Luzes de Tókio

Por Kath Klein

Para minhas queridas amigas: Rô e Bruna

Capítulo 6

'Eu não acredito que estou aqui.' Ouvi Meilyn reclamando ao meu lado. 'Duas vezes numa delegacia no mesmo dia! Vou ficar com a fama de Bad Girl sem a ter realmente.'

Eu não diria que ela não tinha a tal fama... talvez porque ninguém teve que a agüentar como eu neste últimos dias. Para mim a definição de Bad Girl tinha a foto de Meilyn ao seu lado.

Estava eu ali sentada numa cela com pelo menos umas dez gurias que reclamavam, choravam, xingavam e aproveitavam o tempo juntas para fofocar também e falar de algum garoto gostoso ou de alguma garota oferecida que estava dando em cima do garoto gostoso antes delas. Os policiais me deixaram ficar junto porque pensaram que eu era menor de idade também. Acho que realmente aquela foi a única vez na minha vida que eu dei graças a Deus por ter esta carinha bonitinha.

'Meu pai vai me matar...' Ouvi um lamento ao meu lado esquerdo. Era a mesma menina que tentou me ajudar no banheiro na boate antes da Tropa de Elite invadir o banheiro feminino.

Topa de Elite osso duro de roer

pega um pega geral

também vai pegar você!

É e pegou mesmo... mas enfim o que eu poderia dizer para Yoru? Vai mesmo, sinto muito. Foi ótimo ter lhe conhecido e obrigada por me ajudar enquanto eu estava vomitando no banheiro? Acho que isso não ajudaria muito.

Joguei minha cabeça para trás fechando os olhos e pensando que provavelmente meu primo também me mataria por ter que vir novamente na delegacia para tirar a filha adolescente e a prima virgem doida que estavam em cana. Ao longe pode ouvi o barulho seqüenciado de uma goteira. Depois os passos de alguém se aproximando. Tremi na base imaginando.

'Pop!' Ouvi a voz de uma das gurias.

'Six!'

Desencostei a cabeça da parede e abri os olhos. A cela estava escura e mal iluminada com uma luz azul ao fundo, onde era claro ver as grades. Arregalei os olhos vendo todas as meninas de botas negras e vestidas como num cabaré!

'Squish!' ouvi uma voz feminina baixa ao meu lado fazendo eu levar um susto e levantar do banco de madeira.

'Uh Uh'

'Cicero!' Meilyn falou enquanto soltava uma tragada do cigarro! Como aquela garota conseguiu um cigarro dentro da cadeia? Ela estava aqui a menos de duas horas e já entrou no esquema de contrabando! Realmente ela é filha daquela chaminé bebum esperta!

'Lipschitz!'

Caminhei devagar até a saída da cela e levei um susto quando vi a porta da cela arrastando para o lado e o gostosíssimo do delegado Yui apareceu do outro lado.

'And now the 6 merry murderers of the cook county… jail in their rendition of the cell block tango' Ouvi ele dizendo com aquela voz hiper sexy!

'Pop!'

'Six!'

'Squish!'

'Uh Uh'

Olhei para os lados e vi as garotas todas encostadas nas grades que agora por algum motivo aquela cela estava enorme! Estava mais para o cenário do musical Chicago do que para delegacia! Meilyn era a única que estava encostada na grade enquanto tragava devagar o seu cigarro. Realmente vicio é genético!

'Cicero' Ela sussurrou olhando para mim com aquele olhar de pouco caso.

'Lipschitz!'

Como tudo na minha vida, de repente podia ouvir a melodia de um tango vindo do alem, ou provavelmente das profundezas da minha mente perturbada.

'Pop!'

'Six!'

'Squish!'

'Uh Uh'

'Cicero'

'Lipschitz!'

Todas estavam agarradas as grades vestidas como um musical de jazz. A velocidade da musica aumentou fazendo os passos ficarem mais rápidos.

'Pop!'

'Six!'

'Squish!'

'Uh Uh'

'Cicerooo'

'Lipschitz!'

A musica ficou nítida e pode ouvir todas cantando na minha frente de forma sincronizada enquanto seus corpos moviam entre as grades de forma sensual.

'He had it coming

He had it coming

He only had himself to blame

If you'd have been there.

If you'd have seen it'

'I betcha you would have done the same!' Meilyn gritou para mim fazendo eu dar um pulo para trás ainda observando os corpos dançando na minha frente!

'Sakura!' Ouvi me chamarem e senti que tinha batido atrás da minha cabeça em algum lugar. Abri os olhos e levei um das mãos até a nuca massageando de leve o lugar dolorido. Lá estava eu novamente na prisão com luzes fluorescentes irritantes e não no cabaré. Mas conseguia ouvir ainda ao longe as vozes das gurias cantando ao som do tango.

'Pop!'

'Six!'

'Squish!'

'Uh Uh'

'Cicerooo'

'Lipschitz!'

'Terra chamando Sakura!' Ouvi a voz de Meilyn mais clara e virei em direção a ela. 'O delegado Yui está lhe chamando.' Ela informou fazendo com a cabeça um gesto para eu olhar para frente. Fiz isso e lá estava o maravilhoso senhor delegado Yui. Sem querer suspirei ainda ouvindo o tango na minha mente. Seria realmente muito bom dançar um tango beeeem sexy com ele. Imagina aquelas mãos grandes e firmes tocando todo o meu corpo com a desculpa de estar apenas dançando. Realmente os argentinos podem ter todos os defeitos, principalmente não saber jogar futebol honestamente, mas tango simplesmente é o ritmo mais sexy do mundo pois literalmente você pode fazer um amasso na frente de todo mundo que ainda vão lhe aplaudir, inclusive seus pais. E quando mais apalpar melhor! E no caso do delegado a minha frente... meu deus! Este homem ia sair completamente amassado se caísse nas minhas mãos! PARA Sakura! Você está em cana!

'Vai falar com ele! Talvez seja nossa única esperança de sair daqui.' Ouvi Yoru falando ao meu lado com a voz fraquinha. Tadinha, só pelo fato de ter entrado na minha história me ajudando já estava em cana... realmente sou uma péssima influência. Levantei e caminhei em direção ao delegado que me aguardava do outro lado das grades. Assim que me aproximei, ele abriu o sorriso mais sexy que eu já vi na vida...

Topa de Elite osso duro de roer

pega um pega geral

também vai pegar você!

Isso! Me pega! Me amassa! Me joga na parede e me chama de lagartixa!

'Oi...' cumprimentei sem graça e com certeza deveria estar muito vermelha pois mal sentia os meus pés que deviam estar sem sangue pois todo ele migrou para minhas bochechas... ou talvez a explicação mais plausível fosse que eu simplesmente não estava agüentando mais aquele salto agulha.

