Luzes de Tókio
Capítulo 2
Uma das vantagens de se conviver com um homem, é que apesar de todas as coisas infinitamente ruins que descobrimos sobre esta raça, conseguimos tentar entender alguma coisa que passa pelas cabeças lunáticas deles. Foi isso que eu comecei a descobrir morando com um representante do sexo masculino. E, diga-se de passagem, um da pior espécie.
'Bom dia.' Ouvi Syaoran me cumprimentar depois de um demorado bocejo.
'Bom dia.' Respondi colocando o café na mesa. Como o apartamento dele era relativamente pequeno e moderno, a cozinha se interligava com a sala. A principal divisão entre os dois ambientes era um balcão e uma mesa estilo americana com bancos altos. Lembrem-se que o metro quadrado japonês é o mais caro do mundo!
Ele sentou num dos bancos e pegou o jornal que eu tinha deixado no canto. 'Você leu o jornal?'
Virei-me para ele sem entender. 'Sim, qual o problema?' Perguntei, pois senti um certo tom de desaprovação na pergunta dele.
'Mas antes de mim?! Eu detesto pegar jornal remexido!'
Esta é nova para mim! Como Touya nunca ligava para ler o jornal e papai nunca reclamou, realmente não vi problema em ler o jornal antes dele.
'Mas eu não desarrumei o jornal. Ele está todo na ordem certa.'
'Não importa! Ele não está com aspecto de jornal novo, então a impressão que eu tenho é que o jornal é de ontem e não de hoje.'
'Você sabe ler?' Perguntei revoltada. Apontei para o lugar onde estava a data. 'Pois leia aqui. É o dia de hoje, logo o jornal é de hoje! Assim que você abri-lo não vai notar a diferença.'
'Mas eu sei que não fui eu que o abri. No meu subconsciente eu já sei que ele foi aberto, por isso no meu subconsciente o jornal não é de hoje e sim de ontem.'
'Então manda o seu subconsciente aprender a ler!' Soltei completamente irada. Desde que havia chegado em Tókio comecei a sofrer terrivelmente de descontrole emocional. Não que eu fosse louca, na verdade até era um pouquinho, mas ninguém nunca percebeu.
'Faremos o seguinte, Sakurinha. Como eu pago o jornal, eu leio e depois você lê. Como o seu subconsciente não se importa com estas coisas, poupamos assim o meu subconsciente. Certo?'
'Pois então agora teremos dois jornais. Pois eu não vou esperar até esta hora para você ler. Olha a hora que você acorda?'
Ele finalmente desviou os olhos da minha cara vermelha e fitou o relógio que havia na sala. 'Eu estou atrasado hoje. Nos outros dias costumo acordar mais cedo. Você me deve uma fortuna em roupas, é melhor começar a economizar.'
Juro que desta vez realmente meu queixo caiu. Como alguém poderia ser tão... tão... droga, não havia adjetivo que combinasse com aquela coisa que estava sentada à minha frente.
'Já que você está aí em pé, olhando-me como uma tonta, será que poderia me servir o café enquanto eu leio o meu jornal?'
Minha vontade realmente era servir o café para ele! Servir em cima dele! De preferência pelando para fazê-lo gritar de dor! Coloquei tudo na mesa e me sentei no banco ao lado, sem encará-lo.
'Como foi o seu primeiro dia de trabalho?' Ele perguntou para mim enquanto se servia.
Oras, o seu subconsciente já terminou de ler o jornal? Argh! Tentei me controlar, não poderia transformar a questão de quem lê o jornal primeiro numa sentença de guerra. Se alguém aqui tinha que manter o bom senso, achei que tinha que ser eu. Além disso, na próxima vez eu arrumaria melhor o jornal. Ele nem perceberia.
'Bom.'
'Bom? Só isso que tem a me dizer?'
'Bem, o pessoal é legal. Apenas a minha parceira em reportagens é um pouco excêntrica.' Respondi antes de assoprar um pouco o meu chá e bebericar. Eu não gosto de café, por isso só bebia chá pela manhã, mas resolvi fazer um pouco para agradar o meu estúpido primo.
'Bem, imagino que pelo menos não cairá no marasmo, não é?'
'Vendo por este lado.' Realmente ele tinha razão, com Nakuru trabalhando ao meu lado com certeza nenhum dia seria igual ao outro. Virei-me rapidamente para ele que comia uma torrada enquanto passava os olhos no jornal dobrado ao seu lado. Havia reparado agora que ele só estava de shorts. Por que será que de repente comecei a sentir calor? 'Está quente aqui...' Falei me abanando um pouco. 'Acho que o chá é que está quente demais.'
'Você deve ter aumentado demais o aquecedor, mas a temperatura para mim está agradável.' Ele respondeu sem me olhar. Ainda bem!
'E a sua audiência? Como foi? Você não falou nada dela.'
'Você não perguntou...' Ele falou antes de beber um gole de café. 'Caso mole! É claro que eu venci.'
Ui, é claro que eu venci! Quem este cara pensa que é? Um Deus do Olimpo?! Hummm o físico até que podia ser um pouquinho parecido, mas com certeza o ego era muito mais!
'Que bom.' Limitei-me a responder. 'E era sobre o quê?'
'Coisa pequena. Um carinha que se separou da mulher e ela agora estava pedindo indenização. Detesto casos assim, mas como o cara pagou bem por um advogado de defesa, eu não tive como recusar. Além disso, ele queria o assunto quanto antes resolvido e principalmente que fosse confidencial.'
'E por que a mulher pediu indenização?'
'Porque ela era uma aproveitadora... bem pelo menos foi isso que eu fiz os jurados acreditarem.'
'Aproveitadora?'
'Isso mesmo.'
'E por que ele queria que fosse confidencioso? Não era um caso banal?'
'Sim era um caso banal, mas quando se trata de gente importante e que não quer aparecer na mídia, o negócio muda de figura.'
Oras o assunto estava começando a ficar interessante! Quem seria o cliente do meu priminho? 'Quer um pouco de geléia? Eu trouxe de Tomoeda. É aquela que o papai faz e você adorava.'
Ele finalmente tirou os olhos do jornal e me encarou. 'A de amora?'
'Isso mesmo!'
'Até que não foi ruim você ter vindo para cá, Sakurinha.'
'Estou começando a pensar assim também.' Respondi sorrindo. Observei-o passando a geléia numa outra torrada e a mordendo com vontade. Estava entretido com a guloseima. Era incrível como nestas coisas, os homens são verdadeiros meninos.
'Bem, mas, quem era o seu cliente? Deve ser uma pessoa muito importante, não?'
'Ah sim...' Ele respondeu lambendo os dedos.
'E quem seria?' Eu insisti. Tinha que arrancar dele alguma coisa! Imagina se era algum político? Isso seria uma bomba e uma ótima matéria.
Ele me fitou por alguns segundos e sorriu de lado. 'Sabe, Sakurinha, você é uma ótima manipuladora. Porém vai ter que me dar mais do que geléia para eu dar com a língua nos dentes. Advogados são como padres.'
Fechei a cara. Pelo visto ele era mais esperto do que eu poderia crer que fosse. 'Então você deveria começar a viver no celibato.'
Ele soltou uma longa gargalhada. 'O dia que eu ficar uma semana vivendo no celibato, é porque enlouqueci.'
'Rá rá rá.' Falei irônica com a cara emburrada. 'Então por que não pode falar quem era o seu cliente? Precisava me deixar curiosa? Você sabe que este é o meu pior defeito.'
'Se sei.' Ele respondeu ainda rindo. 'Você vivia me perguntando como era beijar uma pessoa.'
'Mentira.' Protestei levantando-me. Aquela conversa começava a me irritar mais do que eu queria.
Ele riu um pouco baixinho. 'Você tem a memória curta para uma jornalista, Sakurinha.'
'Argh!' Soltei caminhando em direção ao meu quarto para me arrumar. 'Como eu arrumei o café, voc tira a mesa e lava a louça.'
'Hei, esta divisão é injusta! Fazer o café é muito mais fácil.'
'A vida não é justa!!!' Eu gritei já atravessando a sala.
'A vida é justa. A justiça é que é cega.' Ele retrucou para me irritar. Parei no meio do corredor pronta para voltar e estourar com ele, mas eu sabia que era justamente isso que ele esperava de mim. Era sempre assim que ele fazia quando éramos crianças. Eu ia mostrar para ele que eu havia crescido enquanto ele continuava a ser o mesmo moleque idiota e atrevido de sempre. Não importa se ele havia se tornado um homem maravilhoso, um tesão, por dentro ele continuava a ser o mesmo Syaoran irritante que eu conhecia e que eu detestava!
Respirei fundo e estiquei o corpo, empinando o nariz. Comecei a controlar minha respiração. Inspira, expira, inspira, expira. Pronto, em dez segundos eu era uma outra mulher.
'Bem já que você vai voltar mais cedo do que eu hoje, poderia passar no mercado e comprar algumas coisinhas. Estas coisas que mulheres sabem escolher melhor.' Ele falou sabendo que eu estava no corredor tentando me acalmar. 'Pelo menos esta é uma vantagem de se ter uma mulher em casa.'
Pronto, toda a minha concentração foi por água a baixo. Em dois passos estava na sala o encarando com os olhos em chamas. 'Desde quando fazer supermercado é coisa exclusiva para mulher?'
'Desde que ele foi criado. Eu sei que vocês adoram se reunir lá para contar fofoquinhas sobre os maridos, namorados e afins.'
'Ah então homens não servem para ir ao supermercado?'
'Não é o habitat natural deles.'
AHHHHHHHHHHHHHH! Como eu o odeio! Peguei a minha linda pantufinha de coelhinho e taquei com força na cabeça dele! Pena que como eu sou uma jovem delicada a minha pantufinha também é, quase não pesa nada. Li olhou para mim sério, depois do susto que levou recebendo a coelhada.
'Esta é a terceira coisa que você joga em mim, em pouco mais de dois dias. Eu pensei que você tinha crescido, mas continua a mesma menina bobona e estourada.'
'E você o mesmo menino tarado e mimado!'
'Tarado?' Ele falou com um sorriso malicioso nos lábios. 'Eu apenas sei aproveitar a vida. Acho que seu irmão ainda não deixou você experimentar esta parte dela, não é?'
