| Capítulo 2 |


Eu me senti super mal quando a noite caiu. Os mais ágeis tinham descoberto maneiras de sobrevivermos, pelo menos por um dia. Fizeram fogueiras e distribuíram comida que foram achando pelo avião ou pelos pertences sem dono. Eu fui sentar perto de um grupo de pessoas mais próximas à minha idade. Mike também estava lá.

- Oi.

- Ei. Posso?

- Claro.

Sentei do seu lado e apoiei a cabeça nos joelhos. Quando alguns já dormiam, foi que começou o pavor.

- O que foi isso?

Uma das garotas levantou a cabeça assustada.

- Isso, o que?

- Esse barulho!

- Não ouvi nada...

Mike levantou.

- Shhh.

Ficamos em silêncio total e eu escutei. Era algo como... rosnados. E vinha da mata.

- Nós caímos... numa ilha habitada por animais selvagens?

Os sons eram cada vez mais alto e mais próximos de nós. Parecia algo se aproximando. Os homens da ilha colocaram-se de pé na frente das mulheres e crianças, como esperando por algo nos atacar.

- Será que já não sofremos o suficiente?

Uma das meninas se desesperou e caiu no choro. Eu me agachei perto dela.

- Tudo bem... eu tenho certeza que não é nada demais.

Ela me olhou incrédula.

- Você é retardada?

- Como?

- Nada demais? Como você pode dizer isso?

Calei minha boca e saí de perto da garota loira. Eu apenas quis acalmá-la, será que ela percebeu? O barulho nos alcançou, dessa vez extremamente alto, como se fossem muitos. Eu me arrepiei totalmente e sentei encolhida perto de uma das fogueiras. Nada acontecia, nenhum animal aparecia. Só ficávamos ouvindo aquele barulho aterrorizante, como numa espécie de tortura.

As horas passaram e os homens continuavam de guarda. Eu sinceramente não aguentei e deixei os meus olhos me vencerem. Só acordei no dia seguinte, com os gritos de algumas pessoas. Levantei, correndo na direção deles.

- O que houve?

- Oh meu Deus!

Quem chegou antes de mim, colocava a mão na cabeça e olhava com pavor para a cena. Eu olhei para ver do que se tratava. Eram... pedaços humanos? Eu vi um braço, com um relógio da companhia aérea no pulso. Eram pessoas do nosso grupo. Coloquei a mão na boca e corri para vomitar longe dali.

Uma mão chegou por trás de mim.

- Colocando as tripas agora ou mais tarde?

- Como?

O loiro alto e forte fez cara de nojo para meu vômito e estendeu a mão.

- Sawyer, prazer.

- Isabella.

Eu estendi minha mão para cumprimentá-lo, mas ele puxou a dele antes.

- Tavez quando você se lavar...

Mas que homem irritante! O que tinha de gostoso, tinha de irritante!

- Ou não.

Fechei a cara e saí dali. Fui sentar ao lado de Mike, que me olhava delicadamente.

- Você está bem?

- Sim

- Não parece... está com uma aparência horrível!

Qual o problema desses homens? Não conseguiam ter uma conversa simpática com uma mulher.

- O que você acha que foi aquilo?

Ele deu de ombros.

- Estão dizendo que foram ursos... mas eu não sei.

- Ursos?

Eu tinha medo de ursos. Na verdade, eu tinha medo de qualquer bicho que fosse maior do que eu. Minto. Eu tinha medo de uns menores também. Eu vi uma agitação por parte dos homens, que juntavam galhos e pedaços afiados da fuselegam do avião.

- O que estão fazendo?

- Eles vão entrar na mata.

- O que? Mas... não sabemos o que tem lá!

- É por isso mesmo que eles vão. Ou você prefere passar outra noite sem saber... o que tem lá?

Eles eram loucos? Adentrar uma mata com sons estranhos depois de aparecerem pedaços na praia? Eu me levantei e fui até o grupo, tentar fazê-los mudar de idéia.

- Ei, vocês não podem ir!

- Está falando com a gente, branquela?

O loiro alto tinha um ar debochado para mim.

- Sim. Nós não sabemos o que tem lá...

- E você prefere que fiquemos sentados esperando seja lá o que for, vir até nós?

- Quem é ela?

O médico que cuidou do meu ferimento me puxou pelo braço.

- Isabella, deixe que os mais velhos cuidem disso, ok? Apenas... fique longe da floresta.

- Jack, não é?

- Isso.

- Se vocês forem, e não voltarem... não vai ser pior? Para quem ficar?

- A branquela tem razão. Eu fico.

O loiro debochado sorriu, se metendo na conversa.

- Você não vai? Nós precisamos de força, Sawyer...

- Já têm o suficiente! Acho melhor ficar para proteger as mulheres.

Jack fechou a cara e o encarou.

- Trate de fazer a sua parte então.

Eu fiquei olhando eles sumirem mata adentro. Um frio percorreu minha espinha, como se me mandasse um aviso nada bom.

- E então branquela, você aposta em que? Urso, macaco, canibais...?

- Pare de me chamar assim, ok?

- De branquela?

