-...E foi assim que eu vim parar aqui. Já confiam em mim?-Perguntava Salomé à Chaos, Fenris, Iris e Lidia. Os quatro se entreolharam, como se não soubessem o que responder.

-Olha...você é uma ladra...quase matou a gente enquanto dormia e tentou vender o que roubou a preços exorbitantes...Não temos motivos para confiar em você.-Falou sensatamente, Fenris.

-Mas vocês precisam confiar em mim.-Gemeu Salomé.

Lidia a olhava dividida entre a inveja e a admiração.

-Por quê?-Perguntou Iris.-Chaos, o que devemos fazer?-murmurou.

-Eu confio nela.-Disse Chaos.

-Eu sabia que poderia contar com você.-E sorriu.

Lidia deu um sorriso maldoso e soprou no ouvido de Iris e Fenris:

-Os dois parecem muito íntimos, não acham?

Fenris corou furiosamente e Iris gritou:

-Mas eu não confio em você! Quem garante que você não vai aprontar?! Quem se responsabiliza por você?!

-Eu me responsabilizo por ela.-Duas vozes se fizeram ouvir simultaneamente.

Loki estava encostado no batente e Chaos explodiu em uma gargalhada.

-Então...se der besteira, a culpa é dos três.-Disse Iris.

Fenris estava corada e assentiu com a cabeça. Ao fundo, Lidia cantarolava sobre a intimidade de um triângulo amoroso. Salomé deu uma gargalhada com a situação.

-Não vou roubar o ruivinho aqui de ninguém não, pó'dexá.-Disse, passando um braço pelos ombros de Chaos.

Um brilho dourado apareceu por um segundo em sua mão e foi o bastante para Loki segurá-la com força.

-Devolva.-Disse, sem alterar a voz.

-Ai, que mau humor, cara! É só uma piada, até porque, o que é seu é meu e o que é meu é meu.-E piscou.

-Eu acho que esse ditado está errado...-Murmurou Lidia.

-Mewon...Essa é a idéia.-Respondeu Ses, o gato de Lidia.

-Ela é demais...-Murmurou.-Você me dá um autógrafo? É a maior gatuna que eu já vi!

-Hey, hey, gatuna não. "Comerciante de alto risco".

00

Alguns dias se passaram. Fenris estava fazendo umas compras quando ouve alguém chamar seu nome.

-Fenris Fenrir!

Virou-se num rápido pulo.

-Ah, você...

-Nós lutamos na final do torneio, lembra?

-...Ah sim! Samael é o seu nome, né? Você é genial, ainda bem para mim que cometeu aquele erro, senão eu tinha perdido de forma espetacular o torneio.-Disse, sorrindo.

-Hehe, não fala assim se não eu me convenço...

-Sempre charmoso...A propósito, você parece mais baixo assim, quando não está tentando me intimidar...

-É...eu tenho catorze anos.

-O quê?! Só pode ser uma piada! Você é muito poderoso, menino. -disse Fenris dando tapinhas amigáveis em sua cabeça -Continue praticando e será o novo Ezequiel. Quando ela terminou viu que seu rosto ficara meio fechado.

-FENRI-FENRI!-Uma voz alta e cristalina se faz ouvir pela rua e uma massa de roupas com cabelos dourados se atira em cima dela.

-Salomé...tá me matando...de vergonha...e doooooooor...-Disse Fenris, estirada no chão com a amiga a apertando.

-Ora, ora, sempre molenga...-E cutucou suas bochechas.

-Hey! Pare com isso, ô "gatuninha"! Acha que eu não vi que roubou minhas mastelas?! Eu vou cobrar isso de você e não vai sair barato! Você levou as minhas melhores frutas!

-Sama-Sama! Você continua baixinho! E...olha, nós éramos tããão crianças na época...Eu nem me lembrava mais disso...-Disse Salomé, tentando se esquivar -E... você não cobraria de mim né? Eu sou uma nova pessoa agora...uma pessoa melhor...-E se inclinou para abraçá-lo.

-NEM PENSE NISTO!-Salomé tirou a mão do bolso de Samael rapidamente como criança que é apanhada comendo doce antes do jantar.

-Iris, minha amiguinha, eu não ia roubar...só ia mostrar a ele como é fácil alguém de má fé roubá-lo...

Iris puxou a orelha dela e começou a passar um carão enquanto Fenris, vermelha, tentava se explicar:

-Olha, não ligue para ela, é cleptomaníaca...Coitadinha...Não consegue parar...A cobiça é maior que o medo da ira Iris...