Por alguns segundos fiquei sem resposta. Nada vinha à minha mente. Arregalei os olhos fitando o rosto debochado de Syaoran. Será que estava escrito na minha testa como um letreiro luminoso piscando, Virgem?! Dei a batalha por encerrada e o pior, perdida. Entrei em meu quarto e me tranquei lá. Só saí quando ouvi os passos de Li pelo corredor e a porta do banheiro sendo trancada. Foi quando aproveitei para sair de casa e ir para o trabalho.
'E aí? Está gostando do trabalho?' A voz de Rô chamou a minha atenção. Tínhamos ido almoçar juntas. Eu, ela, Andréa, Tomoyo, Nakuru e Naoko. A Rika não pôde ir, pois Eriol tinha passado algumas coisas importantíssimas para ela fazer em cima da hora. Para variar...
'Estou gostando muito.' Falei entusiasmada.
'Eriol pediu para ela inicialmente ler algumas reportagens para tentar se familiarizar com a nossa linguagem.' Nakuru falou antes de colocar mais um sushi banhado em molho de shoyo na boca. Estávamos num restaurante bem legal perto do trabalho. Era aconchegante e não muito cheio. Coisa realmente rara no centro de Tókio.
'Ah isso é muito bom. Assim você pode ter idéia do público com que atuamos. Seria bom você falar com a Saori Kido do setor de Marketing. Ela pode lhe dar uns toques.' Ponderou Andréa.
'Ela é uma esnobe! Você vai perder o seu tempo, Sakura.' Rebateu Naoko. A jovem ajeitou os óculos no rosto. 'Ela só sabe mostrar aquele monte de gráficos coloridos, quanto mais coloridos melhor, e não explica nada.'
'Acho que você anda muito crítica ultimamente, Naoko.' Falou Andréa balançando os pauzinhos na frente do rosto.
'É a convivência com o Fantomas.' Nakuru rebateu maliciosamente.
'Olha, ele é um excelente chefe!' A jovem defendeu com fúria.
'E você está a fim dele!' A espevitada repórter rebateu.
Fitei um tempo Naoko, que estava nitidamente nervosa e encabulada. Realmente a garota gostava mais do que devia do seu chefe. Isso era mal. Oras, quem sou eu para falar que era mal? Estava flertando com o meu chefe também!
Naoko era uma jovem bonita. Não era tão baixinha como eu. Tinha os cabelos curtinhos e bem lisos. Dois olhos amendoados realçados pelos óculos de aro fino que lhe davam um ar intelectual e jovial. Era incrível como Fantomas conseguia querer paquerar outras moças se tinha uma tão bonitinha e meiga ao lado dele. Bem, tem homem que é cego mesmo. Corrigindo: Todos os homens são cegos.
'Gente, mas verdade seja dita ela é muito bonita.' Andréa comentou. 'Não é a toa que alguns rapazes na redação fiquem de olho nela.'
'Bonita?' Rô falou indignada batendo com força a palma da mão na mesa, fazendo os talheres e copos tilintarem. 'A única coisa que ela sabe fazer é colocar os pobres rapazes para fazer o trabalho dela.'
'Isso é verdade.' Nakuru falou apoiando o cotovelo na mesa e o rosto na mão. 'Ela sim que tem sorte. Manda naqueles deuses do Olimpo a torto e a direito.'
'Ela só manda! Eu fico vendo o coitado do Seiya correndo para cima e para baixo na redação tentando fazer o que a senhorita Kido pede sempre na última hora.' Rô alfinetou novamente.
'Está com ciúmes, não é?' Nakuru perguntou maliciosamente.
'Não é nada disso! Mas eu fico possessa com gente folgada como aquela senhorita Kido.' Rô falou com o tom debochado. Nossa, esperava que nunca ela ficasse com raiva de mim, ou eu estaria em muito maus lençóis.
'É o que eu digo, aquela mulher só sabe ficar se fazendo de vítima para os homens. Ikki por favor, tire uma cópia para mim.' Naoko falava imitando a jovem e fazendo as outras rirem com gosto. 'Ah Hyoga, por favor verifica aqueles gráficos para mim. Shiryu, que tal você me substituir naquela reunião estou tão cansadinha. Seiya, por favor faz uma massagem nos meus ombros estou morta por não fazer nada.'
Realmente Saori Kido não era bem vista na revista.
'Ela que se atreva a pedir uma massagem para o meu Chocolate.' Rô ameaçou com as mãos fechadas em punhos.
'O único que conseguiu escapar das garras dela foi o Shun que está trabalhando com a Tomoyo.' Naoko falou.
'O Shun é uma ótima pessoa.' Tomoyo finalmente opinou. 'E entende muito de moda.'
'Claro que ele entende.' Nakuru era realmente muito maldosa. 'Aposto como ele experimenta todas a roupas para opinar sobre elas, principalmente as femininas.'
Arregalei os olhos de leve e inclinei meu corpo um pouco para frente para falar em voz baixa. 'Ele é... hã... goiabinha?'
'Goiabinha?' Andréa repetiu em voz alta quase me matando de vergonha.
'O que é isso?' Rô perguntou olhando para mim.
'Vocês sabem... homens que não são exatamente... hã... bem...' Ai eu era péssima para falar estas coisas, tinha certeza que estava vermelha.
'Homossexual.' Nakuru como sempre foi quem pescou primeiro.
'Hei, espero que não coloque este seu vocabulário particular nas suas matérias, ou vou ter que fazer um dicionário com suas gírias.' Rô aproveitou para chamar a minha atenção, se estava vermelha, acho que agora eu fiquei roxa.
'O Shun homossexual?' Tomoyo falou com um dedinho no queixo pensando. 'Ah gente isso não é problema hoje em dia. Além disso, acho que ele é apenas incompreendido.'
' Mas ele foi o mais esperto, conseguiu fugir das garras daquela exploradora.' Rô alfinetou mais uma vez.
'Mas se esta Saori é tão assim, por que ela continua como gerente de marketing?' Perguntei, pessoas tão mal vistas pelos colegas costumavam durar pouco no trabalho.
'Oras, Sakura! Ela deve "dar" para todo mundo.' Nakuru esclareceu. 'E para completar, ela é puxa saca número um da Srta. Klein.'
'Ah! A editora chefe.' Lembrei.
'Isso mesmo.' Tomoyo afirmou. 'A Kath é ótima pessoa, mas é muito stressada, sempre que passa na redação é como se um ciclone arrasador.'
'E ainda tem sempre aquele puxa-saco do Bason atrás dela.' Completou Andréa. 'Ai se ele vier me cercar novamente, eu vou ser obrigada a ser mais direta. Eu sou uma mulher casada!' Falou indignada.
'Ninguém merece ser cercada pelo Bason.' Nakuru falou antes de beber um gole do suco. 'Ele até é bonitão, grandão, porte de guerreiro chinês. Mas aquele lance de chefinha pra cá, chefinha pra lá...não dá, né gente?'
O grupo riu com gosto, provavelmente lembrando de alguma situação no mínimo constrangedora do tal Bason.
'Pior era a outra que ela despediu, qual era o nome dela mesmo?' Rô falou estalando os dedos e tentando lembrar o nome.
'Midoriko...' Tomoyo lembrou. 'Dizem que foi ela quem vendeu uma reportagem da Kath para uma revista concorrente.' A morena esclareceu para mim sabendo que eu estava boiando no assunto.
'Aquela era insuportável mesmo. Nós tínhamos apelidado-a de Madame gelo, pois ela parecia sempre estar congelada.' Naoko explicou para mim.
'Mas não mais que Saori Kido. Só de lembrar dela me dá nos nervos. Está se sentindo mais ainda já que a Kath está fora do país.' Rô falou levantando o punho fechado ao lado do rosto. Se por acaso Saori passasse por aquela mesa com certeza teria seus últimos segundos de vida.
'Ela está numa conferência sobre ética jornalística nos Estados Unidos.' Andréa falou tentando mudar o assunto Saori ou Rô era capaz de matar a mulher hoje.
'Nossa! Que legal! Ela deve viajar muito, não?' Falei entusiasmada, adoraria estar no lugar dela viajando por todo o mundo, assistindo palestras importantes e convivendo com pessoas que tanto admiro. Quem sabe um dia não realizo este sonho?
'Eu não sei, não... ela mal tem tempo para a vida particular dela.' Tomoyo falou com a voz triste. 'Deve ser muito chato viver em ponte aérea, só trabalhando e não ter tempo para a vida particular.'
'Isso é verdade.' Naoko concordou. 'Eu nunca soube que ela estava namorando ou "ficando" com alguém.'
'Gente, ela é nossa chefe, vocês acham que ela ia ficar espalhando para todo mundo da redação os casinhos dela?' Andréa ponderou.
O grupo soltou um longo suspiro decepcionado.
'Onde você mora, Sakura?' Perguntou Tomoyo mudando de assunto.
'Moro mais ou menos perto daqui. Na Avenida Três.'
'É mais perto de onde moro!' Comentou Andréa. 'Você tem sorte de ter encontrado um apartamento barato no centro de Tókio. Eu tenho que pegar ônibus todas as manhãs depois que deixo meus filhotes no colégio. Ainda bem que o colégio deles é perto de casa.'
'Imagina se você tivesse que pegar ônibus para levá-los e depois pegar outro para vir para o trabalho?'
'Nem me fale, Rô. Só chegaria aqui depois das nove de amanhã. Aí, o Eriol arrancaria o meu fígado.'
Rimos baixinho tentando não chamar a atenção dos outros clientes do restaurante.
'O ruim é que o estacionamento aqui no centro é muito caro, além de super lotado.' Ponderou Naoko.
'É por isso que apesar de tudo eu prefiro vir de ônibus.' Completou a jovem revisora.
'Mas eu também tenho que pegar ônibus. Apesar de ser perto se eu viesse a pé levaria quase uma meia hora. O bom é que a quantidade de ônibus que faz o trajeto é maior.' Comentei.
'Pelo jeito você teve sorte, Sakura.' Nakuru comentou.
'Realmente. Mas não aluguei um ap, estou morando com o meu primo.'
Sorte? Esta palavra não combinava muito com a atual situação. Eu diria, azar. Eu tive azar de ir morar com o meu primo. Mas também não é de todo verdade, pois o apartamento é bem localizado. Então eu não tive sorte, nem azar. Aconteceu! Isso, é melhor encarar deste modo. Pois eu tive sorte de morar com o meu primo e tive azar de justamente o meu primo ser Syaoran Li. Melhor ainda encarar as coisas assim.
