Não
sou escravo de ninguém
Ninguém senhor do meu
domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E
temo o que agora se desfaz.
Viajamos sete léguas
Por
entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É
a própria fé o que destrói
Estes são
dias desleais.
Sou metal, raio, relâmpago e trovão
Sou
metal, eu sou o ouro em seu brasão
Sou metal, me sabe o
sopro do dragão.
Reconheço meu pesar
Quando
tudo é traição,
O que venho encontrar
É
a virtude em outras mãos.
Minha terra é a terra
que é minha
E sempre será minha terra
Tem a lua,
tem estrelas e sempre terá.
A bela Zenobia, uma Elfa Negra que se tornou Valquíria andava de um lado para o outro de seu salão, irritada.
-Como?! Como eles chegaram aqui?! Não é possível! Eles têm de ser destruídos! Agora! Ouviu, Arkana?!
Arkana, criada de Zenobia, assentiu com a cabeça.
-Quer que eu faça esse trabalho, Mestra?-Indagou.
-Não. Graças a destruição do Navio Voador em que eles se encontravam, provocada por você, é que eles estão aqui. Não acredito! Como?! Como isso fugiu tanto aos meus planos?!-Esbravejava ela, irritada.
-Sente-se Mestra, gritar não resolverá o problema...-Estalou os dedos e uma criada apareceu.-Traga uma bebida para a sua Mestra. Acalme-se.-Zenobia se sentou na cama confortável.-Isso...Muito bom...Inspire fundo...-Arkana se sentou em uma cadeira, estrategicamente posicionada no quarto, ao lado da cama.
-Arkana...Eles não podem chegar no Palácio...Se Brünhilde aparecer aqui, todas as Valquírias e Guerreiras vão seguí-la! Se ela aparecer, a Grande Freja vai dar preferência à sobrinha-neta em vez de nós, óbvio que irá ouvi-la e não a nós!
-Mestra, respire fundo. É só avisarmos que um grupo de seis ladrões terríveis vai passar por aqui. E dar ordens de matá-los logo que os avistarem. Esta é a única passagem pela cadeia de montanhas, eles têm de passar por aqui, Mestra.
Zenobia sorriu, aliviada.
-O que seria de mim sem você?
Arkana se levantou, pegou o drinque que estava nas mãos da criada e a dispensou. Virou-se sorrindo.
-Estaria bem sem mim, Mestra.
-Creio que não.
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-Estou cansado...-Resmungou Chaos, pela enésima vez.
-Todos estamos, Caipira.-Respondeu, pela milionésima vez, Loki.
Todos suspiraram. Estavam andando naquela floresta esquisita há algumas horas.
-Tem certeza de que sabe que estamos na direção certa para sair daqui?-Perguntou Samael.
-Sim...Eu já estive aqui...Em geral...A cavalo...-Murmurou Salomé, quase etérea.
-Vamos tirar um cochilo? Estou quebrado...-Disse Chaos.
-Certo, só espere mais um pouco, pois logo ali na frente, tem um rio que nunca congela.-Disse Salomé, indicando a direção.
-Como você sabe dessas coisas?-Perguntou Iris estranhando.
-Eu apenas sei.-Disseram Chaos, Loki e Salomé, ao mesmo tempo.
-Eu também sei, vagamente, mas lembro de alguma coisa...-Completou Fenris.
-Chaos eu até entendo, se isso aqui é Niflheim mesmo, ele tem de conhecer, pois é a reencarnação de...-Disse Iris, distraída, estacando, subitamente.-Vocês são reencarnações também!-Gritou, apontado para Loki, Salomé e Fenris.
Os quatro se entreolharam.
-Hm...digamos que... "compartilhamos um passado em comum".-Disse Salomé, de forma evasiva.
-Não adianta tentar esconder isso de mim mais! Chaos, por que você nunca me contou?!-Iris se sentia enganada.
-Eu não tinha certeza...Nem quanto ao Loki, nem quanto à Salomé.
-Salomé...? Eu achei que fôssemos amigas...-Iris se virou para a loira, tentando arranjar uma explicação.
-Hm...E somos. Mas isso não quer dizer que eu tenha de contar tudo a você.-Respondeu, gentil, Salomé.
Silêncio...
-Tem mais algo que esconderam de mim?-Indagou Iris.
-Hm...Podemos só sentar e descansar primeiro?-Resmungou Salomé, esquiva.
