Elisandra: Aah, o livro é demais! Se você gosta de clássicos históricos, você vai amar! ^^

Aviso: Se você por acaso ver algum nome diferente, tipo Anvrai ou Isabel, me avise ou desconsidere; eu já li esse livro várias vezes e já estou acostumada com os nomes dos personagens, pode ser que eu tenha deixado passar sem perceber :B


Já era quase noite fechada. Edward sentou-se e puxou a úl tima estaca que o mantinha preso ao chão. Não deu a menor importância à dor no peito nem ao latejar pungente de sua cabeça. Com as mãos e pés soltos, não teria dificuldade em dominar os guardas escoceses. Sóhavia um deles de prontidão.

O guerreiro inimigo puxou a espada e atacou-o de imediato. Edward rolou de lado e ficou de joelhos. Não parava de girar as correntes ainda amarradas nas algemas. Os anéis de ferro chocaram-se com a espada e a arrancaram da mão do homem. Sem perda de tempo, Edward Cullen acertou o camarada en tre o tórax e o abdômen com uma das correntes, derrubando-o. Antes que o sentinela se erguesse, Edward levantou-o pela túnica e, segurando os elos pesados de ferro no punho fechado, socou-o. O homem não conseguiu defender-se dos golpes des feridos por Edward.

A dor de cabeça tornara-se insuportável. Edward teve de fazer um esforço para ficar em pé no meio do cercado. Fixou o olhar na aldeia. Teve a impressão de que um tumulto estava em andamento. Talvez essa tivesse sido a razão de terem dei xado apenas um guarda para vigiar Mike e a si próprio.

Mike estava inconsciente, ou quem sabe adormecido, e suas mãos tinham sido amarradas a um mourão da cerca. Edward aproximou-se dele e cutucou-o com o pé. O rapaz não reagiu. Edward agachou-se e cortou as amarras de couro que o prendiam ao toco, mas o repentino som de gritos vindos da aldeia fez com que se levantasse de imediato. Eram de Bella.

Edward esqueceu as pontadas na cabeça e a tontura. Largou Mike e pulou sobre a cerca alta, carregando a espada que tirara do guarda. O caminho era escuro, mas algumas tochas iluminavam a aldeia. Ele foi naquela direção, usando as árvores e as touceiras para esconder-se. Caminhou o mais depressa que pôde, evitando expor-se. Ao chegar perto da primeira ca bana, o cheiro penetrante de fumaça queimou-lhe a garganta. Uma das construções estava em chamas. Edward apressou-se até o centro do povoado e andou colado às cabanas e qualquer outra estrutura que servisse para escon dê-lo. Não foi difícil ficar fora da vista de todos em meio à confusão que fora instalada no vilarejo. O incêndio era em uma cabana grande que ocupava a parte central do lugar. Ho mens e mulheres corriam com baldes e jogavam água sobre as chamas.

Edward estreitou o olho sadio e procurou sinais da presença de Bella em meio à balbúrdia. Ela poderia estar presa dentro da cabana...

Uma das venezianas de madeira dos fundos da construção foi aberta e uma nuvem de fumaça escapou pela janela. Alguns instantes depois, Edward viu um rosto... O de Bella.

Ela tossia, engasgada pela falta de ar. Atirou para fora um monte de peles de animais e pôs as pernas sobre o parapeito.

Edward segurou-a, antes que ela atingisse o solo.

— Sir Edward! — Bella gritou, surpreendida. — O senhor está...

— Conversaremos mais tarde — ele a interrompeu. — Milady está bem?

Bella, pálida e parecendo perturbada, fitou-o com olhar ar regalado e anuiu com um gesto de cabeça. No rosto, um grande hematoma. O lábio inferior estava descolorido e inchado, o camisão fino, sujo e rasgado. Edward conteve o desejo intenso de entrar na cabana e agredir a socos quem a maltratara. Teve esperança de que o homem do lado de dentro morresse quei mado ali mesmo, antes de arder nas chamas do inferno.

