[Altamente Volátil]

[Por Patrícia Guerreiro]

1º Capítulo – "Nulidades"

O virar colectivo de cabeças masculinas (e algumas femininas) anunciavam a sua chegada, a saia demasiado curta, o top decotado e o jeito insinuante de andar bastavam para fazer salivar quem por ela passasse, os olhos negros hipnotizantes emoldurados pelo rímel negro prendiam qualquer um nas suas malhas. O corretor de olheiras apagava os vestígios de uma noite mal dormida e disfarçavam a ressaca, o gloss vermelho tornavam o seu sorriso na mais obscena arma de sedução e o seu cheiro a morango misturava-se com o de tabaco acabado de fumar atrás da escola. Uma só piscadela de olho. Um só gesto demorado na longa juba loira encaracolada bastava para que meia dúzia de gatos-pingados caísse a seus pés que nem tordos.

- Onde queres ir sair hoje à noite? – Perguntou-lhe uma companheira ruiva igualmente provocante, embora não fosse tão estonteante como a loira.

- É-me indiferente. – Respondeu não prestando muita atenção, olhando provocadoramente para os rapazes que se babavam só de vê-la, passa por um rapaz de óculos de grandes armações, que trajava uma camisa branca e calças de cintura subida presas por suspensórios vermelhos que olhava extasiado para ela. Olhou-o com desprezo e empurrou-o contra o cacifo fazendo-o deixar cair uma pilha de livros de Banda Desenhada.

- Hoje vai abrir um bar de lésbicas aqui perto, que achas? – Perguntou uma morena baixinha, mas que não deixava de ser perigosamente curvilínea e de lábios carnudos provocantes.

- Que seja, há que variar na ementa. – Respondeu a loira, empurrando mais uma rapariga da sua frente, de ar satisfeito.

- Ahahah! – Riram as duas raparigas.

- Hei! – Gritou a rapariga que estava ao pé da que fora empurrada. – Raquel!

- Olha, olha, Soraia, a grande defensora dos fracos e oprimidos! – Troçou a loira, olhando arrogante para a morena de cabelos lisos presos num rabo-de-cavalo, olhos verdes-acinzentados que vestia uns calções caqui e uma t-shirt negra, os ténis brancos completavam o seu visual.

- Deixa de ser estúpida Raquel. – Limitou-se a responder com azedume.

- Não me digas que ainda estás assim porque o Daniel estava farto de andar com um pãozinho sem sal como tu e demos umas cambalhotas? – Troçou sorrindo maliciosamente.

- É melhor calares-te!

- Se não o quê? Fazes-me mal é? – Troçou Raquel, simulando uma voz aterrorizada enquanto as suas duas capangas se deliciavam com a cena, a rapariga que tinha sido derrubada entretanto sumira-se.

Soraia respirou fundo, e virou as costas caminhando na direcção oposta, no entanto Raquel puxa-lhe os cabelos. Soraia gira sobre si própria e baixando-se, prega uma rasteira fazendo a loira cair no chão.

- Não me voltes a tocar! – Respondeu fitando a loira sentada no chão, que era levantada pelas duas cúmplices. – Ou vais-te arrepender!

E dizendo estas últimas palavras, o trio afastou-se da morena, que se limitou a suspirar e dirigiu-se ao cacifo para ir buscar os livros para a aula seguinte. Enquanto isso o rapaz de óculos apanhava os livros da Marvel que deixara cair quando Raquel o empurrara, com a ajuda de Amadeu.

- Porque é que trouxeste os livros hoje Nélson? – Perguntou Amadeu demorando-se a olhar a capa de um volume do "Capitão América" e entregando-o ao amigo.

- Hoje há reunião do Clube de BD. – Respondeu Nélson colocando a pilha de livros no cacifo. – Não queres vir?

- Negativo. Vou-me reunir com os atletas de Matemática, para treinarmos para as próximas Olimpíadas.

- Está bem, queres jogar WOW hoje à noite?

- Pode ser! Acabei de descobrir umas batotas fantásticas.

Nisto um grupo de raparigas vestidas de lolitas, passa pelos dois rapazes, o olhar de Amadeu prendeu-se numa rapariga de longos cabelos negros, uma lolita gótica, que nem repara nele.

