Eu sei que você pensou que dava as cartas

Ginny engoliu milhares de perguntas que pretendia cuspir em Hermione, mordendo o lábio inferior com força, esperando a morena se situar.

Hermione abriu os olhos, mas não focalizou nada a princípio, tentando se acostumar com a luz. Após alguns minutos piscando enfim ela pareceu realmente acordar, sentando-se na cama em um pulo, arregalando os olhos para Ginny e soltando uma única palavra.

- MALFOY! – ela gritou, preparando-se para pular fora da cama.

A ruiva mordeu o lábio mais ainda. "Porque tinha que falar justo nele?" Ela pensou, seus olhos se enchendo de lágrimas. Sacudiu a cabeça uma vez e falou com Hermione.

- Cal-

- MALFOY, O MALFOY! – Mione repetiu, cortando a ruiva.

- Calma MIONE! Eu sei sobre o Malfoy! Calma! – Ginny agradeceu por estarem sozinhas, pois sabia que iriam achar estranho as duas gritando sobre Malfoy o tempo todo.

- Sa-sabe? – Os olhos da Granger pareceram voltar ao normal.

- Sim, eu te tirei dele, eu descobri o planinho sujo dele e te trouxe para cá. Sinto muito que tenha sido só essa madrugada. – Ginny baixou os olhos.

- Ah... Obrigada Ginny. – Hermione parecia desnorteada. – Que dia é hoje?

- Terça-feira, dezoito de dezembro.

- Gasp! – A morena se engasgou com a saliva - O QUÊ?

- É, aquela doninha albina ficou com você por mais ou menos duas semanas antes de eu te encontrar.

Hermione fechou os olhos por um momento, tentando se recompor. Não estava agindo como uma pessoa racional. Ela devia primeiro deixar Ginny contar o que acontecera.

- Ginny, como foi que você descobriu? Algum dos meninos sabe? Como me encontrou?

A Weasley engoliu novamente as perguntas que queria fazer, pondo-se a contar sua jornada.

- Tudo começou porque você estava agindo estranho, falando sobrenomes com raiva e fazendo coisas fora do normal. Então o Harry e o Ron me pediram para descobrir o que estava acontecendo contigo. - ela fez uma pausa para respirar e continuou sob o olhar atento de Hermione – Aí eu tentei conversar contigo, o que não surtiu nenhum efeito. Como não tinha nada pra fazer, Harry acabou dizendo que a gente deveria ir até a Casa dos Gritos. – Hermione olhou confusa para a ruiva – Ah, sobre isso, o Harry me contou, eu já sei. Enfim, você teve uma idéia bem divertida de fazermos um piquenique lá, e foi isso que a gente fez. Por alguns momentos pareceu ser você de novo, mas ainda estava esquisita.

"No domingo você falou que ia tomar água na cozinha, e eu quis te acompanhar, porque os elfos não são seus fãs, então fomos. Aconteceu que a gente teve que se enfiar num armário de vassouras porque escutamos barulhos e depois não conseguimos sair. Naquela hora eu descobri que você não era você, e sim o Malfoy. Aí, Filch abriu o armário depois de um longo tempo e nos entregou para o Snape e a McGonagal. Eu e o Malfoy pegamos uma detenção. – Hermione arregalou os olhos novamente. – Ontem fomos cumpri-la e eu ameacei Malfoy para me dizer onde você estava. Surpreendentemente ele me levou até você, e nem queira saber o lugar, e aí eu ia te trazer para cá, mas descobri que você só ia acordar hoje a noite, então ia ficar numa sala de aula contigo. O idiota do Malfoy se ligou de que você não tinha bebido nenhuma poção de esquecimento, trancou a gente na sala, pegou a minha varinha e nos fez dormir lá. Mas ele foi besta o suficiente para dormir também, e quando eu acordei, peguei as varinhas de volta e te trouxe até aqui. Depois passei o dia todo esperando que você acordasse."

- Uau! E os meninos não sabem de nada?

- Não... eu queria que você acordasse para contar, e também porque temos um probleminha.

- Qual?

- Eu peguei a varinha do Malfoy em vez da sua.

Hermione olhou para Ginny compreensiva.

