Capítulo Quarto
Harry estava feliz. Era estranho pensar aquilo, porque ele nunca achou que antes não o fosse. Bom, não fora exatamente infeliz, mas agora ele era feliz de verdade. Completo. Era assim que se sentia ao estar, por exemplo, andando com Teddy e Remus na rua. O menino com uma mão dada para cada um deles, conversando, pendurando-se, rindo. Parecia tudo muito certo. Como se Harry sempre tivesse sonhado com isso sem saber.
Naquele dia em específico, Harry largara um pouco mais cedo o trabalho e resolveu passar, mesmo sem avisar, no colégio do afilhado. Obviamente, encontrou com Remus lá e os três acabaram indo fazer um lanche em Piccadilly Circus, onde havia uma excelente lanchonete que Harry sempre costumava frequentar quando saía com Ron do trabalho. Claro, na época em que os dois ainda trabalhavam juntos. Fazia alguns meses que Harry não ia lá com o amigo, cada um ocupado com seu próprio mundo, Ron na Loja Gemialidades, Harry como auror. Porém, agora, com Remus e Teddy parecia uma boa coisa.
Assim que chegaram em Piccadilly Circus e sua praça central com um grande chafariz, Teddy soltou-se dos dois e começou a correr atrás dos pombos, chamando a atenção das pessoas na escadaria em volta do chafariz, que no geral sorriam ao ver o pequeno menino feliz correndo e gritando de um lado para o outro. Naquele dia os cabelos de Teddy estavam turquesa, sua cor favorita, faziam-no parecer uma grande mancha azul assustando pombos.
Harry e Remus sorriram para a criança, depois um para o outro e foram se juntar às outras pessoas na escadaria do chafariz. Teddy viria até eles quando finalmente se cansasse e ficasse com fome. Harry sentou-se apoiando o cotovelo no degrau de trás e esticando as pernas, completamente esparramado.
- Então, como vai o trabalho? - perguntou Remus em um tom ameno de quem apenas puxa assunto. - Ainda investigando lugares ermos?
Harry fez uma careta.
- Nem isso tenho feito. Agora estou mais dentro do próprio QG cuidando da parte burocrática.
- Uow, boa sorte - respondeu Remus sorrindo solidário.
- Tudo só porque nunca havia feito um relatório na minha vida. Agora querem que eu faça todos - resmungou Harry coçando o queixo - Odeio fazer relatórios.
- Quase ninguém gosta - respondeu Remus batendo a mão no ombro do jovem que sorriu de volta desalentado.
- Pelo menos Vicky prometeu me ajudar, porque agora não tenho mais como pedir ajuda da Mione - acrescentou com uma voz saudosa. - Se eu pedir, ela é capaz de arrancar minha cabeça fora.
- E com razão! - respondeu Remus rindo. Os dois sabiam muito bem que relatórios aurors eram razoavelmente secretos e não poderiam sair por aí pedindo ajuda a alguém que não fazia parte do QG. Harry deu um sorriso contrafeito. Quem dera Hermione se interessasse pela carreira auror, seria tão mais fácil. Para ele, ao menos.
- Mas e você, Remus, o que conta de novo? - perguntou Harry, desviando o assunto de seu fracasso como escritor de relatórios.
- Uhm, nada de mais - respondeu o mais velho com um tom triste, olhando para o chão. - Sabe, a vida doméstica é até interessante, mas...
- Você sente falta da ação - completou Harry.
- Sim, sinto falta de fazer alguma coisa de útil. Não só para mim, mas para...
- Os licantropos?
- Não só eles...
- A sociedade?
- É, também. Sinto falta de fazer algo que prestes serviços a pelo menos alguém.
- Bom, você arrumando e cozinhando na minha casa presta um serviço danado a mim - respondeu Harry rindo. - Cara, eu nem sabia que meu chão era de madeira!
Remus acompanhou-o na risada, mas logo em seguida desviou o olhar e disse: - Bem, ele não era. Pelo menos não quando cheguei - Harry se virou surpreso e viu que Remus estava corando. - Teddy é alérgico a poeira, e ela se acumula muito fácil em carpetes - acrescentou em tom de desculpa.
Harry ficou um momento em silêncio olhando para Remus, pensativo. O mais velho tentou sustentar o olhar, mas se sentia extremamente intrusivo por ter feito aquilo sem pedir permissão. Teddy não parara de espirrar desde que chegaram na casa e se ele fosse aguardar até a chegada de Harry...
- Acho chão de madeira muito melhor - disse Harry dando de ombros. Estava era intrigado em como Remus colocara o chão de madeira no lugar do carpete. Quer dizer, ele teve de comprar ou montar o chão? Como se substituía uma coisa pela outra? Porém, tinha a leve impressão de que se perguntasse Remus riria de sua completa ignorância, então, ficou calado imaginando como poderia ser.
