Capítulo Quinto

Era exatamente esse tipo de trabalho que Harry detestava. Só não detestava tanto quanto ter de escrever relatórios. Às vezes (principalmente por aqueles dias) gostava de realizar atividades no próprio QG, tirar férias da agitação frenética das missões externas. Porém, isso não significava que gostava de fazer o que estava fazendo agora: servindo de guarda em uma reunião política.

Simplesmente insuportável ficar em pé por horas, calado, fazendo uma cara ameaçadora, rondando uma sala cuja conversa principal envolvia coisas completamente desinteressantes e desimportantes (para ele). Pelo menos dessa vez Harry achava que sua presença ali valia algo. Estava servindo de guarda para o Ministro da Magia em pessoa. E Harry gostava de Kingsley Shacklebolt. Isso salvava um pouco seu humor.

A congregação estava durando agora três dias e, com sorte, este era o último. Pelo menos era o que previa o cronograma. As coisas pareciam estar indo bem, então era provável que tudo acabasse logo. Ninguém mais parecia ter paciência para chegar às oito horas da manhã e ficar até mais ou menos as onze da noite. Principalmente Harry, que acordava às seis para ir buscar Shacklebolt e escoltá-lo até o local. Na noite anterior estivera tão cansado que nem ao menos fora para casa: o ministro oferecera um quarto vago para que Harry não precisasse acordar tão cedo. Basicamente, o jovem não falava com Remus e Teddy há alguns dias, e isso o estava afetando de forma assustadoramente profunda. Neste dia, o último, não pudera ao menos espiar os dois pela porta do quarto, apenas pelo prazer de vê-los e sentir aquele calor gostoso no peito. Harry estava mais mal humorado do que o normal, como puderam perceber os outros bruxos que chegaram a reclamar da criteriosidade de Potter ao revistá-los.

- É meu trabalho - respondeu ele sem se preocupar em parecer simpático.

Agora que a noite chegara, Harry começou a relaxar um pouco mais, ou melhor, ficar distraído. Pensava em como queria estar em casa e imaginava se encontraria pelo menos Remus acordado. Sentia falta de conversar com ele. Sentia falta de poder dar atenção a Teddy e estava realmente curioso para saber como foram seus dias na escola, se ainda estava tudo bem com os dois. Tentava se reconfortar dizendo a si mesmo que se algo acontecesse, Remus não hesitaria em mandar uma coruja. Mas... será que não hesitaria mesmo?

Harry deu uma longa olhada pela sala, em busca de qualquer sinal de alerta, porém, seus instintos diziam com muita certeza que aquela reunião não corria perigo. Sem muito mais o que fazer e querendo se distrair de todos aqueles sentimentos de saudade que o abarcavam, virou-se na direção da janela e ficou observando o grande e suntuoso jardim que enfeitava a mansão na qual o evento estava sendo sediado.

- Particularmente gosto das estátuas perto da roseira - disse Vicky parando ao lado de Harry. - São expressivas.

Harry ergueu as sobrancelhas, desinteressado. Na verdade, queria que Vicky fosse embora, não estava muito para conversas. Queria apenas ficar no seu próprio e particular silêncio.

- Geez! - suspirou Vicky não dando sinal de notar a ranzinzisse do parceiro - Essa lua cheia sempre me faz sentir apaixonado.

- O quê? - exclamou Harry subitamente alerta, virando-se para Vicky de olhos arregalados e então olhando para o céu. Lá estava ela, uma grande, brilhante e prateada lua cheia observando-o e banhando etereamente o jardim. Como ele não a havia notado antes?

- Sei lá, gosto de luas cheias - respondeu Vicky de forma simplista. - Elas sempre parecem ainda mais bonitas no primeiro dia do ciclo. Então sinto uma paixão por nada em específico e...

- Merda! - exclamou Harry zangado, frustrado e querendo bater a própria cabeça contra o adobe da parede.

Como ele pôde esquecer? Era uma das noites mais importantes para Remus e ele nem ao menos estava lá para apoiá-lo, nem ao menos pudera dizer nada. Que tipo de amigo era? E se Remus tivesse esquecido a poção Mata-Cão? Será que ele tinha dinheiro para comprá-la no Beco Diagonal? Harry deixara há dois dias o dinheiro para as compras de casa, mas e se... e se Remus também tivesse esquecido? E se ele atacasse Teddy? Merda!

Harry se movimentou agitado. Ele tinha de dar o fora dali, ir para casa e...

- Harry, cara, tudo bem? - perguntou Vicky colocando uma mão sobre seu ombro. - Você está pálido...

- Tô, tô bem sim - respondeu Harry sentindo um embrulho no estômago e se afastando de Vicky. Olhou em volta atrás de uma rota de fuga, percorrendo rapidamente os olhos pela sala e todas as suas portas, imaginando que desculpa daria para sair correndo dali.

Então seus olhos encontraram os profundos e negros olhos de Kingsley Shacklebolt e ele subitamente sentiu uma onda de racionalidade. Respirou fundo algumas vezes e passou a mão pelos cabelos. Remus viajara durante anos apenas com Teddy. Era licantropo desde a infância e jamais esqueceria sua poção, principalmente se a vida do filho dependesse disso. Até onde sabia, Remus havia esquecido apenas uma vez de tomá-la, anos atrás quando Harry tinha ainda treze anos. E naquele dia ele tivera um bom motivo para tal deslize: vira no Mapa do Maroto o nome de dois grandes amigos do passado, sendo que um deles deveria estar morto. Seria um choque para qualquer um. Hoje era impossível ele ter esquecido. Remus era muito cuidadoso, Harry sabia disso.

