Capítulo Primeiro
Cinco dias. Remus havia dito que chegaria em cinco dias. Mas não disse o horário, e Harry só se dava conta disso agora, parado em frente ao sofá, olhando de um lado para o outro sem saber exatamente o que fazer.
Passara toda a semana trabalhando intensamente e fazendo todos os serões possíveis para ficar com aquele dia livre, apenas para Remus e Teddy. Despertou com o primeiro raio de sol e tentou arrumar a casa. Ou pelo menos disfarçar a bagunça.
Pegara uns dias atrás com Hermione alguns feitiços de limpeza, e como não tivera tempo de testá-los antes, só hoje os utilizara. Não havia dado exatamente... certo. Pelo menos tudo parecia um pouco menos empoeirado.
As roupas não estavam mais espalhadas pelo chão, e sim amontoadas contra um canto do banheiro. Um canto monstruosamente entupido de peças, mas vá lá. Livros e revistas foram empilhados. Por toda a casa. Não necessariamente seguindo uma ordem. E não necessariamente sustentados sem magia.
Ainda assim, tudo estava infinitamente melhor do que quando Harry acordara. Porém, já eram onze horas da manhã e nenhum sinal de seus novos inquilinos. Harry não fazia a mínima idéia do quanto teria de esperar. Não havia nem ao menos comprado comida! E se eles só chegassem no horário do almoço? Ou pior... do jantar?
Pensou em sair e comprar alguma coisa, contudo, se os dois aparecessem enquanto ele estava fora, talvez achassem que Harry os tinha abandonado. Ou talvez se perdessem. Ou...
Bom, era melhor se conformar e ficar em casa. Sentou-se no sofá, pegou uma revista de uma pilha torta ali perto e se pôs a ler, torcendo para que não demorassem muito.
Obviamente, eles demoraram. Já passavam das duas quando alguém finalmente bateu na porta. De tão concentrado e distraído que estava, Harry levou um susto. Pulou de um salto do sofá, a revista escorregando de seu colo. Respirou profundamente para se acalmar antes de andar a largas passadas para a porta. Tentou inutilmente ajeitar o cabelo e enxugar as mãos nas laterais das calças jeans. Dois hábitos que adquirira antes de entrar em alguma reunião no QG auror.
Abriu a porta com um sorriso ansioso já se formando em seu rosto. A primeira coisa que viu foi um mar de cabelos roxo e rosa.
- Teddy! - exclamou feliz ao reconhecer imediatamente o afilhado.
O menino se voltou para ele, encarando-o com um olho azul e outro castanho esverdeado. Harry riu. O cabelo de Teddy foi ficando desbotado, e os olhos voltando a um tom normal de castanho claro. Por fim, escondeu o pequeno rosto no pescoço do pai.
- Remus! - exclamou Harry mudando o foco de sua atenção para o homem que lhe sorria. Ele estava igual há quatro anos atrás. Os mesmos cabelos precocemente esbranquiçados, as mesmas roupas rotas, o mesmo rosto simpático e cansado.
Apertaram as mãos com prazer, demorando um tempo maior se analisando intensamente. Fazia tanto tempo! Sorriram largamente um para o outro, como dois bons velhos amigos que não se vêem há muito. Teddy arriscou uma olhadela para Harry, que sorriu para ele.
- Então, esse é o famoso Teddy Lupin - disse passando a mão pelos cabelos aloirados de pontas lilás. - Quantos anos você tem? Parece quase um homem!
Um pouco menos tímido, Teddy desgrudou um dos braços do pescoço do pai e virou-se para Harry. O menino olhou a própria mão e, após um momento de hesitação, estendeu os cinco dedos. Remus, ainda sorrindo, abaixou um deles. Teddy, agora mais confiante, mostrou a mão para Harry.
- Quatro anos! Nossa, realmente, quase um adulto - bagunçou um pouco mais os cabelos do afilhado, que finalmente sorriu de volta, os cabelos passando de loiros para azul claro.
- Teddy, esse é Harry Potter, lembra? Já te falei dele. É o seu padrinho - disse Remus, virando-se para o filho, que olhava do pai para o rapaz a sua frente.
- Harry... - disse Teddy como se testasse o sabor do nome.
- Isso mesmo. Prazer, Teddy - respondeu apertando a mão da criança, que ainda o encarava levemente desconfiado.
- Você parece igual há quatro anos atrás - comentou Remus de súbito, sem tirar ainda os olhos de Harry. - Ao mesmo tempo, parece mais velho. Mais maduro. Os anos passaram - completou e, apesar de estar sorrindo, soou melancólico: - Está realmente igual ao James.
