| Capítulo 8 |
02.07.2008
20º dia
Ou esqueceram que nós existíamos, ou sei lá o que. Nós ficamos dois dias sem ninguém nos bater, nos xingar, nos incomodar. Nem Edward apareceu. Preciso admitir que senti falta do rosto sério dele e dos cabelos desalinhados. Nós só recebíamos comida e água das mãos da loira má. Mas nesse fim de tarde, ele veio.
- Temos companhia.
- Hein?
Sawyer avisou e eu olhei, sem esperar que alguém aparecesse. Já começava a achar que tínhamos sido deixados ali para morrer. Bem, fora a comida. É, não era para morrer. Quem quer matar, não alimenta.
- Olá.
Ele falava comigo, sério. Abriu a porta da jaula e esperou eu sair. Mas eu nem levantei.
- Venha comigo, ok?
- Onde?
Ele sorriu.
- Venha comigo.
Meu coração acelerou de medo e me levantei devagar. Edward segurou-me pelo braço e fomos em direção ao túnel.
- O que vai fazer agora comigo?
- O exame que você já devia ter feito...
Eu travei no túnel e ele me puxou.
- Não!
- Isabella, ande.
- Por favor...
-É só um exame, ok?
Eu não consegui aturar aquilo.
- Eu sei o que é! Eu sei o que vão fazer! Por favor!
Agarrei na blusa dele e quando vi, já estava chorando. Ele estava imóvel e eu ouvia um rosnado baixo saindo do seu peito.
- O que sabe exatamente?
- Sei que vão me engravidar!
Eu falei logo, mesmo sem saber se era o que ele queria ouvir.
- Não sei de onde você tirou essa idéia.
Ele me arrastou e entramos na sala branca, cheirando a éter. O médico loiro esperava lá, com luvas cirúrgicas e um bando de objetos numa mesa. Eu fazia força para não andar, mas ele era mais forte.
- Venha, Isabella.
- Olá Isabella, quanto tempo. Pronta para hoje?
- Vocês são nojentos!
Eles se olharam e sorriram. O loiro me respondeu.
- Bem, eu me amo do jeito que sou.
- Matando bebês?
Toquei no ponto fraco, pois o sorriso de seu rosto sumiu, dando lugar à uma carranca. Ele lançou um olhar surpreso para Edward, que balançou discretamente a cabeça, mas eu vi do mesmo jeito. Ele me colocava agora em cima da mesa, enquanto falava comigo.
- Ora... acho que anda vendo muito filme de terror, Isabella. E mesmo que estivesse certa, não tem vontade de ser mãe?
- Carlisle!
Eu fui imobilizada e fechei os olhos, enquanto ele puxava a maca para sua direção e abaixava minha calça.
- Estou impaciente hoje querida... então se não quiser sentir dor, fique calminha...
Fechei os olhos e deixei as lágrimas caírem. Eu não tinha mais como lutar com eles.
- Isso demora, Carlisle?
- Alguns minutos. Se não quiser assistir, pode ir que depois eu a levo de volta.
- Eu vou esperar.
Virei a cabeça de lado e abri os olhos para olhá-lo. Edward estava em pé, encostado na parede. Ele me olhava estranho, como se não gostasse de assistir a procedimentos médicos. Como se não se sentisse à vontade com aquilo.
- Pare, Carlisle.
- O que?
- Pare.
Eu olhei para o médico, que tinha a cabeça levantada olhando para Edward.
- Como assim?
- Deixe-me a sós com ela, Carl.
O loiro me olhou apreensivo e levantou, passando por Edward e parando para encará-lo. Edward estava sério e o olhava nos olhos. Parecia que estavam duelando ali, mentalmente. Carlisle saiu da sala e fechou a porta. Edward me olhou e aproximou-se da mesa.
Ele parou do lado da maca e agachou, ficando na altura do meu rosto.
- Se você conseguisse fugir e voltar para casa... sentiria falta de algo daqui?
Ele me perguntou calmo. Eu pensei naquela pergunta. Talvez eu sentisse falta de Sawyer e seu jeito chato de ser... já tinha me acostumado com ele.
Das aves que eu via passar de manhã pela mata... e... talvez dele... e dos seus olhos... sua boca... eu devia estar louca em achar que sentiria falta de quem me maltrata!