'Senhorita Kinomoto... realmente desde que eu coloquei meus olhos em você pensei que fosse chave de cadeia, não que literalmente gostaria de estar nela.'

Sorri mais sem graça ainda. Alguém poderia me dizer como tentar ser sexy numa hora como esta em que tudo que você gostaria de fazer é se ajoelhar aos pés dele e implorar para lhe soltar. Mas se eu fizer isso minhas chances de dançar um a tango com ele vão para zero... Fitei o rosto incrivelmente másculo e tentador a minha frente... se eu fizer isso minhas chances vão para dez negativo. Limpei a garganta tentando chegar num meio acordo entre os meus desejos. Acho que a prioridade seria a minha liberdade, não? Ai porque será que olhando para ele eu começava achar aquela celazinha bem legal?

'Delegado... não posso dizer que é um prazer revê-lo hoje... e nesta situação.'

'Acredito que não senhorita.' Respondeu e eu senti um leve sarcasmo na voz dele. Tinha que ignorar. 'Quando vi a lista das garotas fichadas que foram pegas consumindo entorpecentes no banheiro de uma festa universitária, me espantei a ler o seu.'

'Não estávamos consumindo entorpecentes...'

'Não?' Ele perguntou e observei a sobrancelha dele levantar fazendo uma cara de que realmente não estava acreditando em uma palavra minha.

'Não todas...' Ah era muito difícil mentir, parecia que aqueles olhos estavam literalmente invadindo minha mente e se continuasse a encara-los com certeza ele descobriria que estava a poucos segundo atrás imaginando aquelas mãos grandes e sexy me amassando toda. 'Mas tenho certeza que só estavam experimentando... olhe para elas!' Pedi e vi que ele desviou os olhos no meu rosto vermelho para observar as gurias por trás de mim. 'Me diga se elas têm cara de viciadas ou traficantes?'

'Rostinhos bonitos, como o da senhorita, podem escondem mentes criminosas.' Foi a resposta dele.

PARA tudo! Rostinho bonito como o meu? Vocês ouviram isso? Eu ouvi! E espero que não tenha ouvido errado! Pronto, estou apaixonada! Valeu a pena estar na cadeia para ouvir um negócio destes... Sorri... só não sei se foi para ser sexy como gostaria ou por puro devaneio. Fiquei sem graça quando seus olhos pousaram em mim novamente.

'Mas acho que a mente da senhorita arquiteta outras coisas...'

Pervertidas... com certeza minha mente já estava trabalhando em todas as coisas pervertidas capaz de fazer com um homem daquele.

Ele soltou um longo suspiro e sorriu de leve. 'Tem um monte de pais loucos na minha delegacia atrás destas gurias. E gostaria de sua ajuda diplomática para acalma-los e faze-los entender que realmente tivemos um crime e não uma brincadeira. Uso de entorpecentes é crime como a senhora deve saber.'

'Sim... eu entendo.'

'E pegamos em flagrante.'

'É eu sei...'

'mas para aqueles bando de babacas que mal sabem onde estão as filhas queridas, elas estavam apenas se divertindo como crianças... como será que eu posso mandar eles ir para o inferno de forma diplomática?'

Não tive como não rir e levei uma das minhas mãos até a boca para abafar a risada gostosa que gostaria de dar. Observei que ele apesar de tenso também sorriu e como era incrivelmente sexy um homem da lei e sério como aquele sorrir, mesmo que rapidamente.

'Eu farei o possível para mandá-los ao inferno de forma diplomática para o senhor.'

'Obrigado.' Agradeceu inclinando um pouco a cabeça. 'E poderia começar mandando o seu primo, aquele advogadozinho metido a grande coisa.'

'Syaoran está aquí?' Perguntei um pouco mais alto do que deveria.

'Eu vou morrer!' Ouvi Meilyn gritar e logo vi a garota parando ao meu lado agarrada as grades. 'O meu pai está aqui?' O delegado afirmou com um gesto e ela fingiu um desmaio que eu fiz questão e ignorar. 'Ele vai me matar... por favor, não o deixe se aproximar de mim!'

Virei para ela com cara de poucas amigas. Estava na hora de ter uma conversa séria com Meilyn. 'Não pensou no seu pai quando resolveu fumar baseado.'

'Só estava experimentando...' ouvi um sussurro e não soube dizer que realmente ouvi isso ou se tinha imaginado.

'Para quê experimentar algo que você tem certeza que vai lhe fazer mal, Meilyn? Isso não é brincadeira, isso é sério!'

Ela levantou o rosto para mim e vi que os olhos estavam brilhantes na eminência de um choro mas que ela tentava se segurar por orgulho... ou vergonha...

'mas era apenas maconha...'

'Apenas maconha? Meylin, começa com isso, depois quando achar que não faz o efeito que você quer vai para algo mais forte, quando vê já está experimentando crack ou coisa pior! Você faz posse de adulta e senhora da razão querendo dar palpites na vida do seu pai, mas não passa de uma menina boba que é levada pela opinião de outras pessoas... o que queria provar experimentando aquilo?'

'Eu não sei... eu só queria não ser criança...' Ela agora começou a chorar mas secava as lagrimas com a manga do casaco que vestia.

'Deixar de ser criança? E desde quando ficar alta sem saber direito o que está acontecendo ao seu redor e com o seu corpo é ser madura? Você diz não para o seu pai para tudo e não consegue dizer simplesmente não para suas pseudo-amigas? Por que pessoas que lhe oferecem este tipo de coisa não podem ser suas amigas de verdade.'

Confesso que tive vontade de abraçar Meilyn. Ela parecia mais um bichinho machucado do que aquela adolescente pós moderna decidida a atazanar a vida do pai e das namoradas dele.

'Você acha que se vestir como mulher, usar salto alto e maquiagem pesada no rosto transformam você em uma mulher adulta?' Coloquei a mão no ombro dela sabendo que ela levantaria o rosto e me encararia. 'Ser adulta é saber tomar decisões por você mesma e para você mesma. Não é tomar decisões para agradar suas amigas e seu namoradinho. Você só tem que provar alguma coisa para você mesma, Meilyn. Tomar decisões para o seu bem. Se você não pensar no seu bem, quem vai pensar por você? Isso sim é ser adulta. É saber dizer não para o seu próprio bem.'

Foi aí que aconteceu algo que eu nunca podia imaginar. Meilyn se jogou nos meus braços abraçando-me de forma tão forte que eu pensei que ela fosse quebrar minhas costelas. Sorri de leve, e a abracei passando a mão devagar pelos cabelos longos e negros. Ouvi o soluço dela abafado e um barulho ao meu lado lembrou-me que não estava sozinha com a adolescente. Encarei o delegado Yui que tinha um canto dos lábios arqueado para cima.

'Acho que já posso soltar todas vocês agora. Parabéns senhorita Kinomoto. Será uma ótima mãe.'