Respirou mais um pouco e começou a andar pela sala para se distrair. Se ficasse parado tinha certeza que surtaria. Era melhor ocupar a mente com o trabalho. Ainda eram oito horas da noite e ele teria de aguentar ao menos mais três horas antes de conseguir sair. Remus com certeza consideraria uma ofensa pessoal se Harry largasse o trabalho de proteger o ministro da magia para ir ver se ele tomara a poção. Provavelmente acharia que ele não confiava nele como homem, licantropo e pai. É só que... bem, Harry também tinha imaginado que particularmente nessa primeira noite pudesse estar ao lado do amigo, dando suporte e mostrando que ele não precisava mais se sentir como um lobo solitário.

- Harry - chamou uma voz profunda que reconheceu imediatamente como a voz de Kingsley Shacklebolt.

- Ministro - cumprimentou se virando com um salto. Levara um susto, tão submerso que estava em seus próprios pensamentos. Sentiu imediatamente o rosto corar, embora tenha tentado evitar. Shacklebolt provavelmente ficaria pensando que ele não recebera um treinamento auror adequado.

- Há alguma coisa o incomodando? - perguntou o homem observando-o atentamente.

- Ahm, não é nada relacionado à reunião - resmungou Harry. Como Shacklebolt continuasse a encará-lo, prosseguiu: - É que hoje é a primeira noite da lua cheia, e com Remus lá em casa, fico preocupado. Com Teddy, sabe.

- Remus? Remus Lupin? Ele está de volta à Grã-Bretanha? - perguntou o ministro erguendo as sobrancelhas.

- É, ele voltou - respondeu Harry querendo morder a própria língua por ter deixado escapar aquela informação. Remus não havia pedido segredo nem nada, porém, talvez não quisesse que os outros soubessem de sua volta. - Ele está lá em casa - acrescentou. Já que havia dito que Remus voltara, não custava nada explicar porque sabia da informação e porque estava preocupado com a transformação do licantropo.

Shacklebolt ainda olhou Harry por um longo tempo, ruminando aquela informação. Harry continuou se sentindo sem jeito. E se a volta de Remus fosse um segredo? Quer dizer, ele estava em sua casa agora há três semanas e Harry não havia falado nem com Ron, nem com Hermione sobre o assunto, o que dirá para o ministro da magia. Contudo, na verdade aquilo só acontecera porque não via nenhum dos amigos há um bom tempo, cada um ocupado com sua própria carreira. Hermine mandara na semana anterior um memorando chamando o amigo para almoçar, porém Harry estava no meio de um relatório e teve que declinar o convite.

- Bom, não se preocupe - disse Shacklebolt pegando novamente o jovem de surpresa com sua voz ressoante. - A reunião já está quase acabando e vou tentar dar um gás nela.

Harry olhou para o ministro surpreso e agradecido. Quase se aproximou e beijou-lhe a mão.

- Muito obrigado, ministro. Muito obrigado! - sorriu e, pela primeira vez naquele dia, sentiu-se aliviado.

Shacklebolt sorriu-lhe de volta, porém, logo seu semblante voltou a ficar pensativo. Fez um aceno rápido de cabeça e se virou para seu lugar à mesa. O bruxo que havia pedido um curto intervalo acabara de voltar do banheiro.

Como prometido, a reunião não durou muito mais do que uma hora. O ministro fez um discurso de encerramento e sua voz grave ecoou por todo o recinto. Os outros bruxos pareciam beber de suas palavras, no entanto, Harry não ouviu nem um terço do que foi dito, ainda ansioso para ir logo embora. Após todos se cumprimentarem e parabenizarem, Shacklebolt pediu desculpas e disse que teria de partir imediatamente para resolver problemas particulares e recusando educadamente a bebida trazida por um elfo-doméstico. Harry achou que poderia realmente tê-lo beijado por ter sido tão legal. Contudo, contentou-se apenas com um aperto no braço do ministro ao desaparatarem juntos.

- Muito obrigada mesmo, Kingsley - disse ele ao chegarem em frente a casa de Shacklebolt, despindo-se do papel de auror e ministro. - Você é um amigão.

- Não há de quê, Harry - respondeu ele sorrindo com a intensidade da gratidão de Harry. - Porém, você pode me fazer um favor?

- Qualquer um - respondeu Harry prontamente.

- Diga para Remus que quero vê-lo. Avise-me quando ele puder se encontrar comigo. Claro, depois que esse período difícil passar - acrescentou apontando genericamente para o céu.

- Pode deixar, darei seu recado - disse Harry ansioso por ir.

- E, Harry! - chamou o ministro antes de deixá-lo partir. - Relaxe, Remus sabe se cuidar.

Harry sorriu não muito seguro e, então, desaparatou.

Como morava naquele prédio desde que saíra de Hogwarts, na época em que ainda haviam muitos comensais soltos atrás de vingança, todo o perímetro era protegido por diversos feitiços de proteção, incluindo os anti-aparatação. Harry jamais havia se incomodado com o fato de os feitiços persistirem mesmo após todos os ex-comensais terem sido caçados. Pelo menos não até aquele momento. Antes não fazia diferença andar um pouco ou subir os três vãos de escada, porém, agora isso parecia extremamente idiota. Cada segundo a mais ele sentia como se estivesse próximo de perder algo. Subiu as ecadas correndo desesperado e praticamente arrombou a porta de casa.

Estava tudo escuro e silencioso. Terrivelmente silencioso. Harry manteve a varinha em riste, sentindo a respiração ofegante. Suas pupilas se dilatavam perante o breu da sala, procurando por todos os cantos uma figura perigosa e peluda.

- Remus...? - chamou com uma voz fraquejante. - Teddy?

Nenhuma resposta.

- Lumus - sussurrou fazendo a ponta da varinha acender.

A sala estava completamente vazia. Por via das dúvidas, foi rapidamente até a cozinha, onde também não havia ninguém.