- Teresa… - Murmurou extasiado, como se tivesse acabado de olha para uma Deusa Grega.

- Tens tantas hipóteses com ela como eu com a Raquel. – Troçou Nélson. – Espera lá! Como sabes o nome dela?

- Entrei no sistema informático da escola. – Respondeu com desenvoltura.

- Grande maluco! – Elogiou Nélson, dando-lhe uma palmadinha afectuosa no ombro do amigo.

Uma rapariga de saia até aos tornozelos, sapatos de vela, camisa e pólo, de cabelo castanho-claro e olhos castanhos segurava uma cópia da bíblia enquanto conversava com mais duas raparigas que vestiam de maneira semelhante.

- Olha o clube das virgens! – Gritou uma rapariga alta, com o cabelo loiro apanhado e olhos azuis, com roupa de Chefe de Claque, agarrada a um rapaz também alto, musculado, moreno de cabelos revoltados com jeans e t-shirt.

- Não sejas tão má Diana. – Disse o rapaz ao reparar na atrapalhação da tímida rapariga. – Toda a gente sabe que é virgem, não precisas de o gritar. Ahah.

- Lol Alex! – Riu-se a rapariga, e afastaram-se do grupinho.

- Deixa lá Maria. – Disse uma das raparigas colocando-lhe a mão no ombro numa tentativa de a reconfortar.

- Muito obrigado. – Agradeceu a rapariga. – É o que acontece quando nos desviamos do caminho do Senhor.

Uma rapariga com uma máquina fotográfica "Nikon" passava a toda velocidade pelo grupo de raparigas, sendo seguida por um rapaz de cabelos de tonalidade esverdeada ondulados pelos ombros, pequena barbicha no queixo, olhos que oscilavam entre o verde e o amarelo, calças negras justas e uma camisa de manga curta azul.

- Angie! Espera por mim! – Pediu o rapaz quase implorando, nem isso fez Angélica abrandar o passo.

- Já to disse para me deixares em paz Rodrigo! – Barafustou a rapariga continuando a andar apressada pelo corredor da escola.

- Só uma saída Angie! Vais ver que não queres mais nada! – Tornou a suplicar, Angélica estacou e Rodrigo deixou escapar um pequeno sorriso vitorioso. A rapariga virou-se e fitou o rapaz com os seus olhos cinzentos a brilharem furiosamente.

- Eu sou lésbica, Rodrigo. – Disse de uma assentada, o rapaz olhou-a de queixo caído, sentia-se como se tivesse acabado de ser espancado. – E nunca na vida sairei contigo!

- Oh. Eu. Eu. Ah. – Limitou-se a balbuciar atrapalhado e deixando a rapariga sozinha, que suspirou de alívio e sorriu ao avistar os seus dois melhores amigos: Fred e Lucas.

Fred era na realidade Frederica, mas detestava profundamente esse nome, usava o cabelo ruivo ao nível do queixo sempre de aspecto despenteado, as sardas emolduravam os seus intensos olhos verde-esmeralda. Usava calças largas, t-shirts sem mangas de cores lisas e camisas axadrezadas por cima, com botas típicas de montanhismo a completarem o seu visual de Maria-rapaz. Era assídua praticante de Basebol e irritava-se com facilidade além de odiar pessoas ocas e fúteis.

Lucas, era o amigo que qualquer rapariga podia desejar, bom ouvinte, conselheiro e ombro amigo nos tempos difíceis. Era bastante alto, de pele morena, cabelo castanho-escuro curto, olhos castanhos quase negros, usava calções e bermudas com frequência, sapatilhas "Converse" e t-shirts coloridas, por vezes com frases cómicas. Era bastante descontraído e viciado em Surf e Pokémon.

- Então, o que é que disseste ao Rodrigo para o fazeres bater com o queixo no chão? – Perguntou Lucas divertido.

- Disse para me largar na mão, porque era lésbica. – Respondeu Angélica num sorriso.