Arregalei os olhos vendo-o rodar os calcanhares e caminhar em direção a saída da carceragem. Se ele fosse o pai dos meus filhos com certeza eu seria uma ótima mãe... ah mas também até ter filhos eu queria era treinar muito e muitas posições... kama sutra completo com aquele homem.

'Eu já vou providenciar a saída de vocês.' Falou antes de desaparecer.

Ainda estava com Meilyn nos meus braços e os soluços começavam a ficar menos freqüentes. Olhei para aquelas jovens que agora todas me olhavam e tentei sorrir, mas confesso que não consegui. Algumas mostravam-se claramente sem graça ao ouvirem o que eu falei para Meilyn. Uma delas se aproximou de mim.

'Eu sei que foi errado... mas prometo que nunca mais vou fazer isso.'

Finalmente consegui sorrir aliviada.

'Sakura! Graças a Deus está tudo bem contigo!' Não consegui nem identificar quem falou isso e já fui envolvida por um par de braços femininos. Era Tomoyo... bem que podia ser o delegado, ou o Eriol ou...peraí Eriol? O que o Eriol estava fazendo na sala de espera da delegacia? Será que Tomoyo cometeu a sacanagem de chamar meu redator chefe para tirar uma das suas recém subordinadas que alem de lhe dar um fora ainda acabou em cana no meio de uma reportagem? Por Buda! Tinha que começar a revisar meu CV para sair distribuindo na praça.

'Está tudo bem, Tomoyo... quer dizer, estava mais agora eu já nem sei.' Falei afastando-a e fitando Eriol que estava com os braços cruzados num dos cantos da sala, do outro estava meu primo também de braços cruzados no canto oposto da sala. 'O que o Eriol está fazendo aqui?' Perguntei em voz baixa para Tomoyo que virou-se para trás e encarou-o sobre os ombros. 'Não... não olha... ah já era.'

Ela voltou-se para mim novamente. 'Eu não sei.'

'Não foi você quem o chamou?'

'Claro que não! Isso seria a sua forca.' Pelo menos Tomoyo concordava comigo que eu estava indo para a minha forca profissional. 'Não que eu ache...' Ela tentou disfarçar. 'Mas enfim... também não sei o que ele está fazendo aqui.'

Soltei um longo suspiro e logo reparei que o Delegado estava atrás de mim, provavelmente esperando que eu começasse a diplomacia de manda-los para o inferno. Pigarreei tentando chamar a atenção.

'Boa noite a todos. Hã... enfim... gostaria de dizer que as filhas de vocês estão todas bem. O Delegado Yui já irá libera-las depois de prestarem os devidos esclarecimentos a lei, claro que acompanhadas de seus respectivos responsáveis. Por isso peço que todos sejam sensatos e tentem colaborar com a justiça para que elas possam ser liberadas o quanto antes. Será menos penoso para elas que já estão bem assustadas com a situação.' Tentei ser objetiva, era jornalista e precisava colocar os fatos na mesa para que eles soubessem da real situação e não tentar floreá-la. Apesar de tem muito jornalista aí no mundo que adora fazer isso, na verdade inventa assunto e florea tanto que no final todo mundo já acha que é fato e não apenas suposição.

'Mas elas realmente estão bem? Não estão presas com bandidos?' Uma senhora segurou meu braço com força.

Sorri para ela para tentar acalma-la. 'Não se preocupe senhora. Elas estão numa cela separadas e juntas. Não há o menor contato com os outros presos. Como disse... elas só estão assustadas e muitas com medo da reação dos pais. Por isso peço que sejam compreensivos, ajudem a libera-las o quanto antes e em casa com calma conversem com elas e principalmente... não neguem o que aconteceu! Colaborem com a policia e conversem com suas filhas.' Falei num tom mais alto para que todos da sala ouvissem. Dei um longo suspiro e olhei para o delegado Yui que parecia com o rosto satisfeito. Ele caminhou até ficar ao meu lado.

'Obrigado.' Sussurrou ao meu ouvido quase fazendo eu perder os sentidos. Mas logo ele tomou conta da situação informando que chamaria pelo responsável de cada uma das gurias e encaminharia-os para outra sala onde encontraria com ela e fariam os passos burocráticos.

Agora não tinha mais jeito. Tinha que encarar o problema de frente e falar com o meu supervisor. Tentar explicar o porquê de eu estar ali e se puder, implorar para que ele não levasse em consideração o que acontecer e não me despedir. Estava caminhando até ele quando o delegado começou sua listagem.

'Responsável por Hiiraguizawa Yoruki.' Chamou.

Arregalei os olhos surpresa e vi quando Eriol finalmente desencostou da parede e caminhou em direção ao delegado. Quando passou por mim, cumprimentou-me de forma constrangida. O que estava acontecendo aqui? Olhei para Tomoyo que deu os ombros informando que também não sabia.

Tirando Eriol agora da situação, tinha que encarar o outro leão. Syaoran Li. Que o rosto já informava que não estava nem um pouco feliz de estar novamente na delegacia.

'Vamos lá... eu ajudo você a amansar a fera.' Tomoyo falou sorrindo para mim. Caminhamos até ele parei ao seu lado. Ele mal me olhou. Comecei a brincar com as mãos tentando achar as palavras para começar a falar com ele, mas antes que o som saísse de minha boca ele já começou...

'Não acredito que estou aqui de novo no mesmo dia por causa de você e da Meilyn! O que está acontecendo com vocês duas? Se juntaram para que eu enfartasse de vez!'

'Bem...' tentei começar a falar, mas ele me interrompeu novamente.

'Sabia que os homens depois que passam dos trinta costumam ter problemas cardíacos? A probabilidade de eu infartar agora é quase 50% maior do que a dez anos atrás...isso está errado! Buda deveria ter feito as coisas ao contrário! Como um homem com uma filha adolescente e uma prima louca pode ter 50% a mais de chance de infartar do que a dez anos atrás?'

'Eu...' Tentei mais uma vez... em vão...

'Agora me diga como eu posso me concentrar no meu trabalho se no final de semana em vez de relaxar e curtir um momento totalmente família estou numa delegacia pela segunda vez... e olha que hoje é ainda sábado.' Ele olhou rapidamente o relógio de pulso. 'Domingo de madrugada... não sei se vou conseguir acabar o domingo em liberdade ou fora de uma cama de hospital.'

Ele estava mais dramático do que eu me lembrava. Apesar de que Syaoran sempre aumentava muito as coisas quando bem lhe convinha. Quando éramos criança. Às vezes um simples encontrão num jogo de futebol se tornava algo parecido com uma fratura na perna tamanho era o seu teatro para o juiz e conseqüentemente era ele quem batia o pênalti com a perna que supostamente estaria fratura. Não era a toa que havia se tornado advogado. Desisti de tentar argumentar algo. Syaoran não queria me ouvir, ou melhor, não queria explicações, ele queria se lamentar de sua má sorte. E depois dizem que nós mulheres é que gostamos de desabafar...