- Teddy, Remus, tem alguém aí? - perguntou dessa vez em alto e bom tom parando em frente ao corredor.

Novamente não houve resposta, contudo, ele conseguia ouvir uma respiração muito leve e ritimada ao fundo, vindo do quarto de Remus e Teddy. Ficando ainda mais alerta, pronto para tomar uma atitude drástica, Harry se aproximou da porta entreaberta. Colocou primeiro a varinha com a ponta luminosa para dentro e não viu nada além de móveis. Então foi empurrando a porta lentamente, ouvindo-a chiar fracamente nas dobradiças.

A princípio não viu absolutamente nada lá dentro, entretanto, ao olhar melhor, em um dos cantos do quarto havia uma grande massa peluda. E sobre ela um pequeno corpo.

Por um momento Harry pensou no pior. Imaginou que Remus se transformara num lobisomen e destroçara Teddy, pois não conseguia ver os braços nem o pescoço do menino, contudo, percebeu a tempo que tais partes estavam apenas escondidas. Os baços envolviam o lobo e a cabeça estava enfiada no pescoço peludo. Harry suspirou audivelmente, abaixando a varinha. Remus tomara a poção Mata-Cão.

- Remus... - sussurou ele se aproximando.

Teddy levantou a pequena cabeça e dois olhos brilhantes o encontraram. Harry sorriu tristemente para o menino, que ergueu os braços para ele quando Harry se ajoelhou a seu lado. O menino enfiou o rosto no pescoço do padrinho e o abraçou apertado. Harry passou um braço em volta dele, enquanto com o outro buscava Remus, que levantou a cabeça lupina para olhá-lo com tristes olhos reflexivos.

- Oh Remus... - voltou a sussurrar Harry trazendo a cabeça do lobo para seu colo. Ele ganiu baixinho. - Me desculpa. Me desculpa mesmo. Eu queria estar aqui, queria ficar do seu lado, mas essas reuniões com o ministro, simplesmente me esqueci... Você me perdoa?

Incapaz de dizer qualquer coisa, Remus apenas lambeu brevemente a mão de Harry. Sim, ele perdoava. O jovem coçou atrás de suas orelhas, o lobo fez um som de aprovação. Teddy levantou a cabeça e desafrouxou o aperto no pescoço do padrinho, observando muito quieto a mão de Harry fazendo carinho em seu pai na forma de lobo. Quando Remus abriu seus tristes olhos âmbares, Teddy se soltou de vez de Harry e se pôs ao lado do lobo, passando um pequeno braço por sua cabeça e deixando o outro apoiado na coxa de Harry, segurando sua calça com força. Harry sentia os próprios olhos pegando fogo. Como os dois poderiam ter suportado tudo aquilo sozinhos por tanto tempo? Ele se abaixou e beijou a testa de Teddy, então se virou para Remus e beijou seu focinho molhado. Eles não precisavam mais se preocupar com as noites difíceis e solitárias, agora ele estava ali e iria confortá-los e protegê-los a todo o custo. Remus levantou a cabeça e deu uma longa lambida que abarcou boca e rosto de Harry, depois se virou para Teddy e fez o mesmo. Os dois riram e Teddy fez uma careta limpando o rosto.

Sem conseguir se conter, Harry se abaixou e abraçou menino e lobo. O fato era que ele os amava. Mais do que qualquer outra coisa que já amara, mais do que quaisquer outras pessoas. Mais do que amava lutar, mais do que amava a memória de seus pais, mais do que seus melhores amigos, mais do que a si próprio.

- Obrigado por existirem - disse com a voz fraca, enfiando o rosto no longo pelo castanho claro do lobo, escondendo as lágrimas que não conseguia reter.

- Te amo, papai - disse Teddy e, naquele momento, nem Remus nem Harry souberam para quem aquela frase fora e, ao mesmo tempo, desconfiaram de que era para os dois.

E foi assim que dormiram. Abraçados e juntos, como uma verdadeira família.

Quando Harry acordou, estava em sua própria cama, confortável, sem os sapatos, embaixo de suas cobertas. Não se lembrava de ter chegado ali, porém, ao olhar para o relógio desconfiou que fora Remus quem o levara. Estivera realmente cansado por conta das longas e consecutivas reuniões e felizmente ganhara aquele dia de folga. Se espreguiçou gemendo de prazer e se pôs sentado. Buscou pelos óculos na cabeceira da cama e ficou contente ao encontrá-los no lugar de sempre. Sentia-se especialmente bem e recuperado das noites de pouco sono, mas com uma fome de matar.

Levantou-se coçando os olhos por baixo das lentes e foi andando até a sala. Não encontrou ninguém lá, então foi até a cozinha. Também vazia. Ficou imediatamente preocupado. Naquela época de lua cheia Remus ficaria meio fraco e acabado, ele deveria estar repousando! Será que fora atrás de algum emprego? Harry novamente quis bater em si mesmo. Não deveria ter dormido tanto, tinha que tomar conta de Remus, ele deveria estar exausto!

Exatamente quando começava a imaginar como localizar o licantropo, ouviu um barulho de chaves e logo a porta sendo aberta. Correu para sala e foi com grande alívio que viu o conhecido e cansado rosto entrar carregando duas grandes sacolas de mercado.

- Remus! - exclamou ele indo imediatamente até o homem e tirando-lhe as sacolas das mãos. - O que você está fazendo? Deveria estar descansando!

- Não seja tolo, eu precisava fazer o almoço - respondeu Remus rodando os olhos. Harry reparou que ele tinha grandes olheiras. - E estava sem molho.

- Você podia ter me acordado que eu iria comprar essas coisas! - exclamou Harry zangado, levando as sacolas para a cozinha.

- Harry, sou um licantropo, não um inválido - respondeu Remus de forma cortante.

O jovem sentiu o sangue subindo até o rosto.