- Você já falou com ele para pegar a minha de volta?

- Sim, ele queria que eu devolvesse a dele, mas eu disse que só se ele entregasse a sua junto.

Hermione pareceu pensar. Ginny vasculhou seus em seus pensamentos uma idéia genial para não dedurar Malfoy para Harry e Ron até que ela tivesse se vingado dele. Como não conseguiu pensar em nada de imediato, soltou aquilo que tanto queria saber.

- Mas, Mione, como foi que Malfoy te prendeu?

Hermione saiu de seu devaneio, passando a responder.

- Eu estava na biblioteca, acho que cochilei ou coisa parecida, porque quando abri os olhos tinha uma mão na minha boca, uma mão gelada, e depois vi os cabelos loiros dele e aquele olhar de nojo. Ele me arrastou, tirou minha varinha e me obrigou a beber uma poção... Depois não lembro de mais nada.

- Ah, que ódio daquele ser! Ele é uma pessoa pra lá de irritante!

- É sim! – Mione concordou – E como vamos fazer para pegar a varinha? Eu achava melhor que você fosse, porque eu não estou a fim de olhar a cara daquele imbecil novamente, desculpe.

- Então, eu ia dizer, eu vou lá trocar as varinhas. Mas eu tenho um plano para o Malfoy, se você colaborar.

A Granger levantou uma sobrancelha.

- Que tipo de plano?

- Eu não quero que os meninos saibam do que o Malfoy fez, não até eu trocar as varinhas e me vingar de uma coisa que ele me fez.

- O que ele te fez? – Disse a morena curiosa.

- Ele me fez polir troféus por várias horas na companhia dele, me fez ficar com torcicolo por dormir sentada no chão enquanto ele tinha QUATRO travesseiros e uma cama GIGANTE para deitar e não parou de me insultar o tempo todo! Eu quero pelo menos uma vingançinha particular antes de deixar os meninos e você cuidarem dele. É pedir demais? – Ginny sabia que sua raiva não vinha daqueles motivos em si, mas esperava que fossem motivos suficientes.

Hermione Granger olhou bem para Ginny Weasley e sorriu.

- Eu acho que pelo simples fato de ter me salvo dele, você merece quantas vingançinhas particulares quiser! Eu não vou falar nada pros meninos, não até você dizer que está tudo okay!

Ginny se conteve para não pular de alegria e agarrar o pescoço de Mione num abraço, sorrindo do modo mais afetado que conseguiu.

- Tudo bem Hermione! Obrigada! – ela sorriu agradecida. – Eu vou começar recuperando sua varinha, provavelmente amanhã ela estará de volta.

- Sim. Eu vou tomar um banho e depois descer para enrolar os meninos.

- É, isso é uma boa idéia, eles devem estar furiosos, eu não lhes contei nada sobre o que você 'tinha'. – a ruiva riu.

- Deixe que eu me viro com eles, mesmo que depois tenhamos que contá-los a verdade, por enquanto não tem problema uma mentirinha. – a morena riu também, se levantando da cama e se dirigindo ao banheiro. – Caramba, estou um trapo!

Ginny ainda escutou ela falar, antes de fechar a porta do dormitório ao sair. Olhou rapidamente para ver se encontrava cabeças conhecidas e agradeceu por não encontrar. Ia primeiramente ao corujal, pensar no diria a Malfoy a respeito da varinha, tentando não se lembrar de que não tinha vingança planejada, não sabia ainda exatamente o que faria com o loiro. Mas tinha que ser algo envolvendo um beijo bobo que tirasse aquele beijo de seus pensamentos. Ao se lembrar do beijo seu corpo foi percorrido por um arrepio e, antes que começasse a chorar no meio dos corredores, desatou a correr para o corujal.

Não demorou a chegar. Empurrou a porta e entrou, procurando uma coruja para passar o tempo, enquanto decidia o que escreveria para Malfoy.

Foi quando encontrou a coruja que queria que se descobriu sem pena, tinteiro, pergaminho e o principal, sem varinha.

"Desde quando eu saio sem varinha?" ela pensou exasperada. "Agora vou ter que voltar ao dormitório, pegar a varinha e as coisas e retornar aqui."