- Você não está, uhm, zangado nem nada? Não queria abusar da hospitalidade é só que...
- Remus... - interrompeu Harry franzindo o cenho - do que você está falando?
- Bom, eu não pedi sua autorização, mas estava tudo tão desorganizado e...
- Você não pode estar falando sério e se desculpando por me fazer um favor tão grande quanto transformar aquele apartamento em algo habitável.
Sem saber o que dizer, Remus deu de ombros. Sabia que Harry não era do tipo que se importava muito com esse tipo de coisa, porém, não queria se sentir intrusivo ou abusivo como hóspede. Principalmente quando aquele jovem havia feito e continuava fazendo tanto por ele.
- Além do mais, eu disse, agora a casa também é de vocês.
Harry colocou o máximo de sinceridade que conseguiu e olhou diretamente para Remus. Queria que ele entendesse que era assim que Harry se sentia, de verdade. Remus parecia ter entendido isso desde o primeiro dia, porém, Harry não queria deixar resquícios para dúvidas. A casa era agora dele e de Teddy também. E não era por obrigação, era porque Harry gostava muito dos dois e também devia muito a Remus.
- Obrigado - disse o licantropo sorrindo para ele.
- Obrigado você - e dizendo isso Harry passou o braço por sobre o ombro de Remus, puxando-o para um semi-abraço.
E assim os dois ficaram, lado a lado na escadaria do chafariz, observando o pequeno Teddy correr de um lado para o outro. Já haviam surgido algumas outras crianças que brincavam com o menino. Para variar, ele era o centro das atenções dos outros pequenos, sendo que muitos eram até mais velhos. Harry sentiu aquele calor que se alojara em seu peito se ampliar ao perceber que teria muito orgulho daquele menino quando ele crescesse. Sentiu que de alguma forma Remus também estava com a mesma sensação, então os dois trocaram um olhar, um sorriso, e voltaram a atenção para as crianças. Tudo naquele dia parecia tender ao perfeito, mesmo o semi-abraço no qual ficaram até Teddy finalmente desistir de brincar e vir pedir para lanchar.
A lanchonete que Harry sempre frequentava era uma pequena e convidativa já no final de Piccadilly Circus. O que o atraíra para lá da primeira vez fora o cheiro do chá misturado com o do pão fresco. E mesmo agora continuava convidativo como sempre. Remus, Teddy e ele pegaram uma mesa do lado de dentro, já que o dia estava razoavelmente quente, mas tiveram sorte de conseguir ficar na janela, de onde poderiam observar o movimento na rua e serem banhados pelo sol, com a vantagem do ar condicionado. Harry pôde tomar seu chá favorito e Remus exclamou contente ao provar o dele.
- Nossa, senti falta dessa bebida! - disse se justificando após bochechar o chá por um longo tempo, fazendo uma expressão extasiada.
Harry riu, achando divertido a forma quase infantil com que Remus apreciava a bebida.
- Nos outros países as pessoas não tomam chá? - perguntou Harry curioso.
- Ah, tomam sim. Mas nenhum é tão bom quanto o britânico! Ele tem sempre a medida certa de leite. Só um pingo. - disse ele rindo e lambendo os próprios lábios em aprovação. O que fez com que Harry risse ainda mais.
- Mas essa loja aqui é especial, o chá deles é ainda melhor. Não sei o que eles fazem de diferente...
- O especial é que eles fazem o chá da forma como tem que ser feito - respondeu Remus com um tom sério, como se estivessem discutindo política.
- Gosto mais do chá do papai - disse Teddy olhando para o próprio copo, já praticamente vazio, e lambendo os lábios.
Harry e Remus riram do menino.
- Obrigado, querido - disse Remus se abaixando e dando um beijo na testa do filho, que sorriu para ele com todos os dentes à mostra. - Você é um ótimo bajulador.
Harry riu e Teddy fez uma cara confusa de quem não sabia o que "bajulador" significava.
Os três continuaram conversando mais do que comendo ou bebendo chá, até que Teddy começou a ficar entediado de estar parado há tanto tempo em um único lugar. O menino começou a batucar na mesa com o que estivesse ao alcance de suas mãos e eventualmente se levantava para correr pela loja. Foi quando ele deu um encontrão com um garçom e quase o fez derrubar a bandeja cheia de peças sujas que Harry e Remus decidiram que era hora de ir, antes que o menino destruísse a lanchonete.