Edward cerrou os dentes e virou Bella para a direção de onde ele viera. Gostaria de fugir de imediato, mas era preciso voltar, aproveitando a vantagem de todos estarem azafamados por causa do incêndio. Depois de pegar Mike, teriam de en contrar um esconderijo.

— Vamos! Não podemos perder tempo.

— Espere. — Bella abaixou-se para reunir os objetos que haviam caído das peles. Deu a ele uma faca e uma panela, e pegou o resto.

— Deixe isso — Edward aconselhou-a. A faca poderia ser útil, mas a panela e os demais pertences somente atrapalhariam a velocidade da fuga.

— Nós... Poderemos precisar disso...

Edward não perdeu tempo com discussões. Saiu à frente. Era responsável por Bella, mas se ela não se apressasse, não poderia garantir-lhe a segurança.

Bella mancava bastante, mas não se queixou durante a cor rida até o local onde Mike estava deitado. Entraram no cer cado por um portão de madeira. Bella apressou-se até perto do jovem cavaleiro e ajoelhou-se a seu lado.

— Ele está... Ele está vivo?

— Pelo menos estava, quando o deixei.

Bella sacudiu o futuro marido levemente pelos ombros, mas não obteve resposta.

— Sir Mike! Mike! — Bella chamou-o, insistente. — Sir Mike, precisamos sair daqui!

O único sentinela que ficara para cuidar dos presos ainda estava desmaiado por causa dos golpes que recebera de Edward. O tempo urgia. O homem logo acordaria e daria o alar me. Para sorte deles, o fogo se alastrava. Isso aumentava as possibilidades de fuga enquanto os aldeões lutavam contra as chamas.

Um gemido débil escapou pelos lábios do cavaleiro incons ciente. Edward abaixou-se sobre um dos joelhos, levantou o rapaz nos braços e jogou-o sobre o ombro. Estremeceu com a dor do lado, mas concluiu que não se tratava de uma costela quebrada. Embora o ferimento do ombro ardesse em brasa.

— O senhor não pode carregá-lo!

— Claro que posso! E por que não poderia fazê-lo?

— As suas costelas! Eu vi a maneira como eles lhe bateram! Edward espantou-se com a preocupação de Bella, mas logo refletiu que os cuidados eram dirigidos a seu pretendente. Na certa milady temia que Edward, por estar machucado, derru basse o rapaz.

— Estou bem, lady Bella.

Edward saiu do cercado e foi em frente, na direção das co linas. Bella segurou-o pelo braço e o deteve.

— Temos de ir até os barcos — ela disse, com firmeza.

— Onde? Quais barcos?

— Por aqui. — Bella apontou o lado oposto à aldeia. — Ontem à noite, atravessamos de barco um lago extenso. É por ali que devemos voltar.

Cômoros não muito altos obscureciam a visão do lago ci tado. Edward compreendeu que não se enganara totalmente a respeito da impressão de ter viajado de navio. Fugir pela água era um plano muito melhor de que tentar escapar pelas colinas. Estariam a quilômetros de distância, antes que os escoceses dessem pela falta deles.

O melhor de tudo seria não ter de carregar Mike por uma distância muito grande. O jovem cavaleiro poderia continuar a dormir em paz no casco de um bote.

Edward seguiu Bella e, apesar da silhueta escura, reparou na esbelteza de seu corpo. Era impossível não se sentir atraído pelo meneio dos quadris bem-feitos.

Apesar do pé machucado, Bella se movia com graça e fe minilidade. Edward agradeceu a Deus a escuridão que não lhe permitia distinguir as curvas dos seios ou a parte interna das coxas. Rezou para que não chovesse. A água tomaria trans parente o tecido da camisa.

— Sir Edward, o senhor sabe conduzir um barco? — Bella lembrou-se da questão crucial.

— Creio que poderei dar um jeito.