-Não, eu sei que "o tigre não muda as listras".(adaptação do ditado popular brasileiro "a onça não muda as pintas")

-A conheço há algum tempo...-Continuou Samael.

Dois rapazes e uma moça chegavam no local. Um dos rapazes era ruivo, o outro moreno e a moça era loura.

-Chaos! Eu falei que ela não era confiável! Já ia roubando de novo!-Gritou Iris.

-Nooossa...caraca, você tem que ser mais discreta...-Cochichou Lidia.

-Eu sei, é a falta de prática...-Retrucou Salomé, balançando a cabeça, inconformada.

-Salomé. Nos permita confiar em você...-Disse Loki.-Me permita não sentir arrependimento por defendê-la...

Àquelas palavras, Salomé pareceu desmontar.

-Desculpe. Não queria decepcionar ninguém...eu só queria pagar minha parte das coisas...só tenho sido um peso desde que cheguei aqui...

Loki se aproximou e segurou seus braços.

-Não tem pro...

E todos pararam de falar para socorrer Samael, que havia desmaiado.

Quando acordou, estava numa cama de uma hospedaria com gente em volta de si.

-Onde estou?-perguntou, vacilante- parece que levei um soco na cabeça.

-De repente você apagou, chegou a nos assustar, garoto.-Disse Chaos, preocupado.

Salomé estava na cabeceira de sua cama, pálida, Iris também estava preocupada, Lidia não estava presente, Fenris olhava pela janela e Loki estava sentado numa poltrona, só observando.

-Eu só sentia um zumbido incessante na minha cabeça, talvez minha P.E.S.

-Prova que É um Susto?-Perguntou Salomé, tentando parecer animada.

-Não, Percepção Extra Sensorial.- Disseram, Iris, Fenrir, Loki e Samael ao mesmo tempo.

-Bem... Acho que já estou bom, já posso ir.-Comentou o menino.

-Você precisa de cuidados, fique conosco.-Disse Iris.

Loki o mirou de uma forma que sentiu os pelos de sua nuca se arrepiarem.

-Não confio tanto assim nele.-Disse de forma suave, porém perigosa.

Nem eu em você.

-Loki, é só um garotinho, o que ele pode fazer de mal? Você é muito neurótico.-Disse Iris.

-É...o que ele pode nos fazer de mal?-Perguntou Salomé, levemente sarcástica, com a voz estrangulada.

-Não acho que ele vá fazer algo para nos prejudicar, Loki, mas lembrem-se que ele quase acabou comigo lá naquela arena.-Retrucou Fenris.

-Hehe... eu ainda não recuperei minhas forças, mas já consigo andar para a pensão onde estou alojado.-Disse Samael se levantando- Obrigado.

-Eu vou com você.-Disseram Loki e Salomé ao mesmo tempo.

-Não, eu vou sozinho.

-Não perguntei nada a você, baixinho. Loki, pode ficar.

-E deixar você voltar para casa sozinha? Vai sonhando, Salomé. Alguém tem que vigiar você.

-Não sou um bebê.

-Não perguntei nada a você, baixinha.-E saiu arrastando-a.

00

Samael, derrotado, foi na frente. Na metade do caminho Salomé parou de tagarelar no seu ouvido e murmurou.

-Aqui é muito quente...Que inferno.

E começou a desabotoar a blusa, já que havia deixado o capote em casa.

Essa garota não tem pudor?!

De repente, o cordão com o pingente de Salomé ficou a mostra.

-Belo cordão.

-Ah, isso? É a única lembrança que tenho de meu passado. Sabe, o meu verdadeiro nome não é Salomé.-Dizia ela, enquanto desamarrava o cordão e punha na palma de sua mão-É...

-...Evah.

-Você quis dizer Eva? A tonicidade do nome está no "E" e não no "A".

-Sim, Eva.

-Ah! Evah! Do Talmude! Você achou que esses risquinhos depois do "A" fossem um "h"? Não, não, eu devo ter arranhado o couro dessa coisica minúscula com areia...-Disse, alegre, enquanto punha o cordão no pescoço.

-Sim, sim... Ah, mais alguém sabe disso?

-Hm, sobre o meu verdadeiro nome?

-Sim, e sobre o pingente.

-Deixa eu ver...A Iris, a Fenris, a Lidia, o Ses, o seu Mestre, o Chaos e...o Loki. Mas apenas você, o Loki e seu Mestre sabem do pingente.

