.IX
As queimaduras de Anatolyi estavam enfaixadas: braços, barriga, coxas. Seu ventre, em especial, estava uma lástima, já que as chamas de Celeno haviam chegado até suas entranhas. Naquela região, as ataduras estavam muito sujas, com sangue e pus. Além da dor que sentia, uma febre havia lhe acometido, comprovando mesmo que as feridas haviam infeccionado. Sua visão estava turva, sentia calafrios, suava muito e mal podia manter-se sentado na cama. Mas Anatolyi não queria mostrar-se fraco para seus irmãos, Sasha e Misha, que estavam muito contentes em revê-lo. Apesar das vozes estridentes dos dois causarem certo incômodo, deixando sua dor de cabeça quase insuportável, ele não se importava. Estava feliz em revê-los.
- Então os dois estiveram escondidos em uma casamata? Tem uma casamata aqui?
- Sim, irmão. A Tia Larisa levou a gente pra lá. Tem um monte de jogos legais lá dentro.
- Estou feliz por vocês.
- Você está doente, irmão?
- Não é nada. Logo estarei melhor.
Larisa estava na porta do quarto. Seu braço direito estava coberto por uma tipóia e revestido por gesso. O rosto possuía algumas lacerações, hematomas e inchaços, alterando bastante a sua bela fronte. Ela olhava para os três e lembrava do tempo em que Raisa e Evgeny eram crianças e, mesmo estando sob treinamento árduo e severo, ainda mantinham o espírito infantil. Tal como Sasha e Misha. Anatolyi agora fita a amazona. Sua fronte agora estava séria, como seria conveniente para o assunto que seguiria. Ele se levanta da cama e dá dois passos pouco firmes na direção dela, com os olhos perdidos.
- Senhora, quer dizer que Raisa é a reencarnação de Hércules.
- Sim. Não se levante da cama, você está muito enfermo, garoto.
- Não, eu estou bem. Obrigado por ter cuidado de mim.
- Não fiz por você, mas por princípios. Não te deixaria lá, pois tenho muita simpatia para com seus irmãos.
- Muito bem, que seja. E como está Valentin?
- Ele está em coma. Perdeu quase todo o sangue do corpo, e por pouco não teve morte cerebral. Eu mesma lhe doei sangue. Neste momento ele está nos portões do outro mundo decidindo se irá para o Mundo dos Mortos ou retornará ao Mundo dos Vivos.
- Uma pena.
Misha apareceu entre eles, cortando o clima de tensão com sua alegria sincera. Ele estava prestes a contar uma novidade a seu irmão.
- Hey, maninho. A Tia Larisa prometeu que eu e o Sasha temos muito potencial e podemos nos tornar cavaleiros se nos esforçarmos. Não é legal?
- É, a gente prometeu treinar muito duro pra ficar tão forte quanto você e o Tio Valentin.
Anatolyi caminhou a passos pesados para cima de Larisa, a ponto de encará-la de muito perto. Seus olhos transmitiam raiva. Com o dedo em riste, tremendo muito, intimou a amazona.
- Como você pôde fazer tal oferta aos meus inocentes irmãos?
Larisa cerra os olhos e caminha em volta de Anatolyi, para junto de Sasha. Ela põe a mão na cabeça dele, bagunçando um pouco o cabelo. Sasha e Misha sorriam com orgulho, mas Larisa mantinha-se séria
- Eu não ofereci nada, garoto. Eles me perguntaram o que estava acontecendo e lhes contei tudo. Foram os meninos que me pediram para treiná-los no futuro, aparentemente eles querem te proteger.
- Você jogou meus irmãos contra mim, sua usurpadora! Quer transformar a vida deles neste inferno que o maldito do seu marido transformou a minha vida, com estes esses assassinos todos nos caçando.
- Garoto estúpido, o que te aconteceu foi desejo dos deuses, não de Valentin. Se está insatisfeito com a nossa cortesia, vá embora e cuide da sua vida.
- Irmão, a gente quer virar cavaleiro para proteger Athena.
- E para te ajudar quando essa gente malvada vier te machucar.
- Droga, fedelhos! Vocês não entendem? Vocês vão morrer se fizerem isso!
