Capítulo Sexto
Remus queria poder dizer que não estava nervoso. Mas ele estava, por isso passou a mão pela gola das vestes, que pareciam quentes e apertadas demais naquele dia. Quando Harry aparecera na semana passada falando sobre Kingsley o estar procurando, ele inicialmente ficou surpreso, porém, não de todo chocado. Ao longo da Grande Guerra ele e o atual ministro acabaram se tornando bons amigos. Principalmente por intermédio de Nymphadora.
Porém, desde a morte de sua esposa, Remus decidira fugir de todos e, ao voltar, não tinha muitas esperanças de recuperar laços que ele mesmo cortara. Particularmente alguém como Shacklebolt, cuja ligação maior era com Dora, não com ele. Mais do que um ex-amigo da resistência, era agora o próprio Ministro da Magia. Remus supôs que talvez a amizade entre eles mudasse. Por isso estava nervoso, ali, parado em frente à lustrosa porta de madeira à sua frente. Não sabia o que esperar daquele encontro. Seria a primeira vez que reveria Kingsley Shacklebolt. Deu duas batidas rápidas no ébano e aguardou.
Não demorou mais do que instantes para a porta se abrir e revelar um sorriso de dentes brancos em um rosto forte e negro.
- Pontual como sempre, Remus - disse Kingsley abrindo espaço para que o outro entrasse.
- Ministro - cumprimentou Remus formalmente, sem saber exatamente como se referir.
Shacklebolt fez uma careta e ampliou o sorriso, tirando-o do patamar profissional para algo mais sincero.
- Por favor, Remus, velhos amigos de guerra devem sempre me chamar pelo nome.
- Certo, Kingsley - disse Remus se sentindo um pouco mais confortável. Do que estivera sentindo medo? Kingsley era o mesmo de sempre: afável e simpático.
- Sente-se por favor, Remus - disse apontando uma cadeira estofada em frente a uma suntuosa mesa de madeira.
O ministro rodeou-a e sentou-se em sua própria, que parecia ser feita de marfim com entalhes estilizados. Ficaram sentados um de frente para o outro e por um momento nenhum dos dois se manifestou. Kingsley observava Remus muito atentamente, enquanto ele sustentava o olhar do ministro de forma neutra.
- Você deve estar se perguntando por que o chamei aqui - começou Kingsley quebrando o silêncio, a voz grave ressoando pela sala.
- Suponho que não tenha sido apenas para tomar um chá - respondeu Remus com um resquício de humor. Kingsley deixou um sorriso transparecer em seu rosto.
- Não, definitivamente não - concordou o ministro fazendo outra pausa. - Antes de revelar porque te chamei aqui, gostaria de fazer uma pergunta.
- À vontade.
- Por que você voltou? - perguntou indo direto ao ponto, como sempre.
- Você quer a resposta romântica, a política ou a verdadeira?
Kingsley cruzou as mãos em frente ao rosto e apoiou o queixo nelas, pensativo.
- Como velho amigo, gostaria da verdadeira, como pessoa, gostaria da romântica e, como ministro, da política - respondeu por fim.
Remus sorriu para ele, sentindo certa nostalgia ao relembrar o quão astuto Kingsley sempre fora.
- A resposta romântica é que senti saudades de minha terra natal. A política é a recém aprovação da lei anti-preconceito licantropo e a real é que já deu o tempo de me reestruturar psicologicamente com tudo o que aconteceu e achei que já estava pronto para voltar.
Kingsley maneou a cabeça, como se concordasse com alguma coisa.
- Confesso que quando Harry me disse que você havia voltado fiquei surpreso, afinal, ninguém tinha notícias suas ou parecia saber seu paradeiro. Claro, entendo porque você foi embora, não teria sido fácil para ninguém. Por isso fiquei pensando comigo mesmo o que poderia te trazer de volta após tantos anos, e lembrei da recém aprovada lei anti-preconteito. Cujo nome, imagino que já esteja ciente, é John Lupin.
- Em homenagem a meu pai - disse Remus solene. Se fosse vivo, o velho estaria orgulhoso. E com razão. Em nenhum momento esmorecera na luta por condições melhores para a vida de seu filho licantropo.
- Exato. Ele foi um homem visionário - concordou Kingsley. - Harry comentou que você está morando com ele, ou algo assim.
- Sim, até conseguir me firmar melhor por aqui - acrescentou Remus. - Porém, mesmo com essa nova lei, continua não sendo uma tarefa fácil.