Eles poderiam pegar um metrô ali mesmo em Piccadilly Circus, mas isso significava que teriam depois de pegar um ônibus para deixá-los em casa. Geralmente não era um problema, porém, Harry sugeriu que andassem um pouco mais e fossem até a Charing Cross, onde parava um ônibus que os levaria direto para casa. A vantagem era poder mostrar a Teddy um pouco mais de Londres. Sendo uma bela tarde e os três estando animados, acabaram por concordar em andar um pouco. Logo Teddy voltou a se divertir dando a mão para os dois, pendurando-se neles, pulando ou puxando-os. Tudo a seus olhos parecia imensuravelmente divertido.
Inclusive aquela loja colorida e bonita naquela rua igualmente colorida e divertida na qual entraram após um tempo de caminhada. Mais ainda do que colorida e divertida, a loja vendia sorvetes!
- Aaaaaah, pai! - exclamou o menino puxando os dois homens ao mesmo tempo pela mão na direção da loja. - Eles têm sorveeeeeetes! Oh! Podemos, papai? Podemos? Queria tanto um sorvete. Oh, papai, por favor, só um sorvete! Olha essas bolas grandes e coloridas! Tá calor, um sorvete, siiiiim? - O garoto parecia a beira de um ataque epilético de tão agitado que ficou. Puxou os dois pelo braço insistentemente, pulou e ficou olhando com grandes olhos pidões e molhados, fazendo inclusive beicinho.
Remus olhou para Harry, que olhou para Remus e deu de ombros, sorrindo.
- Ok, mas só um sorvete. E nada de choramingar - respondeu Remus olhando sério para o filho.
- Certo! - exclamou Teddy feliz, abrindo um grande sorriso e puxando-os quase saltitante para dentro da loja.
Ao entrarem, Harry, que andara desconfiado desde que vira um homem vestido em roupas de couro brilhante, teve certeza de onde estava. Quer dizer, ele nunca realmente fizera aquele caminho antes, só sabia que por ali conseguiriam chegar na Rua Charing Cross, onde pegariam o ônibus. Mas o fato é que o toldo arco-íris do lado de fora da loja também fora uma dica. Porém, só ao entrar ele percebeu que suas suspeitas tinham fundamento.
Haviam apenas homens na loja. Homens de todos os tipos conversando, rindo, dando as mãos, beijando, sentados no colo um do outro. Como quaisquer casais. Aquela era provavelmente alguma rua gay de Londres. Harry olhou para Remus, em busca de algum ar de surpresa, choque ou simplesmente estranhamento, porém, seu antigo professor continuou andando como se nada tivesse acontecido. Harry percebeu que estava sendo idiota. Quer dizer, por que deveria se importar? Por que achar que entrar em uma loja cujo público alvo era preferivelmente gay merecia mais atenção do que entrar em qualquer outro tipo de loja? Aquilo só seria estranho e mereceria um olhar significativo se ele estivesse com Ron. Porém, Remus era adulto há muito tempo e não tinha motivos para agir como um adolescente bobo e deslumbrado.
Os três foram até o balcão, onde alocaram Teddy em um de suas altas cadeiras de madeira. Logo uma mulher (que Harry sabia que não era uma mulher de verdade, porque nenhuma mulher teria um cabelo tão ruivo e chacheado nem lábios tão exageradamente grandes e vermelhos e nem usaria cílios postiços tão compridos) se aproximou para atendê-los com um largo sorriso.
- Olá, em que posso servi-los? - perguntou ela com aquela voz cantada que fez Harry querer rir. Para evitar que isso acontecesse, olhou para o balcão.
- Sorvete! - gritou Teddy animado olhando ansioso para ela.
- E de que sabor, querido? - perguntou a atendente se abaixando e sorrindo carinhosa para ele.
- Uhmmm... - Teddy fez um olhar pensativo infantil que fez o sorriso da mulher ampliar-se - Limão! Quero um de limão!
- Por que não estou surpreso... - comentou Harry sorrindo e rodando os olhos. Teddy sempre pedia sorvetes e picolés de limão.
- Ótima escolha, meu doce - disse a mulher passando a mão pelo cabelo do menino e se virando para ir buscar seu pedido.
Logo ela voltou com um copo vermelho berrante com uma grande bola de sorvete branco com uma cereja vermelha em cima. Teddy lambeu os beiços ao ver a taça à sua frente e a mulher sorriu para ele.
- Vocês têm aqui uma criança muito linda - comentou ela olhando para Harry e Remus.
- Sim, ele é muito especial - disse Remus passando um braço carinhoso pelo ombro do filho.
A garçonete suspirou.
- Acho tão lindo famílias assim! Não sei o que há de errado com o congresso retrógrado desse país, que ainda põe impedimentos para adoção de crianças por pais do mesmo sexo! - disse ela parecendo realmente frustrada com aquilo. - Mas digo uma coisa. A culpa é nossa. Parece que bichas simplesmente não sabem votar!