Mike gemeu e começou a se mexer. Edward segurou-o com firmeza e continuou a caminhar. Concentrou-se na tarefa de seguir Bella e manter o equilíbrio apesar do corpo largado do rapaz sobre o ombro. Bella andava depressa. Não parecia dar importância ao que a fazia mancar cada vez mais. Edward não sabia o que acontecera na cabana, nem como Bella conseguira escapar do que a constrangia. Nada lhe perguntaria. O assunto não lhe dizia respeito. Aquele era um problema que se referia única e exclusivamente a Bella.

A obrigação de Edward Cullen era libertá-la dos agres sores.

O lago apareceu na frente deles e Edward escutou o barulho suave do movimento da água.

— Ali existe um cais acostável onde estão ancorados vários barcos de pesca. Nenhum deles é muito grande. Não tenho certeza em qual deveríamos embarcar.

Edward conhecia pouco a respeito de embarcações. Seria um desafio roubar um daqueles e navegar no escuro. Deter minado, decidiu que nada seria um empecilho.

— Será melhor pegarmos o que estiver mais afastado. — Daquela maneira não teriam de rodear os outros e sairiam com maior rapidez.

Subiram no atracadouro de madeira onde se encontravam amarrados vários barcos de vime cobertos de couro. Eram bo tes pequenos. Edward teve esperança de que um dos últimos tivesse tamanho suficiente para levar os três e não afundar.

Foi para frente e deixou Mike no chão.

— Agora está na hora de acordar, meu rapaz — falou Edward e deu alguns tapas leves no rosto de Mike. — Vamos lá. Temos de subir no barco.

Mike inspirou fundo, gemeu e abriu os olhos, espantado.

— Lady Bella?

— Temos de sair daqui depressa, sir Mike — explicou Bella. — Logo estarão atrás de nós. Edward ajudou o outro a sentar-se.

— O que houve? — Mike indagou, aturdido. — Como chegamos até aqui?

— Deixemos as perguntas para depois — respondeu Edward, enérgico. — O senhor se sente capaz de subir no barco?

— Minha cabeça...

Inseguro, o jovem procurou levantar-se. Edward e Bella se guraram-no, um de cada lado, e conseguiram fazê-lo entrar na pequena embarcação. Bella seguiu-o e depois Edward pulou para dentro.

Edward cortou com a espada a corda de amarração e em purrou o barco para fora do molhe. Os remos estavam no fundo do barco. Edward segurou-os, sentou-se e começou a remar em direção do centro do lago.

— O sul é para lá — Bella apontou para a margem mais afastada.

Edward dirigiu-os na direção correta e Bella inclinou-se para o lado de Mike. O bote começou a balançar em conseqüência de tantos movimentos.

— Por favor, fique quieta, lady Bella. Poderemos afundar desse jeito.

Seria uma sorte se eles não naufragassem. O bote compor tava três, no máximo quatro pessoas. Além deles, havia redes e outros equipamentos de pesca no fundo. A pequena embar cação navegava com grande parte do casco na água.

— Sir Mike está ferido — Bella justificou-se, abaixada atrás de Edward.

Edward sentiu nas costas a respiração quente e vibrante de Bella.

— Fique sentada e não discuta comigo. Apenas responda às minhas perguntas.

Seguiu-se um silêncio prolongado, enquanto as questões se amontoavam na mente de Edward. De repente, não o interessou mais o que acontecera com Bella. Não queria escutar a res peito de nenhum abuso ou sofrimento que Bella pudesse ter sofrido. Ela não era sua irmã nem sua mãe. Muito menos sua esposa. Bella teria de suportar os problemas sozinha. Edward Cullen não era nenhum guardião de mulheres.

Edward continuou a remar. O movimento contínuo das pás na água acompanhavam a fumaça da aldeia que começava a cobrir o lago.

Bella estremeceu e suspirou. Edward sentiu o corpo cálido encostado no seu, quando Bella largou-se de encontro a ele.