-Esse barulho...-Murmurou Fenris.
-...é de água. Chegamos no rio.-Disse Chaos.
Descarregaram as bagagens e se sentaram a beira do rio.
-Há peixes aí?-Indagou Samael.
Salomé ajeitou o capote.
-Essa floresta é encantada. Não há inverno nela. Só primavera, verão e outono. Então deve haver peixes.-Respondeu Fenris.
-Vamos pescar algo para o almoço.-Disse Chaos, tirando o capote e os sapatos.
Iris seguiu o exemplo dele e tirou o capote e os pesados sapatos de neve também. Até Fenris e Samael entraram no jogo e jogaram a dignidade de bruxos para o alto e entraram na água.
-Olha, se você usar um galho bifurcado, pode pegar peixes!-Exclamou Chaos, mostrando um que se debatia em sua vara de pescar rústica.
Iris soltou risinhos de prazer e saiu da água.
-Vou pegar uns galhos verdes para trançar e fazer um cesto.-Disse ela.
-Eu vou pegar uma toalha para por os peixes enquanto o cesto ainda não está pronto.-Disse Fenris, extasiada com a brincadeira também.
-E o garo...Samael pode me ajudar a pescar.-Disse Chaos, sorrindo.
Samael sorriu em resposta e pegou uma vara bifurcada.
-Salomé pode acender o fogo e limpar os peixes já pescados, né Salomé?
Ela se sobressaltou.
-Ãhn? Sim, claro, claro. Vou colher uns galhos secos para fazer a fogueira.
-Loki, acompanhe ela.-Disse Chaos.
-Por quê? Ela não é um bebê, sabe se cuidar.-Respondeu Loki, meio de mau humor.
-Para você fazer alguma coisa.-Disse Iris, risonha.
Ele suspirou e a seguiu.
-Hm? Quem está aí?-Perguntou Salomé, se virando.
-Sou eu, Loki.-Respondeu ele.
-Ah tá...
E continuaram a caminhar, lado a lado.
-Olha que peixe enorme, Samael!-Gritou Iris, espantada.
Samael tentou pegá-lo. Porém, o peixe foi mais esperto e fê-lo cair na água.
-Peguei!-Gritou Chaos.
-Não vale! Você é maior do que eu!-Resmungou Samael após cuspir um jato de água.
Todos riram.
De repente, se calaram e viraram bruscamente na mesma direção.
-Quem está aí?-Indagou Chaos.
Silêncio.
-Saiam da água. Agora.-Disse Chaos, de forma baixa e eficaz.
Fenris soltou a toalha cheia de peixes, Iris largou o cesto feito pela metade, Samael alcançou o cajado e Chaos pôs a mão no cabo da espada. Os quatro ficaram um de costas para o outro, cada um cobrindo um dos pontos cardeais e as costas dos outros. Iris deixou a Chernryongdo ao alcance da mão e Fenris descobriu a Laevatein e pôs a mão em seu cabo.
-Quem está aí?-Repetiu Chaos, pausadamente, porém, tenso.
Uma flecha zuniu e Fenris a agarrou no ar. Quebrou a flecha no joelho de forma calma.
-Parece que não são amigáveis...-Disse Samael, com um sorriso nervoso no rosto.
Chaos soltou uma risada áspera.
-Então não precisamos ter pena deles.-Disse Iris, com um ar sádico na voz.
Outra flecha varou o ar. E outra e mais outra após essas.
-Barreira de Gelo.-Disseram Fenris e Samael ao mesmo tempo.
Chaos cortou e aparou as flechas que vieram em sua direção, assim como Iris.
A chuva de flechas se intensificou.
-Droga! E vocês não podem nem usar habilidades de fogo aqui se não essa floresta vira uma fogueira com a gente dentro!-Reclamou Iris, já cansada.
-Como será que estão os nossos amiguinhos?!-Perguntou Samael.
-Como será que você se preocupa com eles numa hora dessas?!-Gritou Fenris.
-Falem menos e se defendam mais! Não deixem essas flechas atingirem vocês, têm veneno, lembram?!-Exclamou Chaos.
Alguns minutos depois a chuva de flechas ficou mais escassa e as flechas chegavam a si em intervalos maiores.
-Finalmente um corpo a corpo.-Resmungou Chaos.
Umas mulheres de armadura começaram a sair da proteção das árvores.
-Mulheres?! Nós fomos escorraçados por mulheres?!-Exclamou Chaos, indignado.