'Assim não tem como eu tentar chegar de forma saudável até os meus cinqüenta anos. Como posso ser saudável, se psicologicamente sou massacrado no trabalho e por minha própria família...'

Bem, ele continuou a se lamentar, mas a esta altura eu já havia entrado no estado alpha e filtrava a voz do meu primo no meu ouvido. Virei-me para Tomoyo que também parecia já ter filtrado a voz dele a mais tempo que ele. O delegado Yui apareceu novamente na sala chamando os responsáveis por outra garota, nos fitamos rapidamente antes dele sumir novamente.

'Este delegado realmente é tudo de bom...' Tomoyo falou baixinho. 'Másculo, poderoso, arrogante, sério... ai...' Suspirou encostando-se na parede. 'E está louco para levar você para cama.'

Tive minha habitual crise de tosse. Não sei bem porque tenho esta estúpida mania de quando ouço alguma coisa constrangedora reajo desta forma idiota. Ela apenas levantou o braço e bateu de leve nas minhas costas ainda com o olhar fixo na porta onde o delegado saiu.

'Melhor?' Perguntou para mim e finalmente me encarando com aquela olhar meigo de sempre.

'Acho que sim...' Respondi contrariada.

'Acho que deveria investir nele, Sakura. É um homem muito atraente.'

Por que será também que eu fico tão sem graça quando falam coisas deste tipo para mim. Estava na cara que eu estava a fim do delegado, por que simplesmente não falei: "Você tem toda a razão. É isto que vou fazer." Em vez disso eu tento negar como uma idiota.

'Ah que isso, Tomoyo... ele não tem cara de que faz este tipo de coisa.'

Tomoyo deu uma gostosa risada. 'Ele tem cara que faz todas... exatamente todas as posições do kama sutra.'

'É? Nem tinha pensado nisto.' Mentirosa! A menos de meia hora eu estava pensando justamente nisto.

Ela deu os ombros. 'Estou avisando... se você não pegar ele, começo eu as minhas investida.'

'Tomoyo... você não tem cara de que... enfim... você é sempre muito profissional.' Argumente. 'Pensei que não pensava nestas coisas...'

'Ah sim... e você acha que eu quero ficar solteirona para sempre? Nada disso. Estou na pista tanto quanto você.'

'Não estou na pista.' Tentei me fazer de indignada. Quem estava querendo enganar?

'Alem disso o meu rolo anda muito complicado. Anda mais enrolado do que outra coisa. Acho que é melhor virar a página.'

'Rolo?' Como assim? Tomoyo estava saindo com alguém e ela não me contou? 'Está saindo com alguém?'

Ela deu um longo suspiro mostrando que não se sentia confortável em falar sobre o assunto. 'Mais ou menos. Ele é muito enrolado. Pensei que tivéssemos alguma coisa mais séria, mas acho que me enganei... Além disso...' Ela parou de falar me deixando em cólicas de curiosidade e rodou os olhos. 'Deixa isto quieto, Sakura.'

'Mas...'

'Não quero falar.' Foi incisiva, não me deixando a menor brecha para tentar arrancar algo. Já estava tramando alguma coisa para ela dar com a língua nos dentes quando o delegado entrou novamente. Observei ele dar uma risadinha sarcástica.

'Responsável por Li Meylin.'

Li finalmente tinha parado de se lamentar e se desencostou da parede. Olhou para mim. 'Vamos.'

Como assim "vamos"? Desde quando eu sou responsável por uma adolescente? Ele me fitou de forma profunda que senti todos os pêlos do meu corpo arrepiarem-se. Mordi de leve o lábio inferior pensando no que fazer. Realmente não queria ir pois isso seria com assinar a sentença de que agora para Meilyn sou oficialmente a namorada do seu pai. Mas por outro lado... observar os olhos pidões do meu primo me fez meu coração amolecer.

'Você pode ir, Tomoyo. Acho que depois disto vamos para casa. Obrigada pela sua preocupação e amizade.'

'Não tem de que. Na segunda... ou melhor...' Ela interrompeu olhando um relógio de parede da sala. 'Amanhã nos falamos. Se cuida.'

Nos despedimos rapidamente e eu junto com Syaoran fui até o delegado Yui para reencontrar Meilyn e liberá-la o quanto antes.

'Lembre-se do que falei... em casa você conversa com ela.'

Ele não respondeu. Quando passou pelo delegado deram aquela encarada básica de cachorros de briga. Rodei os olhos pensando que a única coisa que gostaria de fazer agora era ir para casa e tirar aquela maldita sandália de salto agulha.

Quando chegamos em casa, Syaoran e Meilyn se trancaram no quarto do pai por não sei quanto tempo. Fui bem egoísta. Fui direto para o banheiro, e não era por estar com dor de barriga! Enchi a banheira, coloquei todos os sais relaxantes que achei e entrei nela. Fiquei quase uma hora e confesso que acho que dei uma cochilada afundando nela e quase me afoguei engolindo a água perfumada. Quando saí do banho ainda estavam trancados no quarto do meu primo. Dei os ombros e fui dormir, só acordei meio dia de domingo. Foi um dia bem tranqüilo. Principalmente porque Meilyn praticamente fazia todas as vontades do pai. De chá verde a assistir "Supremacia Bourne" pela oitava vez, isso segundo ela me confidenciou enquanto esperávamos a pipoca de microonda ficar pronta, sem reclamar. 'É o filme preferido dele.' Justificou para mim. A noite a bebum apareceu sem nem desconfiar do que aconteceu durante o final de semana, Syaoran teve uma outra longa conversa com ela fazendo eu e Meilyn dar uma volta pelo quarteirão. Fomos comprar uma pizza e é claro que Kayo aproveitou a oportunidade e pediu para comprar dois maços de cigarros. Light, evidente!

Depois que as duas foram embora, estava limpando a louça quando o meu primo parou ao meu lado. Pegou um pano de prato e começou a enxugar e a guardar as louças no lugar certo. Olhei-o rapidamente e voltei a atenção para a louça. Lá fora dava para ouvir o barulho dos carros passando pela rua pois todas, absolutamente todas as janelas estavam abertas até o cheiro de cigarro sair do apartamento. Depois do episódio incendiário, não reclamei quando Kayo fumou um cigarro atrás do outro. Justificou que estava nervosa. Compreensível.

Ouvi meu primo dar um longo e cansado suspiro, sabe aqueles suspiros que parece que parte da alma da gente saiu junto com o ar?

'Final de semana difícil, né?' Tentei puxar assunto.

'Muito.' Ele respondeu secando com cuidado um prato e depois abaixando para abrir o armário e guardá-lo junto com os outros. 'Eu e Meilyn tivemos uma conversa muito séria nesta madrugada.'

