09. Biscoitos

Onde alguém descobre
e Harry é inquirido

O chocolate acabou sendo apenas um pretexto, tanto para Draco quanto para Harry. Nos dias seguintes, não precisaram dele. Nem nos que vieram depois.

Durante as horas em que estavam juntos, a conversa era limitada. Não discutiam sobre a guerra que estava para começar, nem sobre a escola, que estava prestes a se tornar um inferno sob a ditadura de Umbridge. Fazendo esse acordo silencioso, eles impunham uma barreira entre o que estavam vivendo e a realidade fora dali.

Esse distanciamento não alterava os fatos. Harry Potter ainda era visto como o herói pelo mundo bruxo e, pelos colegas, como o único aluno que tinha coragem para enfrentar a megera Dolores Umbridge. Draco Malfoy jamais esquecia que era o líder dos sonserinos, o filho de um dos mais proeminentes Comensais da Morte, aquele que estava destinado a receber a Marca Negra assim que tivesse idade suficiente.

Assim sendo, aos olhos de todos os outros, não foi realmente difícil manter as aparências quando se encontravam em público. O ódio parecia existir, assim como a repulsa e a aversão que fingiam sentir. Fingiam. Em nome das aparências.

E, como as pessoas têm a tendência a enxergar somente o que querem ver, eles conseguiam enganar a muitos. A muitos, mas não a todos.

Enquanto não demonstravam mudanças na relação um para com o outro, uma diferente atitude era perceptível em suas ações. Draco continuava com a postura arrogante de sempre, em especial nas aulas que dividia com os grifinórios. Entretanto, nada o impedia de, antes de sair da sala ao final de cada aula de Poções, ficar encarando Snape por escassos segundos, como se estivesse decidido a falar alguma coisa. Quando tinha a atenção do professor voltada para si, recuava e deixava o recinto.

Os vestígios de Harry eram sutis na mesma medida. Somente os mais próximos perceberam que ele não mais passava as noites na Grifinória, e que estava sempre fazendo, de última hora, as tarefas escolares, como se tivesse tido menos tempo do que os outros.

Hermione, perspicaz como sempre, desconfiou. Talvez fosse algo envolvendo Dumbledore e a Ordem da Fênix, e por esse motivo Harry se negava a dar explicações. Minerva McGonagall, porém, era ainda mais perspicaz. E bastou uma redação não entregue por Harry para que ela tivesse a oportunidade de investigar a verdade.


Na quarta-feira seguinte, aproveitando que Harry tinha tempo livre depois do almoço, convidei-o – peremptoriamente – a tomar chá em meu escritório. Dei-lhe as costas no instante seguinte, sem esperar para ouvir alguma desculpa de última hora inventada por ele.

Eram cinco e meia da tarde quando ele abriu a porta, após leves batidas. Harry entrou silenciosamente. Se tinha alguma curiosidade em saber por que eu o chamara, escondeu perfeitamente. Convidei-o a sentar-se e ele obedeceu. Antes de fazer o mesmo, peguei uma lata decorada que era sempre mantida sobre a minha mesa, abri e lhe ofereci:

– Coma um biscoito, Potter.

Creio que aceitou mais para ter algo com que se distrair enquanto eu falava do que por vontade de comer. Larguei a lata, ainda aberta, sobre a mesa e sentei, encarando-o com seriedade.

"Notei que não entregou a última redação de Transfiguração. Falei com seus outros professores e descobri que não foi a primeira tarefa que você deixou de entregar essa semana...", falei.

Harry permaneceu sentado, os pés firmes no chão e as mãos sobre os braços da cadeira – havia terminado o biscoito. Ele olhou para o tapete e não respondeu.

"Gostaria de saber o que está acontecendo, Potter, porque não é comum um aluno simplesmente deixar de entregar os deveres."

Houve mais um instante de silêncio e Harry novamente não parecia disposto a responder. Mas então falou:

– Não tive tempo de fazer a redação, Professora.

– E a pesquisa de Feitiços? O questionário de Poções?

– Não consegui fazer – ele murmurou, arrependido.

Suspirei, considerando o que deveria mantê-lo tão ocupado. Havia o time de quadribol – do qual ele não participava mais por causa de Umbridge. Não era monitor, portanto não tinha também essas obrigações. Havia o estranho rumor de um grupo de estudos práticos supostamente comandado pelo garoto e que talvez fosse além disso, além de um boato criado por Dolores Umbridge; talvez fosse mesmo verdade.

– Potter, você comanda um grupo de defesa, não? – decidi arriscar.

– O quê? – perguntou prontamente, o olhar fixando-se em mim no mesmo instante.

– Ah, Potter, a Professora Umbridge fez questão de explicar para cada funcionário da escola as motivações do Decreto Educacional número vinte e quatro. E, mesmo que ela não o tivesse feito, saberíamos por Aberforth. Você realmente acredita que uma atividade desse nível aconteceria em Hogwarts sem que os professores tivessem ciência disso?

– Er... – ele deu um sorriso tímido. – Sim?

– É esse grupo de defesa que está tirando seu tempo?

– Não... não realmente. De vez em quando eu pesquiso alguma coisa para levar pras reuniões de quarta-feira, mas geralmente ensino feitiços já conhecidos – ele detalhou, provavelmente com a esperança de me desviar do assunto.

– Entendo. Potter, eu sei que a sua idade é uma fase de novas experiências e que as garotas podem parecer algo extraordinário, mas você não pode se deixar distrair de tal forma por elas.

– Eu não beijei uma garota – replicou ele rapidamente, observando qualquer outro lugar da sala que não os meus olhos.

– Eu não falei nada sobre beijar garotas, Harry – decidi ser gentil, chamando-o pelo primeiro nome para deixá-lo mais à vontade –, mas se deseja conversar sobre isso...

– Hã... não. Não tenho nada para conversar sobre isso.

Sustentei meu olhar incrédulo por alguns longos segundos até aceitar que ele não mais falaria.

– Muito bem, Potter. Se você está certo disso, creio que não temos mais o que discutir. Espero que converse com alguém... seu padrinho ou Lupin seriam ótimas escolhas... caso algum problema dessa natureza surja. Só espero que seus estudos não sejam novamente prejudicados por isso – falei, sem demonstrar contrariedade. Black como bom conselheiro... nem em sonhos.