'Primo?' Repetiu Tomoyo.
'Sim. Estou morando com ele até conseguir um cantinho para mim.'
'E vocês moram sozinhos ou ele é casado?'
'Moramos sozinhos.'
As cinco pararam de comer. Naoko ficou com um sashimi parado em frente à boca olhando para mim, assim como as outras. Por algum motivo me senti terrivelmente mal.
'E vocês são primos próximos?' A pergunta foi feita por Tomoyo, mas estava na cara que todas estavam querendo perguntar isso para mim.
'Bem, ele é filho da prima da minha mãe.'
'Então acho que vocês são primos de terceiro grau.' Concluiu Rô.
'Nós sempre pensamos que fosse de quarto.'
'Pior ainda!' Gritou Nakuru. 'E ele é gostosão?'
'O Syaoran?' Eu não sei por que fiz cara de nojo. Era claro que Syaoran era gostosão, mas alguma coisa me dizia que não era bom que elas soubessem disso.
'Dizem que os primos têm fantasias sexuais entre si.' Soltou Naoko sorrindo maliciosamente para mim.
'Fantasias sexuais com o Syaoran? Ah que é isso!' Comecei a ficar nervosa, minha voz saiu falhada. Eu sei que saiu. Estava me denunciando. Se continuassem com aquele assunto eu ia acabar confessando que tinha realmente algumas, mas só algumas, fantasias com o meu primo. Oras também não era santa! Acordar de manhã e dar de cara com ele na cozinha sem camisa, era para criar fantasias sexuais em qualquer uma!
'Se o Eriol sabe disso...' Tomoyo falou quase num sussurro encostando-se na cadeira.
Franzi de leve a testa observando a jovem sentada a minha frente. 'Por que diz isso, Tomoyo?'
'Oras porque está na cara que ele anda esticando o pescoço quando você passa por ele.' Rô respondeu a pergunta antes de beber um gole do suco de laranja.
Novamente todas olharam para mim. Isso estava começando a me dar nos nervos, precisava urgentemente desviar a atenção delas para outra coisa que não fosse a minha pessoa. 'Seus filhos têm quantos anos, Andréa?' Que pergunta idiota! Agora elas estão com um atestado que eu sou mesmo uma idiota!
'Para uma repórter você tem uma criatividade terrível, sabia?' Nakuru falou dando um tapa nas minhas costas. 'Tudo bem, o assunto Eriol morre aqui.'
'Ah falando em assunto Eriol! Quer dizer, não que uma coisa leve a outra, mas enfim... quando você vai experimentar os meus modelitos?!'
Olhei para Tomoyo não acreditando que ela ainda pensava nisto. Como fugir desta situação?
'Claro. Quando você quiser.'
Deus como eu sou falsa! Mas pelo menos os outros assuntos não rodaram sobre a minha pessoa, ou a de Eriol ou a de Syaoran. Falamos sobre futilidades da vida moderna feminina. Roupas, filhos, novelas, maquiagens estas coisinhas que nos tornam tão falantes e que os homens não entendem.
Chegamos um pouco atrasadas do almoço e quando eu sentei à mesa lá estava um post it amarelo berrante colado na tela do meu pc: "Preciso falar com vc. Eriol". O que seria? Respirei fundo e ajeitei um pouco a saia com que estava vestida, mas só por nervosismo mesmo. Tentei caminhar com passos firmes até a estação de trabalho dele. Bati de leve na divisória como se pedisse autorização para falar. Ele levantou os olhos para mim e sorriu.
'Queria falar comigo?'
'Sim. Puxe uma cadeira e sente-se. Temos o que conversar.'
Puxei a cadeira que estava num canto e sentei quase ao lado dele. Não queria ficar muito próxima, mas não havia muito espaço. Para meu desespero ele ainda puxou sua cadeira para ficar mais perto de mim!
'Acabei de receber um material para uma nova matéria e acho que você já tem condições de começar a trabalhar nela.'
O assunto começou a me interessar. Estava mesmo de saco cheio de ficar só lendo. Um dia e meio era mais do que suficiente para mim. Estava querendo mostrar meu potencial, o mais rápido possível. Forcei a vista para ler a matéria que estava aberta na tela do computador dele, já que tinha esquecido o óculos de leitura na minha mesa.
'Caos na Toudai.' Eu li em voz baixa o título. 'Não sabia que a universidade de Tókio estava com problemas.'
'Na verdade, não é a faculdade e sim os alunos.'
'O índice de suicídios aumentou?' Perguntei.
Eriol confirmou com a cabeça de leve. 'Pelo que anda acontecendo lá, daqui a pouco vai se morrer mais na Toudai do que por doenças cardíacas em Tókio.'
'Não sabia que a estatística estava tão alta assim. Pelo jeito ou os professores resolveram aumentar a média para se passar nas matérias ou o ecstasy é mais comum do que nos Estados Unidos.' Ponderei. Já havia lido inúmeras matérias sobre esta droga tão comum entre os jovens desta geração.
'É nisso que quero que trabalhe. Esta matéria tem previsão para sair daqui a dez dias. Acha que consegue?'
Se eu conseguiria? É claro que eu conseguiria! Ele estava falando com Sakura Kinomoto!
'Não se preocupe. Apenas disponibilize o que você tem na rede para eu trabalhar em cima, certo?'
'Claro.' Ele respondeu sorrindo.
Droga, por que ele tinha que sorrir tanto e de maneira tão sedutora? Levantei para ir até a minha mesa quando o ouvi me chamar.
'Estava pensando, você tem algum compromisso para hoje à noite?'
Arregalei os olhos de leve. Aquilo era impressão minha ou ele estava me convidando para um encontro? Balancei a cabeça levemente informando que não.
'Gostaria de ir jantar comigo? Abriu um ótimo restaurante que estou querendo conhecer, assim poderemos discutir os assuntos da matéria, desfrutando de um excelente jantar. Gosta de comida italiana?'
'Hã... claro.' Respondi tentando controlar a vermelhidão do meu rosto. Eu sabia, eu tinha certeza que estava vermelha. 'Eu nunca experimentei a culinária italiana, mas adoraria.'
'Que ótimo. Posso te pegar às oito?'
'Claro.' Falei virando-me para voltar à minha mesa. Quando o ouvi me chamando novamente.
'Eu preciso do endereço.'
Como eu sou estúpida! Sorri sem graça e escrevi o endereço de Syaoran num post it. Ele pegou o papel e novamente me lançou um daqueles sorrisos sedutores. Isso estava começando a ficar perigoso, muito perigoso. Agora, eu tinha que descobrir porque os alunos da Toudai estavam se matando e descobrir um jeito de convencer Syaoran a não contar para Touya sobre o meu encontro com Eriol ou eu é que seria morta.
Naquela tarde saí às cinco em ponto. Não que eu não tivesse mais nada para fazer, muito pelo contrário, mas tinha que colocar meu plano em prática. Fui até o supermercado que ficava no caminho e comprei o necessário que Syaoran havia pedido. Inclusive umas garrafas de saquê. Quem sabe ele bebia e assim ficava feliz. Conseqüentemente, não me delatava para Touya.
Como um furacão cheguei no apartamento arrumei tudo na geladeira. Fiz um yakisoba para o jantar e deixei no fogão. Assim que Li chegasse, ele esquentava e comia. Comeria, assistiria televisão, tomaria saquê e dormiria como um anjo. Pelo menos este era o meu plano. Era assim que Touya se comportava, então acredito que Syaoran não deva ser muito diferente. Era ignorante como o meu irmão, cavalo e grosso como o meu irmão, tinha que ser burro como o meu irmão também!
Entrei no banheiro e tomei um banho rápido. Saí rapidamente secando os cabelos, e tentei fazer uma escova. Homens adoram quando você joga seu cabelo de um lado para o outro fazendo poses sensuais. Como os meus cachinhos são naturais isso ficaria um pouco mais complicado. Dei uma bela alisada neles e me maquiei. Não de forma pudica, mas também não de forma berrante. Homens como Eriol gostam de refinamento e elegância. Abri o armário e observei todos os vestidos que eu tinha. Queria escolher algo apropriado e que causasse impacto num primeiro encontro. Escolhi um vestido azul marinho com decote canoa e de comprimento até um pouco abaixo dos joelhos. Com saltos altos ficaria perfeito. Alem de realçar o meu colo. Aí estava uma das vantagens de não ser esquelética!
Estava quase pronta para sair e feliz da vida, pois meu primo ainda não havia chegado. Porém quando estava cruzando a sala a porta se abriu. Por alguns segundos eu não sabia o que fazer. Olhei para os lados e apaguei a luz. Assim teria um tempinho para voltar para o meu quarto e me esconder até Syaoran entrar no quarto dele.
'Sakurinha.' Ouvi-o me chamar. Fiquei quieta. Eu não conseguia raciocinar direito nestas situações críticas. Ouvi o barulho de panelas e imaginei que ele foi dar uma olhada no que havia no fogão.
'Você leu meus pensamentos! Estava louco para comer um yakisoba e pelo jeito este aqui está muito bom.'
Por que ele não cala a boca e vai para o quarto? Por que ele simplesmente não pode ir para lá?! Colei meu ouvido na porta e escutei seus passos pelo corredor, assim que a porta do quarto fechou, abri uma frestinha e olhei desconfiada. Tirei os sapatos e caminhei na ponta dos pés em direção à porta principal. Eu sei! Vocês devem estar pensando que isso é ridículo! E é! Mas não queria me indispor com Syaoran. Bem ou mal, estou na casa dele de favor e eu sei, eu tenho certeza que se ele descobre vai correndo contar para o meu irmão. Vocês não conhecem o Touya... ele vem para cá e me arrasta até Tomoeda pelos cabelos! Não estou exagerando!
Estava quase alcançando a maçaneta, quando...
'Onde a senhorita pensa que vai?'
Senti meu corpo congelar e se espatifar em mil pedacinhos.
'E toda arrumada desta maneira! Vai a um encontro?'
Virei-me e o encarei. 'Hã... vou fazer uma entrevista. Isso! Vou fazer uma entrevista para a revista.' Até eu me surpreendi com a minha maravilhosa desculpa.
