| Capítulo 7 |


30.06.2008

18º dia

As horas continuavam a se arrastarem lentamente. Nenhum inferno poderia ser pior do que aquele lugar. A fome, a sede constante, os maus tratos, tudo ali, conspirava contra nós. Nem eu nem Sawyer tínhamos mais o mínimo de força para lutarmos. Eu já fazia o que me mandavam, sem responder, sem brigar, sem questionar.

- Por que não passou a noite lá dentro, branquela?

- Edward disse que eu precisava descansar. Acho que vão fazer outro exame em mim.

- Hum.

Nós estávamos sentados lado a lado, encostados um no outro, olhando para o nada, quando ouvimos gritos histéricos.

- Aquela é a...

- Shannon.

Era ela sim, que vinha correndo, com as pernas sujas de sangue.

- Me deixem! Me deixem!

Quando ela passou por nós, tropeçou e caiu de joelhos no chão de terra. Ela parou um instante e ficou ali chorando, toda torta. Eu percebi então, que suas mãos também estavam sujas de sangue.

- Aí está você...

Emmet chegou rápido até ela e a levantou pelos cabelos. Ela gritava, mas não parecia ser de dor, e sim de ódio.

- Seus nojentos! Seus vermes!

Shannon cuspiu no rosto dele, que sorriu e apertou sua garganta.

- Pena que não posso te matar.

Ele voltou pelo túnel, arrastando-a que nem faz comigo.

- Isso foi... interessante.

- Não entendi o sangue. Você entendeu, Saw?

- Nem vi o sangue. Estava olhando para a bunda dela...

Deitei de lado e fiquei pensando em Shannon, enquanto Sawyer jogava pedrinhas para fora da jaula. Aquilo era tão estranho... sangue nas pernas? Cada vez mais eu entendia menos do que acontecia naquele lugar. Meus pensamentos foram interrompidos quando uma mulher, aparentemente, vampira, se aproximou de nós, calmamente, porém, desconfiada.

- Shhh, fiquem quietos.

Ela parou em frente a jaula e grudou o rosto na grade. Sua pele era tão pálida quanto a dos outros, e seus cabelos castanhos eram ondulados quase até a cintura. Seu rosto era pacífico e ela tinha um sorriso delicado.

- Eu sou Esme. Não vou lhes fazer mal.

Sawyer se esticou para mais perto dela e sorriu.

- Ótimo. Que tal nos soltar então?

- Não posso, desculpe. Isso eu não posso fazer. Eles... me matariam.

- Te matariam? Você não é da família não, docinho?

Ela desfez o sorriso.

- Não gosto de apelidos. E sim, eu sou igual a eles. Mas soltar vocês, seria o mesmo que traí-los.

- Solteira ou comprometida?

Ela ignorou-o e me olhou.

- Você está bem?

Era piada? Eu apenas movi os olhos em sua direção.

- Estou ótima, e você?

- Não posso demorar, ou vai desconfiar... mas tome cuidado.

- Com o que?

Ela olhou para os lados e se afastou da jaula, apressada.

- Não faça o exame hoje!

Ela foi embora e eu fiquei mais pensativa ainda. Me sentia num filme de Sherlock Holmes ou coisa pior. Não fazer o exame? E desde quando eu podia escolher algo ali? Acho que a minha opinião nunca foi muito importante para eles.

- Gatinha...

- Ao invés de pensar em sexo, você podia tentar me ajudar a montar o quebra-cabeça.

- Branquela... eu lá tenho forças atualmente para pensar? Você come todo dia lá na toca do chefe. Eu não.

- Ok.

Deixei de tentar fazer algo naquela mente funcionar. Acho que só funcionava mesmo quando era um assunto que envolvia mulher, sexo, mulher ou talvez... sexo. Meu coração acelerou quando vi Emmet chegando pelo túnel. Ele provavelmente estava vindo me buscar para o exame. Do nada, muito rápido, eu resolvi seguir o conselho da vampira delicada. Me enrolei em volta do meu próprio corpo e fingi estar passando mal.

- Vamos.

Quando ele chegou e abriu a porta da jaula, eu começei a gemer.

- O que ela tem?

Fiquei com medo do Sawyer me entregar, mas felizmente ele botou a cuca para trabalhar.

- Ela está péssima, sentindo dores...

Emmet me olhou sério e coçou a cabeça.

