Os soldados agora estavam bem próximos das duas. A intenção era se disponibilizarem para ajudá-las. Mas na verdade, a perplexidade tomou conta de todos. Alguns olhavam jocosos para aquela cena e cochichavam entre si. Não era todo dia que se via um beijo lésbico, e isso despertava fantasias naqueles soldados de treinamento espartano.

Como a vida era treinar e treinar, não havia tempo para se divertir ou se dedicar a amenidades e assuntos mundanos. Aquilo era uma cena e tanto. Eles raramente viam mulheres, não eram permitidos a ver sequer mulheres fora do Santuário, quanto mais duas amazonas quase nuas fazendo tais peculiaridades.

O que era uma tropa de apoio virou uma multidão de curiosos.

Mas a cena não durou muito.

Prontamente, Raisa empurrou Julienne. Andromeda caiu deitada na areia da praia, olhando nos olhos de Cisne. Esta, sentada a sua frente, com a boca e os olhos bem abertos, respirava fundo. Recuperava o ar que havia perdido.

- O que... mas por que fez isso? Enlouqueceu?

Raisa se levantava, agora com o rosto vermelho, as sobrancelhas franzidas, cara de poucos amigos. Andrômeda apenas cerrou os olhos, com um sorriso de satisfação. Estava tão debilitada que não conseguia mexer mais nenhum músculo.

- Por que está tão surpresa?

- Como assim por quê? Andrômeda, você... você me beijou! Por que diabos fez isso?

- Hm... não fiz nada demais...

- Nada demais? Nada demais?

- É, nada demais... você não ofereceu resistência.

- Porque eu não esperava que você fosse fazer isso!

- Isso é mentira, você esperava sim. Diria que ansiava até.

- Como é que é? Quem você pensa que é para dizer o que eu quero e o que eu não quero?

- Uma leitora de sentimentos.

- Dane-se a sua leitura! Dane-se você! Eu nunca te dei liberdade pra fazer isso!

- Ah, você deu sim. Aliás, já deveríamos ter nos beijarmos muito antes.

- Insana! Que espécie de amazona você é? Nós estávamos lutando por Atena, como companheiras de guerra. Que pensamentos impuros são esses que passam pela sua cabeça que a faz delirar dessa forma?

- Já disse, eu apenas fiz o que você deixou eu fazer.

- Eu... não deixei nada! Droga, você é uma nojenta! Uma impostora! Acaso se tornou amazona para fazer essas imundícies?

- Eu virei amazona para lutar por Atena. Entretanto, não posso controlar o amor que sinto por você. Pelo menos eu tenho coragem de admitir meus sentimentos. E quem é você pra julgar dignidade? Diz que não me ama, apesar de demonstrar o oposto. Mas que credibilidade você tem?

- Como assim "dignidade"? "Credibilidade"?

- Você fala que eu não sou uma amazona digna. Mas eu lutei com bravura, por Atena.

- Eu expulsei Hera do Santuário.

- E daí? Fomos derrotadas, Hera matou uma amazona e selou o espírito de Hércules. E se eu não estivesse aqui, o que teria acontecido com você?

- Está dizendo que só estou viva por sua causa?

- Não, você teria sobrevivido sem mim. Mas sua sobrevivência aconteceria porque iria deserdar. Estava prestes a fugir com essa mesma cara de choro que faz agora. Hera não veria perigo em uma covarde. Sinto muito, mas você é uma covarde.

A Amazona de Cisne não pôde conter suas lágrimas. Ela, uma guerreira orgulhosa, estava escutando críticas pesadíssimas. Nem mesmo seu pai, durante treinamento, era tão cruel. Elas caíam sob seus olhos, mesmo tentando evitar a todo custos com as mãos.

- Por que está sendo tão cruel comigo?

- Você é uma amazona de Atena, acorde! Nosso mundo, nossa vida é cruel! Mas a verdade é que você chora porque sabe que estou certa.

- Cale a boca! Pare de ler a minha mente!

- Então pare de expôr seus sentimentos. Apenas acuso o que vejo.

Com muita força, Raisa chuta o rosto de Julienne. Esta sente o golpe e fica desnorteada, finalmente se calando.

- Nunca mais se aproxime de mim, está me ouvindo? Nunca mais!