'Ah sim, uma entrevista às oito horas da noite?'
'Já são oito?' Perguntei assustada. Eriol foi criado na Inglaterra, será que tinha a tal famosa pontualidade britânica? Foi este pensamento correr pela minha cabeça e ouvimos o interfone tocar. Fiquei estática. Estava começando a entrar em pânico.
Li caminhou até o aparelho e o atendeu. 'Sim... Olá Zé... Eriol Hiraguizawa?... Certo... Peça para ele...' Ele me fitou de forma tão penetrante que por alguns segundos me senti completamente nua na frente dele. Instintivamente cruzei os braços sobre os meus seios. '... para que espere um pouco.' E dizendo isso desligou o aparelho.
'Então vai a um encontro com este tal de Eriol Hiraguizawa. É do seu trabalho?'
'Eu já disse que vou para uma entrevista.' Tentei continuar com a mentira.
'Vai entrevistar este tal Hiraguizawa?'
'Isso.'
Ele sorriu de lado. 'Sabe qual é a diferença entre o primeiro encontro e uma entrevista?'
Eu olhei para ele sem entender. Que tipo de pergunta era aquela?
'Nenhuma. O primeiro encontro é sempre uma entrevista.'
'Exagerado.' Sussurrei com uma certa raiva por ter sido descoberta. 'Bem, Eriol está me esperando e eu não posso deixá-lo plantado lá embaixo.' Falei por fim, virando-me para sair.
'Não se meta em confusão.'
'Eu sei me cuidar sozinha.' Falei abrindo a porta.
'Assim espero.' Ouvi-o sussurrar antes de cruzar a entrada do apartamento. Dei uma última olhada para ele e o vi ainda com o rosto sério. Droga, parecia que estava vendo o meu irmão me olhando quando saía com um garoto. Fechei a porta, coloquei os sapatos e dei uma corridinha até a escada. Desci os degraus quase pulando. Encontrei Eriol parado à portaria. Ele estava observando um quadro e tinha as duas mãos no bolso.
'Desculpe-me pela demora.' Falei aproximando-me dele.
Ele virou-se para mim e me fitou durante alguns segundos, alguns segundos que me pareceram uma eternidade. 'Está linda.' Limitou-se a falar, deixando-me completamente encabulada. Ele me ofereceu o braço de maneira cortês e eu, sem demora o enlacei e assim caminhamos até o carro dele. Ele abriu a porta do veículo para que eu pudesse entrar. Realmente, ele era tão diferente do Syaoran. Droga já estou pensando nele novamente! Sem querer levantei os olhos para a varanda de nosso apartamento e o vi de guarita lá em cima. Ai que raiva! Agora que havia me livrado de Touya, ele havia conseguido um substituto!
Desviei os olhos dele e virei para Eriol que havia entrado no carro e dado a partida.
'Espero que goste do restaurante.' Ele comentou.
'Confio no seu bom gosto.' Respondi sorrindo.
'Espero não desapontá-la, querida Sakura.'
Querida? Ai este homem não existe! Eu estou num sonho! Sim, só pode ser um sonho. Como um homem tão maravilhoso como aquele poderia cair de pára-quedas na minha vida? Bem, pensando friamente, eu é que cai de pára-quedas na revista dele... ah isso não importa! Como um homem poderia ser tão maravilhoso e tão incrivelmente envolvente?!
Ele colocou um cd de música clássica enquanto nos dirigíamos para o restaurante, conversávamos sobre a revista e sobre o meu futuro profissional. O melhor é que Eriol não prometia mundos e fundos, pelo contrário, fazia até algumas críticas sobre a minha maneira de escrever. Pelo menos me levar para a cama prometendo que eu subiria de cargo, ele não parecia tentar.
A conversa acabou se estendendo para o lado pessoal quando chegamos ao restaurante. O lugar realmente era muito aconchegante. Tinha aspecto de uma cantina na própria Itália. As mesas tinham toalhas quadriculadas nas cores branca, vermelha e verde, como a bandeira daquele país. Havia também um casal de jovens que para entreter os clientes tocava violão e cantavam músicas em italiano. Um lugar que inspirava romantismo. Eriol pediu uma lasanha e me recomendou o mesmo prato, além de pedir um vinho tinto para acompanhar. Estava fascinada com o rapaz sentado à minha frente. Logo o garçom trouxe a bebida.
'A sua carreira'. Ele falou para mim sorrindo e erguendo a taça.
'E ao começo de uma bela amizade.' Completei erguendo a minha taça. Amizade? Não era bem esta palavra que eu gostaria de falar.
'Que tal ao começo de um maravilhoso relacionamento?' Ele consertou como se lesse os meus pensamentos. Sorri antes de tocar de leve a minha taça na dele.
'Ao começo de um maravilhoso relacionamento.' Repeti e depois tomei um gole do vinho. Eriol fez o mesmo não desviando os olhos de mim. Senti a temperatura do meu corpo subir um pouco e eu só tinha bebido um gole de vinho.
'Conte-me como resolveu virar jornalista, Sakura?'
Sabe aquela velha história que os homens sempre falam que mulher adora falar pelos cotovelos? Principalmente quando encontram alguém que finge ouvi-las? Então, acho que eu encontrei esta pessoa e ele fingia muito bem! Acabei contando minha vida desde o segundo grau até os dias de hoje. Às vezes ele comentava algumas passagens ou fazia umas brincadeirinhas que me faziam rir.
O garçom serviu nossos pratos e eu pude experimentar a culinária italiana. Eriol tinha razão, era deliciosa! Pena que massa é um veneno assim como o açúcar, à boa forma. Tudo bem, amanhã tentaria moderar um pouco nas refeições e compensaria o excesso de calorias que estava ingerindo. O sacrifício valia a pena. E como!
Assim que acabamos de jantar. Ficamos tomando vinho e apreciando as melodias que os músicos tocavam e cantavam. Eu não entendia patavinas, mas não podia negar que havia o seu charme. Até que uma me chamou a atenção.
Realmente era bonita. Depois perguntaria para a jovem quem era o autor. Meu conhecimento em italiano era praticamente zero. Sabia apenas que os italianos falavam alto e gesticulavam muito, bem também tinha um gostosão chamado Paolo "algumas coisa", que era o capitão do time de futebol... acho que os italianos não iam gostar muito de saber que eu tinha um jogador de futebol como referência à cultura deles, melhor esquecer esta história de italianos! Estava vivendo um momento muito sensível de minha vida, provavelmente os italianos não iam me ajudar a resolvê-lo. Sentia-me melhor agora depois de alguns minutos sozinha e pensando sobre os italianos. Tentei manter a compostura e voltar a me encontrar com Eriol. Aquilo não poderia de maneira nenhuma interferir em nossa relação profissional. Misturar prazer e trabalho era como misturar fogo e pólvora, sempre sairá mortos e feridos. Saí de Tomoeda para vencer e eu venceria.
O despertador tocou como louco na mesinha de cabeceira. Abri um dos meus olhos e levantei um braço batendo no pobre relógio com mais força do que ele merecia. Rolei para o lado e tampei a cabeça com o travesseiro achando que assim poderia dormir mais alguns minutinhos. Os primeiros dez minutos do dia eram sempre os piores para mim.
Não podia negar, agora estava com medo de encarar Eriol novamente. Ao mesmo tempo que eu gostaria que tivesse rolado aquele beijo, eu adoraria ter recusado o convite, assim não estaria agora na cama sentindo-me mal por ter acontecido ou melhor, não ter acontecido. Na verdade, se tivesse ou não acontecido aquele beijo, eu estaria na mesma situação.
'Chegou ontem depois da meia-noite e agora não consegue acordar para ir trabalhar! Isso é coisa que se faça?! Eu pensei que as garotas do interior eram mais certinhas, mas vejo que você sempre foge à regra, não é Sakura?'
Deus, até em pesadelos eu consigo escutar a voz irritante daquele ser horrendo que infelizmente é meu primo. Por que eu não posso sonhar com Eriol? Ouvir a voz dele suave e melodiosa... é tão bom...
De repente senti as colchas que estavam por cima de mim aquecendo meu corpinho serem arrancadas. Arregalei os olhos e sentando-me na cama rapidamente, encarando Syaoran com minhas cobertas nas mãos.
'Não vou dividir meu apartamento com uma preguiçosa. Se quis sair ontem para a night agora é bom agüentar o tranco e ir trabalhar.' A voz dele era séria.
'Está se metendo onde não deve, Syaoran.' Minha voz saiu baixa e ameaçadora. Quem ele era para mandar em mim? Parecia o meu pai me chamando quando eu tinha sete anos de idade para ir ao colégio. Droga, agora eu era uma mulher!
'Levante-se já daí, Sakura! Já são sete horas!'
Estiquei-me até alcançar as colchas das mãos dele e as puxei com raiva. 'Deixe-me em paz!' Porém ele as agarrou impedindo que eu as recuperasse. Parecia que estávamos brincando de cabo de guerra. Mas nesta guerra eu é que venceria.
'Já falei para se levantar! Você não completou nem uma semana no trabalho, já está saindo com o seu chefe e chegando atrasada.'
'Quem lhe disse que Eriol é o meu chefe?!' Falei puxando com mais força as colchas.
'Eu tenho as minhas fontes, Sakurinha. Nada passa por mim despercebido.'
'Pois não se meta na minha vida! Você não tem este direito.'
'Eu sou o responsável por você. Se você aparece grávida como acha que vai ficar a minha cara?'
'Se eu estiver grávida o problema é meu!'
'Não! O problema é meu! Pois o seu irmão vem aqui, mata você, mata este tal de Eriol e por tabela me mata também.'
'Você está exagerando!'
'Estou sendo realista! Meninas bobinhas como você são fáceis de se levar para a cama. Qualquer um consegue em menos de duas horas de papo mole.'
'Está me chamando de promíscua?'
'Estou lhe chamando de burra!'
'Eu te odeio!' Gritei puxando com toda a minha força as colchas da mão dele. O filho da mãe as soltou e eu voei longe caindo da cama, quicando umas duas vezes no chão e finalizando, espatifeui-me na parede com as colchas por cima de mim.
'Eu não disse que você continua uma bobona.' Ele falou virando-se e caminhando em direção a porta. 'Quero você pronta em cinco minutos para tomar o café. E não se atrase!' Ele saiu e fechou a porta com força.