- Está sentindo o que?

- Dor...

- Onde?

- No corpo... todo...

- Saco.

Ele fechou a porta de novo e saiu.

- Vou ver o que faço.

- A bonitona te deixou com medo, branquela?

- Quem?

- Aquela que veio te dar o recado.

- Esme? Achei melhor escutar o conselho dela, não gosto desse negócio de exames.

- Bobinha você! Em vez de aproveitar o carinha lá te dando umas dedadas...

Sawyer era nojento! Logo em seguida, Emmet voltou com Edward atrás. Eles pararam na frente da jaula e Edward entrou, agachando próximo a mim.

- O que está sentindo?

- Muita dor.

Fiz cara de sofrimento extremo e gemi. Ele me pegou no colo e saiu da jaula me carregando túnel adentro.

- Onde... está me levando?

- Para a cama. Vou chamar Carlisle para te examinar.

Ops. O cara é médico, né? Vai saber que eu estou mentindo.

- Não precisa! Só me deixe quietinha um pouco.

- Ok.

Ele me colocou deitada e ficou em pé me olhando.

- É a barriga que dói?

- Também. Mas todas as outras partes do corpo doem.

- Não sei que doença é essa.

Nem eu sabia que merda estava inventando. Gemi mais e fechei os olhos.

- Fique um pouco aqui, vou pegar algo para você beber.

- Obri... gada.

Quando ele saiu, eu ri. Eu estava rindo agora, mas se eu é quem estivesse sendo enganada, ia ficar muito puta. Ok, pensando na reação dele se descobrisse, começei a ficar com um pequeno medo.

- Isabella?

Putz. Me salva, senhor! Meu caminho para a forca estava marcado já, pois o médico tinha aparecido. Parei até de respirar.

- O que você tem?

Ele sentou na beira da cama e tirou um estetoscópio do bolso do jaleco. Engoli seco.

- Eu... não sei... dores.

- Edward foi me avisar e pediu para eu te examinar. Sente dores aonde?

Ah meu deus, o que eu digo? Começei pelo mais simples.

- Minha cabeça está doendo demais!

- Dor de cabeça, um analgésico basta.

- Não é só a cabeça... a barriga também. E os braços... e pernas.

.

Ele franziu a testa e começou a me escutar com o esteto.

- Inspire fundo e solte.

Eu fiz o que ele mandou, por várias vezes. Por fim, ele parou de me escutar com o aparelho e apertou minha barriga com os dedos. Porra, aquilo doeu mesmo!

- AI!

- Dói?

- O que acha?

Parecia que ele estava me furando, isso sim.

- Mas não é local para doer. Tem certeza que não é frescura?

- Você quase me esmagou!

- Ok.

Ele continou por toda a extensão da barriga. Não dóia mais, só que eu não podia dizer isso.

- Ai! Ai!

- O que ela tem, Carlisle?

Edward tinha chegado e parou no pé da cama.

- Aparentemente, nada. Pode ser alguma intoxicação alimentar, nada demais. Ela não está com febre, na barriga não tem nada, a respiração e os batimentos cardíacos estão perfeitos.

Ele me olhou desconfiado. (N/A: me come cara!)

- Ou é frescura, ou algo bobo.

- Pode ir, Carlisle.

O médico levantou e saiu pelo túnel. Edward sentou onde o médico estava.

- Continua doendo?

- Um pouco.

- Feche os olhos e não abra por nada nesse mundo.

Credo! Ele falou num tom exageradamente ameaçador. Congelei e fechei os olhos, forçando-os para não abrir. Senti seu dedo me tocar.

- Dói muito?

- Aham...

Pode abrir os olhos. Eu o olhei e segui sua mão. Ele estava com um dedo levemente encostado na minha barriga. Percebi que não estava nem fazendo força. Ops.

- Que dor estranha, né?

- Eu... posso explicar.

Edward rosnou e seus olhos ficarem negros. Em questão de segundos, seu hálito frio estava no meu pescoço.

- Não gosto de mentiras, Bella.

- Des-desculpe. Mas eu... senti... mesmo umas dores.

Ele apertou minha garganta e me olhou sério.

- Da próxima vez que isso acontecer, não irei tolerar desculpas.

- Ok. Ok.

Edward me soltou e levantou furioso.

- Saia.

- Ir embora?

- Durma na jaula hoje.

