tenta erguer-se com Anatolyi sobre ela. Não consegue, e nem suas asas lhes são úteis, pois estão presas as pernas do Cavaleiro Negro. Ela estava à mercê de Anatolyi.
A harpia tenta acertar socos em Anatolyi, mas aquela posição humilhante em que se encontrava a impedia de acertar golpes certeiros, possibilitando ao Cavaleiro Negro, enfim, segurar-lhe os braços e prendê-la de vez.
Estava completamente presa e não conseguia soltar-se.
- O que foi? Nunca foi contida desta forma por um homem?
- Me solte, miserável!
Ela tentava de todas as formas liberar as pernas, braços e asas. Era impossível. Era uma perfeita técnica de submissão.
- Maldito! Maldito! Solte-me! Você não pode me humilhar assim! Eu sou uma harpia!
A harpia cerrava os olhos e as lagrimas continuaram a cair. Ela, uma experiente guerreira, temida desde os tempos mitológicos, não podia mover-se. Também não era atacada.
- Você até que era bonitinha antes de eu ter destruído seus dentes. Mas eu sei que, por trás deste rostinho de ninfa existe um monstro horrível.
A harpia bufava. Seus seios se contraiam para frente e para trás, conforme arqueava e recuava o tórax. O suor lhe escorria pelo rosto. Anatolyi fechou os olhos e sorriu.
- Não se preocupe, está livre agora.
Anatolyi sai de cima dela. Rapidamente Ocípite ergue-se do chão e avança em fúria para matá-lo.
- Miserável!
Não pôde mais seguir em frente.
A mão direita de Anatolyi segurava-lhe a face. Aquela reação durou apenas alguns instantes, largando o local e afastando alguns passos.
- O que foi que você...
A harpia não pôde completar a frase. Seu rosto cobriu-se com uma camada de gelo. Um gelo opaco e escuro.
Ela arranhava aquela mascara e nada acontecia. Seus dedos apenas deslizavam pelo gelo. Era duro demais. Ela não conseguia enxergar através daquilo. Pior: ela não conseguia respirar.
Ocípite tenta cravar suas garras no gelo e nada consegue. Desespera-se com a situação. Ergue vôo e plana em espiral para o céu. Em seguida cai de costas no chão e bate as pernas e braços como uma barata.
- Não adianta. A Máscara de Gelo não só congela a face, como todo o aparelho respiratório. Morrerá da forma mais terrível: por sufocamento.
A harpia continua a debater-se no chão. Com o pouco de força que restou, aparentemente tenta atacar Anatolyi. Mas não tem a mínima noção de onde ele está. E acaba, apenas por gastar inutilmente as forças que lhe restam.
Por fim, ela cai de bruços no chão. Tenta arrastar-se, quase que pedindo por clemência. Mas não conseguia emitir som algum. Por fim, ela para de se mexer.
Estava morta.
Valentin, agora, estava defendendo a Fúria do Leão, que Apostolis havia lançado.
Os milhões de golpes, seguidos por sons altíssimos de ar se rasgando, como rugidos de um leão, eram aparados um a um.
- Não adianta, sabe muito bem que um golpe não funciona duas vezes contra um Cavaleiro.
Apostolis percebe que o Cavaleiro de Aquário havia mesmo assimilado seu mais poderoso golpe.
- Nesse caso, encontrarei uma forma alternativa de matá-lo.
- Não. Este combate encerra-se agora.
- Como?
Valentin havia erguido os punhos para o céu. Apostolis encarava aqueles movimentos e percebia que não era o Pó de Diamante, nem o Trovão Aurora que a Amazona de Cisne havia lançado há pouco tempo.
Por trás de Valentin aparecia uma imagem de uma mulher com um jarro na mão. Conforme o jarro se movia, os punhos do cavaleiro também se inclinavam para frente. Com os dedos entrelaçados agora apontados para o Leão de Nemeia, o Cavaleiro de Aquário lança seu mais poderoso golpe.
- Execução Aurora!
Um feixe de luz atinge em cheio Apostolis. Coberto por raios elétricos, que percorrem seu corpo, e uma neblina gelada, o Leão é lançado para o alto e cai na vertical, com a cabeça em direção ao solo.
Parecia o fim de Apostolis.
No entanto, Valentin percebe que o adversário havia lançado algo em sua direção. Ele havia lançado sua espada.
A arma voava quase a velocidade da luz. Valentin pôde esquivar-se a tempo.
Mas não o suficiente.
O objeto passou próximo ao seu pescoço, cortando-lhe de raspão a jugular.
O sangue esguichava de seu corpo, saindo a uma pressão assustadora. Sua armadura é banhada em sangue, enquanto tenta inutilmente cobrir o local da ferida com as mãos. Logo, um grande perímetro a sua volta estava coberto de sangue.
Raisa, que naquele momento ia desferir o último golpe em Celeno, vira-se desesperadamente para o seu pai.
- Papai!
Valentin cai no chão, coberto por seu próprio sangue. Raisa o segura e, usando seu cosmos, tenta estancar o sangramento com uma técnica curativa, antes que seja tarde.
Neste momento, Celeno consegue livrar-se do Koliso.
- Agora vou acabar com você, Amazona.
Prontamente, Anatolyi surge em sua frente.
- Não. Agora eu sou seu adversário.