Entre as duas surge alguém, um cavaleiro. Ele apareceu de forma tão furtiva, tão de repente, que nenhuma das duas pôde notá-lo. Raisa o encarava assustada, pela aparição tão repentina. O soldado que havia buscado ajuda o havia trazido.

Este cavaleiro tinha a pele morena escura, cabelos e olhos negros, com a franja caindo sobre os olhos orientais. Sua armadura era verde, possuia um escudo no braço esquerdo e um capacete em forma de um dragão.

- Pare com isso, Cisne! Ela é um Cavaleiro, como eu e você. Não importa o que tenha acontecido, não permitirei que continue agredindo um dos nossos. Do contrário a acusarei de traição.

Raisa olha para o cavaleiro, bem no fundo dos olhos. De alguma maneira, o cosmos daquele cavaleiro a acalmou. Limpa o rosto molhado e se acalma. Em seguida dá uma olhadela para Andrômeda, que estava inerte no chão. Olha novamente para o Cavaleiro, vira de costas e segue andando, na direção oposta.

- Sr. Narong, ela está morrendo! Temos que levá-la daqui!

Após o aviso do soldado, o Cavaleiro de Dragão prontamente checa a pressão de Julienne. Após detectar o estado gravíssimo que ela se encontrava e a severidade das lesões, a carregou no colo e correu na direção do Santuário. Os soldados foram todos atrás dele.

Ao longe, sozinha, Raisa olhava a movimentação, preocupada.

Na verdade, Raisa se preocupava com tudo o que lhe aconteceu. Sua armadura fora completamente destruída e o cosmos de Hércules havia sido selado.

Sem armadura, ela não era mais uma amazona. Precisava pensar em algum modo de consertá-la. Decidiu que essa era a prioridade.

Certa vez seu pai havia lhe falado do Cavaleiro de Áries, um lemuriano que seria capaz de consertar armaduras. No entanto, ele cobrava um alto preço para fazer o serviço. Ela nunca soube o que era, já que seu pai nunca lhe contou.

Raisa estava cansada e ferida.

Apesar de todos esses pensamentos sobre obrigações, Raisa estava triste. Sabia que havia fraquejado, que tinha sentido medo.

Ela refletia sobre o porquê de estar lutando: por Atena... Lembrou-se da briga que teve com Anatolyi, em como ele repudiava a idéia de lutar em nome de alguém, por mais que este alguém fosse a Deusa da Justiça.

Justiça... matar ou morrer, essa é a justiça do Santuário. Abdicar da própria vida, por um ideal. Aquela amazona que morreu a pouco, Kendall, destruída por Hera, lutou e morreu por Atena, ainda jovem.

A vida é um dom, o bem mais importante que um ser humano possui. Um cavaleiro deve estar pronto para colocar este bem tão precioso em cheque. Por outro lado, deve tirar este dom daqueles que são contrários ao que prega sua Deusa protetora. Uma Guerra Santa em que o mais forte subjuga o mais fraco, e o derrotado se transforma no errado, na origem do mal. Aliás, se ele foi derrotado, é por que o seu ideal era inferior ao do lado vencedor.

Tudo era decidido através do sangue derramado nas lutas. As vidas eram tiradas para provar que um lado está certo.

Isso é ser um guerreiro honrado, usar seus poderes para proteger a humanidade dos injustos, daqueles que não acreditam no mesmo que ela. Por que eles estão errados, e ela está certa. O lado de Atena deve ser o mais forte, o partido superior, porque é o lado do mais certo.

Novamente Raisa derramava lágrimas de seus olhos. E seguiu o caminho oposto ao da Casa de Áries.

Naquele momento, o Cavaleiro de Câncer estava próximo do local onde havia marcado de encontrar-se com o Cavaleiro de Prata de Lagarto. Ele havia sentido que uma grande batalha havia ocorrido há pouco no Santuário. Por mais forte que fosse o cosmos, só um suicida invadiria um lugar repleto de poderosos guerreiros.

Mas outra coisa o estava incomodando:

- Hey, você que está me seguindo nas trevas, revele-se!

Por detrás das árvores surge a sombra do perseguidor.

- Não é muito inteligente seguir um Cavaleiro de Ouro sem anúncios. Vamos, diga logo o que quer, Agapius.

O cavaleiro fugitivo do Cabo Sounion se revela a Daniele. Seu rosto estava sério, mas não respondia nada.

- Não tem nada a dizer, não é, inseto? Pois bem, se um fugitivo aparece para o algoz, só pode culpar a sua própria inconseqüência, e não a frieza do executor. Está pronto para morrer?