- Sei que não é. Mas também sei o quanto é desgastante essa fase. Você não precisa ficar com medo de me incomodar - respondeu Harry tirando as compras da sacola. - Importo-me com você, Remus.

O licantropo deu um longo suspiro e então se aproximou de Harry, colocando a mão em seu ombro enquanto ele tirava irritado as compras da sacola.

- Eu sei, Harry - disse ele em um tom baixo. - Só que não gosto de me sentir um inútil apenas porque sou um lobisomem.

- Não é essa a questão, Remus! Você precisa aprender a confiar em mim. Não sou mais um criança tola e incapaz.

- Você nunca foi - retrucou Remus com um tom ameno, forçando Harry a olhá-lo.

O jovem ergueu a cabeça, sentindo toda a frustração se esvair lentamente. Queria que Remus confiasse nele, contasse com ele. Porém, também queria que Remus fosse feliz. E se para se sentir feliz ele tinha de sair de casa e ir comprar molho mesmo estando cansado, Harry não poderia prendê-lo. E essa noção conflitava com um intenso desejo de que o licantropo jamais fosse para muito longe ou sentisse que não precisava de Harry. Se pensasse bem, era até contraditório.

Remus apertou seu ombro de forma reconfortante, e, sem conseguir se conter, Harry pegou-o de surpresa com um abraço. Não estava acostumado a demonstrar afeto, não estava acostumado a contatos assim, tão íntimos e espontâneos, particularmente se fosse ele a dar o primeiro passo. Contudo, naquele momento simplesmente sentiu que precisava fazer isso. Precisava trazer Remus para perto de si e enfiar o rosto em seu pescoço, como fizera na noite passada, e aspirar seu cheiro e se sentir subitamente mais calmo e mais confortável do que nunca, exatamente como na noite passada.

Remus hesitou apenas por um momento, então logo seus braços envolveram Harry, que o puxou para mais perto, percebendo curioso que o cheiro, mesmo sem pelos, era o mesmo da noite anterior, aquele perfume natural tão bom que trazia consigo memórias acalentadoras.

Os dois ficaram dessa forma por um longo tempo, com Remus apoiando o queixo no ombro de Harry e passando uma mão carinhosa por seus cabelos espetados até que disse:

- Você está com fome. Quer me ajudar a fazer o almoço?

Harry suspirou, sentindo um impulso de negar o convite e continuar naquele abraço perfeito. Contudo, sua barriga deu um ronco alto e ele voltou a tomar nota do rombo em seu estômago. Afastaram-se lentamente, Harry sentindo a barba por fazer de Remus raspando em seu rosto e o perfume dele se diluindo em toda aquela soma de ar que estava sendo imposta entre os dois.

- Beleza - respondeu olhando para o chão. Não sabia exatamente porquê, mas não conseguiria encarar Remus naquele instante.

Os dois se puseram a fazer o almoço e tudo ocorreu tranquilo. Harry sabia cozinhar desde criança, quando os Dursleys o colocavam para fazer tarefas domésticas. O único problema era que ele não via motivo para fazê-lo quando morava sozinho. Quer dizer, por que se preocupar quando poderia muito bem descer até ali na esquina e comer tudo pronto? No entanto, cozinhar com Remus era estranhamente prazeroso e divertido, algo que Harry jamais experimentara ao realizar aquela tarefa. Eles estavam em uma estranha sincronia, e Harry parecia saber exatamente quando colocar mais tempero, mais água ou começar a picar os legumes, enquanto Remus apenas estendia a mão para ele e Harry dava exatamente o que ele precisava. Poucas palavras foram trocadas, além de uma ou outra instrução, e a única vez que os dois discordaram foi quando Harry tentou colocar um pouco mais de pimenta na comida e o licantropo o interpelou.

Almoçaram sentados um de frente para o outro e conversaram sobre coisas amenas, sobre Teddy, o tempo, as notícias no Profeta Diário e os eventos daquela época no geral. Depois Harry colocou toda a louça para lavar com um feitiço enquanto Remus foi tirar um cochilo no quarto.

Após guardar os pratos e os talheres, Harry foi até a sala e parou. Em pé. No meio dela. Era um dia claro, todas as janelas estavam abertas e uma brisa fresca entrava por todo o recinto. Tudo era silêncio. Harry respirou profundamente, contente, sentindo cheiros diversos, porém, nenhum deles era de poeira, mofo, coisas sujas ou comida estragada. Fechou os olhos e sorriu ali, parado, sozinho. Porque ele não estava sozinho de verdade. Remus estava no quarto e Teddy na escola, logo a casa estaria cheia de sons e o que ele presenciava no momento era apenas um interlúdio.

Abrindo os olhos para o mundo e ainda sorrindo serenamente, dirigiu-se ao sofá, pegou o Profeta Diário que estava sobre a mesinha de centro e se pôs a lê-lo, sentindo-se satisfeito com a própria vida.

Assim a tarde passou traquila, até dar o horário de ir burcar Teddy na escola. Harry foi até o quarto de Remus e bateu na porta antes de abri-la.

- Remus - chamou mansamente, observando o outro bruxo de aparência exausta recostado na cama. Parecia mais velho do que nunca. - Vou buscar Teddy na escola. Você está com a poção?

Remus maneou a cabeça em concordância.

- Não esqueça de tomá-la - disse antes que conseguisse se conter. Remus novamente maneou a cabeça. Harry sabia que era uma preocupação excessiva de sua parte, mas não conseguia evitar. Estava nervoso e ansioso.

Ao buscar Teddy, não o levou para o costumeiro sorvete e o menino nem ao menos reclamou. Além do mais, dessa vez ignorou o transporte trouxa e aparatou com o afilhado em seu colo direto na rua onde moravam. Por algum motivo do destino, daquela vez ele aparatou no beco bem em frente ao mercadinho do outro lado da rua. Usualmente aparatava mais para a frente, porém, ao olhar o mercado descobriu o que o levara até ali: chocolates.