- Menos os olhos - completou Harry, acostumado que estava a ouvir isso desde criança, convidando com um gesto os novos moradores a entrarem no apartamento.
- Sim, eles sempre foram os olhos de Lily.
Teddy soltou uma exclamação feliz ao entrar, enquanto Harry fazia o malão roto e surrado dos dois levitar para dentro.
- Bom, não é o lugar mais arrumado do mundo - começou ao ver o olhar de Remus passando por sobre as pilhas de coisas espalhadas pela sala. - Mas não tenho tido muito tempo de parar em casa, e arrumação nunca foi o meu forte, então...
- Relaxe - disse Remus se virando para ele com um sorriso.
Harry respirou aliviado. Percebendo finalmente que parecia ainda um aluno esperando a aprovação do professor. Sacudiu esse pensamento da mente e se aproximou de Remus.
- Deixe-me apresentá-los a seu novo quarto — disse, tomando a frente e guiando o malão para a primeira porta do curto corredor que levava aos dois quartos e ao banheiro. - Quero que se sintam a vontade para mudar tudo o que quiserem - abriu espaço para Remus entrar no recinto enquanto colocava o malão a um canto. - Essa cama já estava aí quando comprei a casa, sabe, ela veio toda mobiliada. Mas eu tive de comprar outra cama para o Teddy, por isso elas não estão combinando muito...
Enquanto falava arrancou uma meia presa no abajour, detalhe que havia escapado durante a arrumação. Colocou-a disfarçadamente no bolso.
- Harry, você não precisav...
- Ah, Remus, para com isso, Teddy é meu afilhado. Considere como um presente de aniversário atrasado - disse sorrindo e batendo nas costas do homem, que sorriu de volta sem jeito. - Como eu disse, façam todas as mudanças possíveis, quero os dois confortáveis aqui. Vocês são minha família agora.
Remus olhou para ele. Algo em seus olhos brilhou rapidamente, então ele se afastou e o sorriso que antes era sem graça se ampliou um pouco.
- Você sempre foi muito bom em se dar para as pessoas. Mesmo que elas, às vezes, não mereçam.
Harry sentiu o rosto corando e colocou as mãos nos bolsos, subitamente sem graça.
- Isso não é verdade, você merece.
- Não, Harry. Eu não mereço. E nós dois sabemos disso. Fiquei quatro anos fora, sem me comunicar direito com ninguém e só apareço quando estou precisando de ajuda. Que tipo de amigo sou?
- Do tipo que estava apenas precisando de um tempo - respondeu o jovem olhando para Remus e desafiando-o a continuar com aquela história de desmerecedor.
- É, talvez, como sempre, você esteja certo - não havia mais sorrisos em seu rosto, apenas um olhar triste. - Às vezes eu acho que nunca virei um adulto completo. Enquanto você parece que nunca foi uma criança completa.
Harry fez uma careta com essa declaração e ao mesmo tempo, sua barriga deu um ronco alto. Teddy começou a rir.
- Sua barriga soltou um pum! - exclamou entre risos apontando para a barriga de Harry.
- É, bem, estou com fome - respondeu dando de ombros e sorrindo para a criança. - O que você acha de sairmos para comer uns hambúrgueres?
- Podemos papai? - perguntou Teddy feliz, olhando ansioso para o pai. Remus hesitou, mas Harry não permitiu que ele dissesse nada.
- Claro que podem. Vamos, eu mostro a vocês o lugar onde sempre vou quando estou mesmo com fome.
E assim saíram para a rua, Harry guiando-os até o Bif Bof, uma mistura de fastfood com restaurante, onde eram servidos alguns pratos prontos e hambúrgueres para serem comidos com garfo e faca. Harry achou melhor levá-los ali, que tinha inclusive um mini-pátio de recreação, do que na lanchonete decadente onde costumava tomar café quando esquecia de passar no supermercado. Havia outros lugares apara comer, mas Harry nunca gostara muito do restaurante pseudo-francês que havia no outro quarteirão. Sempre se sentira levemente oprimido em ambientes refinados demais. Ali no Bif Bof poderia se sentar esparramado, falar alto e rir a vontade que ninguém o olharia torto.
Assim que chegaram, Teddy esqueceu completamente da idéia de comida e correu até o grande pátio de brinquedos, misturando-se imediatamente com as outras crianças. Logo ele já era centro das atenções, com seus cabelos azuis vibrantes. Harry e Remus encontraram uma mesa ali por perto que os permitisse ficar de olho no menino.