— Eu o matei — Bella afirmou. — Matei o chefe com sua própria faca.

Bella teve esperança de que não estivesse com um cheiro tão pronunciado quanto o de Edward. Tremendo, afastou-se das costas largas e tornou a fitar a fumaça e as chamas que tragavam o pequeno povoado.

— Eu não pretendia causar devastação naquela aldeia — Bella murmurou.

Eu matei um homem. Por tudo o que era mais sagrado, Isabella Swan não fora educada para conhecer as maneiras rudes dos homens. Muito menos tivera informações de que deveria se proteger contra a vileza dos bárbaros. Seu pai na certa pretendera evitar que ela tivesse contato com qualquer infortúnio, e falhara. Existia até a possibilidade de lorde Charlie ter perdido a vida no ataque a seu castelo.

Nem queria pensar em tais horrores. Necessitaria de toda a sua energia para superar aquela noite.

— Ele caiu — Bella sussurrou para si mesma, como se procurasse uma nova explicação para o que ocorrera. — De pois que eu o apunhalei, o chefe do clã cambaleou para trás e caiu. A mão dele bateu em um castiçal. A vela caiu e co meçou a incendiar tudo...

Edward continuou a remar, como se não escutasse. Isso de certa forma era conveniente. Ela não pensava em desabafar com um cavaleiro circunspecto e forte que provavelmente não entenderia sua urgência em narrar as atrocidades daquela noite. A própria Bella não compreendia o que se passara. Não con seguia ordenar os pensamentos de maneira lógica. E aquele sangue que secara em suas mãos... Com cuidado para não movimentar o barco, Bella pôs as mãos na água e esfregou-as. Suspeitou que seria preciso várias lavagens para remover as manchas externas. Ela mesma jamais esqueceria o que acontecera. Secou as mãos em uma das peles que estavam a seus pés. Refletiu sobre o que roubara do Barba Negra. O homem que ela matara.

Lembrava-se de ter ficado paralisada, olhando para o gigante e para o ferimento profundo do abdômen de onde o sangue escorria em golfadas, enquanto as chamas devoravam a moradia.

— Fui eu mesma quem fez aquilo? — perguntou-se em um fio de voz.

Bella juntou as pontas do decote do camisão. O Barba Negra rasgara o cordão, e a peça se abrira de modo indecoroso. A bela túnica que vestira na comemoração para sua chegada lhe fora roubada dias antes. Por isso fora obrigada a enfrentar os rigores do clima escocês usando apenas uma camisa fina de cambraia que outrora fora muito bonita. Naquela altura, suja e rasgada, nem mesmo se assemelhava às roupas modestas que usara na abadia.

Bella tremeu de frio e de pavor. Com a graça de Deus, haveriam de escapar. Embora rezasse pela libertação, suas es peranças encontravam a barreira da realidade. Edward estava ferido e sem condições físicas de remar até que estivessem em segurança. Mike continuava deitado, gemendo, incapaci tado de ajudá-los.

A noite era muito escura para permitir uma navegabilidade precisa. Seria um milagre sobreviver à travessia do lago e al cançar a outra margem.

— Sir Edward... O senhor está enxergando o outro lado? Ele hesitou alguns instantes.

— Não, lady Bella. Não consigo ver nada — ele respondeu, mal-humorado.

A escuridão era inquietante. E ainda mais para um homem cego de um olho.

— Estranho que Não haja luar nem estrelas no céu esta noite.

— As nuvens devem estar mais densas. É possível que cho va. E aí ficaremos ensopados.

— Acha que eles estão atrás de nós? — Bella virou-se para espiar a escuridão que deixavam na retaguarda. Mal distinguiu as colinas que rodeavam a aldeia.

— Se estivessem no lago, iluminariam o caminho com tochas.

— É verdade. Não havia pensado nisso.

