08. Chocolate
Onde há um reencontro...
e não é apenas um começo...
No sábado à noite, Draco sentou-se na escada, silenciosamente esperando, sabendo quem haveria de passar por ali. Pensou em que boa desculpa Harry deveria ter inventado para que seus amiguinhos monitores o deixassem perambular pelos corredores em um horário fora do permitido, mas então considerou que talvez ele nem tivesse realmente dado uma desculpa. Talvez tivesse só murmurado alguma coisa ao deixá-los e saído sem se importar. Sim, devia ser o que fizera, tanto nessa noite quanto na anterior, o que justificaria os zangados olhares que Weasley andava lhe lançando cada vez que se cruzavam.
Na noite anterior, havia notado como Potter caminhara pelas masmorras sem destino certo – parecia estar procurando alguém, acreditando não ser visto. Draco, entretanto, não o abordara, preferira esperar. Mais um dia, dissera a si mesmo, só mais um dia...
Estava um pouco hesitante em lançar o feitiço, em silêncio confessava. Ainda não tinha obliviado alguém e fazer isso justamente com Potter... fazê-lo esquecer uma memória específica de um momento que não durara mais que alguns minutos... era perigoso. Se falhasse...
Se falhasse, diria que sequer saíra do Salão Comunal àquela noite – já combinara com Crabble e Goyle, que lhe serviriam de álibi. Ok, combinar era uma palavra um pouco exagerada, mas ele mandara que os dois não dissessem a ninguém que saíra.
Ainda esperando, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e deixou que as mãos mexessem nos cabelos nervosamente. Esse gesto, com toda a certeza, deixaria os fios loiros bagunçados, mas não estava convencido a se importar. O perfeito Potter sempre andava com os cabelos daquele jeito e ninguém reclamava, sem contar que já eram onze e meia da noite! Quem ficava o dia todo – e a madrugada toda – com o cabelo perfeito?
Ele deveria ficar! O cabelo loiro-platinado era um dos maiores motivos de orgulho da Família Malfoy (que nunca misturara seu sangue com o de famílias que não fossem puras), e ele fora ensinado, desde muito cedo, a exibi-lo com distinção. A ironia da situação o fez puxar ainda mais os fios e ainda estava distraído com esse movimento quando alguém chamou pelo seu nome.
Uma brisa gélida certamente atingiu o corredor – e ela, somente ela, era a culpada pelo arrepio que percorreu toda a sua pele. O ímpeto que sentiu de se levantar foi somente pela ansiedade em mover-se, nada além disso. Não se arrepiara por causa da surpresa causada por Harry, tampouco se levantara para se aproximar mais dele. Tudo culpa do vento e de uma inexplicável vontade de se mover.
– Draco... – o seu nome foi repetido com suavidade, como se simplesmente largado no ar.
Sem saber como retorquir, simplesmente se calou. O único som naquele corredor (além dos altos roncos de alguns quadros) era o de algum plástico sendo movido incessantemente. No momento em que se preparou para lançar o feitiço, deixando a varinha escorregar para sua mão, viu Harry estender a mão, segurando uma rama de chocolate. Dessa vez, não era a sua.
– Er... – Harry soou hesitante –…eu achei que deveria retribuir o favor. Trouxe chocolate...
Ah, isso...
Chocolate. Encarou o outro, que o havia desarmado por completo. Como poderia obliviar Harry depois do que ele dissera?
– É isso que você quer? – foi então o único questionamento que fez.
Queria ter dito algo mais – não sabia com exatidão o quê. Talvez quisesse simplesmente admitir que o arrependimento que deveria sentir estava, mais uma vez, sendo esquecido, e que beijar Harry era uma coisa que desejava fazer não apenas naquele momento.