- Sim.
- De que?
- Coisas.
Ele estreitou os olhos tentando me estudar. Por fim, Edward levantou e abriu a porta. Carlisle estava lá em pé esperando. Ele entrou de novo na sala.
- Solte-a, Carlisle.
- Por que?
- Não faremos isso hoje.
- Mas Edward... o tempo corre.
- Solte-a.
O médico bufou e me desamarrou. Eu mexi rápido meus braços doloridos e levantei. Ele saiu furioso da sala e eu olhei admirada para Edward.
- Obrigada.
Ele me levou de volta pelo túnel até a jaula. Antes de entrar, eu quis perguntar a ele.
- Por que fez aquilo?
- Coisas.
Ele fechou a porta da jaula e saiu.
- Que foi, branquela?
- Não... sei.
- Fizeram algo contigo?
- Não.
- Quer dar uns amassos?
Olhei para Sawyer, que me olhava sorrindo.
- Nem vou te responder...
- Que cala consente, branquela!
Sentei no meu canto e esperei. Não sei pelo que, mas esperei por algo, que não aconteceu.
04.07.2008
22º dia
Já estava começando a me acostumar com o fato de que não o via mais a noite. Tinha também acostumado a dormir ao relento com os mosquitos me picando. Mas essa noite foi diferente. Enfim, ele veio.
- Vamos comigo.
Saí da jaula e o acompanhei. Ele foi calado o tempo todo pelo túnel e me deixou ir solta, com meus próprios pés. Quando chegamos lá dentro, vi comida em cima da mesa e fiquei feliz. Eu tinha reclamado de barriga cheia. Coelhos eram uma delícia! Lá fora a gente come extretamente mal.
- Pode jantar à vontade.
- Obrigada.
Eu fiz a refeição enquanto ele permanecia sentado na cama me olhando. Eu comi rápido, sem saber o que aconteceria quando eu terminasse. Não queria passar por tudo de novo, não queria fazer exame nenhum. Quando terminei, levantei e parei sem jeito na frente dele.
- Onde quer dormir hoje?
- On-onde?
- Lá fora ou aqui?
- Acho... que aqui.
Essa última palavra foi difícil de pronunciar. Eu talvez já não ligasse mais para o desconforto lá de fora, mas por um lado, eu acho mesmo que queria ficar aqui. Ele levantou os olhos para mim.
- Quer tomar banho?
- Sim.
Edward levantou e me deu uma outra roupa, apontando o banheiro para mim. Tinha dias que eu não tomava um banho. Acho que demorei incansáveis minutos ali, apenas tentando esquecer de tudo. Foi quando eu vi ele entrar, parando perto de mim.
- Des-desculpe... já vou sair.
Me assustei quando o vi me observando e tentei terminar logo com o banho.
- Achei que tivesse se matado.
- Eu?
Ele sorriu torto e saiu, mas dessa vez, eu não vi sarcasmo no sorriso. Fiquei confusa com aquilo e terminei logo o banho, colocando a roupa e voltando para lá.
Edward levantou e aproximou-se de mim. Eu sentia seu hálito frio no meu rosto. Sua boca encostou no meu pescoço e beijou minha pele. Suas mãos seguraram minhas costas e me puxaram na direção do seu corpo.
- Não está... com raiva de mim?
Ele não me respondeu, apenas me olhou e beijou minha boca. Meu instinto foi levar as mãos aos seus cabelos e agarrar com força. Um rosnado saiu de sua boca e eu congelei.
- Não pare.
Foi o que ele disse, sorrindo para mim. Mas que porra de sorriso é esse? Edward me levantou no colo e me levou até a cama.
- Não... entendo.
- O que?
Ele me deitou e subiu em cima de mim, ajoelhando na cama, com uma perna de cada lado do meu corpo.
- Você. Me tratando... assim.
Seu sorriso se desfez e eu por um momento me arrependi de ter tocado no assunto. Ele levantou minha blusa e deslizou as mãos pela minha barriga.
- Prefere que eu a trate mal?
- Não!
Ele ficou me olhando sério. Eu via a cor dos seus olhos mudar de vermelhos para negros, e vice-versa. Edward deitou, colando o corpo no meu e sussurrou para mim.
- O que sente por mim, Isabella?