'Mesmo?'

'Sim... ela me contou que se sente muito incomodada por eu ter várias namoradas.'

'Normal.' Limitei meu comentário.

'Acha que ela fez o que fez para chamar minha atenção?'

Parei de esfregar a esponja ensaboada num outro prato e virei o rosto para meu primo que me encarava esperando uma resposta. Eu não era psicóloga, nunca me dei com adolescentes. Inclusive eu era uma ótima filha, adolescente certinha e careta. Por Buda! Eu tinha 25 anos e era virgem ainda! Realmente não era um bom referencial. Limpei a garganta tentando pensar em alguma coisa inteligente para falar, mas nada vinha. Voltei a encarar a água que saía da torneira.

'Bem... está obvio que Meilyn é louca por você. Mas acho que ela implica tanto com suas namoradas porque nenhuma tentou conversar com ela sem interesse.'

'Sem interesse?' Provavelmente Syaoran agora estaria franzindo a testa tentando assimilar o que eu falei.

'Exatamente. Todas se aproximam dela apenas porque querem agradar você.'

'Faz sentido. Principalmente porque ela me pediu,quase implorando, para eu namorar você.'

'O quê?' Gritei largando uma xícara que estava lavando e deixando-a cair na pia. Fitei meu primo sem acreditar. 'Ela lhe pediu isso?' Ele fez um gesto afirmativo com a cabeça. 'Realmente ela está fumando mesmo muito baseado.' Falei sem querer e logo me arrependi. 'Desculpa. É que é tão absurdo este pedido. Não imaginei que ela teria coragem de lhe pedir isso. Eu conversei com ela sobre isso.'

'Ah então ela fez a mesma proposta para você?' Ele perguntou com a voz chateada. Descobrir que a filha andava fumando baseado provavelmente lhe deu certa sensação de falha. Incompetência educacional.

'Sim. Esclareci tudo a ela e mesmo assim... bem deixa para lá. Temos que tirar esta idéia da cabeça dela.'

'Mas a idéia não é de todo ruim.' Não pude acreditar no que eu ouvi. Novamente outra xícara caiu com tudo na pia, assim eu acabaria quebrando todo o conjunto. Não tinha nem recebido meu primeiro salário e já tinha que repor o fogão queimado, o cesto de lixo queimado, as cortinas queimadas e agora um jogo de xícaras quebrado... pelo menos não foi queimado.

'Acho que não entendi direito... realmente a idéia é muito ruim.'

'Não.' Meu primo confirmou. 'Acho que seria muito bom para Meilyn se ela pensar que estamos realmente formando um casal.'

Olhei incrédula para o meu primo. 'Syaoran... não formamos um casal. Nós não somos um casal. Somos primos.'

'De terceiro ou quarto grau. Isso não vale.'

Ele tinha razão... mas por Buda! O que ele estava querendo? Estava me pedindo em namoro? Mas tipo assim, não deveria rolar um vinho, um jantar, uma musica romântica e uma declaração de amor? Sei que o mundo moderno pula certas etapas no relacionamento, mas acho que assim já era demais.

'Você está me pedindo em namoro? É isso?' Encarei ele nos olhos, tinha certeza que estava vermelha.

'Podemos entrar num acordo.'

Realmente não era assim que eu estava pensando em começar um relacionamento. Acordo para mim é coisa que se faz no divorcio. Antes do divorcio, tem o namoro, o noivado e o casamento. Ah sim e numa destas etapas tinha que rolar sexo, coisa que até agora não rolou. Não que eu quisesse fazer sexo com Syaoran... eu, não... imagina! Deve ser horrível fazer isso com ele. Eu não sei por que aparece tanta mulher atrás dele. Ele tem cara de que não sabe nem onde é o clitóris. Ah Deus... quem eu to querendo enganar? Por que comigo sempre as coisas são fora de ordem?

'A-Acordo?' Como se não bastasse o acordo que a Kath me fez fazer com ele em Pétalas de Fogo. 'Certo, que acordo?' Tipo, eu te beijo agora, depois a gente pega um cineminha e depois eu levo você para o meu quarto e tiro a sua calçinha... Bem... um acordo assim, não seria de todo insatisfatório...

'Isso! Fingimos nos finais de semana que ela está aqui que estamos namorando. Ela gosta muito de você!'

'Como assim... uma relação aberta?' Sempre me considerei conservadora.

'Não, Sakura! Não teremos relação... é um namoro falso!' Ele falou balançando as mãos a frente e fazendo o pano de prato balançar na minha frente.

'Ah!' Que maravilha. Fui pedida em namoro falso pelo meu primo galinha. Será que eu posso considerar os chifres que vou levar, falsos também?

'Ela respeita muito você. Disse que nunca mais vai fazer besteira. Que ela vai tomar decisões agora que apenas fazem bem para ela e não se deixar levar pelos outros. Disse que vai ser mais adulta.' Ele falou orgulhoso e sorriu para mim. 'E também me disse que você abriu os olhos dela.'

'Mesmo?' Falei sem graça tentando disfarçar minha decepção ao receber o pedido de namoro falso e já imaginando meus falsos chifres. Voltei a atenção para finalizar a louça. Já tinha duas xícaras trincadas ao lado.

Meu primo fechou a torneira e segurou minhas mãos pedindo com este gesto que eu o encarasse. 'Diz que sim, Sakurinha. Por favor...' Suplicou e ri ao vê-lo fazer biquinho.

'Agora eu sei de quem a Meilyn herdou este pico pidão.' Comentei achando graça e fazendo-o sorrir. O sorriso dele realmente era muito bonito. Sentiu as bochechas esquentarem novamente.

'Está bem... está bem... Quando ela estiver aqui a gente finge que está se acertando.'

'Obrigado Sakurinha!' Ele falou abraçando minha cintura e me levantando e rodopiando pela cozinha.

Mas assim que ele me colocou no chão eu o encarei, séria. 'Isso não vai dar certo. Já to avisando.'

'Vai dar por um tempo.' Dizendo isso me deu um beijo estalado na bochecha de surpresa. Arregalei os olhos observando-o se afastar. Passei a mão na bochecha que havia sido beijada por ele e sorri... pior é que eu tinha certeza que eu tinha um sorriso bobo nos lábios.

'Isso realmente não vai dar certo.'

Cheguei ao trabalho na segunda feira atrasada. Evidente. Entrei tentando ser a mais discreta possível para que ninguém percebesse meu atraso. Rápida e com a bolsa e a pasta baixa cruzeis as estações de trabalho sem tentar falar com ninguém e principalmente não encarando ninguém. Estava a cinco passos da minha mesa quando reparei que havia alguém sentada na minha cadeira. Caramba, Eriol foi mais rápido do que imaginei, já me substituiu em apenas... olhei para o meu relógio de pulso e eram oito e quinze... em quinze minutos de expediente ele já conseguiu colocar outro em meu lugar. Que mundo selvagem e competitivo que vivemos hoje em dia!