- Isso deve ter deixado danos sérios no seu ego. – Comentou Fred trocista, os três amigos desataram às gargalhadas, sem que os amigos se apercebessem Angélica sacou da sua câmara e fotografou-os a rirem-se e numa troca de olhares fugaz, que passaria despercebida a quem passasse, mas não a Angélica.

- Angie! – Reclamou Lucas. – Tens de perder a mania de tirares fotografias às nossas figuras parvas.

- Fala por ti. – Brincou Fred, recomeçando a rir-se sendo acompanhada por Angélica. – Ou isso é medo de partires o vidro da objectiva?

- Essa teve tanta piada que me esqueci de rir. – Respondeu Lucas. – Apaga isso Angie!

- Nem penses! A foto está perfeita! – Disse a rapariga de língua de fora desligando a câmara e tapando a objectiva. – Querem sair hoje à noite?

- Não posso. Tenho de cuidar dos meus irmãos. – Respondeu Fred cruzando os braços.

- Que pena… Parece que só sou eu e tu Angie. – Disse Lucas tentando atiçar a ruiva, que se limitou a desviar a cara fingindo-se de amuada.

No lado oposto do corredor uma rapariga e um rapaz conversavam animados, a rapariga possuía longos cabelos lisos loiros que lhe caiam sobre as costas presos por dois ganchos, olhos verde-acinzentados, vestia uma saia rodada preta um pouco acima dos joelhos com uma faixa florida e uma t-shirt rosa de manga curta e sabrinas cor-de-rosa.

O rapaz de cabelos ruivo acastanhados meticulosamente penteado para o lado e de olhos verde-escuros, usava calças de flanela bege, camisa branca lisa com um colete axadrezado e "Vans" do mesmo padrão.

- Tens que ir comigo ao teatro hoje, Toni. – Pedia o rapaz educadamente. – Não quero ver o "West Side Story" sozinho.

- Claro que vou Vasco. – Respondeu Antonieta com um sorriso. – É um dos meus musicais preferidos.

- Já te disse que és a minha melhor amiga? – Disse o rapaz de brilho nos olhos.

- Hoje ainda não. – Respondeu a rapariga, nisto um rapaz avantajado, de cabelos loiro sujo encaracolado, olhos castanhos, Bermudas castanhas, T-shirt e Ténis agarra-se aos dois amigos, interrompendo a conversa. - David? Mas que?

- Sabem o que diz o tubarão à tubaroa? – Perguntou sorridente a Antonieta e Vasco, que se limitaram a olhá-lo sem responder. – Tu baralhas-me! AHHAHAH

- David, queres ter a delicadeza de nos deixares conversar? – Pediu Vasco delicadamente.

- Vá, não sejam caretas, só mais uma. Depois juro que me vou embora. – Pediu, irritante.

- Venha de lá isso… - Impacientou-se a rapariga lançando um olhar aborrecido ao amigo.

- Porque é que a passagem de ano do Saddam foi uma chatice? – Perguntou com um sorriso de idiota na cara cheia de acne, como nenhum dos dois "espectadores" lhe respondia, deu ele mesmo a resposta antes de desatar a rir. - Porque os amigos deixaram-no pendurado! AHAHAHAHA!

Estava tão ocupado a rir da sua própria piada que nem reparou que Antonieta e Vasco à muito o tinham deixado a rir sozinho da sua própria piada como um louco.

No meio da agitação matinal, que antecedia a primeira aula da manhã, ninguém reparou que um rapaz entrava pelos portões da escola de aspecto nervoso e a olhar para todos os lados como se tivesse medo que alguém o perseguisse. Ninguém reparou nos pequenos dispositivos que colocava em vários pontos da escola, nem na pequena Colt que trazia no bolso da calças de ganga, nem nas munições no outro bolso. Tão pouco repararam que o mesmo rapaz era uma bomba humana, com explosivos à volta da cintura e tornozelos.

Ninguém reparou, ninguém ligou, ninguém deu conta, mas o rapaz invisível trazia a morte e o medo colado ao corpo nesse dia.

E eis o primeiríssimo capítulo da história, achei-o meio aborrecido com a descrição das personagens e tudo. Mas queria começar a história ao mostrar como era a interacção das personagens.

No próximo capítulo começa a acção! Continuem a seguir e comentem! :D