Ninguém cometeria a tolice de cruzar uma extensão tão grande de água no escuro. Além do mais, os perseguidores precisariam de claridade para encontrar os fugitivos. Não havia nenhuma luz. Bella nada escutava além do som das palavras que diziam, do marulhar suave das ondas de encontro ao barco e do padejar dos remos na água.

A chuva conservou-se a distância, o que permitiu aos fugi tivos continuar o trajeto por certo período. Bella notou que a respiração de Edward ficava mais difícil à medida que ele movia os remos para impelir o bote. Ele estava exausto e ferido. Não suportaria por muito mais tempo o esforço. Mas qual alternativa lhes restava? Mike estava semiconsciente e ela não possuía a menor noção de habilidade náutica. Admitiu que nem mesmo teria idéia por onde começar.

Seria conduzir o barco algo tão difícil? Bella franziu a testa. Distinguindo a silhueta de Edward, observava a maneira como segurava os remos e impulsionava o barco pela água. Era uma atividade que certamente não requeria a menor inteligência. Apenas força bruta.

— Sir Edward, o senhor deve descansar um pouco — Bella afirmou, disposta a executar a sua parte. — Não pode continuar a sacrificar-se dessa maneira.

— Bobagem. Posso remar muito bem.

— O senhor está exaurido.

Edward não respondeu e prosseguiu a puxar a água com os remos. Bella pensou se todos os homens eram teimosos. Seu pai era, com toda a certeza. Tinham sido necessárias inúmeras discussões até ele desistir da idéia de casá-la com lorde Billy. Edward não poderia continuar com aquele esforço, depois do que sofrera na mão dos escoceses.

— Por favor, sir Edward, permita-me ao menos tentar. Es tamos bem à frente de nossos perseguidores.

Um resmungo de dor foi a única resposta.

— Apesar de ser mulher, tenho bastante força. — Pelo me nos, era o que ela imaginava.

Na verdade, naquele momento duvidava que sua energia fosse suficiente para mexer o barco do lugar, mas tinha de ajudar Edward.

Ele murmurou qualquer coisa que Bella não entendeu. Mas dali a instantes ele se virou e ajudou-a a mover-se até o centro do bote. Bella segurou os remos, deslizou-os para dentro da água e o barco continuou em direção ao sul. Seus movimentos eram desajeitados. Afinal, jamais fizera nada parecido. Mas fez progressos, apesar da dúvida que ela imaginava estar es tampada na fisionomia de Edward.

Bella imaginou como o olho dele fora arrancado da órbita. Um ferimento daquele gênero teria provocado a morte de qualquer um. Edward não somente resistira ao desastre, mas continuara a enfrentar outras batalhas. Bella estremeceu diante de tamanha barbaridade. Não imaginava como um ser humano suportava tal injúria.

O silêncio continuava no lago, quebrado apenas pelo ruído dos remos batendo na água e dos gemidos ocasionais de Mike. O cheiro de fumaça ainda presente no ar fez Bella refletir que ainda não se encontravam a uma distância que lhes concedesse segurança. Entendeu que somente respiraria com maior con fiança, quando chegassem à margem meridional.

Bella nada enxergava em meio às trevas. Mas sempre tivera um poderoso senso de direção. Pediu a Deus que lhe conce desse força suficiente para levar o barco a seu destino. Mike haveria de recuperar-se e os acompanharia pelos caminhos que os levariam ao sul, rumo ao castelo de Swan.

— Milady está lembrada de ter visto algum rio no trajeto para a aldeia?

Edward perscrutou a negrura que se estendia à frente do barco. Nada viu, mas percebeu algo diverso. A característica da água mudara. Já não era uma superfície plácida e quase parada.

— Não. Saímos da margem ao sul e fomos direto para o norte. Tenho certeza. Isto é, pelo menos foi o que me pareceu.

— Chegue para o lado. — Edward rastejou até o meio do bote e tomou os remos das mãos de Bella cuja voz lhe parecia insegura. Estamos na direção errada.

