06. Sabor

Onde os corpos são tentados pela primeira vez
e o risco surge...

Aproximei-me da porta do escritório de Snape com um minuto de antecedência e esperei apenas alguns segundos antes de ousar bater três vezes, pedindo permissão para entrar. Não faria bem algum me atrasar e dar a Snape motivos para retaliar com mais do que uma detenção. Por mais que a minha noite estivesse arruinada, isso não significava necessariamente que precisava se tornar uma das piores do ano. Se eu ficasse quieto e não fizesse nada de muito errado, quem sabe sobrevivesse à detenção sem maiores problemas.

O professor permitiu que eu entrasse e, após alguns minutos de insultos (algo que poderia ser considerado uma evolução, já que, na maioria das detenções, ele usava a maior parte o tempo para me depreciar e enfatizar meu desespero por atenção), me deu uma tarefa totalmente inútil para realizar, o que não foi surpresa alguma. Ah, é simplesmente ótimo... vou passar a noite arrumando o estoque de poções dele em vez de fazer as duas malditas redações de segunda-feira, que Binns pediu, sobre as guerras dos duendes.

Eu sabia que era o cúmulo passar a noite nisso, mas fiquei quieto. Tudo o que precisava fazer era arrumar alguns frascos... a noite toda... mas isso estava muitíssimo distante das coisas mais nojentas que Snape poderia ter me dado para fazer. Nah, melhor não pensar nisso... melhor não pensar. Simplesmente organizar esses frascos e ignorar aquele morcego que não pára de vigiar cada movimento meu, esperando que eu troque uma poção de lugar ou coloque uma poção mais distante do que as outras (quem mais, que não ele, para reclamar por cinco minutos por uma poção ter mais do que cinco milímetros de distância em relação às outras?).

Admito que, de propósito, não trouxe o meu relógio essa noite – ficar olhando para ele a cada três minutos não faria as horas passarem mais rápido – mas olhei para fora, pelas estreitas janelas da masmorra, e vi que a escuridão as recobria. Achei então que algumas horas já deveriam ter passado (isso e o fato de que eu já tinha organizado mais de sete prateleiras lotadas de poções...). O silêncio veste a sala como um véu, e notei que o olhar de Snape não mais se distrai comigo. Parece que ele está corrigindo alguma coisa.

Ou estava, até que um ínfimo ruído nos distraiu. Voltei a encarar as poções, embora mantivesse toda a minha atenção nas atitudes do professor. Vi ele levantar e se aproximar. Ouvi quando ele deu uma fraca desculpa e o som de também seus passos se afastando. Ele me deixou sozinho, mas não sem antes deixar bem clara a ameaça de muitas outras detenções caso eu não tivesse acabado a tarefa até quando ele voltasse, e acabado sem magia.

Resignei-me e continuei trabalhando, sem me abalar com a ameaça. Só faltavam as três últimas prateleiras, algo que, eu esperava, não tomaria tanto tempo quanto a conversa de Snape com Dumbledore.

E essas três prateleiras não teriam, de fato, tomado tanto tempo, caso eu não tivesse sido interrompido. Primeiro, ouvi a porta ser aberta muito discretamente. Achei estranho, pois Snape, apesar de ter a mania de andar pelos corredores sem fazer barulho, procurando surpreender algum aluno, não tinha motivos para tentar fazer isso naquele momento, quando era a única pessoa esperada.

Estranhei ainda mais quando vi uma sombra mover-se pela sala. Pelo canto do olho, não consegui distinguir o que – ou quem – era, a sala estava semi-submersa no escuro, sendo iluminada apenas por alguns poucos castiçais presos às paredes.

Alguém se aproximou sorrateiramente às minhas costas e me virei, sem desvendar o mistério. O que seria aquilo? Uma piada? Nah, Snape não tinha esse tipo de humor, se é que tivesse algum senso de humor. Seria um teste? Snape queria achar motivos para me aplicar mais detenções? Quando foi que ele precisou de um motivo?

Um cheiro adocicado se espalhou pelo ar e, com ele, tive a certeza de que isso nada tinha a ver com Snape. Ele nunca foi capaz de adoçar as próprias palavras, quem dirá o ar de suas masmorras. Não, aquele inebriante aroma se originava nas ações de outra pessoa, da pessoa que fez Snape me colocar em detenção essa manhã... e que está aqui só para me criar mais problemas...

– Malfoy – reconheci sua presença no momento em que ele parou à minha frente.

– Divertindo-se, Potter? – ele me perguntou, seu tom tão carregado de sarcasmo que tive de me conter para que meu rosto não apresentasse a minha repulsa.

– Muitíssimo, Malfoy – respondi friamente, colocando a Poção de Morto-Vivo junto à Essência de Acônito Lapelo sem, entretanto, dar as costas ao sonserino.