- Sei que não - disse Shacklebolt em um tom pesaroso. - A srta. Granger tem lutado muito para a aprovação de leis cada vez menos segregacionistas e Harry andava ajudando a fazer algumas campanhas, embora não se sinta muito confortável no papel de garoto-propaganda, como você deve imaginar. Estão todos lutando para que nossa sociedade mude para melhor. Os jovens parecem muito mais abertos à mudanças.
- Orgulho-me muito deles - disse Remus sentindo-se feliz por ter sido professor, mesmo que apenas por um ano, de pessoas tão fantásticas.
- Porém, Remus, apesar de representantes de peso e da aprovação dessa lei, não temos nenhum empregado licantropo, e deveríamos ser os primeiros a dar exemplo - disse Kingsley voltando a um tom mais profissional. - Não posso confiar um cargo importante a qualquer um, licantropo ou não, por isso acredito que a sua chegada veio em excelente hora.
- O que você tem em mente, King? - perguntou Remus chamando-o pelo apelido.
- Estamos pensando em criar uma divisão especial chamada Departamento de Raças Mágicas, onde poderemos enfim abrigar duendes, elfos, sereianos, centauros, lobisomens, veelas e gigantes separados de outras criaturas não humanóides. Claro, estou tentando formar uma equipe eclética, porém, no cargo de chefia gostaria de alguém de confiança e que eu saiba que é capaz - Kingsley fez uma pausa, deixando o que acabara de falar ecoar um pouco pela mente do outro. - Remus, você é essa pessoa.
- King... - falou Remus pego de surpresa. - Não sei nem o que falar. Digo, estou há semanas procurando algum emprego que aceite um lobisomem em qualquer cargo e...
- Essa é a oportunidade perfeita - disse Kingsley abrindo um sorriso convidativo.
Remus pensou consigo mesmo por um momento. Aquilo era muito mais do que sonhara quando decidira voltar para a Grã-Bretanha. Tudo o que vinha acontecendo, na verdade, ia muito além de suas expectativas.
- Quando começo? - perguntou abrindo um sorriso que acompanhou o de Kingsley.
- Bom, a sede do departamento ainda está terminando de ser montada, imagino que até o final dessa semana tudo esteja pronto, porém, gostaria que você encontrasse sua equipe antes. Se você puder vir depois de amanhã para que eu te apresente a seu pessoal...
- Claro, depois de amanhã está perfeito - respondeu ainda sem conseguir parar de sorrir. - Espero que me dê bem com eles. E que possa ser muito útil para todas as raças que estiveram submetidas e à margem da sociedade bruxa até agora.
- Sim, até agora. Porque pretendo mudar isso. Belas palavras, Remus. Você tem exatamente o espírito que estive procurando. Tenho certeza de que não terá problemas com sua equipe - garantiu Shacklebolt. - Para alguém não se dar bem com você, Remus, têm que ter um parafuso a menos.
Remus sorriu para Kingsley e sua cortesia. A partir dali, combinaram apenas alguns pormenores e logo os passaram a conversar sobre amenidades, sobre a viagem de Remus e os lugares que conhecera, sobre a política anti-segregação nos outros países e falaram também cada um sobre sua família. Kingsley mostrou uma foto de sua filha, Queenie, de sete anos, enquanto Remus mostrou outra de Teddy. Ao final da reunião, Remus sentiu que recuperara facilmente a amizade do ex-auror, atual Ministro da Magia. Ficou pensando consigo mesmo ao deixar o gabinete de Kingsley que talvez também fosse assim com todas as outras pessoas. Mesmo com Andrômedra.
Remus rumou de lá direto para o Quartel General Auror. Inicialmente não pretendia incomodar Harry em seu horário de trabalho, já bastava fazê-lo todo dia em casa, porém, com tamanha boa notícia e tamanha boa sensação, ele sentia que precisava compartilhar com o jovem. Sentia que explodiria se não compartilhasse sua felicidade com alguém.
Ao chegar no QG auror, esbarrou com alguns conhecidos da época de Dora e perguntou por Harry. Ninguém sabia responder com precisão, mas estavam todos ávidos por conversar. Foi ali que Remus percebeu que sua volta para a Inglaterra fora no devido tempo. Ninguém parecia tê-lo esquecido, a maioria compreendia seu sumiço e, principalmente, agora ele conseguia ouvir tranquilamente pêsames sem sentir que seu mundo desmoronava ou que tudo estava definitivamente errado. Remus havia fugido da dor, do trauma, da perda, mas fugira também da pena, da condolência forçada ou sincera. Porém, agora ele conseguia passar por isso sem problemas, aquelas frases tristes não mais o machucavam ou o faziam pensar sobre tudo o que havia perdido. Teddy e ele estavam felizes.