Ele era loiro e gostoso, mas já estava me deixando irritada! Dei um empurrão e saí de perto. Fui me sentar na areia com as ondas encostando nos meus pés. Como a vida pode mudar tão depressa? Ficava imaginando a situação dos meus pais a essa hora, provavelmente desesperados, sem um corpo para enterrar. Doía mais ver que eles não sabiam que eu estava viva, do que estar ali sofrendo naquela ilha. Meu estômago roncava, meu braço latejava e meu medo só crescia mais.

- Não chore.

Mike estava com o sorriso bobo ao meu lado.

- É quase impossível... mas obrigada.

- Quer dar uma volta?

- Na verdade não...

Eu não queria mesmo passear por aquele lugar com um garoto do meu tamanho e mais fraco do que eu. Não mesmo. Um grito nos fez levantar e correr em direção a um grupo.

- Eu vi... eu vi...

- Alguém pode dar um tapa para ela cuspir a frase logo?

O loiro era nojento! Piadas em momentos nada legais. A loira que antes me tratou mal, agora tremia de pavor.

- Viu o que?

- Eu fui... fazer xixi... e vi...

- O que?

- Olhos. Vermelhos.

- Certo. Alguém pode fazer o favor de acalmar a Barbie aqui? Olhos vermelhos? Era só o que me faltava!

Ele saiu de perto de nós e entrou numa espécie de tenda que tinha montado. Eu fui atrás.

- Você poderia não tentar ser sempre debochado?

- Qual é branquela? Não sabe bater antes de entrar?

A tenda dele tinha... de tudo.

- Onde você arranjou essas coisas?

Ele sorriu cafajeste, um sorriso de lado.

- Catei por aí.

- Catou? Tudo isso provavelmente tem dono!

- Eu sei. Mas o que posso fazer? Sair perguntando aos defuntos?

OMG. Eu começava a ter mais medo dele do que do barulho na floresta.

- Certo branquela, vamos combinar uma coisa? Vocês não me amolam, e eu deixo todos em paz também. Que tal?

- Qual é o seu problema?

- Nenhum. E o seu?

Eu saí chutando a areia antes que chutasse a cara dele.

Já estava escurecendo e nada deles voltarem. As pessoas já começavam a entrar em pânico, imaginando diversos motivos para tal. O barulho... voltou. Mas dessa vez, era como se... estivessem brincando com a gente. Como se fosse divertido nos ver assustados.

- Ei, todo mundo! Acalmem-se! Eu vou ficar louco se vocês todas começarem a gritar! Ei magrelinho, faz alguma coisa também!

Sawyer tinha apelidado mais um. O pobre Mike. Tudo bem, eu concordava, ele era magrelo mesmo.

- De novo?

- Branquela, você também não! Depois eu deixo você me encher o saco... agora não!

Ele calou a boca, quando simplesmente algo passou como um raio por nós, levando embora uma mulher. Eu parei de respirar e a gritaria foi geral.

- Ok, o que foi isso?

- Onde... onde ela está?

- Sawyer... acho bom você fazer alguma coisa...

Ele puxou meu braço e foi comigo até a tenda. Desenterrou uma... espingarda? Eu o olhei incrédula.

- Também não faço idéia de como isso entrou no avião.

Ele carregou a arma e voltou para a praia.

- Vamos ver se isso funciona!

Ele queria atirar em que? Nós nem vimos o que tinha nos atacado!

Ele estava preparado para atirar em qualquer coisa que se movimentasse diante de nós. Mas ninguém ali esperava pelo que aconteceu logo em seguida. Um barulho bem mais forte veio em nossa direção e um objeto grande foi atirado em nós.

- Jesus...

- Oh... meu... Deus.

Eu vomitei ali mesmo. Quando todos viram aquilo, o caos tomou conta e nem Sawyer nem ninguém mais seria capaz de acalmar os ânimos. O objeto atirado, era simplesmente o corpo da mulher que tinha acabado de ser levada. Mas ela estava morta, cheia de mordidas pelo corpo, ensanguentada, e com uma caligrafia desenhada na barriga. Com sangue.

"Bem-vindos"

Sawyer agachou perto do corpo e ficou alguns segundos olhando. Depois ele levantou, colocou a espingarda no ombro e deu a volta.

- Onde você vai?

- Agora é cada um por si.

- Hein?

- Não vou tomar conta de ninguém, ok? Os heróis são sempre os primeiros a morrer!

Certo. O loiro covarde resolveu abandonar todos à própria sorte. Legal. Só nos restava... o magrelinho.

- Mike!

- Ei Isa. Eu...

- Medo?

- Muito.

Legal! Bem legal!

- Socorroooo!

Outra foi levada. Estavam pegando uma a uma. A loira correu para o mar.

- Eu vou sair daqui!

- Nadando?

- Prefere ficar?

Eu olhei o oceano que se estendia à frente. Como eu ia nadar sem saber onde parar? Impossível. Sawyer chegou puxando a loira pelo braço.

- Ninguém vai se suicidar aqui.

- Me solta!

- Qual seu nome?

- Shannon.

- Ok Shannon, isso não é uma opção.

- O que... é aquilo?

Nós nos viramos para ver do que Mike falava. Agora eu ia mesmo morrer.


Capitulo 3, só na sexta!