Isso era raro. Levantei e fui quieta novamente lá para fora.

- Ué, voltou?

Cheguei na jaula e vi um sorriso sarcástico no rosto do loiro.

- Não. Estou só em alma.

- O cara-pálida te deu um pontapé, é? Deve ter arranjado outra...

- Cala a boca, Sawyer! Só fala besteira.

- Ih... estou sentindo um ciúme no ar ou é impressão minha?

Que ciúmes gente? Não tem mulher nenhuma além de mim. Ok, isso foi meio possessivo.

- Me deixa.

- Descobriram a mentira, já entendi...

- Claro que descobriram, eu minto super mal!

.

Ele riu e mexeu no cabelo.

- Depois te dou umas aulas, branquela.

- Eu só quero mesmo é que você me deixe ficar em paz.

- O que? Não me diga que vai dormir aqui fora?

Sawyer gargalhava e eu não via a graça nisso.

- Levou mesmo um pé na bunda.

Aquela noite foi péssima! Quando eu pegava no sono, acordava desesperada com alguma picada de mosquito. Inferno!

- É bom dormir aqui fora, né?

- Sawyer! Não está dormindo?

- Não... Tenho tido insônia.

-Também... com esses mosquitos! Não estou aguentando.

- Relaxa, branquela. Vai ter que se acostumar com eles, ou então vai passar a noite acordada.

Que saudades da cama lá dentro. Não sabia que era tão ruim dormir ao relento, no meio de uma mata imensa. Perdi o sono e sentei do lado do loiro chato, encostando a cabeça no seu ombro.

- Como era sua vida, Saw?

- Monótona.

- Me conte...

- Ih branquela... envolve polícia, dinheiro, mortes, trapaças...

Olhei assustada para ele.

- Está brincando, né?

- Claro!

Ele sorriu e eu relaxei.

- Ok, não estou brincando não.

- Sawyer!

- Você quem perguntou.

- Você é criminoso?

- Não! Nunca fui preso!

- Não precisa ser preso para ser criminoso.

- Ok. Então eu sou.

OMG. Era uma descoberta atrás da outra. Eu fiquei ereta e virei de frente para ele.

- Eu quero saber.

- Não tem muito o que saber, branquela.

Ele abaixou a cabeça, passando o dedo no chão.

- Seu nome é Sawyer mesmo?

- Não.

- Eu imaginei isso. Qual é seu nome então?

Ele sorriu.

- James Ford.

- Lembra bastante o apelido de Sawyer...

Eu não podia perder a piada, né? Sawyer? Não tem nada a ver com o nome dele. Eu hein. Ele coçava a cabeça.

- Sawyer é em homenagem a um homem.

- Seu pai?

- Não. O homem responsável pela morta da minha mãe.

Hein? Me arrependi de ter tocado no assunto. Mas ele continuava sorrindo.

- Não gosto de falar sobre isso, branquela.

- Ok, não precisa então. Mas se quiser desabafar...

Ele piscou e encostou a cabeça na grade, suspirando.

- Eu estava sendo extraditado, por isso estava no vôo. Fui preso na Austrália.

- Por qual motivo?

- Assassinato.

Surtei. Me afastei dele bruscamente. Ele franziu a testa me olhando.

- Acha que vou te matar também? Com o que? Gravetos?

- Você... matou alguém, James?

- Não me chame pelo nome, por favor.

- Ok. Sawyer.

- Matei.

OMG. OMG.

- Legítima defesa?

- Não.

- Qual o seu problema?

Congelei olhando para a cara dele.

- É uma longa história, branquela. Mas eu não matei pr matar.

- Que legal, bem mais acolhedor.

- Eu vi minha mãe ser assassinada!

Ele falou sério, com cara de poucos amigos. Eu engoli seco.

- Lamento. Tem tempo?

- Eu era criança. Um homem com quem ela tinha um caso, fugiu com nosso dinheiro. Meu pai quando descobriu, a matou e depois se matou também. Eu vi tudo, estava escondido. O cara que nos deu o golpe, chamava-se Sawyer. Eu jurei vingança a ele, e adotei o apelido para mim.

- Foi ele quem você matou?

- Mais ou menos.

Nem tinha notado que eu já estava brincando de jogar pedrinhas longe. Retardada.

- Como assim? Ou matou ou não.