Quando finalmente chegou ao cubículo de Harry, encontrou lá dentro apenas um jovem de finos cabelos castanhos desbotados e nariz engraçado. Aparentemente era o tal de Vicky, ao qual Harry sempre se referia. O auror estava distraído, com o rosto enfiado em um longo pergaminho. Por educação, Remus bateu na porta aberta, chamando sua atenção. O jovem ergueu o rosto do trabalho e olhou Remus, educadamente curioso. Então seu rosto tomou um ar de surpresa.
- Oh, você! - exclamou ele apontando para Remus com a pena que estava segurando. Inclinou-se de repente na direção do que Remus supôs ser a mesa de Harry, então voltou a encará-lo. - Sim, só pode ser você!
Remus ficou ali, parado, sem ter exatamente o que dizer. O jovem percebeu que não estivera fazendo muito sentido, então corou.
- Desculpe, acabei me empolgando - disse ele pigarreando e assumindo um ar mais polido ao se levantar de sua mesa. - Sou Vicktorius Barnes - ofereceu a mão para Remus, que se adiantou sala adentro e a aceitou.
- Sou Remus Lupin.
- Sim, eu sei! - exclamou Vicktorius voltando a ficar agitado. - Você é o cara da foto do Harry, isso é tão genial, nunca achei que fosse conhecê-lo pessoalmente! Já achei chocante quando finalmente descobri quem era Ronald Weasley, mas você... você é todo um outro nível, é o culpado pelos sintomas dele!
- Sintomas? - perguntou Remus franzindo o cenho.
- Bom, imagino que a maior parte do que vou contar não é novidade, então, bem, o Harry costumava ser até umas semanas atrás o que chamo de viciado em trabalho. Vivia pegando todos os casos possíveis, como se tivesse medo de ficar muito tempo em casa, descansando. Acho até que ele dormiu umas três ou quatro vezes no QG... - começou Vicktorius animado, como se discutisse um jogo de quadribol e não a vida pessoal de seu parceiro. - De qualquer forma, há algum tempo ele vem saindo na hora certa e parece muito mais feliz do que antes. Achei a princípio que fosse alguma espécie de namorada, mas então ele falou algo sobre o afilhado e depois apareceu com essa foto - disse ele virando o porta retrato sobre a mesa de Harry que revelou uma foto de Teddy e Remus. - E ele às vezes fica perdidão encarando a foto, exatamente como quando a gente tem uns quinze anos e está apaixonado por alguém. Mas daí que acho que entendi, o Harry não se apaixonou exatamente por alguém, ele se apaixonou pelo conceito de família. Sei que ele nunca teve isso de verdade, então acho que ele acabou caindo de amores. É sério, ultimamente ele só tem falado família isso, família aquilo, e blablablá. Sinceramente, não sei o que é pior, caras apaixonados por mulheres ou apaixonados pro uma ideia. Dia desses ele falou que a família de vocês agora estava perfeita e completa. Pessoalmente não entendi como uma família poderia ficar mais completa, mas ele parece mais idiotamente feliz do que antes - Vicktorius coçou a cabeça, parando de falar por um momento e fazendo um ar pensativo. Olhou para Remus de esguelha, como se decidisse se diria algo ou não. Remus esperou pacientemente até que o jovem se decidiu. - Na verdade, o Harry não chega a falar, falaaaar, sabe? Não conversa muito sobre o assunto, mas fica murmurando e pensando em voz alta...
Remus sorriu para Vicktorius e imaginou se ele sempre falava pelos cotovelos com pessoas que acabara de conhecer. De acordo com os relatos que ouvira, sim.
- Você viu o Harry? - perguntou Remus finalmente fazendo o que viera fazer naquela sala.
- Ele saiu há pouco tempo para almoçar.
- Sabe se demora?
- Bom, acho que ele foi encontrar aquela amiga dele... uma de cabelo cheio, castanho, sem peito.
- Hermione? - perguntou Remus apenas para ter certeza.
- É, algo assim - respondeu o jovem displicentemente.
- Bom, se puder avisar ao Harry que dei um pulo aqui... - disse Remus já se afastando para a porta.
- Claro, claro, pode deixar. E apareça mais vezes - exclamou Vicktorius para um Remus que já se afastava à passos largos.
Sem saber, aquele jovem auror havia dito algo que pegou Remus em cheio. Algo que ele ficou remoendo o dia inteiro, mesmo quando foi pegar Teddy no colégio, mesmo quando Harry chegou em casa, cansado, se jogando no sofá e reclamando de alguma missão a qual Remus não prestou a menor atenção.