Lembrava-se vivamente de Remus dando chocolate a ele toda vez que se sentia mal com os dementadores. Quem sabe não funcionaria de volta e o ajudaria agora, no período de lua cheia? Sendo assim, comprou uma grande barra de chocolate no mercado e foi para casa com Teddy ainda no colo. A criança estava estranhamente quieta e seus cabelos estavam no tom natural de castanho escuro. Aparentemente não era só Remus que era afetado pela lua cheia.

Felizmente, ainda estava muito cedo quando chegaram em casa e o sol nem começara a se pôr. Remus estava sentado na cozinha, com um copo já vazio a sua frente. Ele parecia a imagem da derrota, com os ombros curvados, o olhar perdido em alguma outra dimensão, as olheiras, a roupa abarrotada e o cabelo desarrumado. Porém, todo a sua postura mudou quando Harry e Teddy entraram pela porta. Ele imediatamente abriu um sorriso sincero e esticou os braços para o filho, que se jogou de cima de Harry para o colo do pai.

- Então, como foi a aula hoje? - perguntou Remus despenteando Teddy.

- Chata - respondeu o menino fazendo um ar emburrado.

- E por que foi assim? - questionou levantando o rosto do filho, para que ele o olhasse nos olhos.

Harry puxou uma cadeira e se sentou ao lado de Remus, passando uma mão por suas costas como quem quer ter certeza que o outro está bem.

- Porque eu não queria estar lá - respondeu o menino fazendo bico.

- Mas você não gosta do colégio e dos seus amigos? - perguntou Harry em um tom ameno.

- Não - respondeu Teddy ampliando ainda mais o bico.

- Ok, agora você pode contar para o papai o que aconteceu - disse Remus afastando o cabelo do filho do rosto.

- Não gosto mais da escola.

- Teddy... - começou Harry passando também a mão pelo cabelo do menino. - Você sempre gostou do colégio. E você sabe que pode contar absolutamente tudo para mim e para Remus, não é?

O menino olhou desconfiado para Harry, depois para o pai, e então desviou o olhar para o outro lado, cruzando os braços na frente do corpo.

- Foi o Erik.

- Aquele menino que gosta de implicar com os menores? - perguntou Remus repentinamente sério.

- É.

- Mas você disse que ele nunca mexia com você... - comentou Harry franzindo a testa. Teddy não era exatamente um menino franzino, e pelo que contava, se dava muito bem com todo mundo, mesmo com esse tal de Erik. - O que houve Teddy? Conte-nos.

- O Erik ficou falando no recreio que hoje me viu chegando no colégio e que você estava doente e que ele sabia o que era - começou Teddy olhando para Remus agora não mais birrento, e sim cheio de angústia - E eu disse que ele não sabia porque não tinha como ele saber que você é um lobo mágico porque eu nunca disse nada disso e nós nunca falamos no assunto no colégio, mas ele disse que sabia sim e disse que era uma doença muito ruim que era castigo do Papai do Céu para pessoas como você. Aí eu falei que não tinha como Papai do Céu castigar alguém por ser o melhor pai do mundo e ele disse que a mãe dele disse que Papai do Céu castiga pais que moram com outros pais. E eu não entendi porque e falei que não fazia sentido e ele me chamou de burro e disse que a mãe dele sabe de tudo e que você tinha essa doença que é um castigo e que você ia morrer logo. Eu disse para ele que você não ia não, porque você tem essa doença desde que eu nasci e ele disse que era exatamente por isso que você já estava morrendo e eu disse que se você estivesse me contaria, porque papai, você sempre conta tudo, e nunca mentiria para mim, mas ele disse que o que os adultos mais fazem é mentir, então você provavelmente estava morrendo e aí a Lizzy disse para eu não me preocupar porque eu, diferente do Erik, tenho dois pais e se algo acontecesse não ficaria sozinho, como aconteceria com o Erik que mora só com a mãe, ele teria de morar na rua porque se a mãe dele morresse ninguém ia querer ficar com ele. Mas eu não quero que você morra papai! Por favor, diz que não vai morrer, você vai? - Ao final do relato Teddy já estava com os olhos completamente marejados e agarrava com as pequenas mãos as vestes de Remus em desespero. - Por favor, papai, você me avisaria se estivesse indo morrer, não é? Não quero que vá embora! Por favor!

- T-Tedy... - disse Remus puxando o filho para um abraço enquanto olhava estarrecido para Harry atrás de ajuda.

Harry não chegou a ver o olhar de Remus, absorto em seus próprio pensamentos furiosos. Sabia muito bem o que faria no dia seguinte. Iria ao colégio e obrigaria a diretora a expulsar esse tal de Erik da escola. Nem que tivesse de enfeitiçá-la para tanto. Como uma criança dessas poderia ser deixada junto de outras? Como os professores permitiam tal comportamento? Principalmente, como alguém tão jovem poderia ser tão cruel? Harry não sabia, porém, tinha uma boa impressão que era culpa da mãe do tal Erik. Harry e Remus não eram ao menos um casal gay e, mesmo que fossem, que tipo de educação ela dava para o filho? Como ela poderia ensinar que era certo desejar o mal de alguém apenas por que essa pessoa amava outra pessoa? Com certeza Harry também teria uma conversa muito séria com essa mulher. Ah, se teria.