Edward esperava que não estivessem perto de uma cachoei ra. Virar o barco custou-lhe um enorme sacrifício. A orienta ção seguida por Bella não fora correta.

Um relâmpago repentino trouxe-lhe uma visão mais exata de onde se encontravam e Edward começou a remar em direção à terra firme.

— Lady Bella, olhe para trás e fique atenta. Se o clarão tornar a aparecer, será possível ver onde estamos,

— Mas eu... Tenho certeza de que remei para o sul. Eu não poderia ter me desviado tanto do rumo.

Edward teria dado boas risadas diante do tom de increduli dade, se a situação não fosse tão perigosa. Mais uma vez, a luz súbita e breve iluminou o local e Edward corrigiu o curso.

— Milady pode enxergar a aldeia?

— Não... Sim. Isto é, é possível ver fumaça sob as nuvens. Bem, penso que é fumaça.

— O cheiro já não está tão forte.

Edward não tinha idéia de onde se encontravam. Estava certo de que Bella os levara para longe do povoado escocês, mas também não haviam se aproximado da outra extremidade do lago. Talvez ela houvesse remado em círculos concêntricos cada vez maiores.

— Estamos em um rio e teremos de ficar nele — Edward afirmou. — Deixaremos que a corrente nos leve para frente.

Para eles seria melhor poupar energia, embora a falta de controle fosse enervante. Edward não tinha certeza para onde se dirigiam. Somente podia corrigir a rota durante a iluminação ocasional e rápida dos relâmpagos. Apesar disso, não parecia haver nenhum lugar onde pudessem ancorar o bote. Dos dois lados do lago só avistava altos penhascos escarpados.

De qualquer modo, prosseguiram sem sobressaltos até que Mike levantou a cabeça e começou a vomitar no fundo do barco.

— Misericórdia — Edward murmurou, aborrecido. Então enfureceu-se quando o jovem teve outro acesso de enjôo. — Faça isso de novo, garoto, e eu atirarei na água essa sua carcaça arrebentada! — gritou.

— Deixe-o em paz! Ele está passando mal!

— Pois passará mal do lado de fora do bote!

A pequena embarcação começou a balançar. Edward perce beu que Bella saíra da popa. Engatinhando, chegou até ele e espremeu-se para passar para a parte de trás, empurrando o remo.

— Ele precisa de ajuda!

— Santo Deus! Milady, se virar esta porcaria de barco, não serei mais responsável pela senhora. Aliás, por nenhum dos dois!

A especialidade de Edward Cullen eram as batalhas e os combates corpo a corpo. Responsabilizar-se por damas sensí veis como a filha de lorde Charlie era uma tarefa inaceitável.

Bella não lhe deu confiança. Ergueu o futuro marido, en quanto o bote continuava a oscilar. No escuro, Edward mal os distinguia. Mas foi possível perceber que o enfermo, seguro por Bella, estava com o queixo apoiado na lateral de madeira O peso tornara-se excessivo na frente. Edward recuou alguns passos para tentar um equilíbrio melhor.

Seu mau humor acentuou-se quando escutou Mike vomitar novamente.

O rio continuou a carregá-los. Quando começou a chover, temeu que houvessem sido arrastados por muitos quilômetros correnteza abaixo. A pé não teriam ido tão longe. Não lhe ocorria onde poderiam estar localizados no momento. Mas certamente a uma boa distância dos escoceses, que não teriam como persegui-los, apesar de Bella ter matado o chefe do clã. Além disso, os escoceses precisavam concentrar esforços na reconstrução da aldeia antes da chegada do inverno. Uma luz difusa iluminou o céu. A lua começava a aparecer por trás das nuvens de chuva. Edward percebeu que as margens eram irregulares e inacessíveis. Notou também que Bella já não era mais uma sombra escura diante dele. Os cabelos mo lhados colavam-se na cabeça. As equimoses do rosto e lábios destacavam-se na tez pálida. A roupa fina e ensopada não re presentava nenhuma proteção contra o ar frio nem era um escudo para olhares masculinos. Mesmo que involuntários, como o dele.