Quando Harry perguntou sobre a reunião com o ministro, Remus foi bem vago, dando a entender que não queria falar muito no assunto e, felizmente, Harry o respeitou. Jantaram com Harry e Teddy conversando sem parar e Remus silencioso, observando tudo de longe. Harry amava Teddy, sem dúvida. Na verdade, essa parte não era o que estava em questão. Remus deixou o jovem colocar o filho para dormir e então Harry se encontrou com ele na sala.
Remus estivera olhando pensativo para a parede, de braços cruzados. Harry se jogou a seu lado no sofá.
- Você está tão calado - disse ele passando um braço em volta de Remus e aproximando o rosto de seu pescoço.
Remus se virou levemente para Harry e uma parte dele ficou pensando no que estava fazendo com alguém tão jovem assim. Harry não só poderia ser seu filho como na verdade era o rebento de um grande amigo. "Você pensa demais ao invés de simplesmente viver, Remus" era o que Nymphadora dizia antes de começarem a namorar. Ela estava certa, fora pensando demais, hesitando demais, temendo demais que ele perdera na adolescência a chance de conter os amigos e tentar impedi-los de maltratar tanto Severus Snape. Foi ainda na juventude que, temeroso demais, ele negou o amor de uma pessoa apenas porque ficou imaginando se era certo amar outro homem. Foi já como adulto que ele temeu aceitar outra vez o amor de uma pessoa porque ela era jovem demais. Todas essas vezes ele estivera errado, todas essas vezes que hesitou, que temeu, o desfecho foi trágico: perdeu a todos que um dia o amaram e que ele um dia amou. E se tivesse aceitado antes o amor de Tonks, será que teria tido Teddy antes? E se tivesse aceitado o amor de Sirius ainda na juventude, será que teria conseguido evitar que ele fosse parar em Askaban? E se tivesse impedido seus amigos, será que Snape jamais se alistaria ao exército de Voldemort e jamais passaria a informação sobre a profecia? Era terrível e pesado demais imaginar que sua hesitação e temor pudessem ter levado a desfechos tão significativos. Às vezes ele sentia que levava nas costas a culpa dos erros do mundo. Tudo porque não seguira seus próprios sentimentos.
Então veio o reencontro com Harry, e Remus, em uma das poucas vezes de sua vida, não hesitou. Aprendeu com Dora a importante lição de se deixar amar e parar de se importar com o que parecia socialmente certo ou errado. Amar nunca era errado. E ele se viu apaixonado por Harry Potter, filho de um grande amigo, jovem, talentoso, belo de sua forma única. Não fora difícil. Não quando Harry sempre foi tão querido, tão atencioso e se esforçava tanto para agradá-lo, para ser tudo o que Remus precisava no momento.
Porém, e sempre haveriam poréns, Remus agora se perguntava o que Harry amava. Remus? Não, ele achava que não. Pelo menos não Remus por Remus, sozinho. Vicktorius chamara a atenção para algo: Harry estava apaixonado pelo sonho de ter uma família. Talvez ele mesmo não percebesse, mas o que estava fazendo era apenas sacramentando o que o pessoal da escola de Teddy e a garçonete da lanchonete gay esperavam: que eles fossem uma família por inteira, um casal com seu pequeno filho. Para que aquilo fosse completamente verdade, só faltava Harry ter uma vida sexual com Remus.
Remus temia que essa hipótese fosse verdade, temia porque então não poderia se deixar enganar, não poderia deixar o próprio Harry se confundir. No final das contas, ele era jovem, ingênuo e desesperado por companhia, por alguém que completasse a sua solidão. Mas Harry não procurava exatamente por Remus, pura e simplesmente. Aquele amor era unilateral, apenas Remus se apaixonara completamente pelo jovem.
Com essas ideias em mente, começou a evitar Harry nos dois dias seguintes. Mesmo assim o jovem pareceu não se abalar muito. Chegava cansado do trabalho, tentava alguma coisa com Remus, que o impedia, e então Harry ia dormir no próprio quarto sem problemas.
Naquela segunda-feira de tempo estranhamente nublado, Remus tomou a decisão final. Era pelo bem de Harry, pelo bem de Teddy e por seu próprio bem. Um coração cansado como o dele não aguentaria o dor da ruptura quando Harry finalmente se desse conta de que seu amor por Remus era uma farça.
N/A: Vocês não acharam mesmo que tudo ia ser tão fácil assim, né? Aguardem notícias. Se quiserem saber mais, review!
E desculpem, mas estou numa correria só, nem dá para responder as reviews. Mas juro por tudo que é mais sagrado que da próxima vez respondo cada um dos reviews, certo? Brigada por tudo pessoal!