Se eu tivesse por acaso cartas mágicas com certeza usaria uma que fosse capaz de apagar aquele ser que estava sentado no meu lugar. Melhor, talvez usasse uma que pudesse eletrocutar a pessoa como se ela fosse atingida por um trovão. Ou talvez outra ainda que permitisse que eu tivesse força suficiente para com um soco fizesse ela voar pelos ares, ou talvez ainda outra...

'Sakura. Que bom que chegou! Estava lhe esperando.' Virei-me para trás e engoli em seco ao observar Eriol caminhando em minha direção. Ele tinha um sorriso simpático nos lábios. Cretino! Pilantra! Me substituiu em menos de quinze minutos de expediente por outro e ainda me lança sorrisos simpáticos... ou seria de piedade... Sem falar mais nada deixei-me guiar por ele que foi em direção ao meu ex lugar de trabalho. 'Yuri. Ela chegou'.

Hã? O que? Acho que os acontecimentos do final de semana me deixaram um pouco mais lesa que o normal.

'Gostaria de ter conversado contigo antes, mas achei melhor trazer logo Yuri para o escritório, pois hoje é segunda feira e é dia de expediente para todos que possuem responsabilidade.' Eriol falou de forma pausada enquanto encarava a garota a sua frente. Observei que ela engoliu seco enquanto gesticulava repetidas vezes a cabeça concordando, ou pelo menos tentando fazer ele acreditar que concordava com ele.

'Eriol... o que está acontecendo aqui?' Não dava mais para ficar tecendo teorias, pois tenho que ser realista e encarar os fatos de forma clara. Eu sou louca, se eu começar a pensar e tentar entender algumas coisas posso tecer teorias quase catastróficas para o planeta Terra, então é melhor deixar minha imaginação quieta por um tempo e esperar que a explicação do que estava acontecendo viesse do meu supervisor e não do meu cérebro.

Eriol finalmente desviou os olhos da garota e me encarou. Soltou um longo suspiro. Por algum momento achei este suspiro muito parecido com o que meu primo deu quando falava de Meilyn. 'Esta é minha filha, Yoruki Hiiraguizawa. Acho que vocês já se conheceram, não é?'

'Filha? Não sabia que tinha uma filha...'

Ele sorriu sem graça. 'Do meu primeiro casamento. Sou divorciado. Yoru mora com a mãe.'

Acredito que fiz uma cara de "Ah ta!" e por conseqüência uma com certeza de alivio, realmente Eriol não era casado, não era pai solteiro e não colocaria sua filha no meu lugar, pois isso seria nepotismo. Eriol não usaria seu poder para pleitear cargos para parentes. Eriol era o exemplo de honestidade, certo? Tinha absoluta certeza que ele não faria isso mesmo eu lhe dando um fora na semana passada e ir em cana durante uma reportagem, certo? Virei-me para ele, largando a bolsa e a maleta no chão e segurando uma de suas mãos.

'Eriol... você não pode me demitir para colocar sua filha no meu lugar. Eu posso explicar tudo!'

Eriol arregalou os olhos e depois soltou uma gargalhada. 'Sakura... não é nada disso...'

'Não?'

Ainda sorrindo ele começou a explicar enquanto aproximava da guria que estava tentando roubar o meu lugar. Cretina. Ajudou-me num momento de fraqueza para depois usar contra mim. Aposto como ele deve ter filmado eu vomitando no banheiro para depois mostrar para o pai. Talvez ela tenha me perseguido até a boate, colocado alguma coisa naquele energético para eu vomitar e depois ido ao banheiro para me filmar vomitando! Talvez ela esteja me espionando a tempos, talvez até tenha colocado um chip na minhas costas, enquanto ela me sedou de alguma forma a noite, só isso justificaria os meus sonhos erótico e loucos com meu primo... como se eu pudesse sonhar alguma coisa deste tipo com ele sem estar com alguma substancia química no corpo.

'Sakura... está tudo bem contigo?' Ouvi Eriol me perguntando e quando me dei conta estava tentando achar alguma coisa nas minhas costas. 'Tem algo coçando nas suas costas?'

Parei de me contorcer na frente dele e endireitei o corpo ainda observando o rosto apreensivo do meu supervisor. Na hora do almoço passaria na emergência para fazer um raio x e ter certeza que não havia nenhum chip nas minhas costas. Seria bom fazer um exame de sangue também. Só para confirmar minhas suspeitas quanto as substancia químicas alucinógenas que eu deveria estar tomando sem saber.

'Não! Está tudo bem... eu acho...'

'Espero que sim... bem...' ele pigarreou tentando finalmente começar a me explicar o que estava acontecendo. 'Eu gostaria muito que você fosse a supervisora da Yuri.'

'Supervisora?'

'Sim... eu falei com a Kath neste domingo e pedi para que ela permitisse que Yuri trabalhasse aqui meio expediente enquanto termina a faculdade de letras.'

'Hã... um estágio... Ela vai ser só uma estagiária...' Comecei a rir sem graça por ter pensado tanta besteira, onde já se viu se sentir ameaçada por uma garota que tinha idade para ser irmã da Meilyn, filha do meu primo.

'Sim...' Eriol confirmou devagar olhando para mim de forma suspeita. Endireitei o corpo e tentei fazer a minha melhor cara de pessoa responsável. Bem ou mal seria supervisora da filha do meu supervisor! Era melhor agir assim de uma vez antes que ele desistisse da idéia de contrata-la apenas como estagiária e começasse a cogitar a coloca-la no meu lugar.

'Que bom! Seria muito bom ter uma ajuda extra...'

'Normalmente, eu a colocaria aos cuidados do jornalista mais antigo, neste caso, seria a Nakuru, mas Yoru pediu para que trabalhasse com você depois daquele acontecimento no sábado.' Concluiu em voz baixa e olhando para os lados verificando se não havia ninguém por perto para escutar.

'Entendo. Realmente foi muito... hã... constrangedor...'

'E eu pediria também...' A voz dele era mais baixa ainda, quase inaudível. '... que não considerasse este episódio na sua reportagem desta semana, pode ser?'

'Ah... claro... sem problema... o meu material... hã... ' tinha que dar a certeza a ele que estava realmente trabalhando. '... foi apreendido pela polícia.' Ótima desculpa! Ter criatividade e imaginação as vezes ajuda bastante.

'Não diga... isso talvez seja um problema, talvez o delegado...'

'Não... ' interrompi balançando minhas mãos a frente. 'Não se preocupe... o delegado me informou que o material estará seguro e será considerado confidencial.'

'Tem certeza?'