– Acho que não, Potter... – Malfoy continuou. Ele olhou de relance para a estante e sentou na escrivaninha do professor de uma forma tão desleixada que fez com que eu me perguntasse o que Snape diria se entrasse na sala naquele momento –... e tem mais...

– Ah, é? – eu teria rido, caso não estivesse me esforçando para não considerar a possibilidade de Snape entrar naquele momento. Definitivamente, não quero saber a reação dele, porque certamente eu seria o culpado até mesmo pela atitude de Malfoy, como sempre.

– É, Harry... – ouvi-o dizer com um sorriso que, pela primeira vez, não me pareceu carregado de desdém. Qual o problema dele? De repente, começa a me chamar de Harry assim... do nada? E, pior, me chama de Harry simplesmente por fazê-lo, não para demonstrar desdém ou outro sentimento semelhante? Olhei para ele cheio de suspeitas, mas Malfoy pareceu não se abalar e continuou: – Você não esteve no jantar, então sei que está sem comer desde o meio-dia... acho que está com fome...

Oh, isso... que descoberta fascinante. Tão fascinante que eu mesmo a poderia ter feito se prestasse um pouco de atenção ao buraco existente no meu estômago. Nunca precisei da ajuda de ninguém para descobrir o óbvio, muito menos da ajuda de Malfoy. Mas, qual a diferença? Não é como se eu pudesse escrever em um bilhetinho "Fiquei com fome, vou dar uma saidinha para jantar" e deixar para Snape. Para que se preocupar naquele momento, então?

– Então você precisa parar de achar coisas, porque está muito enganado, Malfoy – eu neguei, é claro. O que mais poderia ter feito? O melhor a fazer é terminar logo com essas conversinhas e mandá-lo para bem longe dessa sala, antes que nosso encontro termine mal.

Encontro?! Que encontro? Isso certamente não é um encontro, muito menos com Malfoy, nas masmorras de Snape. Ok, admito que nos encontramos, certo... mas foi algo extremamente casual, dois inimigos tentando resolver... hum... desavenças. Isso apenas, certo?

Não, não está certo! Se estamos resolvendo... desavenças, então porque Malfoy desceu da escrivaninha e está se aproximando? E, pior, ele não pára de sorrir. Por que ele está sorrindo? Por que ele está sorrindo espontaneamente? Não, isso não pode significar algo bom, ele só pode estar querendo aprontar alguma coisa para cima de mim, sabendo que Snape está para voltar.

Então, por que ele parou? Parou e ainda está sorrindo. Vi ele enfiar a mão direita no bolso e peguei minha varinha imediatamente. O sorriso dele, ao ver meu gesto, só aumentou, me confundindo ainda mais. Por que ele também não pegara a varinha? Porque certamente não fora isso que ele tirara do bolso, o que tinha na mão era menor do que uma varinha.

– Sabe o que tenho aqui, Harry? – ele perguntou, parecendo interessado.

Malfoy estendeu o braço e abriu a mão, deixando que eu visse o que segurava.

– Chocolate? – perguntei, intrigado, no mesmo instante em que meu cérebro compreendeu que aquele pedaço marrom era...

Uma rama, como os trouxas fazem com o chocolate. Estava embalada por um fino plástico, que não escondia nem a textura nem a cor. Parecia perfeitamente saboroso, principalmente para o meu estômago, que implorava por comida. Eu sabia, entretanto, o quão potencialmente perigoso seria aceitar algo assim de um sonserino, no lugar do castelo que seria o mais apropriado para envenenar um grifinório.

Ele deixou a mão estendida diante de mim, oferecendo... bastava que eu aceitasse. Será que valeria mesmo a pena correr o risco? O que Malfoy pretendia? Estava agindo muito estranhamente aquela noite. Embora o usual sarcasmo tivesse sido usado no começo, suas últimas palavras pareciam verdadeiras, até... interessadas?

– Você está certo, tenho chocolate – respondeu Malfoy, interrompendo meus pensamentos. – E estou disposto a dividir com você-

– Por quê- por um impulso, comecei a perguntar.

– Quer? – fui interrompido no mesmo instante. Malfoy parecia não se importar se me incomodava ou não. Abriu a embalagem e, sorrindo, manteve a oferta.

– Por que acha que eu aceitaria algo vindo de você? – desafiei, tentando demonstrar desinteresse.

– Porque está com fome e provavelmente demorará mais algumas horas antes que possa comer alguma coisa...

– Não estou tão desesperado assim – afirmei com convicção. Minhas férias com os Dursley tinham me ensinado alguma lição afinal de contas, nem que essa tenha sido passar muitas horas, ou dias, com bem pouca comida.

– Aceite, Harry. Eu sei que você quer. E, olhe... – Malfoy partiu o pedaço pela metade, como se quebrasse, de fato, um graveto – não está enfeitiçado nem nada. Eu como um pedaço também, se você não acredita. Nem é algum produto daqueles gêmeos Weasley e, mesmo que fosse, ao menos assim você não se exporia ao ridículo sozinho. Aceita?

