Capítulo Segundo

"Caramba, entrei na casa errada!" foi a primeira coisa que Harry pensou ao por o pé dentro daquele apartamento iluminado, brilhante, arrumado e com cheiro de comida caseira. Claro, fora um erro. Era só ele voltar por onde tinha vindo, fechar a porta e fingir que nada havia acontecido. Será que tinha subido mesmo três vãos de escada? Errara o andar?

Saiu de fininho, pé ante pé, então olhou para a parte de cima da porta, o número do apartamento grudado ali em um pequeno letreiro dourado: 307.

- Eeeeeeeeeeeeeeeeeh...! - Com os olhos ainda arregalados, Harry olhou para dentro do apartamento e um pequeno menino surgiu correndo e gritando da direção dos quartos. Ele tinha um pequeno avião na mão, como se sua corrida na verdade fosse o vôo deste. O menino tinha cabelos castanhos bem finos, um nariz reto e arrebitado e longos cílios perfilando olhos grandes e claros como mel.

- Teddy?! - perguntou sem ar ao perceber que, provavelmente, aquela era a forma original do afilhado.

O garoto parou no meio de sua corrida, olhou para Harry com os olhos arregalados e a boca escancarada. Por um momento nenhum dos dois fez qualquer coisa, ambos assustados e surpresos com a presença do outro. Então, Teddy, ou quem ele achava se tratar de Teddy, correu para trás do sofá e se jogou ali. O som de seu pequeno corpo caindo no chão foi tão forte que fez Harry se perguntar se o menino se machucara.

Porém, os pés calçados num pequeno modelo de allstar colorido e desamarrado apareciam no final do sofá e estavam estáticos.

- Erm... - começou Harry sem saber exatamente o que fazer. Coçou a cabeça tentando decidir se ia ou ficava, quando uma voz surgiu da direção da cozinha.

- Harry, é você?

Será que o vizinho debaixo também se chamava Harry? E eles tinham uma criança pequena extremamente parecida com Remus? Engraçado essas coincidências da vida, não?

Estava seriamente voltando e indo embora, jurando que haviam trocado a placa dos apartamentos - porque aquele ali definitivamente não era o seu 307 -, quando seus olhos bateram por sobre a mesinha de centro. Estava ali, ou melhor, não estava ali um pedaço do tampo. Harry lembrava como se fosse ontem quando Ron, que na época ainda não havia desistido da idéia de se tornar um auror, tentara lançar um feitiço de contra-ataque em Harry e acertara a mesinha de centro, fazendo-a voar e espatifando-a perto da janela. Harry dera um reparo nela, mas aquela lasca na borda jamais fora encontrada para ser remontada. Provavelmente voara pela janela aberta até sumir no mundo.

Caramba, aquela era mesmo a casa dele!

Uma cabecinha roxa de olhos negros surgiu por sobre o sofá. A não ser que a criança houvesse se multiplicado ou pintado o cabelo e posto lentes, aquele só poderia ser Teddy. Harry sacudiu a cabeça, incrédulo, olhando em volta e não reconhecendo seu próprio apartamento.

- Harry? - voltou a chamar a voz que ele facilmente reconheceu como sendo de Remus.

- Sim, sou eu - disse ele tentando inutilmente conter o choque de sua voz e fechando finalmente a porta atrás de si. Olhou embasbacado para o chão, não se lembrava do fato dele ser de madeira. Não era carpete? Não sabia, não o via há... bem, muito tempo.

Andou até a cozinha, olhando por todos os lados. Havia agora um quadro na parede, do lado oposto ao da televisão. Nele haviam alguns recortes de jornal, todos sobre ele próprio, Harry, após solucionar algum mistério ou prender algum bruxo das trevas. Ele sabia que tinha esses jornais espalhados pela casa, mas nunca havia pensando em emoldurá-los. Eram apenas noticiais em folhas de jornal que ele nunca jogava fora por... preguiça.

- Remus, o que houve nessa cas... - então a parte mais chocante: sua cozinha parecia uma cozinha. Não um depósito de bugiganga vazio e frio, mas uma cozinha. E havia comida ali. Não cereal, ou uma caixa de pizza, ou comida congelada. Comida de verdade, feita em panelas que ele nem sabia que tinha. Menos a menor. A menor ele sabia que tinha, era onde esquentava a água para o macarrão instantâneo. No entanto, não foi nada disso que de fato o emudeceu, pois mudanças esquisitas e descaracterizantes como aquela estavam também na sala, que ele tinha visto primeiro. O que fez Harry parar de falar e arregalar ainda mais os olhos foi a pessoa ali parada, de costas, fazendo algo no fogão.