'Absoluta.' Tentei fazer minha cara mais confiável possível.

'Ótimo.' Ele limpou a garganta. 'Quer dizer... é uma pena que seu material para a reportagem tenha se perdido.'

'Sem problema. Já tenho material suficiente para terminar a matéria.'

'Excelente. Bem, vamos deixar de conversa e começar a trabalhar, não é Yoru?' Finalmente falou afastando-se mas antes deu um tapinha no ombro da filha tentando passar força.

Ficamos as duas olhando uma para outra.

'Ele acha que eu estava fumando.' Ela falou depois de um suspiro. 'E não adiantou e negar para ele mil vezes que ele não acreditou.'

'Deve ser chato isso, não?'

Ela deu os ombros. 'Agora ele acha que trabalhar vai me dar mais responsabilidade.'

Humm... isso seria realmente uma ótima idéia para eu dar ao meu primo com relação a sua filha. Observei a jovenzinha a minha frente. Estava na cara que ela estava triste pelo pai não ter lhe dado credibilidade. Desviei os olhos dela e fitei Eriol que já estava na sua mesa de trabalho ao telefone enquanto rabiscava freneticamente alguma coisa no bloco de anotações. Realmente relação de pais e filhas era muito complicada para eu entender. Voltei-me para Yoru e passei meu braço sobre seus ombros.

'Hei! Anime-se vai ser divertido. Não sou uma supervisora malvada... mas, você não contou para ele que eu estava fazendo no banheiro, não é?'

Ela franziu a testa. 'Bem, eu contei, mas ele não acreditou.'

Deus abençoe as relações complicadas entre pais e filhas!

'Então vamos deixar isso quieto. Quero lhe apresentar a equipe da Universo!'

Segunda feira é sempre um dia complicado, principalmente depois de um final de semana complicado, porem apesar de tudo acho que compreendi mais as relações entre pais e filhos... ou melhor, filhas. Depois do constrangimento inicial, Yoru passou realmente a me ajudar em algumas tarefas. Era esforçada, não poderia negar, e em apenas um almoço com o pessoal já estava enturmada com a equipe e as revisoras principalmente. Rô passou alguns títulos de livros que havia gostado e Andréa já estava pegando referencias quanto as universidades disponíveis para seus filhos que tinham apenas 6 e 10 anos, mas nunca é cedo demais para organizar o futuro dos filhos, não é?

Havia passado no supermercado para comprar uma massa fresca e uns tomates maduros. Estava com vontade de comer aquelas macarronadas entupidas de molho de tomate e absurdamente calóricas, principalmente quando acompanhadas de um bom vinho, que é claro tive que comprar também. Oras estava na promoção! E não queria contar com o estoque do meu primo, a bebum esperta no final ainda conseguiu carregar mais duas garrafas de vinho depois daquelas que ela buscou antes do final de semana catastrófico. Para relaxar, ela justificou. Compreensível.

Estava subindo as escadas devagar quando ouvi algum descendo as escadas assobiado uma musica qualquer. Será que era o Ren saradinho? Será que eu estava desarrumada, meu cabelo estava bom? Droga, minha maquiagem com certeza já deveria estar borrada! Era melhor ele não ver minha cara agora, levantei o saco de papel do supermercado tentando tampar meu rosto e tentar passar batida. Quando o assobio ficou mais alto, tanto quanto as batidas do meu coração, e de repente parou. Não meu coração, o assobio.

'Oh tia quer ajuda?'

TIA? Como assim, tia? Abaixei o pacote e encarei o moleque sem noção que me chamou de tia. Franziu a testa pensando que ele não me era estranho. Os cabelos negros com gel penteados para trás, o rosto jovial mas sério, os olhos castanhos, grandes e intrigantes, realmente ele não me era estranho... cerrei os olhos nele com mais atenção e tive a impressão de que ele fez o mesmo me encarrando.

'Ai caramba!' Ele soltou caindo na gargalhada.

O NINFO da festa! Realmente eu não precisava de mais nenhuma surpresa hoje. Sorri sem graça, pensando que realmente não era assim que eu gostaria de reencontrar aquele ninfo do olimpo.

Ele parou de rir e estendeu o braço pedindo o pacote de supermercado. 'Deixa que eu carrego para você, tia. Deve estar pesado.'

'Vê se enxerga direito, garoto. Vê se eu tenho cara de ser sua tia?'

Ele pegou o pacote das minhas mãos. 'Não tem problema, eu gosto de mulheres mais velhas.' Falou rindo. 'Mas você deu azar, mora no prédio da garota que eu to tentando namorar.'

Observei ele começando a subir as escadas com o pacote com a minha janta dentro. Fui atrás dele. 'Vê se eu ia dar trela para um moleque como você?'

'Na festa de sábado a senhora tava doidona!'

'Quem disse que era eu?'

'Oras não esqueço uma mulher bonita facilmente.'

Hummmm agora eu gostei...

'Abusado.' Mostrei-me indignada. 'E qual é o seu nome, garoto?'

'Sou Yusuke Urameshi. Futuro marido da Keiko. Só preciso dar um jeito de me livrar daquela velha rabugenta e mal amada.'

'Ah... a senhora Genkai...'

Ele fez uma careta e emitiu um barulho grotesco deixando clara sua aversão a tia da jovenzinha. 'Aquela mulher é maluca.'

Não podia discordar totalmente do rapaz. 'Então você está namorando a Keiko... e o que estava fazendo naquela festa todo desavergonhado?'

Ele me olhou por sobre os ombros e sorriu. 'Não era só eu que estava desavergonhado.' Tomara que tropece e caia de cara em um degrau, mas não pode quebrar minha garrafa de vinho e nem amassar meus tomates. Achei melhor bater com a bolsa nas costas dele, ele riu com gosto. 'A senhora tava doidona mesmo.'

'Estava apenas enjoada. Aquela negócio de energético é que me fez mal.'

'Principalmente quando se coloca uma boa dose de vodka, não é?'

'Que vodka? Era só energético!'

'Tia...' Ele falou com voz suave. 'Em festa só se vende energético com vodka.'

Então era por isso que eu me sentia tão mal... 'Mas isso deveria ser alertado, então?'

'Todo mundo sabe.'

'Eu não sabia!'

'Oras porque a senhora é velha.' Bati novamente a bolsa nas costas dele e novamente ele soltou uma gargalhada informando que mal sentiu minha agressão.

'Você é muito abusado. Este aqui é meu andar.' Falei abrindo a porta e pedindo o pacote.

'Eu levo até seu apartamento, tia.'

'Para de me chamar de tia. Não tenho idade para ser sua tia. Quantos anos você tem moleque?'

'Quatorze.' Ele respondeu passando por mim, e caminhando pelo corredor. Hummm... realmente considerando que Touya tivesse um filho na idade que Syaoran teve Meilyn, o rapaz poderia ter mesmo a idade de um sobrinho meu. Deus! Eu estava flertando com um moleque menor de idade! Isso dá cadeia!

