VIII.
Aquela parecia ser a mais forte e prudente das três harpias. Pelo que Anatolyi pôde acompanhar do princípio da luta de Raisa contra Celeno, ela não parecia ser temerária como Aelo nem orgulhosa como Ocípide. De fato, Celeno encarava seriamente o Cavaleiro Negro e parecia analisar com muita propriedade cada movimento ou intenção.
- Sinto interromper o combate, mas agora Raisa parece estar ocupada com assuntos mais importantes.
Celeno continuava séria ao olhar Anatolyi nos olhos, como se buscasse seus mais íntimos segredos, o que estava escondido em sua alma. Anatolyi estava um pouco incomodado com aquilo. Parecia que agora seria um combate muito mais sério.
- Se quer dizer alguma coisa, diga de uma vez.
- Notei que desenvolveu muito bem os seus poderes, Cavaleiro Negro, eu posso senti-los. Portanto, concluí que a única forma de vencê-lo é usando todas as minhas forças. É um adversário de valor e levarei este combate a sério.
A harpia, novamente, cria em sua mão direita a mesma bola de energia púrpura. Como chamas que queimavam sua mão, porém sem causar-lhe queimaduras. O ambiente, ao redor, se escurecia com sua técnica.
Celeno corre na direção de Anatolyi, com a mão recolhida, como se acumulasse poder. E de fato, as chamas cresciam conforme ela se aproximava, alcançando uma dimensão imensa. O Cisne Negro pôde ver o golpe lançado contra Raisa antes, de relance. Mas este agora parecia ser muito mais forte. Celeno queria mesmo matar Anatolyi, sem dar-lhe chance alguma de defender-se.
No entanto, Anatolyi não pensava em se defender ou se esquivar. Ele ia atacá-la ao mesmo tempo. Sua cosmo energia aumentava e se acumulava nas mãos. O ambiente, que antes havia se escurecido, agora estava completamente negro. Nada podia ser visto, a não ser as silhuetas de Anatolyi e Celeno.
- Morra, Cisne Negro! Arrebatamento das Trevas!
- Suas trevas são poderosas. Mas eu também posso controlar a escuridão, e tenho certeza que sou mais competente nisso. Receba a minha Nevasca das Trevas!
Por alguns segundos, tudo esteve em silêncio. O vento gelado atravessava o campo de batalha, assoviando calmamente. O som do cosmos de Raisa, tentando curar seu pai, voltou a ecoar. O sol se punha lentamente no horizonte, diminuindo a pouca luz que recém havia retornado.
Cisne Negro e a Harpia estavam um de costas para o outro, há alguns metros de distância. Não moviam um músculo, porém ainda mantinham-se de pé.
Celeno estava pálida e seus olhos não apresentavam nenhuma vivacidade. Estava morta. Uma grossa camada negra crescia e modelava-se em seu corpo, partindo de sua fronte e espalhando-se. Imensas estalagmites escuras se formaram atrás dela e cresciam em suas costas até transformá-la em um totem bizarro de gelo negro. Mas não pôde se contemplado por muito tempo, pois o gelo e tudo o que estava em seu interior se desfez em milhões de cacos no ar, e a poeira foi carregada pelo vento.
Um sorriso sincero surgiu no rosto de Anatolyi e ele ergueu uma das mãos cerrada no ar, em sinal de comemoração, avisando Raisa de sua vitória. Porém, sua barriga, parte do tórax, braços e coxas estavam com queimaduras gigantes que o cingiam como marcas de ferro quente. Sua carne estava exposta e cauterizada. Emitiu um gemido sutil de dor antes de cair com a cara no gelo.
Com a visão embaçada, Anatolyi pôde enxergar um vulto correndo na direção deles, bastante apressado.
- Feh... Vocês são uma família de cavaleiros, eu deveria supor isso.
Larissa havia chegado ao local e estava junto de Raisa e Valentin, com uma máscara cobrindo-lhe o rosto e portando uma armadura de bronze.
- Hey, você disse que ia proteger meus irmãos, onde eles estão?
- Estão seguros.
Larissa estava preocupada com seu marido. Sentia que seu cosmos estava muito fraco.
- Seguros como? Eles estão sozinhos!
- Já disse: eles estão seguros, não há com o que se preocupar. Aliás, preocupe-se consigo mesmo, por ter vendido sua alma ao diabo, Cavaleiro Negro.
- Droga...
Anatolyi desfalece na neve. Larissa agora tocava Valentin, tentando medir seus sinais vitais.
- Quando senti os cosmos malignos, vim o mais rápido que pude. Ele está muito fraco, pode morrer a qualquer momento. Raisa, fez um bom trabalho, temos que levá-lo antes que seja tarde.