-Estamos no território das Valquírias. Em matéria de guerrear, só há mulheres por aqui.-Resmungou Samael.
-E...o que há de mal em mulheres lutarem, Chaos?!-Perguntou Iris, irritada.
-Como falam...-Resmungou uma Valquíria de capacete.
-Temos de matar esses bandidos! Em nome da Senhora Freja!-Gritou a Valquíria que parecia ser a líder do grupo.
-Mas...os salteadores mencionados estavam em um grupo de seis...esses aí só são quatro...-Contestou uma Valquíria de cabelos negros.
-Mas há homens no grupo! É proibido homens pisarem no solo sagrado das Valquírias!-Gritou uma ruiva.
-Mas e as mulheres, o que fazemos com elas?-Perguntou outra.
-Matamos também! Cometeram sacrilégio ao trazerem homens para cá!-Gritou a Valquíria enérgica e ruiva.
O burburinho se seguiu durante algum tempo.
Até que outras seis Valquírias apareceram.
-Achamos mais dois no bosque.-Disse uma, muito fria.
Duas delas, que seguravam Loki, empurraram-no para o grupo de prisioneiros. E se juntaram à Legião das Valquírias.
-Essa vadiazinha loura insiste em dizer que é a reencarnação de Brünhilde.-Disse uma outra, agressiva.
Com a ponta da espada, forçou Salomé a erguer o rosto. Esta se debateu, tentando se livrar das duas outras Valquírias que a seguravam.
-O que fazemos com ela?-Perguntou a líder do primeiro grupo para as duas de aparência perigosa.
-Vamos levá-los ao Conselho. Podem ser os bandidos ou não.-Disse a fria.
-Eu acho que devemos matá-los aqui mesmo, Aza.-Disse a agressiva, escorregando levemente a espada pela garganta alva de Salomé e fazendo um filete de sangue escorrer.
-NÃO OUSEM MACHUCÁ-LA!-Gritou Iris, nervosa, dando um passo a frente e sentindo as lanças cutucarem-na.
Aza, a Valquíria fria, avançou e deu um tapa com muita força no rosto de Iris.
A pequena ruiva caiu como uma bolinha de papel. Seu lábio inferior rachou com o choque.
-Iris!-Exclamou Chaos e correu para abraçá-la.
-São só adolescentes cheios de hormônios e imprudência, Karen. Não são bandidos.-Comentou Aza, indiferente.
Karen deu de ombros.
-Mas essa loirinha aqui eu posso matar, não posso?-Perguntou, agitada.-Ela cometeu um sacrilégio ao se intitular uma Valquíria.
-Não Karen, não pode.
Karen guardou a espada na bainha e puxou Salomé pelo braço com brutalidade.
-Ainda nos veremos de novo, loirinha.-Disse, entre dentes.
E a jogou para os prisioneiros. Salomé tropeçou numa raiz e ia ao chão, porém, Loki a amparou.
Guiaram os prisioneiros até o castelo. Separaram o grupo.
-Mulheres para uma cela e homens para outra.
As Valquírias foram levando-os.
Quase
acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e
destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi
o meu castelo e minha princesa.
Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos
e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é
roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja
mentindo.
Olha o sopro do dragão...
Samael socou a parede com força.
-Droga!-Gritou, frustrado.
Foram separados das garotas.
Loki estava sentado em um canto da cela, com a cabeça enterrada nos joelhos. Chaos estava sentado em uma das precárias camas do cômodo.
-Droga!-Repetiu.
-Quer parar de resmungar? Isso não vai trazê-la de volta.-Respondeu Loki, com a voz emburrada.
-Pare de me dar ordens, tá legal?! Eu não devo nada a você! E a Salomé não está aqui para nos forçar a agir direito! Meu desejo desde o começo foi acabar com você!-Gritou o menino.
Loki se pôs de pé.
-Olha aqui, garoto. Eu não sei o que você tem contra mim, mas vai se dar muito mal agindo assim. Como você bem disse, ela não está aqui para te proteger.-Rosnou Loki de volta.
Chaos se postou entre os dois.
-Discutir não...
-VOCÊ VAI FAZER O QUÊ? ME MATAR COMO MATOU O MEU MESTRE?!-Gritou Samael, chorando de ódio.
Chaos prendeu a respiração e Loki empalideceu.