'E o que você estava fazendo numa festa daquelas? Você não tem idade, Yusuke.'

'Ah tia, a senhora não saca nada, é molinho falsificar a identidade. Eu tenho umas quatro com idades diferentes.'

'Sei e vai me dizer que você também tem carteira de motorista?'

'Claro! A senhora quer que eu arranje uma para você? Cinqüentinha na minha mão e lhe entrego uma novinha. Quase legítima. Coisa de profisa!'

'Próxima porta é o meu apartamento.' Falei enquanto tirava as chaves da bolsa. 'Obrigada pela ajuda, mas se quer um conselho, este negocio de falsificar documentação é crime.'

'Tia... eu sou profissional, pode confiar.'

'Não é isso Yusuke, se a policia te pega você vai em cana, sabe disso.' Oras agora ele era o terceiro adolescente que eu tinha que encaminhar na vida em apenas duas semanas em Tókio! Daqui a pouco acho que ganharia mais dinheiro abrindo uma clinica de reabilitação juvenil.

Ele me entregou o pacote e me olhou intensamente. 'A gente tem que sobreviver, tia. A vida não é mole não. Se eu não ganhar dinheiro a velha nunca vai me deixar namorar a Keiko.'

Sorri para ele, o rapaz realmente era apaixonado pela guria. 'E ela gosta de você?'

'A gente namora escondido. Quando a velha não está, eu venho visita-la, mas eu sei que a Keiko não gosta disto.'

'Acho que não...' Falei observando-o. 'Mas acho que ela não ia gostar de saber que anda flertando com mulheres mais velhas em festinhas universitárias.'

'Isso é só diversão. A Keiko é coisa séria.'

'Então comece a agir de maneira séria na vida.' Repreendi. 'Se fizer isso eu vou tentar ajudar vocês, está bem?'

'A senhora faria isto mesmo, tia?'

'Se você parar de me chamar de tia, pode ser.'

'Eu prometo não lhe chamar mais de tia, tia.'

'Ótimo.' Rodei os olhos desistindo desta minha condição. 'Bem, obrigada pela ajuda.'

'Por nada. Até breve, tia.' Yusuke despediu-se correndo pelo corredor e acenando para mim, logo passou pela porta que dava as escadas desaparecendo. Entrei no apartamento sorrindo, apesar de tudo eles se gostavam, não era justo a velha ficar empacando um namoro assim. Coloquei o pacote com as compras na cozinha e a bolsa no sofá antes de me caminhar até o quarto, por alguns segundo fiquei parada no corredor fitando a porta do quarto do meu primo, caminhei até ela e empurrei de leve, não estava trancada. Observei o quarto grande e arejado. Syaoran era muito organizado. Sem querer dei alguns passos entrando no cômodo enquanto observava os pequenos detalhes da decoração simples e aconchegante do lugar. Havia algumas prateleiras com livros de direito e alguns porta retratos. Um grande estava meu primo e Meylin com uns cinco anos sentada no colo dele. Havia outro grande com toda nossa família posando. Deveria ser o casamento de alguém, mas não me lembrava de quem exatamente. Meu pai e minha mãe estavam, assim como os pais dele. Peguei o porta-retrato e aproximei do meu rosto reconhecendo cada pessoa daquela foto. Foi quando me dei conta que no meio de todos, bem na frente de toda a família, estava eu e Syaoram crianças. Ele tinha o braço no meu ombro e sorria abertamente, eu também sorria para a câmara. Éramos bem bonitinhos. Desviei os olhos para outro porta retrato onde agora havia todos os primos juntos posando para uma foto e novamente estava eu e Syaoran abraçados e sorrindo para a foto. Posávamos sempre juntos para as fotos.

Passei rapidamente os olhos pelos outros dois porta-retratos onde Syaoran estava apenas com Meilyn. Sorri constatando que meu primo só posava para fotos abraçado ou com a filha ou comigo.

'Foi antes do jogo onde o time do Touya perdeu de lavada do meu.' Ouvi a voz do meu primo atrás de mim e sem querer deixei o porta-retratos cair da minha mão. Sorte que caiu no tapete e não se quebrou.

'Desculpa.' Estava completamente constrangida por ter sido flagrada no quarto dele bisbilhotanto suas fotos. 'Você poderia ser um pouco mais barulhento quando chegasse em casa.'

'Oras, mas eu te chamei! Você que estava sonhando aí acordada e não ouvi.' Ele retrucou pegando a foto das minhas mãos e admirando ela com um sorriso.

'Seu irmão realmente nunca conseguiu superar aquela derrota, não é?'

'Isso é ridículo. Isso foi a mais de dez anos atrás.' Respondi caminhando para a saída do quarto.

'Sakurinha.' Realmente eu detestava este apelido, virei-me para ele fitando-o de forma sarcástica. 'Obrigada por me ajudar com a Meilyn. Ela é muito importante para mim.'

Sorri com sinceridade. 'Ela é sua filha... tenho certeza que é importante para você.'

'Kayo é uma boa mãe, mas as vezes acho que não consegue se aproximar de Meilyn quanto deveria.'

'Também... vamos ser sinceros, Syaoran, ela fede a cigarro. Estar ao lado dela é como se estivesse ao lado de uma chaminé industrial destruidora da camada de ozônio.'

'Ela já tentou largar o cigarro.'

'Desculpa, quem sou eu para criticar... quase incendiei o seu apartamento, não foi? Alem disso, isso é assunto de família, não deveria estar me metendo.'

'Oras mas você é minha namorada agora, e você sempre fez parte da minha família.'

Arregalei os olhos surpresa. Ainda não tinha me acostumado com o nosso acordo, alem disso hoje era segunda feira, pelo que eu lembre o acordo cobria apenas os fins de semana quando Meilyn viesse para a casa dele.

'Ok...' Falei sorrindo e virando-me para finalmente sair do quarto e ir para o meu trocar de roupa para começar a fazer minha super macarronada. Não sei porque tive a sensação que meu primo ainda me observava antes de fechar a porta do meu quarto e não sei porque soltei um suspiro.

De repente as lembranças da minha infância com Syaoran invadiram minha mente. Ele realmente era um ótimo namoradinho de infância. Era claro para mim vê-lo com treze anos embaixo na minha janela cantando de forma apresada, fugindo completamente do ritmo e engolindo as palavras que ele não sabia pronuncia em inglês.

You Are My Sunshine

My only sunshine.

You make me happy

When skies are gray.

You'll never know, dear,

How much I love you.

Please don't take my sunshine away

Outro suspiro saiu de meu lábio e com certeza quem ouvisse pensaria que eu estava apaixonada pelo idiota do meu primo.

Continua.