Pediram inicialmente uma salada. Harry não gostava muito de comer saladas assim, sem nada para acompanhar, mas resolveu que uma vez na vida não faria mal. E não fez mesmo. Estava terminando o último pedaço de alface com aquele molho branco bizarro e levemente picante quando Teddy surgiu próximo à mesa seguido por duas meninas, uma bem mais velha e outra mais ou menos da mesma idade.
- Papai, tô com fome - disse coçando o nariz e ignorando as duas meninas grudadas em seus braços.
- Então vamos pedir um hambúrguer para você - começou Harry olhando o menu e se pondo a imaginar o que exatamente uma criança gostaria de comer. - O que você prefere, Teddy, cheese salad...
- Nada disso. Antes Teddy tem que lavar as mãos - disse Remus já se levantando.
- Aaaah, paiê! - choramingou o menino olhando as próprias mãos.
- Se não lavar, não tem hambúrguer - disse Lupin em um tom de ponto final. Teddy ainda tentou fazer beicinho, mas quando o pai ofereceu a mão, ele pediu licença para as meninas e a aceitou, sendo levado até o banheiro.
Harry observou a cena com um meio sorriso no rosto. Remus como pai era curioso. Quer dizer, ele sempre tivera aquele jeito carismático e certa facilidade em lidar com jovens (não era a toa que fora seu professor favorito em todos os anos de Hogwarts), mas ainda assim, vê-lo com seu próprio filho não deixava de ser interessante. Principalmente porque para os outros trouxas ele provavelmente parecia um contador, um gerente ou um cara normal como outro qualquer. No entanto, seu filho de quatro anos tinha cabelos azuis.
Inclusive, quando Remus voltava com Teddy do banheiro, uma mulher parou-os perto da mesa com um sorriso enjoado.
- É seu filho? - perguntou em um tom neutro olhando de um para o outro. Remus confirmou com a cabeça, olhando-a cordialmente questionativo. - Você pintou o cabelo do seu filho de azul? - a censura era quase palpável.
- Não - respondeu Remus ainda cordial, contudo, seus olhos se tornaram visivelmente mais duros - a mãe dele o fez, e é apenas papel crepom. Sai com a água - dizendo isso pediu licença e se desviou da mulher, colocando em seguida Teddy sobre a cadeirinha especial para crianças.
Harry ainda acompanhou com o olhar a mulher seguir na direção de outras mulheres, que pareciam estar de olho nas crianças do parquinho. Ao chegar no grupo, começou a sussurrar com as outras, sem se preocupar em disfarçar os olhares que lançava na direção de Remus e Teddy. Harry queria levantar e azará-la. Era óbvio que duvidara da capacidade de Remus de cuidar do próprio filho e que agora fazia as piores fofocas sobre ele. Porém, o que verdadeiramente o irritara era a semelhança daquela mulher com sua tia, Petúnia. O mesmo arzinho fofoqueiro, a roupa de dona de casa, o rosto comprido e cavalar...
- Harry... - disse Remus ,que já sesentara, despertando-o ao colocar a mão sobre a sua. - Deixe para lá. Ouço esse tipo de pergunta dos trouxas o tempo todo. Poderia simplesmente pedir para Teddy parar de usar suas habilidades metamorfomagas, mas sempre achei que não deveria insinuar sobre ele nenhum tipo de vergonha pelo que é. Dora jamais aceitaria isso - e afastou a mão da dele.
Harry olhou para a mesa, pensando no que Remus acabara de falar e sentindo ainda o calor da mão dele sobre a sua.
- Você está certo - respondeu não conseguindo deixar de evitar lembrar do quanto os Dursleys haviam tentado fazê-lo sentir vergonha de quem era. Inconscientemente fechou a mão em punho. - Mas o problema não é você, é esse tipo de pessoa - apontou para o grupinho de mulheres que ainda conversavam entre si.
- Pessoas como elas vão sempre existir, Harry. Não importa aonde você vá. O que importa é saber que não se pode levar nada do que dizem a sério.
O jovem suspirou e, resignado, deixou que o assunto morresse. Voltou a pegar o menu sobre a mesa, se concentrando na idéia de comer algo bem mais suculento do que uma salada de inverno. Teddy, animado ao perceber que finalmente comeriam, começou a batucar sobre a madeira da cadeirinha e a cantarolar uma música incoerente.
Não demorou muito e vários assuntos apareceram entre eles. Tinham muita coisa para conversar afinal, quatro anos de separação faziam uma grande diferença. Comeram seus hambúrgueres despreocupados com o tempo. Há muito Harry não fazia algo do tipo, e se sentiu surpreendentemente satisfeito. Não ter com o que se preocupar e ainda assim não sentir um rombo de solidão era algo novo.