Edward virou-se e pegou uma das peles que Bella trouxera da cabana do chefe escocês. Atirou-a na direção de sua protegida.

— Cubra-se. Assim evitará resfriar-se. — Edward tornou a analisar a margem do rio. — Atracaremos ali... Veja se consegue achar algum abrigo razoável.

— Pois não. Queira ter a bondade de pegar outra pele para que possa também cobrir sir Mike. — Bella não se preocupou em disfarçar a ironia.

Edward apertou os dentes e evitou fitar a dama formosa que se desvelava em cuidados com o infeliz. Tentou visualizar um local adequado para ancorar, mas o rio de repente tornou-se mais turbulento. Virou-se, preocupado.

Perigosos afloramentos de rocha surgiam na água próximos às margens e a correnteza fez o bote girar, descontrolado. Sem perda de tempo, Edward ficou de joelhos e começou a remar em direção ao sul.

— Lady Bella! Pegue a outra pá e reme!

— Mas e sir Mike?

— Faça o que estou mandando. Agora!

Bella tirou o doente de cima de seu colo e ajoelhou-se para executar as ordens recebidas.

Edward usou toda a força que lhe restava para virar o bote para fora do raio dos obstáculos.

— Precisamos sair do rio antes de colidir com essas rochas!

De repente, Bella compreendeu o perigo real que os amea çava. Arrastou-se para o lado de Edward e começou a remar. Os dois ignoraram a chuva que os castigava e lhes gelava os ossos. A manta de peles escorregou dos ombros, mas Bella não se permitiu interromper o ritmo que seguia sob o comando de Edward.

— Por aqui!

Edward não sentia dor no ombro nem no peito. Só pensava em chegar à margem. A corrente jogava a pequena embarcação de um lado para outro. Eles escutaram o fundo raspar em al guma coisa, mas o casco continuou intacto. Mike gemeu e distraiu a atenção de Bella.

— Sir Mike está bem! — Edward gritou para ser ouvido. O barulho da chuva e das águas violentas era ensurdecedor. — Mas nos não estaremos, a não ser que consigamos sair da correnteza!

A luta contra as ondas turbulentas foi enorme. Mike virou-se de lado e vomitou mais uma vez. Embora Bella se compadecesse do rapaz, não parou de remar um só minuto. O que foi uma boa sorte. Edward tinha consciência de que não conseguiria salvá-los sem ajuda. A chuva torrencial e o rio tumultuoso eram muito mais perigosos do que qualquer exército que já enfrentara. As provações da semana anterior haviam minado suas forças e ele duvidava que conseguisse enfrentar aquele desafio por muito tempo.

Bella gritou, mas Edward não se voltou, concentrado em mover o remo, sempre impelindo o barco na direção que lhe parecia a mais correta. O ferimento do ombro começou a quei mar apesar da chuva fria. Suas costelas doíam como se alguém estivesse apertando um torno em volta delas.

— Por quanto tempo teremos de continuar com esse em penho? — Bella teve de gritar para chamar a atenção de Edward.

— No rio?

— E claro! Onde o senhor queria que fosse?

— Não sei, milady — retrucou Edward com o fôlego que lhe restava. — Mas se a senhora não continuar se esforçando, nossa jornada terminará prematuramente. No fundo do rio!

Bella nada mais disse. Aplicou-se com afinco à tarefa di fícil e procurou não pensar nas ondas que os atiravam de um lado a outro, A cada instante, um novo susto. Chegavam muito perto das rochas. Mas com a graça de Deus conseguiam ma nobrar o bote e desviar-se do perigo. A correnteza tomou-se mais branda e Bella deu um suspiro de alívio.

— Procure um lugar para ancorar! — Edward pediu. -Qualquer um que sirva de abrigo!