- Papai Harry disse que vai me adotar - disse Teddy ocupado com seu sorvete, falando de boca cheia.
- Ahm, Teddy... - resmungou Harry ficando vermelho e coçando a cabeça, sem saber o que dizer. Remus o olhou de forma curiosa.
- Então ele ainda não é de vocês?
- Bom, ele é meu filho biológico... - respondeu Remus.
- Ah, isso explica a semelhança - disse a mulher apertando a bochecha de Teddy com suas mãos manicuradas de longas unhas vermelhas. - Mas... engraçado - comenou ela olhando de Teddy para Harry -, ele tem os seus olhos.
Harry quase engasgou com essa afirmativa e olhou melhor para Teddy. O garoto havia mudado a cor dos olhos para aquele tom de verde característico. De fato, poderia passar facilmente por seu parente.
- São as coincidência da vida - disse a garçonete com um suspiro romântico. - Às vezes algumas pessoas simplesmente foram feitas umas para as outras - disse batendo com uma mão na de Harry e outra na de Remus, ambas apoiadas no balcão.
- Rebecca, cadê meu sanduíche! Pedi ele há meia hora! - gritou uma vozeirona do outro lado da loja.
A travesti rodou os olhos emoldurados pelos grandes cílios e maquiagem pesada.
- Já vai, Richard! - gritou ela com uma voz subtamente masculina, a mão apoiada na cintura de forma petulante. Então virou-se de novo para os três e o sorriso doce voltou a seu rosto - Vocês, queridos, sintam-se à vontade. São uma família muito linda e educada. Diferente de outros clientes daqui - disse ela fuzilando o local de onde viera o grito.
Harry olhou para Remus, sentindo ainda o rosto pegar fogo. Trocaram um olhar mudo e significativo. Nenhum deles se propusera a desfazer o mal entendido e Harry não entendia direito o que estava se passando. Ele queria muito poder formar uma família com Teddy e Remus, só nunca havia pensado direito em como seria. Sempre se imaginara como, bem... como... uma terceira parte. O tio Harry. Era legal também poder ser pai de Teddy, embora padrinho já fosse excelente. Porém, ele nunca havia avaliado aquela estranha possibilidade de ele e Remus serem um casal. Quer dizer, por que pensaria em algo do tipo? Remus era... era... O que Remus era?
Deu um suspiro cansado, sem saber o que pensar e se sentindo confuso. Então uma mão grande e macia encontrou suas costas e se apoiou ali confortavelmente. Harry ergueu os olhos para Remus, que sorria consolador. Harry tentou sorrir de volta, mas não sabia se conseguiria encarar seu ex-professor no momento. Nenhum dos dois disse nada, como se estivessem conversando apenas pelo olhar.
- Terminei! - exclamou Teddy de repente. Os dois homens desviram a atenção um do outro e observaram o menino apoiar a colher com estrondo no balcão.
- Essa foi rápida - comentou Remus. Ele se mexeu, indo atrás de sua carteira, porém, Harry foi mais rápido e tirou algumas notas do bolso pondo-as sobre o balcão.
- É por minha conta - disse bagunçando os cabelos turquesa do afilhado.
- Harry... - começou Remus em um tom de protesto.
- Rebecca! - chamou Harry ignorando-o. - Aqui está o dinheiro - disse apontando para o local onde largara as notas.
A garçonete piscou para eles e mandou um beijo, demonstrando que recebera o recado.
- Voltem sempre, queridos - gritou ela enquanto servia um pedaço de torta para um casal.
Naquele dia, nenhum deles falou muito no caminho de volta para casa. E a verdade é que Harry ficou pensando durante um bom tempo no que acontecera naquela tarde. Um dia teria de finalmente chegar a uma conclusão. E não era fácil.
N/A: As coisas estão esquentando! Harry é lentinho, mas já começou a pensar, o que será que sai disso?
Novamente, desculpem a demora. Faculdade é foda. Não que tenha me atrapalhado, mas eu esqueci de postar já que mal páro no computador finais de semana. Vou tentar não atrasar tanto da próxima vez! Se eu atrasar pode me cobrar :) E o próximo capítulo... tenho a impressão de que vocês vão gostar muito.
Agradecimentos: J. P. Malfoy., Freya Black, Umbreon-chan, Hyuuki (hahahaha fiquei até com vontade de fazer um remus puto mesmo. Não sei se nessa fic, mas me deu idéias...), Nicky Evans, Moe Greenishrage (nah, queria ter visto o comentário grandão! E obrigado por ter continuado tentando comentar até conseguir 3).