De sobremesa, comeram um enorme sorvete com salada de frutas e biscoito, que Teddy insistiu veementemente em pedir. Claro, o menino não aguentou mais do que algumas colheradas, e no fim foram os dois homens, já estufados com o grande hambúrguer que haviam pedido, que tiveram de terminar o doce.
Enquanto esperavam digerir ao menos um pouco o que haviam comido e tomavam um café, Harry terminou de contar sobre o trabalho e de como ingressara na carreira atual. Lupin revelou que quando jovem sempre quisera ser auror, mas que em seu tempo não aceitavam lobisomens. Então contou sobre os países por onde passara, começando pela Albânia, famosa por sua maciça comunidade licantropa, então Egito, onde encontrara uma sociedade mágica muito mais aberta à ideia de lobisomens, cargos importantes eram ocupados por licantropos que ainda eram respeitados como herdeiros do deus Anúbis, ou seja, guias para o além, de acordo com a antiga religião.
Remus revelou ainda que pensara em ficar definitivamente pelo Egito, não fosse o calor e a doença de Teddy. Muitas das pirâmides e marcos do país continham magia anti-metamorfomagos, que Remus descobriu tarde demais que na antiguidade eram considerados vis e não confiáveis, o que fez com que Teddy tivesse uma doença mágica com o resquício da poderosa magia que fora lançada nos mais diversos locais. Então Remus resolveu voltar para a Europa, passando antes pela Itália, onde lobisomens eram ainda a escória da sociedade mágica, pela França, pioneira européia dos direitos licantropos, e por fim na Alemanha, onde ficou junto ao movimento pró-licantropo até ser quase expulso pelo governo mágico alemão. Então ouviu falar da aprovação da lei na Inglaterra e percebeu que talvez fosse hora de voltar a seu próprio país.
- Você realmente não parou quieto - comentou Harry ao ouvir a história. - E não sentiu nem um pouco de saudades daqui?
- Se não houvesse sentido, teria me estabilizado na Alemanha. Lá a luta está quase vencida, e o movimento me queria por perto - respondeu com um tom simples, brincando distraído com o canudinho de seu copo já vazio. - Mas apesar de ter perdido quase tudo o que já amei nesse país, é aqui o lugar no qual nasci e fui feliz. Acho que não tenho o direito de impedir Teddy de ter uma chance de, quem sabe, ser feliz em sua terra natal.
- Mas não foi só por ele que você voltou - disse Harry percebendo facilmente que aquilo não era tudo.
- Não, você está certo - respondeu Remus sorrindo tristemente. - Em suma, sou uma pessoa egoísta. Voltei porque estava com saudades - e seus olhos tom de âmbar encontraram os de Harry. E ele entendeu imediatamente o que Remus queria dizer.
Sabia que ali na Grã-Bretanha havia acontecido todas as suas tragédias pessoais, contudo, sabia igualmente que fora ali onde tivera seus momentos mais felizes. Foi por aquele povo que ele lutara e vira se perder a vida de pessoas importantes. Qual seria o sentido da luta se, quando encontrasse a vitória e enfim, a paz, fosse embora para nunca mais voltar?
- Acho que não vou conseguir me levantar - disse Remus em um tom mais ameno, apalpando a própria barriga. Harry riu, sentia-se igualmente pesado.
- Não deveríamos ter pedido um sorvete tão grande — comentou, passando a mão no abdômen. - Teddy comeu apenas duas ou três colheres e nós é que tivemos de terminar o serviço.
- Ah, você vai se acostumar, é sempre assim.
E Harry sorriu com essa idéia. Ele iria se acostumar. Talvez, de fato, Remus não tivesse planos de fugir novamente para longe.
Os dois se levantaram, e pelo estado calamitoso em que estavam, Harry acabou se oferecendo para levar Teddy no colo, já que Remus parecia realmente cansado e pesado. Pagaram a conta e foram andando tranquilos pela calçada, conversando sobre coisas quaisquer que nenhum dos dois lembraria depois.
Mas foi ali que Harry sentiu pela primeira vez aquele calorzinho gostoso perto do tórax, avisando-o de que, talvez, não fosse mais um intruso na família alheia. Era apenas ele, Remus e Teddy, voltando para a casa juntos. A idéia de viver naquele apartamento simples em um bairro da periferia de Londres já parecia menos triste.
N/A: E foi dada a largada! Agora... vamos ver como esses dois vão ficar juntos. Nossa, tem muita coisa a ser trabalhada, não acham?
J. P. Malfoy.
Aqui pelo Brasil falta muita criatividade de leitores e escritores para ships menos mainstream. Obrigada pela ofert!
Liv Stoker
Continuação postada, espero que seja do agrado!