Não, não fora a pessoa em si que o pegara de surpresa, mas o que ela estava vestindo. O queixo de Harry foi até o chão enquanto observava gotas de suor escorrerem das costas desnudas e marcadas por longas cicatrizes de Remus, os braços dele mexiam uma colher em uma panela e seus corpo se movimentava todo junto. Agora, o toque final na cena era o avental que Remus usava. Estava de calças sociais, sem blusa, com um avental.

Remus se virou, passou o braço coberto de claros pelos dourados pela testa suada e sorriu para Harry, que pôde ver melhor os detalhes do avental quadriculado em um vermelho tão fraco que parecia rosa.

- Ah, Harry... - disse ele ainda sorrindo, os olhos faiscando. Harry não conseguiu se obrigar a fechar a boca a tempo. Seus olhos se perdendo na análise curiosa das omoplatas de Remus. - Que bom que você chegou. O almoço está quase pronto.

Harry abriu a boca. Então a fechou. Ia falar alguma coisa, mas esqueceu. Piscou e ajeitou os óculos na ponte do nariz.

- Aonde você arrumou esse avental? - perguntou por fim, passando a mão pelos cabelos. Não conseguia se forçar a fazer um ar menos surpreso com tudo.

- Ah, isso? É só que eu não queria sujar minha calça. Não tenho muitas - respondeu Remus dando de ombros. Suas omoplatas desnudas subiram e desceram, os olhos de Harry também. - Achei ele aqui na cozinha, embaixo da pia. Espero que não se importe - disse Remus parecendo pela primeira vez desconfortável.

- Imagina... - respondeu Harry pensando no quanto deveriam ter sido dolorosas cada uma daquelas cicatrizes pelos braços e tronco de Remus.

- Vou colocar uma blusa, é só que ficar em frente ao fogão o dia inteiro esquenta... - começou ele, afastando-se. - Estava acostumado a cozinhar assim quando era só eu e Teddy, é mais confortável ficar assim nessa época do ano.

Remus tentou passar por Harry, que enfim conseguiu sacudir o torpor de sua mente e esticou um braço, impedindo seu antigo professor de sair da cozinha.

- Remus, você pode cozinhar como quiser, não me incomodo - disse por fim, sentindo o rosto ruborizar. - Não sabia que você cozinhava. Pelo menos não tanta coisa - disse finalmente conseguindo desviar a atenção das omoplatas de Remus que apareciam pela parte de cima do avental e voltando-se para todo o resto. - Quer dizer, some o susto de ver você cozinhando às mudanças em todo o resto da casa e, bem, fiquei surpreso, só isso.

Remus sorriu de sua típica forma compreensiva, mas se afastou de Harry, que só então percebeu que ainda prendia o outro pelo braço.

- Gostou? - perguntou Remus voltando para perto do fogão.

- Gostar?! Remus, eu nem sabia que o meu chão era de madeira!

Remus riu alto desse comentário, sem se virar para Harry que teve a impressão de que o rosto dele estava vermelho. Seria o calor do fogão?

Saindo de vez da abobalhação, Harry se desgrudou do chão, tirou a parte de cima das vestes e dobrou as mangas da blusa. Aproximou-se de Remus e postou-se a seu lado.

- Em que posso ajudar?

- Agora? Em nada. Só estou aguardando a água terminar de ferver e então é só jogar a massa.

- É sério, não tem nada mesmo que eu possa fazer? - perguntou se sentindo levemente estúpido ao ter tudo feito por outra pessoa. Um hóspede.

- Bom... - começou Remus olhando-o de esguelha. - Você pode levar Teddy para lavar as mãos antes que eu ponha a comida.

- Ah, Teddy...! - exclamou Harry quase dando um salto. Havia esquecido do afilhado. - Ok, se Teddy me deixar chegar perto. Ele foge de mim.

- Besteira - disse Remus abanando a mão como se espantasse uma mosca. - Teddy gosta de todo mundo, só precisa se adaptar a você.

- Se você diz - disse Harry dando de ombros e se virando.

Ao voltar à sala encontrou o afilhado sentado no chão lustroso(!) ainda brincando com o aviãozinho.

- E aí, Teddy - disse Harry se agachando ao lado do menino, que o encarou com olhos verdes, típicos dos Potters. Harry ergueu a sobrancelha, enquanto Teddy o observava atentamente. - Está com fome?

- Tô - respondeu o menino com uma fungada.

- A comida está quase pronta, vamos lavar as mãos?

- Não quero.

Ok, por isso Harry não esperava. O que deveria fazer agora? Arrastar Teddy até o banheiro mesmo assim ou tentar convencê-lo um pouco mais?

- Ahm, bem. Ok. Então vou lavar sozinho. Adoro lavar as mãos - acrescentou num súbito de inspiração, levantando-se.