Raisa cai sentada no chão, muito tonta. Sentia agora a dor dos sucessivos ataques que recebeu, e por ter usado quase todo o seu cosmo e energia vital para curar seu pai.
- Raisa, a armadura de Cisne é resistente, mas seu corpo é humano. Precisa descansar também, recuperar-se dos ferimentos. A propósito, parabéns por ter se tornado uma amazona. Eu lhe trouxe uma máscara, tome.
- Mãe, a batalha ainda não acabou.
As duas sentem um cosmo agressivo à frente. Caminhando calmamente, com um olhar assassino, Apostolis vinha na direção delas.
- Esse miserável recebeu a mais forte das técnicas de meu pai, mas se levantou como se tivesse recebido uma leve brisa. Estamos perdidas. Leve papai e Anatolyi com você, eu vou detê-lo nem que seja a última coisa que faça.
- Você não está em condições de lutar. Eu mesma cuidarei disso.
Apostolis sorria para as duas. Apesar das harpias terem falhado, deixaram Raisa e Anatolyi fora de combate. Se um Cavaleiro de Ouro, da mais forte classe dos Cavaleiros de Atena, não pôde detê-lo, nenhuma amazona de bronze o derrotaria.
- Desistam. Não aceitarei nenhum pedido de clemência, morrerão todos. Podem utilizar todos os poderes de gelo que quiserem, nada irá me atingir. Minha armadura é indestrutível, tal qual a pele do Leão de Neméia.
- Eu, Larissa, Amazona de Bronze da Ave do Paraíso, sou a sua adversária agora. E não se preocupe. Apesar de ser russa, eu não fui treinada aqui, mas sim, na China. Não conheço nenhuma técnica relacionada ao frio e essa será a sua condenação eterna.
- Uma Amazona de Bronze... já matei alguns da sua classe, derrotei um cavaleiro de ouro. Não importa quais são as suas técnicas, acabou. Vocês são apenas cadáveres que ainda teimam em querer viver.
Enquanto Apostolis falava, Larissa havia aberto uma garrafa e bebia o líquido em seu interior. Bebia tão rápido que mal tinha tempo de respirar. Engolia tudo de uma vez, derramando uma boa parte também em seu rosto, colo e seios. Em menos de um minuto, a garrafa estava vazia.
- Mãe, você prometeu que não ia mais beber...
Com os olhos turvos, ela encarava Apostolis. Seu corpo inclinava-se para trás, seus pés estavam apenas com as pontas segurando-a na neve. Cambaleava para trás e para frente, como se a qualquer momento fosse cair no chão. As mãos, em posição de ataque, cruzavam o ar entre si, com os punhos tortos e alguns dedos flexionados, girando-os braços no ar. Larissa tinha um olhar bobo e um sorriso esquisito. Limpava a boca com uma das mãos.
- No meu treinamento, eu bebia vinho. Mas nada melhor do que a boa e velha vodka russa. Essa parte fui eu quem adicionou a técnica.
- Idiota. Pretende lutar comigo bêbada?
- Essa é a técnica suprema do Kung Fu, aperfeiçoada com a força e a destreza dos Cavaleiros de Atena: Zui Quan, o Drunken Boxing.
Larissa andava na direção de Apostolis, cruzando as pernas, inclinando a cabeça para frente. Dava dois passos para frente, depois recuava um para trás, girando os tornozelos no chão. Parecia querer dar um soco em Apostolis, que prontamente defendia, mas Larissa voltava dois passos atrás, cambaleando. Sua boca estava cheia de ar e as sobrancelhas arqueadas, rindo da cara do Leão de Neméia.
Apostolis avançou para acertar-lhe um chute no rosto, mas ela girou no ar, até a lateral de seu braço, mantendo-se com só um dos pés ao solo e a outra perna no ar. Larissa gira seu corpo na coxa de seu oponente e acerta uma cotovelada em seu rosto.
Sentindo o golpe, o Leão de Neméia tenta chutar-lhe a perna de apoio, mas Larissa saltou baixo, girando como um peão, e cai sentada no chão. Dessa vez, Apostolis tentou acerta-lhe um potente soco no nariz, mas ela defendeu com os punhos cruzando seu antebraço.
- Como quer me vencer se nem consegue me acertar?
- Maldita! Fúria do Leão!
O Guerreiro de Hera tenta usar seu mais poderoso golpe, esmurrando varias vezes sua oponente. Mas com golpes lentos e desengonçados, Larissa desvia cada um dos ataques com os pulsos, cotovelos e joelhos, pulando com um pé só e depois o outro, antes de cair de bruços no chão gargalhando muito.