Ser insuportável! Chato! Metido! Irritante! Eu não tinha mais adjetivos para expressar toda a raiva que eu estava dele agora. Se eu tivesse que preparar o café em vez de açúcar colocaria cianureto! Como ele podia fazer isso comigo?! Tratar-me como se eu fosse uma criança! Uma menininha boba! Eu era uma mulher adulta! Se eu quisesse "dar" para o Eriol o problema era meu! Tentei me livrar das colchas que estavam sobre mim e com a raiva acabei me enrolando mais nelas. Parecia que agora tudo estava contra mim! Até as malditas colchas!
Levantei contrariada e caminhei até o banheiro onde tomei um rápido banho. Vesti um jeans e uma camiseta básica, pois hoje eu iria até a Toudai para fazer uma pesquisa de campo para a matéria que estava trabalhando. Seria bom ir de forma simples para me misturar aos universitários. Cheguei na sala amarrando meus cabelos num rabo de cavalo. Li já tinha servido o café da manhã e estava sentado lendo o jornal. Ele levantou os olhos para mim e me fitou. Lá vinha mais um comentário sobre a minha roupa com certeza.
'Vai trabalhar assim? Acho que fiz besteira em ter comprado aquele monte de roupas para você.'
Eu não disse? Como ele é previsível. Caminhei decidida a não trocar nem uma palavra com ele por pelo menos um mês. Era assim que eu agia quando éramos mais novos e era assim que eu faria. Fui até a cozinha e me sentei ao lado dele para tomar o café. Com certeza ele iria retrucar novamente. Olhei para o meu relógio de pulso e comecei a cronometrar o tempo.
'Você tem que aprender a ser mais profissional. Não posso ficar cuidando de você.'
Três minutos. Nossa, acho que os anos o deixaram mais impaciente. Antes eu me lembro que ele agüentava pelo menos uns vinte minutos até me dirigir a palavra depois de uma briga. Não respondi.
'Tókio não é Tomoeda. Aqui há pessoas de todos os tipos. As boas e as más. E além disso, ninguém conhece o seu pai aqui para quando você se meter numa confusão ele vir lhe socorrer na hora. Aqui é cidade grande e não aquele feudo que é Tomoeda.' Ele continuava a falar. Fingi completa indiferença. Como não fiz chá, tomei um copo de leite desnatado. Tinha que reduzir as calorias hoje para compensar as que eu ingeri ontem com a lasanha.
'Os homens da capital, não são tão honestos e respeitadores como os do interior. Lá você sabe com quem está lidando, mas aqui não é assim...'
Ah, então foi por isso que ele caiu fora de Tomoeda. Em Tókio ele poderia transar com qualquer mulher sem se preocupar. Como ele era nojento. Fiz uma careta de nojo antes de beber mais um gole de leite.
'Se você tivesse acordado antes, teria tempo para preparar um chá em vez de tomar leite.'
Eu ia responder, mas tentei me manter firme. Não ia discutir com ele novamente. Assim que eu terminei o café, tirei minhas coisas e fui lavar a louça. Ouvi-o dando um longo suspiro, imaginei que finalmente tinha se dado por vencido e que não adiantava ele ficar me falando por toda a eternidade, eu não prestaria atenção nele!
Senti-o parando ao meu lado e colocando a louça do café dele na pia. 'Se fizer mais uma loucura como a de ontem eu juro que lhe dou umas palmadas, Sakura. E não duvide disso.'
O QUÊ?!!! Quem ele pensa que é para me ameaçar com umas palmadas?! Meu pai?! Fitei-o finalmente com os olhos em chamas. Ele se abaixou até ficar com o rosto na altura do meu. Parecia que dos nossos olhos saíram raios que se chocavam entre nós.
'Não duvide...' Repetiu devagar.
'Experimente.'
'Experimente você, sair novamente com este tal Eriol e voltar tarde da noite.'
'Você não é meu pai!'
'Aqui eu sou o seu pai, sou seu irmão, sou tudo que você quiser pensar.' Ele retrucou afastando-se para voltar ao seu quarto e terminar de se arrumar. Fiquei com tanta raiva que me senti tentada a jogar uma xícara na cabeça dele, mas tentei me controlar. Olhei para o relógio rapidamente e vi que realmente estava atrasada. Queria passar na redação antes de ir para a Toudai. Lavei a louça correndo, xingando meu primo de tudo quanto era coisa do mundo. Tudo quanto era coisa ruim, suja, nojenta e etc do mundo. Assim que terminei, sequei as mãos e fui até o banheiro escovar os dentes. Li estava fazendo a barba. Fiquei na dúvida se ia ou não escovar os dentes agora.
Bem a higiene venceu. Fui até a pia e ele deu um passo para o lado abrindo espaço para mim. Escovei os dentes, tentando não olhar para o reflexo do meu primo no espelho, mas era inútil eu o encarava com raiva, imaginando coisas terríveis que eu poderia fazer com ele. Poderia aplicar um belo susto durante a noite, ou quem sabe roubar o cartão de crédito dele e gastar em bobagens, poderia tacar fogo nos papéis que ele carregava dos casos, ou derramar "sem querer" coca-cola no laptop dele.
'Por que está rindo?' Ele me perguntou.
'Você nem imagina...' Respondi de forma sarcástica. Antes de bochechar água e cuspir fora. Peguei a toalha e sequei o rosto. Ele tinha acabado de fazer a barba e estava colocando a loção pós barba. Desejei que ela ardesse muito na cara dele.
Acabei saindo na mesma hora que ele, para minha infelicidade. Descemos as escadas juntos, mesmo eu tentando descer mais rápida parecia que ele apressava o passo de propósito.
'Eu levo você até a revista.' Ele falou quando chegamos à portaria.
'Não precisa.' Na verdade eu precisava mesmo ou chegaria atrasada, mas não ia falar isso para ele. Nem sob pena de morte.
'Pára de ser criança. O ônibus só vai passar daqui a 10 minutos, você vai chegar atrasada.'
'Anda muito preocupado com a minha vida profissional, Syoaran.'
'Pelo menos alguém tem que se preocupar com ela. Agora para de show e vamos logo.'
'Eu já disse que vou de ônibus.' Respondi determinada j cruzando a alça da bolsa no meu corpo e correndo em direção ao ponto. Ouvi Syaoran falar alguma coisa, mas não fiz questão de entender. Quando dei por mim estava correndo pela calçada desviando dos transeuntes que atrapalhavam a minha vida. 'Licença.' Pedia empurrando de leve as pessoas que andavam distraidamente pela calçada sem pressa alguma. Este pessoal que não trabalha... aí fica atrapalhando os outros que querem trabalhar.
'Olha a pressa!' Ouvi um senhor falando assim que eu esbarrei nele.
'Desculpe.' Falei virando-me de leve e o vendo sobre os olhos, foi apenas este momento de distração e...
POFT! BUMMMMMMMMM!
Fui com tudo em cima das latas de lixo que estavam indevidamente colocadas na calçada. 'Inferno!' Gritei indignada com aquilo. Levantei-me tentando não olhar para os lados e presenciar os outros rindo do meu tombo. Voltei a correr. Assim que olhei para o ponto ainda avistei o ônibus parado! Obrigada meu Deus!!! Agradeci na hora e apressei o passo para pegar o ônibus. Syaoran havia se ferrado! No final, eu tinha tudo sobre controle!
Quando estava próxima do ônibus, no entanto, ele começou a se mover.
'Espera!!!' Gritei tentando correr atrás. Porém o motorista filho da P... (censurado) não parou e seguir em frente. 'Pare este ônibus!!!' Gritei correndo ao lado do veículo em movimento e batendo na lataria. 'Seu filho da mãe, para este ônibus!' Ordenei sem sucesso.
Parei de correr olhando revoltada o ônibus vindoindo para o meio da rua e seguindo seu itinerário, e eu... bem, eu estava ali, parada, suada, suja e principalmente, fula da vida. Se eu pudesse eu juro que matava o motorista. O que custava ele parar para eu entrar. Senti um carro parando ao meu lado, e só aí eu me dei conta que estava fora da calçada.
'Sakura.' Ouvi a voz do meu primo me chamando. Estava eu vivendo um pesadelo desde que acordei e ainda minha cabeça me pregava estas peças fazendo eu ouvir vozes... ou melhor, uma voz apenas, a do insuportável do meu primo.
De repente ouvi a buzina estridente do carro, saltei para o lado e foi então que eu percebi que o veículo que havia parado ao meu lado era o carro de Syaoran.
'Entra logo neste carro.' Ele não pediu, ele ordenou.
Eu adoraria dizer que não e sair correndo novamente, mas olhei rapidamente para o relógio e vi que não daria para esperar outro ônibus e ir correndo até o prédio seria mais loucura ainda. Suspirei desanimada e entrei batendo a porta e cruzei os braços como uma criança emburrada indo para a escola pela manhã sem ter feito o dever de casa.
'Está fedendo a lixo.' Ele falou depois de fungar um pouco,
'Sem comentários, Syaoran.' Respondi atravessada.
Ainda bem que não pegamos engarrafamento, o bom de tudo isso é que não iria chegar atrasada, mas em compensação tive que suportar ficar no mesmo carro que ele, pelo menos foram poucos minutos. Li parou em frente ao prédio onde era a revista e eu saltei. Bati a porta e o fitei pela janela. 'Valeu pela carona.' Agradeci, bem ou mal, meu pai me deu educação.
'Não foi nada, Sakurinha. Mas pelo menos lave as mãos quando chegar no trabalho está bem?'
Mostrei a língua para ele. 'Quando vai parar de me chamar de Sakurinha? Poxa, eu já tenho 25 anos e você me trata como se tivesse 10 anos.'
Ele sorriu para mim. 'Para mim, você sempre terá 10 anos.' Dizendo isso ele partiu como o carro me deixando boba. Como ele poderia pensar isso de mim? Tudo bem que convivemos até os meus 13 anos, mas ficamos muito tempo sem nos ver. Será que eu havia mudado tão pouco assim?
'Hei Sakura! Tudo bom?!'
Virei para onde me chamaram e encontrei Tomoyo caminhando até mim. 'Bom dia, Tomoyo.'
'Era o seu primo aquele rapaz que a deixou aqui?'
Eu concordei com a cabeça.
'Nossa ele é um gato!'