Muita gente... não sei se posso confiar em todos eles. O Loki que me chama mais atenção, aquele...algoz

-Por quê? Não é como se fosse um segredo, nem nada. É só que eu detesto essa personagem, sabe? Então, não espalha. Porque a Salomé é muito mais legal.-Disse a garota, piscando um de seus amendoados olhos verde-azulados para o moreno.

-O.k!

Não iria dizer mesmo se você pedisse...

-Ih, chegamos.-Disse o garoto.

-Quer que eu acompanhe você até lá em cima?-Sugeriu a loura.

-Não, obrigado.

-Tem certeza? O Loki fica aqui em baixo, montando guarda...Eu já saquei que vocês não vão muito com a cara um do outro...-Disse a última parte em voz baixa, somente para o menino- Ó, não fica de preconceito não, viu? Ele é legal...

-Não, tudo bem. Eu já estou melhor. Já posso até lançar magias.

-Só não lança em mim.-Disse, divertida.

-O.K! Bem, adeus, até a próxima.

E eles se afastaram, Salomé acenou até dobrar a esquina.

-Ufa! Aquele Algoz foi embora. Eu não consigo me sentir bem perto dele...-Comentou Samael entrando na estalagem.

-Gracinha de menino, não? Mas... por que você não gosta dele, Loki?-Disse Salomé, umas quadras adiante.

-Não sabemos quem ele é. E se for um maluco querendo matá-la? Não deve ficar falando de seu passado por aí, Evah.

-Engraçado...Ele me chama igualzinho a você...A propósito: por que alguém ia querer me ma...

-Ele chamou você de quê?-Disse Loki, prensando-a contra a parede.

-Loki...as pessoas na rua...essa posição não tá legal...e minha camisa ainda tá semi-aberta...se você quer um filho meu, na intimidade do quarto, por favor...

Ele agarrou o seu braço com mais força.

-De que ele chamou você, Salomé? Não banque a engraçadinha agora. Você pode estar correndo risco, m!

-Risco de quê, p?! E me larga que eu não sou mulher de malandro não!-Disse, se desvencilhando dele com um tapa em sua mão e abotoando a camisa. Os passantes olhavam, chocados. –Tão olhando o que, seus b? Bando de f que num tem um marido em casa, se eu quiser me agarrar com ele e gritar o problema é meu! E dele!-Salomé gritava, enfurecida, fazendo gestos obscenos para os passantes.

Loki a agarrou pelo braço e a levou dali.

Enquanto a arrastava, ia falando.

-Quando eu tinha seis anos, chegou uma menina prodígio na guilda.

Era órfã como a grande maioria de nós. Ela tinha três anos e estava no mesmo nível que as crianças da minha idade, diziam que era, proporcionalmente, quase tão boa quanto eu. Era descriminada e as outras crianças não queriam brincar com ela.

Um dia, quando eu tinha oito anos, a garota sentou do meu lado e começou a falar. Falava muito e sobre muitas coisas, em sua maioria, sem sentido. Sem sabermos o porquê, a partir daquele dia, nos tornamos amigos.

Duas semanas antes do meu aniversário, um amigo do chefe da guilda, um mestre, me convenceu a marcar um encontro com ela. Mas, na última hora disse que era melhor eu não ir e que ele ia avisar a ela. Porém, eu tive um mau presságio e resolvi ir ao local.

Minha amiga conversava com um homem, o Mestre, e ele dizia que eu a esperava perto dali. A conduziu pela mão e tentou convencê-la a entrar em uma carroça. Ela não gostou da idéia e começou a protestar e gritar por seu guardião, que eu acho que ela teve de despistar.

Um cúmplice do falso Mestre veio por trás e pôs um pano embebido em alguma coisa e a fez desmaiar. Eles puseram seu corpo na carroça. Eu saí correndo em disparada para dar o alarme. Mas era tarde demais.

-O que aconteceu?-Perguntou ela.

-Encontraram o corpo dos homens no deserto. Parece que seus cúmplices os traíram.

-Como sabe? Podem ter sido bandidos...

-As pegadas contam histórias.

Ela assentiu.

-O guardião da menina enlouqueceu e saiu pelo deserto para tentar encontrá-la. Nunca mais tive notícias dela, nem do meu irmão.

-Seu...irmão?

-Sim, o guardião da menina era o meu irmão de criação mais velho, Klaus.

-Só não entendo por que isso se aplica.

Loki estacou e soltou sua mão.

-O nome da minha amiga era

Evah.