Estava praticamente se levantando e indo naquele mesmo instante atrás da estúpida que havia ensinado ao filho que era certo odiar alguém apenas por quem essa pessoa ama, quando uma mão quente e tranquilizadora foi posta sobre a sua. Sem perceber, ele a havia fechado. Ergueu os olhos e percebeu que Remus o encarava de forma preocupada. Não soube bem como, apenas que aconteceu. Harry entendeu o que Remus queria dizer para ele, no silêncio dos soluços de Teddy eles se comunicaram pelo olhar. Remus pedia que ele se acalmasse e não fizesse nada impensado, e, antes de tudo, ajudasse-o a acalmar Teddy. Harry meneou a cabeça, demonstrando que entendera a mensagem e abriu a mão que fechara em punho, juntando-a com a de Remus.

- Teddy, lembra quando a gente conversou assim que você foi entrar para a escola? - perguntou Harry no tom mais leve que conseguiu encontrar. O menino ergueu seus grandes e úmidos olhos para Harry e confirmou com a cabeça. - Lembra-se do que dissemos sobre magia e sobre o seu poder?

- Nada de demonstrações. Escolher uma cor por dia - respondeu o menino com uma voz fraca apontando para o cabelo.

- E você sabe por que nós pedimos isso?

Teddy pensou um pouco, enxugando nesse meio tempo um lado de seus pequeno rosto. Por fim, desistiu e negou com a cabeça.

- Pense, Teddy, também explicamos isso para você.

O garotinho franziu a testa e fez biquinho. Por um momento Harry achou que ele fosse voltar a chorar, porém, após um tempo, ele finalmente se pronunciou.

- Porque nem todo mundo consegue fazer coisas legais e as pessoas que não conseguem fazer coisas legais não podem saber que tem gente que faz coisa legal. E daria muito problema fazer coisas legais perto das pessoas que não fazem coisas legais porque elas entram em choque porque acham que coisas legais não existem e a gente tem que evitar pelo bem delas.

Harry sorriu para ele e confirmou com um aceno de cabeça. - Agora preste atenção. Seu pai tem essa coisa de se transformar em lobo, que é chamado de licantropia, desde que era quase tão novo quanto você. E ele viveu desde essa época até agora com isso.

- É bastante tempo - comentou Teddy sério, olhando admirado para o pai.

- E licantropia é uma coisa que só pessoas que "fazem coisas legais" têm. Seu amigo não sabe fazer coisas legais, então, ele não tem como conhecer o verdadeiro motivo do cansaço de Remus.

- É verdade? - perguntou Teddy arregalando os olhos esperançosamente para Remus.

- Sim, querido, é verdade. E o motivo de eu estar cansado é que não consigo dormir direito à noite e essa transformação em lobo é algo que cança muito o papai. Seu amiguinho apenas confundiu as doenças, porque ele é um não-mágico, não teria como saber que sou um licantropo.

- Você jura? - perguntou Teddy cheio de esperanças novamente agarrando as vestes de Remus.

- Juro - respondeu ele com um sorriso.

- Então não é um castigo do Papai do Céu porque eu tenho dois pais?

- Não - respondeu Harry sentindo o maxilar ficar rígido e apertando a mão de Remus automaticamente.

- Papai do Céu não castigaria as pessoas por se amarem, meu anjo - respondeu Remus passando a mão livre pelo cabelo do filho. - Seu amiginho é quem estava redondamente enganado. Se acostume, os não-mágicos fazem muito disso. E alguns mágicos também.

Teddy olhou por um longo tempo de Remus para Harry, como se decidisse alguma coisa.

- Então já posso chamar o tio Harry de papai Harry? Ele me adotou? Tenho mesmo dois pais? - perguntou Teddy subitamente excitado, como se simplesmente houvesse esquecido a preocupação anterior.

- Erm... Teddy... - resmungou Harry de repente consciente de que estava de mãos dadas com Remus e que aquilo era bom e confortável. Para variar, sentiu o rosto pegando fogo. Estavam mesmo parecendo um casal, agora só faltava... só faltava eles... consumarem o fato. Harry arregalou os olhos com o pensamento, desviando o olhar dos dois e encarando os próprio pés.

- Teddy, esse assunto é um pouco mais delicado do que apenas decidir chamar alguém de pai... - começou Remus em um tom professoral. O menino o encarou de forma confusa e Harry sentia o rosto inteiro pegando fogo. Se bobeasse, daria para fritar um ovo em sua testa.

- Mas... - começou o menino.

- Eu trouxe chocolate! - exclamou Harry se lembrando do fato. Estivera desesperado buscando uma desculpa para mudar de assunto.

- Mesmo? - perguntou Remus em um tom que Harry não conseguiu decifrar. Olhou rapidamente para o rosto de seu antigo professor e viu um sorriso estranho em seu rosto.

- Ah, bem. Sempre que me sentia mal por conta dos dementadores você me dava um pedaço de chocolate. Não sei se só funciona com dementadores, mas achei que valia a pena tentar... - disse ele se justificando, interpretando o tom e o sorriso de Remus como algo levemente cético. - Infelizmente não deu para dar um pulo na Dedos de Mel, mas...

Tirou o chocolate do bolso e o ofereceu a Remus.

- Chocolates funcionam melhor para combater a tristeza e o frio, sintomas da presença dos dementadores - explicou Remus aceitando o doce. - Infelizmente, naquela época eu não poderia te oferecer Uísque de Fogo, o que realmente funciona melhor. Como a lua cheia sempre acaba por me deixar para baixo, acho que chocolate pode ajudar.

E sem mais delongas ele abriu o pacote e arrancou uma fileira inteira do doce. Ofereceu então para Teddy e depois para o próprio Harry, que aceitou apenas um quadradinho. Como poderia ser tão idiota? Claro que Uísque de Fogo funcionaria melhor.

- Muito obrigado pela gentileza, Harry - disse Remus sorrindo de forma leve. Harry ainda se sentia meio infantil, porém, sorriu de volta. - Teddy, por que você não vai guardar a sua mochila lá no quarto? - perguntou ele como quem acaba de lembrar do assunto.