Sasha e Misha abraçam Larisa e olham com muita mágoa para Anatolyi, com lagrimas caindo de seus olhos.
- Eu odeio você!
Com essa resposta de Sasha, Anatolyi arregala os olhos e treme o queixo, dando uma cambaleada para fora do quarto. Cerra seus punhos com força, com seus dedos quase machucando a palma de sua mão. Com um forte soco, abre um buraco na parede do quarto. Sai apressado, cambaleante para fora daquela casa. Quando deu três passos para fora, ouviu a voz de Raisa, que estava escorada na parede pensativa e lhe dirigiu a palavra, tão pronto ele havia passado pela porta.
- Hey, Cavaleiro, onde pensa que vai?
Anatolyi vira parcialmente o rosto, a ponto de ve-la de relance atrás de si.
- Não há mais nada para mim neste lugar.
Raisa, muito severa, lhe propôs.
- Tampouco para mim. Escute. Sendo eu a reencarnação de Hércules e você de Iolaus, devemos nos apresentar no Santuário de Athena, na Grécia. Devemos partir já.
- Ah é? E o que acha que acontecerá quando um Cavaleiro Negro se apresentar para essa Deusa corrupta e seus oitenta e oito assassinos loucos?
A Amazona de Cisne ficou muito irritada com a insinuação, veio até bem junto dele e lhe olhou bem fundo em seus olhos.
- Como pode ser tão estúpido, Anatolyi? Estarei junto de ti para esclarecer tudo. Não deixarei que ninguém lhe toque. Apesar de ser tal blasfemador, você ainda é a reencarnação de Iolaus.
- Estará ao meu lado – Anatolyi gargalha tão alto e de forma tão prolongada que o ar de seus pulmões se esvazia por completo, terminando com uma tosse para recuperá-lo – e o que aconteceu quando você e o Valentin estiveram ao meu lado até agora? Eu fui quase assassinado da forma mais violenta.
A paciência de Raisa estava quase se esgotando.
- Não ouse falar assim do meu pai. Ele quase morreu para te salvar, ingrato.
- Eu sinto muito, mas alguns têm sorte, outros não.
Raisa avançou violentamente, com os dentes cerrados, segurando Anatolyi pelo colarinho. Começava a erguê-lo do chão.
- Não me toque, sua vadia!
Tão logo terminou essa frase, Raisa lhe desferiu um fortíssimo soco no nariz do Cavaleiro Negro, quebrando-lhe. Ele deu dois passos tortos para trás, antes de cair deitado na neve com as mãos sobre o rosto ensangüentado. Raisa avançou para pisoteá-lo, mas ele prontamente reagiu, segurando-lhe a sola do pé.
- Vá a merda, Raisa! Eu não criei essa situação, vocês e essa seita maluca a deusa Athena que criaram. Eu só estou tentando lidar com essa maldita situação! Eles vieram te matar e, no processo, tentaram me matar! Então é tudo culpa sua! Portanto, se quer descontar sua raiva em alguém, desconte em um maldito espelho!
Anatolyi joga os pés de Raisa para frente, obrigando-a a dar uma volta no ar para cair de pé. Anatolyi ergue-se e segue adiante, rumo ao horizonte, ainda cambaleante com a febre.
- Apodreça no inferno, miserável! Seu destino foi decidido por Athena!
- Provarei que quem decide meu destino sou eu.
Anatolyi continuou caminhando até sumir na neblina.
................
E Raisa seguiu uma longa viagem para Atenas, na Grécia. O inverno no Mediterrâneo era de longe menos severo que o da Sibéria. De fato, o clima estava bem agradável, mas um pouco intolerável para alguém que viveu no frio intenso a vida toda. Não importa: Raisa estava prestes a realizar aquilo que sempre sonhou, iria apresentar-se ao Santuário como uma verdadeira defensora de Athena.
Depois de chegar à capital grega, ela não perdeu muito tempo com amenidades. Almoçou qualquer coisa e seguiu rumo aos montes proibidos a qualquer mortal, menos aos Cavaleiros. De longe ela via as Doze Casas Zoadicais e, a frente, alguns aprendizes treinando para ser um Cavaleiro como ela. Raisa estava em êxtase, com um sorriso contido no rosto.