Revirando os olhos ela passou pela porta do corujal e seguiu lentamente de volta ao Retrato da Mulher Gorda, perdida no que diria ao Malfoy.

"Não pode ser somente: venha ao corujal com a varinha da Mione, tem que ser algo mais elaborado do que isso." Mas ela não tinha uma idéia melhor em mente. O objetivo era recuperar a varinha, não era? Então ela deveria ser clara, falar somente o necessário, sem deixar transparecer qualquer outra intenção.

Quando deu por si estava em frente ao Retrato da Mulher Gorda, disse a senha e entrou. Seus olhos percorreram a Sala Comunal e logo bateram em Hermione, Harry e Ron sentados perto da lareira conversando. Ginny ficou agradecida por eles estarem de costas para a entrada e seguiu sorrateiramente para seu dormitório. Ficou espantada em descobrir que já passava das dez horas da noite. A preguiça começou a bater, fazendo-a desejar ficar por ali em vez de voltar ao corujal. Sentando-se na cama, ela puxou seu malão retirando a pena, o tinteiro e o pergaminho de dentro dele, passando então a escrever aquilo que tinha pensado.

Malfoy,

Esteja amanhã logo depois do almoço no corujal. E traga a varinha da Mione! Estarei com a sua lá, não precisa dar piti! E não me faça ficar esperando!

G. Weasley

Ginny enrolou o pergaminho e colocou-o nas vestes, pegando a varinha esquecida embaixo do travesseiro e saindo em direção à Sala Comunal.

Harry, Hermione e Ron ainda estavam lá, conversando animadamente. Ginny passou por alguns primeiro-anistas que entravam pelo buraco, saindo para os corredores de Hogwarts. Andou a passos rápidos, tentando não encontrar ninguém, pois estava quase no horário proibido. Chegou logo, empurrando a porta e entrando ligeiramente. Procurou novamente a coruja que tinha gostado antes, encontrando-a sem problemas. Não havia nenhuma pessoa no corujal além dela.

Amarrou o pergaminho seguramente na pata da coruja, rindo enquanto o fazia, pensando que talvez acordasse o idiota do Malfoy. Sussurou o nome dele para a coruja que saiu voando janela a fora.

Ginny se forçou a ignorar que não tinha idéia certa do que faria para se vingar de Draco, mas sabia que envolveria um beijo estúpido e nada, absolutamente nada real e seguiu em direção à Sala Comunal da Grifinória.

Não havia nada que pudesse fazer já que o pergaminho havia sido mandado e amanhã ela teria que encontrar Malfoy novamente, engolir as migalhas de sentimentos por ele e trocar as varinhas, do modo mais frio que conseguisse. Mas também tinha que bolar um plano, e rápido, para fazer com que Malfoy ainda a procurasse, sem que ela precisasse procurá-lo. Esse era o principal problema.

Ao chegar em frente ao retrato da Mulher Gorda, Ginny disse a senha e entrou, seguindo diretamente para seu dormitório, passando pela Sala Comunal às escuras. Tirou suas vestes e vestiu o pijama de flanela, encontrando o travesseiro em seguida. Sua cabeça voava longe, tentando descobrir o que faria com Malfoy, o que faria para tirar a vontade de beijá-lo mais uma vez da cabeça. Claro que o que ela sentia era pura atração física, porque Draco era diferente dos outros meninos com quem tinha saído. Ela era impessoal, nada chegado a romantismos, o que secretamente deixava-o mais atraente. Ginny não se perdoava por ter se deixado dominar tão facilmente e estava firmemente decidida a não deixar suas vontades idiotas transparecerem quando fosse encontrá-lo. Pensando em como se vingaria dele ela acabou pegando no sono.

A Weasley tecnicamente não tinha entrado no sono profundo no momento em que as batidas na janela começaram. Ela abriu os olhos assustada e se apressou em ver o que era antes que as outras meninas acordassem. Tarde demais, uma delas já estava sentada na cama com as cortinas abertas olhando para Ginny carrancuda.

- Mas que coisa, precisa ficar recebendo cartinhas durante a madrugada? – ela fechou a cortina com violência e provavelmente voltou a dormir.