- Tá - respondeu o menino descendo do colo do pai e saindo da cozinha. Remus observou-o atentamente até ele sumir de vista, então se virou para Harry e se aproximou.

- Olha, Harry, não quero que Teddy veja a transformação hoje, é sempre muito sofrível. Então, quando a hora chegar você poderia por favor distraí-lo? - perguntou ele em um sussurro apressado.

- Claro - respondeu Harry sério. Ele queria poder estar ao lado de Remus naquele momento, porém, Teddy era mais importante.

- Sinto que a lua está quase chegando - disse ele aproveitando e olhando pela janela, o céu começava a ficar roxo.

Não puderam dizer mais nada, pois Teddy voltou naquele instante para a cozinha.

- Hey, Teddy - virou-se Harry para o afilhado. Tivera uma idéia que o distraíria por tempo mais do que suficiente, - que tal irmos tomar banho juntos? Faz tempo desde a nossa última guerra d'água.

A cara que o menino fez foi praticamente uma caricatura: seus olhos se arregalaram e sua boca se abriu em um grande "o" de excitação.

Aquele foi de fato um dos banhos mais longos que Harry já tomou. Tentou verdadeiramente tirar a mente de Remus e brincou durante uns bons minutos de guerra d'água, até que ele e Teddy estavam tão enxarcados que a brincadeira nem fazia mais sentido. Então entraram na banheira e começaram o banho, que foi ao mesmo tempo mais um dos faz-de-conta do menino. O banho teve direito a todos os brinquedos possíveis dentro d'água. Harry até deixou a mini-lula nadar livremente e nem se importou muito com as quatro vezes que ela grudou em sua bunda. Para falar a verdade, ele se divertiu um bocado. Teriam passado a noite na banheira não tivesse Teddy começado a bater os dentes, e depois, ao olhar para as próprias mãos, Harry as viu tão enrrugadas quanto as de um bruxo de duzentos anos. Era hora de terminar a brincadeira.

Harry saiu do banheiro com a toalha enrolada na cintura e Teddy a seu lado, coberto com o roupão cujo capuz tinha o formato de cabeça de hipogrifo. Entraram no quarto que o menino dividia com o pai e encontraram Remus, já na forma de lobo, sentado a um canto, muito quieto. Harry acenou para ele com a cabeça e o lobo lambeu a boca e o focinho em cumprimento. O jovem vestiu rapidamente o afilhado que, já pronto, correu para o pai lupino e o abraçou. Tinham praticamente a mesma altura, o que causou em Harry uma certa comoção. Mesmo na forma de lobo, Remus parecia o pai mais legal e descolado do mundo ao dar uma grande e úmida lambida pelo rosto do filho, que riu tolamente se encolhendo. Harry sorriu para a cena sentindo aquele calorzinho gostoso pelo tórax que era agora seu companheiro quase diário. Então se retirou para o próprio quarto, onde se trocou rapidamente e voltou para Teddy e Remus.

Depois disso, tiveram um jantar muito silencioso, preparado pelo próprio Harry. Remus sentou ao pé da cadeira do filho e o menino o acariciou periodicamente, até que sua cabeça começou a tombar de sono. Harry acabou tendo de carregá-lo para o quarto, onde o colocou na cama enquanto o lobo, que os acompanhara com seu trote elegante, puxava o lençol com os dentes para cobrir o menino. Teddy enfiou o polegar na boca e Harry pôs a seu lado o pequeno cão negro de pelúcia, que ele certamente agarraria no decorrer da noite. Teddy não dormia sem Snuffles.

Harry sorriu para Remus, sentindo o calor se ampliar em seu peito.

- Bom, amanhã tenho de voltar ao trabalho - disse Harry em um tom baixo. - Então, acho que também já vou dormir.

Remus não chegou a esboçar uma reação real, porém, sua cauda se balançou de um lado para o outro. Harry achou aquilo engraçado. Ou não havia notado antes, ou Remus movia muito pouco a própria cauda. Ele agia o máximo possível como um humano, e aquela atitude canina arrancou um sorriso de Harry quando ele começou a sair do quarto e ir para o próprio.

Ao chegar em sua cama, Harry apenas se jogou nela de costas. Deparou-se com a imagem de uma figura lupina parada à sua porta, a cauda balançando rapidamente. Harry sorriu, e Remus trotou (era muito estranho pensar que Remus trotava) para a sua cama e, como fizera com Teddy, pegou o lençol de Harry e puxou-o até cobrir o jovem, que fez uma careta para a cena sem, no entanto, impedi-lo. Harry se virou na cama e seus olhos encontraram aqueles profundos e belos olhos âmbares. Sorriram uma para o outro, do jeito que um lobo poderia sorrir. Harry chegou um pouco mais para trás e abriu espaço no lençol, chamando Remus.

Houve apenas um segundo de hesitação, então, com um salto preciso e leve, o lobo entrou pelo lençol de Harry, que tirou os óculos e os colocou sobre a mesa de cabeceira, ao lado da varinha. Com um aceno único apagou as luzes e se abraçou àquele mar de pelos macios, cheirosos e quentes. Pensou consigo que quando criança sempre quisera ter um cachorro. Era quase como ter um, só que, digamos, muito mais interessante.

oOo

Era confortável, sim senhor. E era bom como nunca havia sido. Também era macio e, parodaxalmente, duro, firme. Era quente e isso era o que, em parte, tornava confortável. E cheiroso. Céus, como cheirava bem. Dava aquela sensação boa que deixava o peito completamente preenchido. Então ele fez o óbvio a se fazer: agarrou-se ainda mais naquela coisa boa, dura, macia, confortável e cheirosa. E a coisa gemeu. Com uma voz grave, ressoante e completamente humana.