Nas escadas rumo a Sala do Grande Mestre, uma outra amazona apareceu ao seu lado e lhe puxou conversa. Ela possuia bem tratados cachos loiros, que caiam sobre sua armadura rosa, e estava muito bem maquiada. Tinha a mesma idade de Raisa e um ar muito faceiro.
- Olá. Você é a Raisa, não é? Então você conseguiu virar a Amazona de Cisne, que bom.
- Quem é você? Como sabe meu nome?
- Ah, me desculpe. Sou Julienne, Amazona de Andrômeda. Como você, acabei de me tornar uma Amazona, passei pela Prova do Sacrifício há três dias atrás. É por isso que veio aqui, não é? Para se apresentar ao Mestre? Ah sim, eu já vi você uma vez no Santuário, eu estava prestes a ser mandada a Ilha de Andrômeda naquele dia para treinar.
- A última vez que estive aqui no Santuário foi há oito anos atrás, estava junto de meu pai, era uma criança ainda.
- É, eu tenho uma ótima memória, todos dizem isso. Eu sei que é uma pessoa doce e gentil, bem no fundo, por isso tive total liberdade para abordá-la. Apesar dessa sua pose revolucionária: uma amazona sem máscara e com essa espada longa aí nas costas. Muito subversiva! Adorei você!
Julienne parecia muito excitada com Raisa.
- As máscaras foram feitas para nos por em igualdade aos Cavaleiros, não é? Pois eu julgo que elas têm um efeito totalmente oposto, nos deixando bem diferentes e chamando atenção desnecessária. Por isso a descartei. Mas como pode ter certeza que eu sou amigável?
- Hm, você é muito inteligente! Ah, quanto a eu saber de antemão que você é uma boa pessoa, bem... as Correntes de Andrômeda têm uma sensibilidade muito útil no que tange a identificação de inimigos. Eu desenvolvi isso. Posso compreender completamente qualquer intenção nas pessoas ao meu redor, e de forma muito natural . Medo, raiva, felicidade, angústia, desprezo, nojo, tristeza, cortesia, etc, percebo qualquer tipo de sentimentos. Mas me diga, que espada é essa? Athena proíbe o uso armas, e tenho certeza que a Armadura de Cisne não tem nenhuma espada.
- Eu a tomei do Leão de Neméia quando o derrotei.
- Não me diga que você é... a reencarnação de Hércules!
- Sim.
- Nossa! Quer dizer que dentro de você está a alma do lendário guerreiro grego, que cumpriu os Doze Trabalhos! Hm, isso é muito sexy!
Os olhos de Julienne brilhavam. Raisa estranhou a reação dela, e o modo como ela se referiu a isso, mas mesmo assim esclareceu.
- Bem, almas não têm gênero. E a alma de Hércules não interfere muito na minha personalidade. A minha alma e a dele vivemos, na verdade, em perfeita harmonia, em simbiose. E, de qualquer maneira, ele me ajuda a desenvolver meu cosmos, apesar de tê-lo descoberto dentro de mim há pouco tempo. Mas ele sempre esteve comigo.
- Então, isso é muito sexy! – e os olhos de Julienne brilhavam de novo – Sabe, eu sempre achei que era a Amazona de Bronze mais forte. Mas acho que não posso concorrer com você, não é?
Raisa estava um pouco preocupada com as atitudes um pouco excêntricas da Amazona de Bronze e tentou mudar de assunto.
- Bem... vejo que você quer mesmo ser minha... amiga. Não tinha amigos na Ilha de Andrômeda?
- Na Ilha de Andrômeda! Não mesmo. É impossível fazer amizades em um ambiente competitivo como aquele, com todos me querendo morta. Sabe, eu não gosto muito de machucar as pessoas sem motivo, mas todos os concorrentes que eu matei mereceram o destino terrível que tiveram.
E Julienne ri de uma forma, ao mesmo tempo, doce e... sociopata, já que falava de assassinatos que cometeu. No entanto, não havia mais tempo para continuar a conversa, já que as duas estavam frente a frente com o Mestre do Santuário. Ele estava sentado, imponente em seu trono, com seus cabelos brancos caindo sobre os peitos, usando uma máscara, uma túnica e um enorme elmo. Ambas se ajoelham em sinal de respeito.