- De-desculpe – falou Ginny sem graça.

Ela se dirigiu até a janela e a abriu. A já conhecida coruja-das-torres de cara branca e penas amarelo-alaranjadas entrou num jato e pousou em cima da cama vazia de Ginny, esticando a patinha pomposamente.

A ruiva bufou antes de retirar o pergaminho e abri-lo, ignorando as borboletas que agitavam as asas em seu estômago.

Weasley,

Sinto te desapontar, mas você não me acordou!

Por acaso eu estava enchendo a cara de firewhisky no momento em que seu pergaminho chegou. Sim, digamos que agora eu esteja levemente alcoolizado, o que em absoluto vem ao caso. Enfim, já que eu estou acordado e agora você está acordada (eu acredito na insistência do Lince), porque não terminamos de uma vez por todas com esses blábláblás e trocamos as varinhas?

Claro que você vai precisar sair do Castelo e me encontrar aqui no lago, mas é uma coisa relativamente boa, se considerarmos que depois disso estamos livres da presença desgostosa um do outro. Apesar de que eu acho que você vai me entregar correndo para seu irmão e para o cicatriz logo que amanhecer e então nós teremos que nos encontrar de novo. Não importa, no momento eu necessito da minha varinha, então venha!

D. Malfoy

Ginny quase soltou um berro, mas pensou que era melhor não acordar de novo as meninas. Sem pensar muito no fato de que Draco estava bêbado e se prendendo à petulância dele ela rabiscou no verso uma resposta.

Malfoy,

Háháhá!

Você abre a boca quando está bêbado, hein? E fica impossivelmente mais idiota!

Como se eu te obedecesse, pff.

Encha bastante a cara, caia em uma parte não congelada do lago e morra afogado! Mas pode deixar a varinha da Mione por ali, que amanhã de manhã eu passo para pegar.

Você tem que ser extremamente sem noção para pensar que eu iria sair a essa hora e ir até o lado de fora encontrar você! Amanhã nos livramos de nossa desgostosa relação. Não encha mais meu saco!

G. Wealsey

A Weasley amarrou o pergaminho na pata da coruja que voou para a noite. Ginny fechou a janela atrás dela e voltou à sua cama. "Maldito loiro azedo! Idiota! Se ele soubesse como eu o detesto!" pensou ela em cima do que estava verdadeiramente em sua cabeça. Na realidade ela estava um pouco chateada que ele achasse tudo aquilo 'desgostoso'. Ela estava se derretendo aos poucos enquanto ele permanecia como se tudo não passasse de brincadeira boba. Epa! Não era essa a intenção dela a princípio?

Fitando o teto em meio à lembrança daquele beijo e se segurando para não gritar, Ginny tentava dormir sem sucesso. Alguns minutos depois as batidas na janela recomeçaram.

Antes que alguma menina acordasse ela pulou fora da cama e escancarou a janela, arrancando rudemente o pergaminho da pata da coruja-das-torres de Draco.

W.,

Sim, sim. Eu sou completamente insano e ainda assim você vai fazer o que eu quiser! Se você não quer descer até aqui e me entregar a varinha e pegar a da sangue-ruim, tudo bem. Mas tampouco vai conseguir dormir. O Lince vai colaborar para que as batidas na sua janela não parem antes das seis da manhã! Que tal?

M.

O rosto de Ginny estava quase tão vermelho quanto seus cabelos. A idéia dele não só ia impedi-la de dormir, como manteria as outras meninas acordadas, o que estava fora de questão. Se sentindo uma marionete estúpida ela escreveu no pergaminho três palavras que pareceram demorar uma eternidade e enviou.

Com o rosto ainda queimando e o "Estou indo aí" na cabeça, ela vestiu o roupão e pantufas e saiu pela porta de seu dormitório com a varinha de Draco no bolso e a sua segura na mão direita. Parou por meio minuto no meio da Sala Comunal para descobrir que era uma e onze da manhã e seguiu pelo buraco em direção ao lago.

Não importava o quê, mas alguma coisa bem detestável ela tinha de fazer com Malfoy. Isso era questão de honra.


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