Fiz uma careta. Gato? Ele estava muito mais para cachorro do que para gato.
'Por que está vestida assim?' Ela perguntou enquanto caminhávamos para a entrada do prédio.
'Vou a Toudai hoje. Quero dar uma olhada para ver se descubro alguma coisa a mais que tenha passado desapercebida pela policia.'
'Ah então Eriol lhe deu a matéria sobre os tais suicídios.'
'Isso mesmo.' Falei apertando o botão do elevador. 'Só vim aqui para pegar minhas coisas e estou indo direto para lá.'
'Gostaria tanto de ir com você.'
Ergui uma sobrancelha fitando a jovem fazendo biquinho. Ri um pouco. Tomoyo era incrivelmente excêntrica, mas era doce e educada, além de belíssima. 'Quer ir comigo? Se não tiver nada para fazer... acho que Eriol não vai se opor.'
'Eu posso?!' Ela gritou segurando as minhas mãos. Os olhos dela brilhavam como duas estrelas. Olhei sem graça para os lados e vi que a explosão de alegria chamou mais a atenção do que eu queria.
'Claro...' Falei baixinho tentando soltar minhas mãos das dela.
'Ah que maravilha! Vou aproveitar e dar uma olhada na moda jovem da universidade de Tókio! Iremos nos divertir muito, Sakura!'
Estava começando a me arrepender de tê-la convidado. Bem, agora já estava feito. Entrei na redação rezando para não encontrar com Eriol. Está bem, eu sei que não adiantava fugir. Ele é meu supervisor e mais cedo ou mais tarde eu teria que enfrenta-lo depois do que aconteceu ontem, porém eu já tinha me indisposto demais nestas poucas horas do dia. Era melhor deixar para encontra-lo mais tarde, quem sabe amanhã.
Entrei no escritório e fui direto para o banheiro lavar as mãos como meu primo havia sugerido. Também consegui dar um jeito no meu cabelo que estava completamente desalinhado por causa da corrida. Depois de melhorar a aparência, fui até a minha mesa cumprimentando o pessoal por quem eu passava. Abri o gaveteiro e retirei meu bloquinho de anotações, lapiseira, um aparelho de MD para gravar tudo e a minha máquina fotográfica digital. Coloquei tudo na minha enorme bolsa e levantei já pronta para ir embora quando me deparei com quem eu menos queria: Eriol. Instintivamente me abaixei na mesa fingindo que estava procurando alguma coisa no chão. Vai que ele passava direto e nem percebia a minha presença ali. Olhei pela fresta da minha estação ele passando e cantei vitória antes do tempo pela minha idéia ter dado certo. Nakuru resolveu parar e conversar com ele quase em frente a minha mesa! Droga! Não ia poder ficar ali pelo resto da manhã. Comecei a pensar em ir engatinhando até o outro lado e só lá me levantar, assim era capaz de Eriol não me ver.
Estava resoluta a fazer isso quando...
'Você viram a Sakura?' Tomoyo veio me procurar pois estava demorando muito e havia marcado só cinco minutos para nos encontrarmos novamente. Comecei a ficar desesperada. Eu era covarde para estas coisas. Agora, ou eu levantava e fingia que nada tinha acontecido ontem nem hoje ou eu continuava agachada e fingia que não estava ali.
'Eu acho que ela ainda não chegou.' Ouvi Nakuru respondendo. 'Aposto que ontem ela foi para a gandaia e não conseguiu acordar hoje.'
Ouvi Eriol pigarrear um pouco, provavelmente ele estaria tão ou mais constrangido do que eu. Era melhor eu ficar agachada e deixar ele passar primeiro.
'Não! Eu subi com ela. Ela disse que ia pegar algumas coisas na mesa dela e a gente ia para a Toudai.'
'Ué? Você também vai?' A voz de Eriol me pareceu surpreendida.
'Eu vou só acompanhá-la e vou aproveitar para dar uma olhada na moda jovem. Quem sabe eu também não traga algum material de lá.'
'Bem, na mesa dela, ela não está. Quem sabe foi ao toalete.' Foi Eriol quem respondeu.
'Ou deve estar escondida debaixo da mesa!' Nakuru falou.
Eu gelei! Por alguns segundos eu pensei que ia ter um ataque cardíaco. Isso, eu podia fingir que havia tido um ataque cardíaco. Comecei a suar frio, se me pegassem realmente escondida debaixo da mesa no mínimo iriam me chamar de louca! Deus, eu não estava nem há uma semana trabalhando e já ia ser despedida por incapacidade mental de exercer as funções para que fui contratada!
'Foi só brincadeira!' A afirmação de Nakuru me acalmou... aparentemente me acalmou. Resolvi começar a engatinhar em direção a outra estação e tentar passar desapercebida.
Avancei pela redação aos poucos, olhando para os lados. Ouvia ainda Eriol, Tomoyo e Nakuru conversando. Se me pegassem engatinhando pela redação, com certeza estaria ferrada. Não precisava de mais nada aquele dia do que ser despedida por colocarem à prova a minha sanidade mental. Nakoro aproximava-se pela direita, forçando-me a abaixar um pouco mais para tentar passar desapercebida. Consegui! Ela estava tão ocupada lendo alguma coisa que não percebeu a minha presença no chão. Estava quase obtendo sucesso na minha missão quando deparei-me com um enorme par de sapatos lustradíssimos na minha frente. Levantei devagar o rosto, observando as pernas, o corpo e finalmente o rosto do meu obstáculo. E que obstáculo!
'Sakura?'
Levei o dedo indicador até os lábios pedindo com um gesto para que Fantomas ficasse em silêncio. O rosto dele estava entre o espanto e o riso. Engatinhei mais alguns metros até levantar atrás de um painel. Sorte que a redação ainda estava um pouco vazia e eu fui discreta. Levantei batendo um pouco as mãos na calça jeans para limpá-las, pelo jeito as faxineiras não estava fazendo o trabalho direito.
'Well, welll, well... será que agora a senhorita Sakura Kinomoto pode me explicar o que está acontecendo?'
Virei-me para ele e sorri sem graça. O que eu poderia falar para ele? Que estava fugindo do meu supervisor porque ontem eu lhe dei um tocão(1)? Precisava ser mais criativa.
'Eu estava verificando as condições do piso na redação. Sabia que eu quase caí?!' Abaixei e puxei uma das pontas do carpete – Ah sim, esqueci de mencionar para vocês que lá os carpetes são pequenos quadrados, como azulejos, que são colados com uma cola especial. Como toda a fiação passa por baixo eles podem ser retirados para que assim possa se fazer reparos e depois recolocam os pedaços de carpetes. Maravilhas da arquitetura japonesa, ou melhor, americana... – e levantei para ele ver. 'Eu podia cair e quebrar uma perna! Poderia ficar dias improdutiva! Já pensou nisto?'
Ele ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços sobre o peito. 'Você quer realmente que eu acredite nisto?'
'Bem, você pode pensar também que eu sou louca.'
Ele soltou uma longa gargalhada chamando a atenção de quase todos. Pronto! Meu plano de sair desapercebida por Eriol tinha ido para o espaço sideral. Virei rapidamente o rosto e o vi olhando para mim. Suspirei desanimada.
'Ok. Ok. Hoje realmente o dia não começou bem para mim.' Resmunguei baixinho.
'Oras, se aceitar o meu convite para vermos a pré-estréia de Homem-Aranha 2 aposto como o seu dia terminará maravilhosamente bem.' Fantomas falou colocando um dos seus braços sobre meus ombros e sorrindo de forma a tentar ser sedutor. Pelo menos ele me fez rir um pouco.
'Quem sabe um outro dia. Poderíamos ir no final de semana com as gurias. Aposto que você como um crítico conceituado conseguiria ingresso para todas nós.'
Ele sorriu amarelo. Fiquei na pontinha dos pés e dei um estalado beijo na bochecha dele, deixando-o sem graça. 'Tchauzinho, Fantomas.' Falei caminhando até a entrada da redação onde Tomoyo já me esperava. Virei-me rapidamente para Eriol e lhe dei um rápido aceno com a mão antes de entrar no elevador.
Fomos no carro da Tomoyo até a faculdade de Tókio. Ela era enorme. Nunca havia imaginado um complexo de prédios tão majestosos e imponentes. Estacionamos o carro e paramos em frente à entrada principal observando os milhares de jovens que entravam e saíam da famosa Toudai.
'Putz, há milhares de jovens, não é a toa que alguns resolvam se suicidar.' Cometei apreciando aquele mar de rostos juvenis.
'Infelizmente onde há tantos jovens é um verdadeiro mercado consumidor para os traficantes.'
'É isso que eu também penso em relação aos suicídios.'
'Bem, por onde vamos começar?!' Tomoyo falou batendo com as duas palmas das mãos. Por algum motivo achei que ela estava muito mais empolgada do que eu nesta matéria. 'Eu adoro aventura!'
Ri um pouco e comecei a caminhar em direção à entrada. 'Eu marquei uma entrevista com o reitor da Toudai. Falei com ele ontem e marcamos pela manhã. Quem sabe ele não possa me esclarecer alguns pontos?'
'Muito bom, Sakurinha!'
Eu parei de caminhar imediatamente. Sakurinha me lembrava imediatamente o insuportável do meu primo e ele era a última pessoa que eu gostaria de lembrar no momento. 'Tomoyo, vamos fazer um trato? Eu deixo você vir comigo e você não me chama em hipótese alguma de Sakurinha.'
Ela concordou com a cabeça apesar de não ter entendido nada. 'Eu pensei que era o seu apelido.'
'E é! Mas eu odeio!' Minha voz saiu um pouco alta demais.
'Está bem, está bem! Não está mais aqui quem a chamou de Sakuri... Ah deixa para lá.'
Resolvido nosso pequeno problema entramos na Toudai, tentando desviar dos alunos que caminhavam em grupos ou correndo pelos corredores da enorme faculdade.
'Onde será a reitoria?' Tomoyo cochichou ao meu ouvido.
'Eu também não sei. Eu sabia que tinha me esquecido de perguntar alguma coisa ontem para o reitor Tsumoto.' Falei batendo de leve com a palma da mão na minha testa.
'Então vamos perguntar para alguém.'