- Grande Mestre Ioannis. Eu, Raisa de Cisne, a reencarnação de Hércules, vim me apresentar a Deusa Athena e jurar-lhe minha lealdade.
- Grande Mestre, eu, Julienne de Andrômeda, também vim me colocar a disposição de Athena.
- Estava a espera de vocês. Raisa, diga-me, onde está Iolaus? Acaso Valentin não o encontrou ainda?
- Meu pai está em coma, Mestre, conseqüência da dura batalha contra Apostolis, o Leão de Neméia, uma das bestas de Hera. No entanto, em minhas costas está a prova de que ele foi derrotado. Já Iolaus recusou-se a apresentar-se comigo ao Santuário.
- Compreendo. E onde encontra-se Iolaus neste momento?
- Seu paradeiro é desconhecido. Informo que seu receptáculo, Anatolyi, recusou-se em transformar-se em Cavaleiro de Athena e virou um Cavaleiro Negro.
- Então ele traiu Athena. Uma lástima...
- Senhor, solicito uma audiência com Athena.
- Por favor, reporte a mim o que tiver para dizer a Athena.
- Eu preferiria dizer-lhe pessoalmente, Senhor.
Antes que o Grande Mestre pudesse repetir a ordem, por detrás dele surgiu um cosmo muito amigável, tranqüilo, sereno, sensível e caloroso. Ela tinha cabelos castanho claros, na altura da cintura, cacheados. Já era uma senhora de meia idade, mas era muito bem preservada, muito jovial. Com um sorriso no rosto, fitou Raisa.
- Minha Deusa...
- Como está, minha querida irmã, Raisa de Cisne? Estou muito feliz em te rever, desde os tempos mitológicos. Seja bem vinda, Julienne de Andrômeda.
Julienne estava muito nervosa. Jamais imaginava que iria ver Athena logo em sua chegada ao Santuário. Seu corpo tremia e mal podia manter a compostura.
- Minha Deusa, minha irmã. Também estou muito feliz em te servir como Amazona e em estar em sua presença como irmã, dos tempos mitológicos. Meu cosmo regozija de alegria em rever-te.
- O que desejava me pedir?
- Muito bem. Peço permissão para que eu lute sozinha contra Hera e seus Guerreiros, sem a interferência do Santuário. É a mim que sua mãe deseja ver morta, e não é justo que outros Cavaleiros morram por minha causa.
- Não posso aceitar este pedido. De fato fiquei triste quando meus amados Cavaleiros morreram lutando contra o Leão de Neméia, e te digo que derramei muitas lágrimas em seu luto. Mas não posso te deixar sozinha nessa empreitada. E saiba que todos os meus Cavaleiros estão muito felizes em te ajudar em tudo o que for possível. Não posso deixar a minha querida irmã sozinha.
- Entendo. Nesse caso, peço permissão para sair em busca de Hera, para me encontrar pessoalmente com ela.
- Temos que conter minha mãe, Hera. Muita gente inocente morreu, isso não pode continuar. Irei ajudar-lhe eu mesma. Concentrarei meu cosmos para encontrar minha mãe e, se possível, convencer-lhe a não continuar com esta injustiça. Até mais, minha irmã.
E Athena retorna para a sua sala.
Após a saída de Athena, Julienne teve coragem de emitir sua palavra.
- Grande Mestre, peço permissão para acompanhar Raisa em sua investida.
- Permissão concedida. Sei que é muito forte, Julienne, posso sentir seu cosmo. Detenham Hera, por favor.
- Sim senhor!
................
De volta a Sibéria, Anatolyi finalmente chegou onde queria. De volta a sua cidade-natal, ele encontrara um senhor bêbado, jogado em um beco, ao lado de um bar. Ao seu lado, uma garrafa quase vazia de vodka. Seus cabelos estavam desgrenhados e a barba por fazer. Anatolyi lhe dirigiu a palavra, com um ódio contido.
- Olá, pai.
- Filho...