- Eu matei, achando que era ele. Mas não era.

- Oh.

- Pois é.

- E quem era?

- Ninguém que eu conhecesse.

- Coitado.

Bem, ele não parecia querer me matar. Voltei a encostar a cabeça no seu ombro e fechei um pouco os olhos, que estavam pesados.

- Tem família, Sawyer?

- Não.

- Do que mais você sente falta?

Ele riu.

- Quer mesmo que eu responda, branquela?

- Não precisa mais.

Nós passamos o tempo enquanto conversávamos sobre o passado, o que fazíamos, porque estávamos viajando e tudo mais. Tinha adormecido ali mesmo naquela posição e acordei um o barulho de alguém batendo de leve na grade. Quando abri os olhos, vi Esme na minha frente. O sol ainda nem tinha nascido.

- Você fez o exame?

- Não.

Esfreguei os olhos e me aproximei dela. Pude ver nitidamente, agora com o dia raiando, o quanto ela era linda. Parecia ser mais velha que os outros, mas mesmo assim era linda.

- O que é exatamente esse exame?

- Bebês.

- Hein?

Ela olhou em volta e falou super baixo. Eu precisei grudar o rosto na grade para ouví-la.

- Eles querem bebês.

- Mas... eu não estou grávida.

- Mas eles vão te engravidar. Dele.

Ela apontou para Sawyer, que dormia de babar. Meu coração parou por segundos e voltou a bater super acelerado.

- Po-por que eles me que-querem grávida?

- Para nos alimentarmos. Mas eu não quero sugar bebês. Não! de jeito nenhum!

Eu estava no inferno mesmo. Meus deus, eles queriam criar um exército. De comida. Eu precisava sair dali.

- Eu preciso ir.

Ela saiu correndo de lá quando o sol surgiu com seus primeiros raios. Eu voltei para perto de Sawyer e sacudi-o.

- Saw, acorde!

- Hã?

- Anda! Acorda!

Ele abriu os olhos meio sonolento e me olhou torto. Mas eu não estava me importando com isso.

- Sawyer, precisamos sair daqui!

- Não diga!

- Esme...

Ele se ajeitou e bocejou. Parou para me olhar sério agora.

- O que foi, branquela? O mundo está acabando ou você está de TPM?

- Não tem graça, Sawyer. Esme acabou de sair daqui.

- Por que não me acordou? Queria jogar um charme para ela...

Me descontrolei e dei-lhe um tapa no rosto. Ele franziu a testa e me olhou feio.

- Acho bom você ter um ótimo motivo para ter feito isso.

- Posso falar? Eles querem me engravidar!

Sawyer sorriu.

- Brincando de casinha todo dia, só podia dar nisso, branquela...

- Não é Edward que vai me engravidar, Sawyer. É você!

Ele se engasgou com o vento, saliva ou sei lá o que.

- Opa. Peraí, vamos com calma. Nós nem nos beijamos ainda, amor... não coloque a carroça na frente do boi. Você é gatinha e tudo mais, porém eu não quero ser pai.

- Sawyer! Já ouviu falar em inseminação, idiota?

Ele parou.

- Nada legal.

Ele agora estava em pé, andando de um lado ao outro.

- Eu não vou levar a fama sem ter deitado na cama. Não mesmo. Se é para você criar barrigão, tem que ser do jeito tradicional (N/A: dedicado à Kese e sua frase rs)!

- Você é retardado, Sawyer? Não vai acontecer nem de um jeito nem de outro. Eu me mato antes!

- Calma, branquela. Gravidez nem é tão ruim assim...

- Sawyer! Eles querem o sangue dos bebês! E não brincar de pais e filhos.

Ele revirou os olhos.

- Antes o sangue deles do que os nossos!

- Sawyer!

- O que? Só quero sair vivo daqui. Se for preciso reproduzir que nem coelho, abre as pernas aí.

Eu taquei uma pedra pequena nele, que sorriu.

- Você vai ficar uma grávida chata, sabia?

Sentei num canto e comecei a chorar. Aquilo não podia estar mesmo acontecendo. Agora eu entendia a Shannon, o sangue. Ela abortou propositalmente? Eu teria coragem de fazer o mesmo? Minha mente funcionava a mil, pensando em soluções.

- Será que vai ser parecido comigo?

- Eu te odeio, Sawyer.

- Assim eu gamo...