Paramos de caminhar e olhamos para os lados, os estudantes pareciam um bando de formiguinhas trabalhadeiras. Caminhavam de forma rápida e não ouviam nada. Tentei chamar uns três estudantes em vão, foi quando de repente senti ser empurrada forte por alguém resultando numa queda espetacular no chão da faculdade! Acho que eu fui arrastada por quase dez metros pelos corredores. Tudo ficou quieto. Senti todo o meu corpo dolorido e um peso por cima de mim.
Abri um dos meus olhos e observei um rapaz sobre mim. Ele estava entre minhas pernas e com o rosto entre os meus seios. Ele levantou o rosto e consertou os óculos quadrados.
'Hã... m-me desculpe, senhorita.' Desculpou-se começando a ficar vermelho.
'Dá para sair de cima de mim?' Falei tentando empurrar o rapaz que estava mais sem graça do que antes e por isso não conseguia sair de cima de mim. Estávamos no chão no meio de um monte de alunos que pararam para nos ver. Senti minhas bochechas queimarem. Detestava ser o centro das atenções.
'KEITARÔ!!!!!!!!!' Um grito estridente fez com que todos virassem o rosto. Alguns estudantes deram uns passos para trás, abrindo espaço para uma bonita menina de longos cabelos. Arregalei os olhos vendo o rosto dela. Tive a impressão que ela fosse pular no meu pescoço.
'Na-Naru...' O rapaz gaguejou, tremendo.
'O que você está fazendo no chão em cima desta garota?!'
O rapaz finalmente saiu de cima de mim e Tomoyo veio em meu auxílio. Porém meus olhos estavam fixos no casal de jovens a minha frente.
'Você não tem jeito, não é Keitarô?! A gente brigou ontem a noite e hoje você já está rolando no chão com a primeira garota que esbarra na faculdade!' A guria realmente parecia nervosa.
'Não é nada disso que você está pensando, Naru!'
'É claro que é!' Arregalei os olhos vendo a garota dar um soco de direita em cheio na cara do rapaz. Nossa, a juventude de Tókio é bem violenta. O rapaz voou uns cinco metros até se espatifar na parede mais próxima e escorregar devagar até o chão com estrelinhas em volta da cabeça. Virei-me para a menina que batia as palmas das mãos com pose de vitoriosa, porém ela me fitou de forma tão assassina que eu cheguei a segurar a braço de Tomoyo com medo. Por alguns segundo pensei que não estava havendo suicídio em Toudai e sim assassinatos. Aquela garota era a própria serial killer.
'Olha só novata! O Keitarô é meu noivo, por isso é melhor ficar longe dele!'
'Seu noivo?!' Perguntei incrédula.
'Isso mesmo! Ele é meio desajeitado assim, mas é meu noivo! E eu passo por cima de qualquer uma que se engraçar para ele.'
Agora eu realmente me agarrei no braço de Tomoyo com medo daquela garota.
'Naru... não precisa ficar com ciúmes. Eu caí sem querer em cima dela.' A voz arrastada do rapaz me fez virar rapidamente para trás. Ele caminhava em nossa direção com um olho roxo e sem um dos dentes da frente. 'Você sabe como eu sou distraído.'
A jovem começou a ficar vermelha e deu um sorriso amarelo para mim e para Tomoyo. Ela deu um passo a frente fazendo instintivamente nós duas darmos três passos para trás, com medo do punho potente dela. Se ela conseguiu fazer aquele rapaz voar, imagina o que faria comigo?!
Ela fechou os olhos e coçou a cabeça sem graça. 'Me desculpe. Eu pensei que você e o Keitarô estavam se beijando.'
'Imagina se estivéssemos...' Sussurrei ao ouvido de Tomoyo.
O rapaz parou ao lado da menina e beijou rapidamente a bochecha dela a deixando vermelha e meiguinha. Nossa, esta garota tem problemas sérios de mudança de humor. Eles nos fitaram novamente. 'Vocês são calouras?'
'Não... somos jornalistas de uma revista mundialmente conhecida e conceituada! Somos duas investigadoras de elite, quee viemos averiguar a onda mórbida de suicídios que anda acontecendo em Toudai. É hora da Card Captor Sakura Kinomoto entrar em ação!'
Tanto eu quanto o casal e alguns estudantes olhávamos bobos para Tomoyo que retirou rapidamente sua câmera de dentro da bolsa e começou a me filmar. Realmente, hoje não estava sendo o meu dia.
'Faz umas poses para mim, Sakura! Você fica tão encantadora sendo filmada!'
Deus! Eu só trabalho com gente louca!!!! Rodei os olhos, impaciente. 'Pára com isso, Tomoyo.'
Ela desligou a filmadora e fez biquinho. Minha vida desde que eu cheguei a Tókio está parecendo um filme de Woody Allen. Aqueles completamente sem nexo!
'É verdade que são repórteres?' Naru aproximou-se de nós com os olhos brilhando. Tomoyo acenou que sim com a cabeça. 'Será que eu poderia sair na reportagem? Eu faço tudo que vocês quiserem! Juro!'
Se a gente precisasse de um guarda-costa com certeza eu a contrataria! Que punho potente que aquela garota tinha!
'Meu nome é Naru Narusegawa e este daqui...' Ela literalmente puxou o rapaz, quase fazendo-o cair. '... é meu noivo, Keitarô Urashima.'
'Eu sou a repórter Tomoyo Daidouji e minha amiga aqui é a poderosa Sakura Kinomoto!'
Poderosa? Tomoyo se empolga demais com as coisas. Da onde ela tirou este poderosa?
Keitarô pegou minhas mãos e me fitou quase chorando. 'É uma honra conhecer uma repórter tão famosa como você, senhorita Kinomoto. E tão bonita!'
Rapidamente dei um jeito de puxar minhas mãos que estavam entre as dele, eu não queria ser a próxima a ser jogada contra a parede.
'Será que vocês poderiam me dizer onde fica a reitoria?' Perguntei tentando finalmente sair de perto daquele casal doido.
'Eu levo vocês até lá!' Naru falou agarrando o meu pulso e caminhando pelo corredor. 'Aí, depois vocês tiram uma foto bem bonita minha e do Keitarô e colocam na reportagem, está bem?'
Não pude fazer muita coisa a não ser apresar o passo e ir junto com Naru, Tomoyo e Keitarô até a reitoria. Subimos alguns lances de escadas até chegar a um andar silencioso. Meus ouvidos agradeceram imensamente. Não agüentava mais aquele falatório dos corredores. A Universidade de Tomoeda não era tão barulhenta assim, apesar de que era bem menor.
'Aqui estamos!' Naru exclamou me empurrando levemente para frente. 'A sala do Reitor! Vocês precisam falar com a senhorita Cho antes de falar com o reitor Himura.'
'Certo. Obrigada pela ajuda, Naru.' Agradeci rezando para ela ir embora agora.
'Olha vai ter uma festa sexta à noite dos estudantes. Como eu sou uma das organizadoras, vou dar dois convites para vocês. Quem sabe vocês não passam lá e podem descobrir alguma coisa?' Ela falou piscando para mim e me entregando os dois convites. Oras, até que a idéia não era de todo ruim. Numa festa de estudantes eu poderia recolher algum material muito bom para a reportagem.
'Obrigada, Naru. Com certeza iremos, não é Tomoyo?'
'Ah sim! E tiraremos muitas fotos!'
A jovem sorriu para nós feliz. Ela queria mesmo sair na revista!
'Hei Naru! Keitarô!' Chamei-os antes que saíssem. Caminhei até eles e me inclinei levemente para frente para falar baixinho. 'Só tem uma coisa, eu gostaria que isso ficasse em segredo. Estamos fazendo uma investigação muito importante e sigilo é fundamental.'
Naru sorriu para mim e passou os dedos nos seus lábios como se estivesse fechando um zíper. 'Minha boca é um túmulo.' Ela declarou. Virei-me para Keitarô que fazia o mesmo gesto que a noiva.
'Obrigada! Encontro vocês sexta à noite então.'
'Tchau!' Naru falou puxando Keitarô com ela. Observei os dois afastando-se enquanto conversavam e riam juntos. Aquele casal era muito estranho... mas apesar de tudo, no final me pareceram simpáticos. Desviei os olhos para o par de convites que tinha na mão e bati-os de leve na palma da outra mão. Aquilo ali vinha bem a calhar!
Bem, depois desta confusão toda, conseguimos chegar até o reitor da Universidade de Tókio. Infelizmente nossa conversa com ele não foi muito produtiva. Ele falou a mesma coisa que eu li no relatório oficial da polícia. A única vantagem é que ele permitiu que eu e Tomoyo também pudéssemos ver as fichas dos alunos. Todos eram estudantes normais, o que tornava tudo muito mais complicado. Não havia um padrão em si. Qualquer estudante poderia ser um potencial suicida. O jeito era desviar a investigação para outro campo. Resolvi que falaria com a polícia e depois de recolher todos os dados procuraria um bom psicólogo... ou melhor, acho que procuraria logo um psiquiatra! Assim teria bastante material para a reportagem.
Sai do prédio da reitoria da Toudai um pouco mais animada. Carregava algumas anotações sobre os alunos, além das declarações do reitor. Tomoyo tirava algumas fotos.
'Hei que tal almoçarmos na cantina da faculdade?' Sugeriu Tomoyo.
Ponderei que era uma boa idéia. Estava realmente com fome. 'Vamos lá!'
Caminhamos até lá e sentamos numa mesinha entre tantas, cheias de estudantes animados. Senti-me novamente na época que cursava faculdade. Tomoyo foi até o balcão para comprar sanduíches e coca-cola. Estávamos comendo quando um grupo grande de estudantes se aproximou fazendo algazarra. Um estacionou o carro bem próximo e ligou o som alto.
All the things she said
All the things she said
Running through my head
All the things she said
All the things she said
Running through my head
This is not enough
'Pessoal empolgado.' Comentei antes de morder meu sanduíche.
'São jovens.'
'E precisam fazer esta bagunça toda?'
'Você é muito séria, Sakura!'
'Não é isso, gosto de música! Falei inclinando o meu corpo um pouco para frente para falar baixo. 'As cantoras desta banda são sapatãos.'
Tomoyo riu um pouco. 'Tem alguma coisa contra relacionamentos homossexuais?'