- Sabia que lhe encontraria aqui.
- Não seja estúpido, meu paradeiro nunca foi novidade. No entanto, não posso dizer o mesmo em relação aos meus filhos.
- Desde quando se importa?
- E desde quando és um sequestrador?
- Não sequestrei ninguém, velho maldito.
- Então onde estão Sasha e Misha?
- Eles...
Anatolyi engasgava.
- Vê? Reclama sempre que abandono vocês três e, no fim, você abandonou seus irmãos. Aliás, você sempre os abandonou a própria sorte, não é? Vivia enfurnado naquela biblioteca com seus livros estúpidos. Por mais que me amaldiçoes, és uma cópia perfeita minha.
- Você é pai, maldito. Você quem devia cuidar da gente. Mas nos deixou na miséria enquanto o senhor mesmo se embebedava de vodka e gastava a herança da minha mãe com luxos e lascívia. Você nunca foi um pai de verdade.
- Honre a seu pai, miserável. Aliás, queres saber? Que vão pro inferno, você e aqueles bastardos infelizes. Se não existissem, eu não precisaria nem afogar o pouco de remorso que sinto com bebidas. Vocês são só estorvo.
O ódio de Anatolyi explodiu.
- Como honrar um pai que não honra aos filhos?
Anatolyi segura e aperta violentamente o braço de seu pai, a ponto de sangrá-lo, quebrá-lo. Seu cosmos queima violentamente, causando uma nevasca. Seus olhos brilham com o ódio. Antes que ele pudesse gritar, seu corpo foi coberto por um gelo negro, que lhe percorreu os braços até o corpo. Anatolyi puxa seu braço de volta e lhe traz junto um pedaço do antebraço já morto do velho beberrão. O resto de seu cadaver jaz, com um grito horripilante na face.
- Que sofra no inferno por seus pecados, Andrey Arkayiovic Kazelnikov.
Anatolyi sai daquele beco escuro e fedorento, da onde nenhuma lembrança merecerá ser guardada. Ao chegar a rua, ele escuta uma musica. Uma musica vinda de uma gaita.
Olha a sua esquerda. Ele vê um jovem, de olhos cerrados, um pouco mais velho que ele, com cabelos ruivos espetados, tocando uma musica triste na gaita. Atrás de si, entre suas costas e a parede, havia uma caixa de pandora. Na caixa havia uma ave em alto relevo, coberta por chamas. Não parecia uma das bestas de Hera.
- Quem é você?
O estranho continua tocando sua gaita, ignorando-o.
- Responda-me!
O estranho ainda o ignorava e continuava tocando sua gaita.
- Eu não estou de bom humor, portanto vou perguntar só mais uma vez: quem é você?
O estranho para de tocar a gaita e lhe dirige a palavra.
- Você fala demais, Cisne Negro.
- Como você...
O estranho havia lhe apontado o dedo e essa foi a última imagem que Anatolyi viu daquela rua. Seus braços e pernas estavam pesados. Ao mirar-lhes, viu que estavam presos em blocos pesadíssimos de pedra.
- Mas o quê?
Os blocos começaram a afundar no que parecia ser a escuridão total, forçando violentamente para baixo. Anatolyi gritava com muita dor, com toda a força de suas entranhas. Seu rosto se contorcia, ele não conseguia se livrar.
Logo um dos blocos havia lhe arrancado o braço esquerdo, que caiu na escuridão e sumiu. Anatolyi gritava ainda mais, nunca sentira tanta dor. Depois foi a perna direita e depois a esquerda. Por fim o braço direito. Anatolyi flutuava sem seus membros, chorando de dor. Mordia seus lábios a ponto de quase arrancá-los.
No instante seguinte, uma ave pousou-lhe no ombro, vinda de trás. Antes que percebesse, ela lhe arrancou um olho com uma bicada e o engoliu inteiro. Anatolyi gritou novamente com uma dor extrema, e tentou afastá-la movendo a cabeça. No entanto a ave gritou de volta.
E entrou em combustão sozinha junto com o corpo de Anatolyi. Sua pele, carne, ossos, vísceras, tudo queimava, até não restar nada. A não ser a escuridão.