-VAMOS, FAÇA O SEU TRABALHO, ALGOZ!-Samael continuava a gritar, descontrolado.
-Então você é o aprendiz de Ezequiel...?-Indagou Loki, em um tom de voz perigoso.
Samael mordeu o lábio inferior e deu um passo involuntário para trás.
-Seu mestre não precisava ter morrido. Bastava dizer onde se encontravam os tesouros que minha guilda procurava, garoto. Ele quem nos provocou ao negar a informação...-Prosseguiu.-Você também não precisa morrer, basta informar onde eles estão.
-Vai matar quem estiver com eles para pegá-los?-Perguntou Samael, com a voz dura.
-Talvez.-Respondeu Loki evasivo.
-Entreguei à legítima dona. Está com Salomé. Mate-a, Loki.
É
a verdade o que assombra
O descaso que condena,
A estupidez o
que destrói
Eu
vejo tudo que se foi
E o que não existe mais
Tenho os
sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende.
Esta
é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu
quero a espada em minhas mãos.
Eu sou metal, raio,
relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu
brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.
Não
me entrego sem lutar
Tenho ainda coração
Não
aprendi a me render
Que caia o inimigo então.
-O que vocês querem comigo?!-Gritava Salomé, tentando se livrar das fortes mãos que a levavam para lados escuros do castelo.
-Oras, "Brünhilde", uma deusa merece um tratamento especial. -Disse Karen, sarcástica.
As valquírias deram gargalhadas cruéis.
Abriram uma pesada porta de metal e empurraram Salomé para dentro do cômodo. Karen não entrou junto. Dirigiu-se a outro cômodo.
Lá dentro estava Loki sentado, amarrado a uma cadeira.
-... Como torturas normais não funcionam com você, serei obrigada a utilizar um método mais cruel. -Concluía Aza, com seu habitual tom indiferente.
Salomé teve o manto arrancado e ficou apenas com a camisola de baixo.
-Vou repetir: quem são vocês e para quem trabalham?-Perguntou Aza, debruçada sobre Loki.
Ele não moveu um músculo e olhava fixamente para Salomé. Aza se virou para as outras valquírias e fez um sinal.
Uma delas deu um tapa no rosto de Salomé e virou-a de costas para si e começou a torcer seu braço. A loira fez uma expressão de dor, mas não soltou nenhum grito.
Puxou-a para perto de si e murmurou em seu ouvido, com prazer:
-Ah... Você é do tipo que se faz de forte...
Jogou-a no chão, com violência e pisou em suas costas. Salomé arfava, tentando respirar.
-Quem-são-vocês...?-Repetiu Aza, com o tom de voz de quem conversa sobre o tempo.
-Meu destino eu não sei. Mas o seu será horrível... -Retrucou Loki, entre dentes.
Aza deu um sorriso de escárnio.
-Você não está exatamente em posição de me ameaçar... -Comentou.
Ouviu-se um barulho seco de algo quebrando e Salomé deu um gemido de dor. Ele virou o rosto bruscamente e a olhou.
-Chega. Vai matar a garota, nesse ritmo. Não é o que queremos, certamente. Leve-a para a sua cela e amanhã prosseguiremos. Quem sabe o "passarinho" não se habilita a falar? -Ordenou Aza, imperiosa.
Arrastaram Salomé aos trancos para fora da cela. Quando estava saindo, esta viu uma garota ruiva muito ferida sendo levada para fora de um outro cômodo.
-Iris...? -Murmurou.
Só de respirar doía, falar era muito pior.
Devo ter quebrado alguma costela.
Pensou, amarga.
Iris virou o rosto e a encarou, este estava banhado em lágrimas. O lábio inferior estava rachado e inchado, conseqüência de algum tapa. O olho esquerdo estava com um leve tom arroxeado e seu corpo estava coberto de hematomas. Tentou dar um sorriso, mas fez uma careta de dor. Sangue caiu de sua boca. Foram cruéis com ela.
Salomé franziu a testa, era desse mundo que participava em outra vida? Era ela uma pessoa cruel assim? E as pessoas que havia roubado, ferido e ameaçado nesta vida? Sofriam como ela agora?
Deixou lágrimas escorrerem por seu rosto, lavando-o.
-Tudo passa, tudo passará...
E
nossa história não estará pelo avesso
Assim,
sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.
E até
lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não
olhe para trás
Apenas começamos.
O mundo começa
agora
Apenas começamos.