'Eu?!' Perguntei franzindo a testa. Era claro que eu tinha tudo contra relacionamentos homossexuais. Por alguns segundos imaginei o meu primo com marias chiquinhas e roupinha de colegial sexy. Estava começando a sentir o estômago revirado. Só não sabia se era por causa da minha visão de Syaoran gay ou por causa da maionese do sanduíche.
I'm in serious shit, I feel totally lost
If I'm asking for help it's only because
Being with you has opened my eyes
Could I ever believe such a perfect surprise?
'Você tem que ter a mente mais aberta.'
'Ah que é isso, Tomoyo! Como uma mulher pode sentir prazer com outra mulher? Isso é ridículo!
'Não pode falar se nunca experimentou.'
Arregalei os olhos fitando Tomoyo que mordia novamente o sanduíche. Ela era lésbica? Será? Será que ela estava interessada em mim? Ai meu Deus!
'Não precisa ficar nervosa. Ser lésbica é uma opção sexual de momento, apenas isso.'
'V-você é?' Por que eu não fiquei calada?!! Por que eu e esta minha boca enorme tínhamos que ter feito aquela pergunta?
I keep asking myself, wondering how
I keep closing my eyes but I can't block you out
Wanna fly to a place where it's just you and me
Nobody else so we can be free
Tomoyo terminou de comer e limpou seus dedinhos num guardanapo enquanto eu fiquei como uma pateta olhando para ela. 'Já tive a minha fase. Na faculdade. É um tempo em que se experimenta de tudo.'
'Tá falando sério?'
Ela me fitou de forma diferente agora. 'Sakura, tem alguma coisa em você diferente das outras...'
'Diferente?' Comecei a rir como uma idiota de nervoso. Só me faltava ela dizer que eu tinha tendências lésbicas. Comecei a olhar compulsivamente para a bunda dos garotos que passavam por mim e a dar nota para elas. Hummm... aquele rapazinho ali tinha uma muito caidinha, nota 4! Opa! Até que aquele ali de shorts preto tinha uma redondinha, não era como a de Syaoran, por isso nota 8!
'Isso mesmo... você me parece meiga e muito... como posso dizer... para mim você é como aquelas virgenzinhas do interior.'
Por que será que eu me engasguei com a coca-cola?
'Mas é claro que isso é impossível. Só a minha imaginação... Você já tem mais de 25 anos, não é?'
All the things she said
All the things she said
Running through my head
All the things she said
All the things she said
Running through my head
This is not enough
This is not enough
All the things she said
All the things she said
Fiquei calada terminando de comer o meu sanduíche enquanto Tomoyo comentava sobre as roupas das estudantes.
'Olha aquela ali de saia pregueada e meias três quartos?'
'A de cabelos curtos?' Perguntei observando a jovem.
'Repare como os rapazes mexem com ela.'
Franzi a testa observando a jovem. Claro que os rapazes mexiam com ela, era bonita e rebolava enquanto andava. Tomoyo virou-se novamente para mim encarando-me. 'Homens adoram fantasiar com colegiais. Já reparou que todos os mangás e animes são de meninas vestidas de colegiais com saias curtíssimas?'
'Isso é relativo. O meu primo tem tara por mulheres de terninho. Talvez por ele ser advogado.'
'Por que diz isso?'
'Quando eu cheguei, ele me fez comprar um monte deste tipo de roupas.'
'Hummm então você acha que ele está interessado em você e por isso a fez comprar roupas que fazem ele a achar mais sexy?'
O pedaço que eu comia do sanduíche de repente escorregou pela minha garganta e ficou entalado nela. Perdi o ar.
'Sakura... você está bem?' Ouvi Tomoyo me perguntar e logo a senti dar tapinhas nas minhas costas. 'Ajudem-me, minha amiga se engasgou!'
And I'm all mixed up, feeling cornered and rushed
They say it's my fault but I want her so much
Wanna fly her away where the sun and rain
Come in over my face, wash away all the shame
When they stop and stare - don't worry me
'Cause I'm feeling for her what she's feeling for me
I can try to pretend, I can try to forget
But it's driving me mad, going out of my head
Como se não bastasse toda a humilhação de ter caído no corredor pela manhã agora estava novamente sendo o centro das atenções. Aqueles estudantes devem pensar que eu sou pirada.
Um deles me abraçou por trás tentando fazer com que eu cuspisse o pedaço de pão. Ouvi alguns gritarem que era para chamar o médico da universidade.
'Ela está ficando azul!'
'Não, verde!'
'Nossa, ela se engasgou com o quê?'
'Foi com um pedaço de pão.'
'Pobre caloura, morrer entalada com um pão.'
'Aposto que foi algum trote dos veteranos!'
'Isso! Abaixo ao trote!'
As vozes começaram a ficare falhadas. Estava morrendo. Morrendo entalada com um pedaço de pão! De todas as mortes cinematográficas que eu pensei, esta realmente era a mais ridícula que poderia acontecer. Porém senti um tapão bem forte nas minhas costas, daqueles de literalmente fazer seus pulmões estalarem e finalmente o pedaço de sanduíche saiu pela minha boca.
Comecei a tossir tentando buscar ar novamente. Tomoyo estava ao meu lado segurando uma das minhas mãos.
Mother looking at me
Tell me what do you see?
Yes, I've lost my mind
Daddy looking at me
Will I ever be free?
Have I crossed the line?
'Você está bem, gatinha?'
Levantei os olhos e vi o rosto de inúmeros estudantes me fitando. Acho que eu devo ter ficado roxa de vergonha. Acenei que sim com a cabeça baixa e rezei intimamente para que se dissipassem.
'Deveria ter mais cuidado ao comer.'
'Não é a toa que dizem que as garotas morrem pela boca.'
Levantei os olhos e os vi se afastarem, eram os mesmos que a pouco tempo estava reclamando do som alto. Respirei fundo e me levantei.
'Você já está melhor? Quer ir a um médico?'
'Não, estou bem.' Falei antes de beber um gole de coca. 'Vamos embora, Tomoyo. Esta faculdade é muito perigosa.'
All the things she said
All the things she said
Running through my head
A ser continuado
N/A:
Olá Pessoal! Viu como um mês passou rapidinho? Fala sério, vocês nem sentiram, não é?
Como trilha sonora deste capitulo temos:
"Anna dimmi s" - Laura Pausini (Ela é demais, não é? Eu também não entendo patavinas de Italiano, mas gostei desta música! Hehehe)
"All the things she said" – Tatu (Eu ia colocar outra musica delas mais recente, mas como a Tomoyo falou algumas verdade para Sakura, acho que esta musica era a que se encaixava melhor)
Agora vamos apresentar os personagens "novos" deste capítulo:
Saori Kido – A gostosona do escritório. Acha-se inteligente, mas ainda não entendeu que consegue as coisas apenas "dando" para todo mundo. Personagem de Cavaleiros do Zodíaco.
Ikki, Shiryu, Hyoga – Funcionários da área de Marketing chefiados pela gostosona. Personagens de Cavaleiros do Zodíaco. Talvez eu fale melhor de cada um mais para frente.
Shun – O rapazinho que ainda não definiu sua sexualidade e é motivo de chacota do staff todo. Personagem de Cavaleiros do Zodíaco. Se eu fiz isso com o Shun, imaginem o que eu vou fazer com o Goiabinha das trevas! HAHAHA (Risada de bruxa hiper malvada!)
Bason – acessor da poderosa chefona, Kath Klein! Hehehe Personagem de Shaman King, na verdade ele é espírito protetor de Tao Ren, mas eu roubei-o para mim Hahaha A minha filhinha Marjarie deu ótimas recomendações dele então resolvi contratá-lo!
Keitarô Urashima e Naru Narusegawa – O casal de estudantes. Personagens de Love Hina. Uma curiosidade do anime é que este casal praticamente passa quase toda a história tentando entrar na Toudai, que é uma das maiores (se não é a mais importante) universidade do Japão. Dizem que os estudantes de direito da Toudai pegam todas, pois as meninas sabem que eles serão muito importantes e poderosos no mercado de trabalho. Hehehe
Bem tudo foi devidamente apresentado, mas ainda tenho algumas resalvas para fazer:
Em primeiro lugar: O que é Tocão? Tocão é nada mais nada menos do que um fora. O pessoal do Rio de Janeiro usa muito este termo. Bem, o que é fora? Caso alguem não saiba, é quando você levou um... ai como dizer... uma resposta negativa em algo que você queria muito. Exemplo prático:
"E aí gata? Tudo bom? Vamos dar um rolé para nos conhecermos melhor?" Rapazinho chegando junto na menina que conheceu numa boate.
"Não vai dar não. Eu tenho namorado" A garota responde e se manda deixando o moleque com cara de tacho.
"Aeeee! Levou mó tocão!!!" Amigo pentelho que resolveu tirar sarro do garoto (sempre tem um!)
Entenderam o que é tocão agora?
Depois desta aula totalmente produtiva, vamos a um assunto sério...
Eu não tenho nada contra homossexuais!!! Tirando o fato que eles ficam dando em cima dos poucos homens disponíveis no mercado, eu não tenho nada contra eles! Não pensem que eu sou preconceituosa! Eu não sou! Tenho um colega que é inclusive. E para o pessoal que ficou revoltado com a conversa final entre Tomoyo e Sakura, Ah gente, qual é? Eu sei que vocês adorariam ver Tomoyo e Eriol juntos neste fic, mas vamos dar uma inovada, não? Isso não quer dizer que Tomoyo e Eriol não fiquem juntos... eu ainda não decidi nada. Esta história é na primeira pessoa, pode estar acontecendo um milhão de coisas ao redor da Sakura que a gente não saiba e nem ela!
Aproveitando o gancho, também aposto como tem muita gente revoltado com o envolvimento de Sakura e Eriol. Uso o mesmo argumento acima, estou tentando fazer um fic diferente, e temos que concordar que o Eriol é um charme e o papel de chefe sedutor caiu como uma luva nele, não é? Ai ai ai... o meu chefe não é bonitão, mas tem um engenheiro lá que é um pedaço de mau caminho... ou melhor, uma estrada interestadual de mau caminho.
Exclarecimentos feitos, vamos lá, o que acharam do capitulo dois, hem? Quero saber a opinião de vocês ou vou começar a atualizar o fic de dois em dois meses!!! Não duvidem!
Beijos para minha amiga e revisora Rosana!
Beijocas a todos que estão acompanhando esta louca aventura de Sakura.
Kath Klein