Harry arregalou os olhos imediatamente, e deu de cara com cabelos castanhos e um pescoço desnudo. Moveu rapidamente a mão e percebeu que não era só aquela parte do corpo que se encontrava despida. Sentiu automaticamente as maçãs do rosto esquentando. Estava em choque, perguntando-se como um homem nu havia ido parar em sua cama e por que cargas d'água ele, Harry, o estava abraçando. Claro, bastou apenas despertar um pouco mais para a memória lhe invadir, trazendo o sentido. Remus dormira na forma lupina em sua cama. Como facilmente podia perceber, era de manhã; Remus se destransformara, por isso estava sem roupa, abraçado com Harry.

Agora, a parte mais constrangedora de tudo, a cerejinha do bolo: Harry estava tendo uma de suas atualmente típicas ereções matinais. E a sentia roçando contra a bunda nua de Remus. Ele xingou mentalmente todos os palavrões conhecidos e inventados que conseguiu encontrar. Como aquilo fora acontecer? E se Remus acordasse?

Parecendo estar sincronizado com seus pensamentos, Remus se mexeu na cama, murmurando alguma coisa ininteligível. Harry congelou no mesmo lugar, se mantendo o mais estático possível e rezando para que o licantropo permanecesse adormecido. Contudo, ao se mover, Remus acabou se esfregando ainda mais contra a ereção de Harry e ele teve que morder o próprio lábio. O que o outro pensaria se acordasse e desse de cara com Harry completamente excitado abraçanço-o nu por trás?

Harry não sabia como sabia, mas ele sabia. Sabia exatamente quando Remus havia despertado de vez. E, sem contradizê-lo, logo o licantropo se virou na cama e seus olhos ambares se encontraram com os de Harry. Ao menos pareciam tão surpresos quanto o jovem ao perceber que também estava acordado. Harry engoliu seco e tentou sorrir, não sendo muito bem sucedido.

- Bom dia - cumprimentou Remus com a voz rouca pela falta de uso.

Harry ignorou seu coração acelerado, o calor no rosto e o aperto na calça por um momento e refletiu sobre o quão estranha e constrangedora era aquela situação. Não só para ele, como para o próprio Remus, obviamente desconfortável. Ou... na verdade, Remus parecia estar a beira de um sorriso. Será que ele... estava gostando?

- Bom dia - cumprimentou Harry com uma voz fraca, subitamente lembrando da ideia que o ocorrera no dia anterior. Não faltava muito para ele fazer realmente parte da família Lupin. Já eram confundidos como um casal, Teddy já queria chamá-lo de pai. A única coisa que faltava na verdade era consumar o fato e deixarem de ser apenas amigos.

Os olhos de Harry desceram lentamente para o tórax despido de Remus. Ele era magro, porém, havia o que olhar ali. A pele estava amorenada de pegar sol, haviam linhas claras que marcavam cicatrizes e uma leve penungem castanha cobringo principalmente os arredores do peito. Harry umedeceu os lábios sem perceber e lembrou da imagem de Remus cozinhando sem blusa, só de avental. Finalmente, decidiu que era sexy. Sim, sempre fora irremediavelmente sexy. Ele sabia disso desde que era adolescente, só não queria confessar.

Voltou a olhar para Remus e percebeu que ele sorria enviesado. Nunca parecera tanto com um lobo, faminto, observando a presa instantes antes do ataque. Novamente aquela espécie de comunicação telepática aconteceu. Eles tiveram a conversa de suas vidas pelo olhar.

Então Harry simplesmente fechou os olhos e foi. Se atirou para a frente com os braços servindo de enfantaria, agarrando-se ao pescoço e ajudando a boca, que chegou macia, ávida, carinhosa. Remus passou os próprios braços pela cintura do mais jovem e seus corpos se chocaram, intensos. Harry percebeu que não era o único com uma ereção matinal. Foi naquele momento que descobriu uma nova faceta da comunicação: não conseguia apenas falar com olhar, não, não, não. O corpo de Remus falava, o dele respondia, o dele falava, o de Remus respondia. Estavam conversando, declarando-se. "Esperei tanto por isso" dizia Remus entre um gemido, "eu também! eu também!" exclamava Harry, ansioso.

Naquela bela manhã de sexta-feira, lobisomem e herói palestraram com seus corpos.


N/A: Ok. Agora todo mundo, por favor, erga as mãos para o céu e grite comigo: Aleluia! Para quem achou que nunca aconteceria ou que estava demorando demais, aí está! Porém, não achem que tudo é tão fácil assim, as águas ainda vão rolar /brega

Estou amando os reviews que estou recebendo para essa história, jamais esperei uma receptividade tão grande para uma história com um ship tão curioso quanto Remus/Harry. Espero todo mundo fique feliz até o final. Qualquer coisa, pode puxar minha orelha, prefiro isso ao silêncio :)


Agradecimentos: J. P. Malfoy. (olha, tem uma fila para raptar o Teddy, daqui a pouco distribuo as senhas... hahahaha), Hyuuki (cara, você sempre me faz chorar de rir com os reviews! E como assim, AMO gay bar, o clipe a música... tudo genial! Não estou escrevendo uma Remus!puto, mas estou trabalhando numa RemusxDraco, porque agora quero vê-lo com todo mundo...), Moe Greenishrage (você me pegou. Sim, a sorveteria foi inteira e completamente inspirada pela lanchonete de QaF assim como a Rebbeca foi inspirada na Debbie. E essa tal rua pela qual eles andam foi inspirada numa rua gay que realmente existe lá em Londres!), Dark Wolf 03 (no seu último review você advinhou exatamente o que aconteceria com o Harry, afinal, uma hora ele tinha que pensar nas implicações de querer entrar na família Lupin... Espero que continue aparecendo por aqui!), Freya Jones (pois é, já tava na hora do Harry pensar. E adoro travestis e suas dualidades masculino-feminino!).