Apostolis tenta pisar em sua nuca, mas Larissa rola no chão. Apoiando-se nas mãos, ela se lança no ar, atingindo-o no queixo com a sola dos pés.
O Leão de Neméia é lançado alguns metros para trás e é arrastado na neve, percorrendo uma vala e deixando seu rastro. Larissa mas uma vez está deitada no chão, rindo de Apostolis.
Ela se ergue com dificuldade e volta a cambalear. Com uma perna no chão, a outra flexionada no ar, um braço sobre a cabeça e o outro a sua frente. Em seguida ela põe outro o pé no chão e roda a cabeça e o corpo, recuperando o equilíbrio.
- Droga. Apesar de lentos, não consigo prever os movimentos dessa miserável.
- Eu já disse, você não pode me vencer.
-Tens uma técnica diferente, me surpreendeu.
- Tenha paciência, eu ainda não acabei.
- Não se esqueça que ainda sou mais forte e mais rápido que você. Agora sou eu quem irei investir e, após esse ataque, você morrerá.
Larissa cambaleia na direção de Apostolis, mas ele acumula energia em seus punhos. Uma aura vermelha emana de seu corpo, a ponto de derreter a neve ao seu redor e esquentar o ambiente todo. Larissa não se contém e parte mais uma vez para o ataque.
Depois de girar duas vezes em seu próprio eixo, ela tenta acertar com um soco o rosto de Apostolis. Porém, ele lhe agarra o antebraço. Larissa sente sua mão esquentar a ponto de quase queimar.
Uma explosão. A armadura de Ave do Paraiso tem seu braço completamente destruído e o braço da amazona está quebrado. Larissa segura seu braço enquanto grita de dor e mal teve tempo de ver o ataque de Apostolis.
- Garras do Leão de Neméia!
Com um golpe com a ponta dos dedos, a máscara e o elmo da armadura de Ave do Paraíso são completamente destruídas. Larissa desmaia e seu rosto está muito machucado. Apostolis se aproxima calmamente.
O Leão de Nemáia a ergue pelo pescoço e aperta-o com força, fazendo com que o barulho de músculos e ossos se esmigalhando ecoassem.
- Adeus, amazona. Quebrarei seu pescoço agora.
Continua ouvindo-se um forte barulho de ossos se quebrando e carne se rasgando.
Depois, Larissa cai no chão.
No entanto, junto dela, está o braço do Leão de Neméia, decepado na altura do cotovelo.
- Aaargh, quem foi? Miserável!
Raisa estava empunhando a espada do Leão de Neméia, coberta de sangue. Ela o encarava com um olhar sereno e calmo, distante. Havia um brilho diferente em seus olhos.
- Maldita! Você nem deveria poder tocar minha espada, seu braço deveria ter sido arrancado só na tentativa. No entanto, não só dominou minha espada como a usou contra mim. Isso é imperdoável! Vou arrancar a sua cabeça!
Antes que Apostolis se preparasse para atacar novamente, Raisa o atingiu transversalmente com a espada. Dessa vez, a armadura do Leão de Neméia se partiu em duas. Do corte em sua pele, o sangue esguichou e cobriu totalmente o corpo e armadura de Raisa, pintando-a de vermelho.
- Isso é impossível! Ninguém nunca foi capaz de destruir minha armadura e me ferir assim, a não ser...
Apostolis tentou atingir Raisa com suas Garras do Leão de Neméia, mas ela não estava mais a sua frente. Seu golpe se perdia no horizonte, quando notou que ela estava atrás de si. Tentou atingí-la com uma cotovelada, mas Raisa, após esquivar-se, segurou-se nele e, escalando o seu corpo, o agarrou pelo pescoço.
Raisa estava estrangulando o Leão de Neméia. Apostolis não conseguia dizer nada, não conseguia sequer respirar. Sentia sua traquéia sendo esmigalhada, seu sangue se prendendo. Sua língua e olhos arregalados saltavam pra fora. Só conseguia pensar.
Ele lembrava que foi derrotado assim antes. Um herói mitológico antes havia cortado sua pele indestrutível usando suas próprias garras e, depois, o estrangulado até a morte com uma enorme e descomunal força. A mesma força que sentia agora. No desespero da morte, Apostolis finalmente descobriu aquele que estava procurando. Aquela amazona era a reencarnação do lendário guerreiro Hércules. Foi o último pensamento antes de ter seu pescoço quebrado.
- Sim. Eu voltei para matar você e as outras bestas. Avise a Hera, no Olimpo ou no outro mundo, que mais uma vez irei causar a sua ruína.