- Ninguém adora lavar as mãos - respondeu Teddy em uma imitação de sarcasmo, mas ele não estava tão seguro assim.

- Bom, só bobocas não gostam de lavar as mãos. Eu gosto.

- Você é Harry Potter - disse ele olhando-o pela primeira vez com algum sinal de admiração. Provavelmente avaliava que o que Harry dizia valia mais do que a opinião de algum amiguinho.

- Sou sim, e você é Teddy Lupin - disse dando de ombros. Não queria mais uma pessoa lembrando-o quem ele era, como se sofresse de um caso irreversível de amnésia e nunca conseguisse se lembrar da própria identidade. - Se vier comigo te ajudo a lavar as mãos. Vamos? - e Teddy nem ao menos hesitou em dar a mão a ele e segui-lo ao banheiro.

Mãos lavadas, voltaram à cozinha, Remus já estava sem avental e vestindo uma blusa xadrez que o fazia ficar parecendo com um caipira. Harry achou uma pena. Gostara do avental. Era engraçado. E tornava Remus alguém mais... humano? Talvez essa não fosse a palavra...

Inspirou profundamente antes de se sentar na mesa.

- Se for tão gostoso quanto o cheiro, estou feito! - exclamou passando a língua pelos lábios em expectativa.

Remus sorriu e trouxe para a mesa uma das travessas de vidro que, para variar, Harry não sabia que existia naquela casa. Ele observou tudo muito curioso, como uma visita em seu próprio apartamento. Os armários, os talheres, pratos, panelas, tudo era muito novo, limpo, brilhante e diferente.

- Oh meu Deus! - exclamou quando colocou a primeira garfada para dentro.

Remus olhou-o surpreso, acompanhado por Teddy.

- O que foi, está quente demais? - perguntou Remus preocupado.

- Ahn? Quente? Não, não! Quer dizer, Remus, isso está... - Harry terminou de mastigar a comida lentamente, tentando ao mesmo tempo achar a palavra certa - Maravilhoso! Está maravilhoso. Onde você aprendeu a cozinhar assim?

- Bom, aprendi com a minha mãe - respondeu ele e um pequeníssimo tom triste tomou sua voz. - Por que você acha que sempre fui bom em me infiltrar entre grupos restritos de lobisomens? É difícil para homens esfomeados negarem asilo para alguém que consegue alimentá-los bem.

Ele riu, acompanhado por Harry e depois por Teddy. Mas não teve graça por muito tempo, pois Harry imaginou o quão terrível deveria ser viver num grupo de lobisomens selvagens, quase à margem da sociedade. O talento de Remus na cozinha deveria ser um alívio tão grande que todas as portas lhe eram abertas nos mais restritos grupos. Não era a toa que Dumbledore sempre confiara nele para esse tipo de missão. Para ser um bom espião jamais bastara ser apenas mais um da espécie.

- Que bom que agora você nunca mais vai precisar cozinhar para lobisomens. A não ser que queira - disse Harry. Remus o encarou surpreso, mas o jovem, distraído com a excelente comida, mal reparou. O que Harry verbalizara era tudo o que Remus precisava ouvir, sem nem mesmo saber. Porque aquela frase, simples e despretensiosa, carregara para longe um peso invisível de seus ombros cansados: agora, tudo poderia ser escolha dele. Inclusive cozinhar, ou andar com lobisomens, infiltrar-se, ou apenas sentar a mesa de um confortável apartamento na periferia de Londres e desfrutar um almoço com seu fillho e com Harry. Quase como se... como se... fossem felizes. Uma família.

Sacudiu a cabeça e voltou a comer. Mal chegara e já estava pensando em família. A Harry havia sido imposta uma condição de solitário, assim como ao próprio Remus. Ambos em uma idade em que não poderiam fazer nada para se protegerem. Ambos encontraram amigos que clarearam seus dias e ambos perderam a única chance que já tiveram de serem felizes e terem o que poderia ser chamado de família. Remus perdera isso duas vezes, quase consecutivas. Mesmo assim, mesmo com todas essas cicatrizes em comum, não era para tanto, era? Só porque Harry parecia entendê-lo de forma tão natural, não significava que formariam uma família. Ou mesmo que conseguissem curar a solidão um do outro.

E, de fato, o molho estava excelente. Era melhor se concentrar em comer antes que perdesse a fome em inúteis conjecturas.


N/A: Só a primeira amostra do que ainda está por vir! Não sei se avisei, mas essa história é compridinha, ok? Não muito, eu acho, no entanto não é para ser uma short.


Agradecimentos: Umbreon-chan, Gabriela P. M., Moe Greenishrage, Hyuuki.