Não entendi a insistência dele, mas aceitei. Cheio de hesitação e com consciência de que me arrependeria muitas e muitas vezes desse gesto, estiquei o braço para alcançar uma das metades.

Malfoy recuou.

– Não – determinou ele e, antes que eu pudesse questioná-lo, ouvi a ordem imperativa: – feche os olhos. Eu dou para você.

Minha vez de recuar, apenas alguns centímetros. Olhei para Malfoy e fechei os olhos. Meus lábios estavam também fechados, não havendo processado o motivo pelo qual eu estava na total escuridão. Algo os tocou de leve, instigando-os a se abrirem.

Assim que permiti, um pedaço aveludado de chocolate foi colocado em minha boca abruptamente, sem que eu tivesse tempo de inspirar. Algo tocou meu peito de leve e dei dois passos para trás, encostando-me no armário de poções. Abri os olhos e encontrei Malfoy ainda à minha frente, com uma expressão de satisfação.

– Apenas sinta o sabor, Harry – ele me disse, enquanto eu sentia o chocolate derretendo sobre minha língua.

A atenção dele não se desviou de mim e, com a mesma sutileza com que tocara meu pescoço, no corredor, horas mais cedo, Draco pegou a minha mão direita nas suas e colocou nela o outro pedaço de chocolate. Eu sabia que aquele pedaço era dele...

Conforme dissera, Draco comeria também. Foi guiando minha mão até seus lábios. Tudo que meus olhos fizeram foi acompanhar cada movimento. Ele partiu os dois lábios rosados, aceitando o chocolate de uma forma que me tornou impossível desviar o olhar.

Como eu, Draco fechou os olhos por alguns segundos, enquanto permaneci observando. Ele parecia tão tranqüilo... será que essa também foi a minha expressão depois de comer o chocolate? Não sentia como se fosse. Meu rosto certamente não parecia tão pálido como o dele, porque simplesmente tinha esquentado. Provavelmente, tinha ruborizado por causa do sangue que me subiu ao rosto... Draco, entretanto... estava calmo, mas certamente não ruborizado.

Abrindo novamente os olhos, ele me encarou, e só então percebi que ainda não largara minha mão. Por algum estranho motivo, não me importei. Eu estava quase tocando o rosto dele e não me importei. Antes que eu pudesse ponderar as conseqüências disso ou até mesmo pensar se era errado, ele fez minha mão encostar, de fato, em sua pele.

Senti a textura macia sob minha palma e meus dedos mexeram-se sem que eu permitisse, aproveitando a sensação. Draco não tocou mais em mim; nem em minhas mãos, nem eu meu braço, mas se aproximou. Tudo que eu conseguia fazer era respirar e olhar para ele, sentir seus olhos cinzentos ostentarem alguma emoção enquanto percorriam todo o meu rosto, escrutando alguma expressão que me era desconhecida. Sua respiração estava descompassada e eu podia senti-la, como se rivalizasse com a minha.

Confesso que não fiz esforço algum para evitar o que estava para acontecer. Senti uma de suas mãos esgueirar-se por minha capa, me segurando pela cintura. Ele se aproximou ainda mais. Sua outra mão seguiu pela gola de minha camisa e encontrou novamente meu pescoço nu. Meu toque ainda não deixara o rosto dele.

No momento seguinte, não eram só as nossas mãos que tocavam um ao outro... era todo o nosso corpo. Draco encostara em mim... seu peito, sua perna, sua boca. Seus lábios se insinuaram sobre os meus e sua mão entreteve-se com o toque em minha nuca.

Fui empurrado contra o armário e ouvi alguns vidros espatifarem-se no chão, como se estivessem quebrando na sala ao lado. Me surpreendi, porque deveria ter sido naquela sala, eu que estava cuidando dos tais vidros, afinal, mas, antes que pudesse soltar uma exclamação, meus lábios se tornaram ocupados demais.

Fechei os olhos e esqueci. Esqueci que talvez devesse me preocupar com os frascos que voltaram a cair, esqueci que talvez devesse me preocupar com o sonserino que eu não via...

Com os olhos fechados, me concentrei em outros sentidos. Minha audição, que continuava a registrar a apressada respiração de Draco. O olfato, que não se importava com o cheiro que aquelas masmorras deveriam carregar e absorvia o aroma de canela que se espalhava pelo ar. O meu paladar, que experimentava o gosto doce do chocolate com algo mais, que eu não saberia dizer se era a essência da ousadia e do perigo ou simplesmente adrenalina. O tato, que se aguçava através de todos os outros e me desafiava a aventurar-me por irreconhecíveis sentimentos. O tato, que me fez sentir falta do calor humano no momento em que Draco se afastou. O tato, que foi o sentido que usei para buscar Draco no instante seguinte...

Sem encontrá-lo, me obriguei a abrir os olhos e percebi que estava novamente sozinho. Droga.