Daniele preparava-se para atacar Agapius quando ele o interrompeu.

- Espere!

- Quais são as suas últimas palavras?

- Eu tenho uma proposta para você.

- Proposta? O que quer dizer? Vai implorar por sua vida?

- Escute-me primeiro, Daniele. Você está indo para a Ilha da Rainha da Morte para trazer Iolaus para o santuário, não é?

Daniele cerra os olhos e nada responde.

- Vou considerar isso como um sim. Você deve estar se perguntando como eu sei isso, vou explicar, eu...

- Você está falando demais, traidor. Eu não quero saber de suas desculpas, você não vai me convencer a não matá-lo. Eu tenho uma missão, e você só está roubando meu precioso tempo.

- Não, não faça isso! Espere! Não!

O Cavaleiro queima seu cosmos e se aproxima de Agapius, friamente, passo por passo, bem lentamente. Ao ex-cavaleiro só resta dar passo de costas, se afastando do poderoso cavaleiro de ouro.

- Pare! Só quero lhe dizer para que... mate Iolaus ao invés de trazê-lo para cá!

Daniele continuava se aproximando, enquanto seu braço direito brilhava com o cosmos.

- Ninguém vai saber da verdade, diga que ele morreu em combate. Vamos lá, não me mate! Você será recompensado por Hera!

O Cavaleiro de Câncer arregalou os olhos assustado com aquela revelação e parou a meio caminho de Agapius. Olhava-o atentamente.

- Então... o... o quê acha disso?

Daniele ergue o braço, em posição de ataque.

Vendo que não tinha alternativa, Agapius resolve lutar. Avança para cima de Daniele para acertar-lhe um soco.

Mas um Cavaleiro de Ouro é poderosíssimo: Daniele apenas segurou-lhe a mão, enquanto o olhava com fúria nos olhos. Agapius suava e tremia de medo.

De maneira fria, o Cavaleiro de Câncer acerta um soco no rosto de Agapius, que o faz mover o rosto violentamente para baixo.

Em seguida acerta-lhe um segundo tão poderoso quanto.

O terceiro soco afundou-lhe a face.

O quarto esmigalhou o orbital.

O quinto destruiu a mandíbula e vários dentes.

O sexto arrebentou-lhe o crânio e fez esguichar sangue e as entranhas, sujando toda a armadura do cavaleiro de Câncer.

Agapius, ainda vivo, gritava de dor e tentava dizer algo inteligível, cambaleante. Naquele momento, Daniele se preparava para o golpe final:

- Acubens!

O que restou da cabeça, um terço do peito e o braço direito de Agapius são decapitados e separados do corpo. Muito sangue é derramado, uma poça de sangue se aglomera.

Daniele vira de costas para a cena. Segue para o ponto de encontro marcado sem demonstrar sentimento algum por aquele cadáver.

- Eu já disse pra esperar, Cavaleiro de Câncer!

Daniele se vira quando escuta uma gargalhada.

A alguns centímetros de sua face estava uma cobra imensa, pronta para dar o bote.

- Mas que diab...

Antes que ele pudesse completar a frase, a cobra entra em sua boca e desce por sua traquéia. Desesperado, Daniele se ajoelha tentando respirar.

- Imbecil, é o que acontece quando subestima e vira as costas para o inimigo.

Daniele sente pontadas em suas entranhas, e uma dor terrível. Mas a sua voz não sai.

O corpo de Agapius se regenera e volta ao normal. Um cosmos maligno o cobre e uma armadura o reveste. Era uma armadura esverdeada, com o formato de uma cobra.

- Sim, Daniele, eu me tornei um dos guerreiros de Hera. Sou agora Agapius, a Hydra de Lerna.

Daniele agora se contorce no chão. Sua pele fica roxa e segura a barriga, onde estava a cobra. O Cavaleiro de Câncer vomita, uma mistura de sangue e líquidos estomacais, mas o réptil intruso não sai.

- Não se preocupe, você não vai morrer. No entanto, a sua vida me pertence. Sendo, agora, o seu senhor eu ordeno que elimine Iolaus.

Daniele se ergue dos chãos, totalmente recuperado. Com um sorriso diabólico que lhe cobre toda a face e grandes olhos vermelhos, ele responde:

- Eu matarei Iolaus, senhor.