Os penhascos alcantilados elevavam-se de ambos os lados e as paredes de pedra pareciam não ter fim. Não se distinguia ne nhum lugar mais acessível.

— Ali! — Bella entusiasmou-se. — Lá em frente!

Ela apontou um afloramento mais baixo e eles se dirigiram para o local com ânimo redobrado. Edward percebeu que não se tratava de um abrigo apropriado para resguardá-los da chu va, mas achou que seria possível tirar o barco da água e usá-lo como proteção contra a tempestade. De qualquer forma, esta riam mais seguros fora do rio. Pelo menos teriam uma opor tunidade para descansar.

— Mantenha o barco fora do alcance das pedras! — Edward ordenou. — Tentarei entrar ali!

Bella não teve tempo de pensar na situação difícil em que se encontravam ou no que Edward pretendia fazer. Com o olhar atento às rochas, apoiava nelas o remo para impedir que ali se despedaçassem, durante a aproximação da saliência estreita de terra.

O barco oscilou perigosamente quando Edward se ergueu e procurou agarrar uma projeção afilada de rocha.

O barco bateu no promontório e foi arremessado de encon tro a terra. A força do impacto desequilibrou Bella e arran cou-lhe o remo das mãos.

Ela tentou recuperar e instrumento e desesperou-se.

— Santo Deus! Não posso pegá-lo!

— Esqueça! Pule para fora e puxe o barco!

Bella fitou a margem. Edward pedia-lhe o impossível. Ela não conseguiria executar a ordem.

— Sei que poderá fazer isso, lady Bella! — O vento e a chuva puxavam-lhe a túnica com violência e arremessavam os cabelos castanhos para frente do rosto.

— É muito longe! — Além disso não havia um incremeas gradual de terra e as águas eram profundas.

O pequeno barco foi sacudido e jogado para mais perto da terra. Bella levantou-se e pulou. Voltou-se depressa e segu rou o bote. Edward estendeu o remo que restara e Bella agarrou-o.

— Puxe!

— É o que estou fazendo!

Um pouco depois, a lateral do pequeno barco bateu na margem rochosa e Bella segurou-o com as duas mãos.

— Agarre-se nele! — ordenou Edward, aos brados, — Pre ciso tirar sir Mike daqui!

Bella procurou não tomar conhecimento da dor nas mãos e apoiou-se em um arbusto. Observou Edward erguer Mike, falar com ele, incentivando-o a ajudar para que pudessem sair dali.

— Não largue o barco!

Edward conseguiu sair do barco, e assim que pisaram em terra firme os dois homens caíram no chão. Imediatamente, e com força sobre-humana, Edward tomou o lugar de Bella e puxou o barco para fora da água. Quando não havia mais perigo do barco ser arrastado para o rio, arrastou Mike para uma saliência de pedra que formava uma pequena área coberta, ao lado de um pinheiro. Aquilo os protegeria do vento e da chuva. Bella largou-se ali, tremendo, ao lado do rapaz. Edward voltou ao local onde haviam atracado e puxou o barco até onde estavam os outros. Deixou-o de lado para proteger o es conderijo raso e sentou-se junto de Bella.

— Suas mãos estão machucadas.

Bella não sentia dor. Suas mãos estavam geladas. Edward tomou-as entre as dele, levou-as à boca e soprou-as. O hálito quente foi benfazejo. Exausta e com frio, Bella não se impor tou de ser tocada por aquele cavaleiro de rosto deformado por cicatrizes.

— Sir Mike está muito mal.

— Eu sei — respondeu Edward em voz baixa.

— Há algo que possamos fazer por ele?

— Aqui não. Temos de descansar e esperar a tormenta amainar.

— Então o que faremos?

— Voltaremos ao bote e continuaremos a viagem.

— Não poderemos fazer isso.

Edward interrompeu as massagens que começara a fazer nas mãos de Bella.

— E por que não?

— Porque o rio corre para oeste. Ele nos desviou quilômetros de nosso destino.


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