10. Abraços

Onde impulsos e decisões interferem
e podem criar um novo final

Quando acordou, percebeu que, pela primeira vez, passara toda uma noite com Harry. Era, pois, justamente do grifinório o corpo que estava disposto sobre o seu. Mesmo sem ver seu rosto, percebia, pela respiração calma, que ele continuava dormindo. Beijou de leve seus cabelos, sentindo o aroma de hortelã... buscava, de olhos fechados, voltar à segurança da noite anterior ou ao menos esquecer o que teriam de enfrentar naquela manhã.

Não só ele, mas também Harry, teria de dar explicações sobre o fato de terem dormido bem longe dos seus respectivos dormitórios. Sequer consideraram isso na noite anterior, até porque, nada fora planejado. Acontecera... de repente, uma vontade estranha de não dar importância para mais nada e só ficarem juntos, deixando o resto do mundo se danar para o que pensavam ou esperavam deles.

Draco nunca quisera esconder o que sentia por Harry. O fato de tê-lo beijado pela primeira vez em um lugar nada público como a sala de Snape ocorrera apenas por circunstância. E foi essa circunstância que determinou como seria o relacionamento deles dali em diante, que incentivou o segredo.

Não se tornaram amigos a partir disso... amor é muito mais que amizade. Mantinham as aparências diante da escola inteira, brigavam diante de todos, como se fosse um jogo. E somente diante de outros que brigavam, porque isso era esperado. Desde o primeiro dia, no trem, em que Harry rejeitara sua amizade, os outros – sonserinos em sua maioria – esperavam que Draco não se rebaixasse e aproveitasse as inúmeras oportunidades que tinha para humilhar Potter.

Por cinco anos, realmente humilhara o garoto e seus amiguinhos grifinórios. Por cinco anos criara as tais oportunidades, porque essa era a única forma de se aproximar um pouco de Potter... humilhando-o. Às vezes, Granger tentava intrometer-se – acabava ajudando-o, na verdade, pois, através dela, Potter não se magoava com seus insultos. E, depois de um tempo, nem as ofensas que criava eram capazes de fazer Harry demonstrar alguma emoção. Foi quando decidiu agir.

Aproveitar a aula de Poções fora... bem... uma questão de mera ocasião. Eram poucas as aulas que as duas Casas compartilhavam, e menor ainda era o número de professores dispostos a punir Potter por algo que ele não fizera. Draco não hesitara em adulterar a própria poção e usar alguns elaborados feitiços que lhe permitissem culpar o outro.

Começara assim... por uma questão de oportunidade. Uma coisa levara a outra e ele logo poderia encontrar-se a sós com Harry em um território livre de grifinórios. Provocou... um pouco apenas. Tentando não se deixar levar pelas próprias esperanças, procurou analisar as reações do garoto quanto às suas atitudes, quanto aos seus toques.

A atração por Harry não era originada de algum desafio entre sonserinos ou coisa do tipo. Se fosse, Draco não esconderia cada encontro seu com o máximo de cautela. O interesse surgira aos poucos, fora transformando-se em desejo e em necessidade.

Às primeiras vezes, conseguira se conter: era Harry quem o procurava. Depois, como se tivessem feito um acordo silencioso, encontravam-se todas as noites na Sala Precisa, em um mesmo horário, deixando de lado as considerações sobre quem procurava quem. Nos últimos dias, todavia, não era somente durante a noite que se encontravam. Nenhum dos dois almoçava mais no Salão Principal, e Draco freqüentemente se ausentava das aulas por algum motivo fútil, acobertado por Umbridge ou pelas polpudas doações de Lucius à escola.

Demorou pouquíssimos dias para que Harry também se tornasse relapso nos estudos. Aquela era a primeira manhã que ele chegaria atrasado, o que, para Draco, não importava nem um pouco. No momento em que baixou o olhar e encontrou Harry murmurando algumas palavras à guisa de bom dia, lembrou-se porque preferia muito mais que Harry estivesse encostado em seu peito a estar uma cadeira qualquer, ouvindo uma explicação chata e enfadonha de algum professor.

Interrompendo seus pensamentos, Harry levantou os olhos e acariciou seu rosto, dando um delicioso sorriso e estando completamente ciente de como fora parar naquela posição. O garoto parecia ignorar, entretanto, que as aulas já haviam começado e, sem se preocupar, virou-se e o beijou.

Draco não resistiu. Deixou-se levar por Harry e fechou novamente os olhos. O hálito quente dele alcançou seu pescoço, enquanto as mãos exploravam seu corpo. Entregou-se a cada sentido que Harry lhe fazia explorar e perdeu a noção do tempo, importando-se somente com cada segundo que passava ali.


– Eu já disse para vocês, não aconteceu nada na noite passada! Eu só fiquei pesquisando até tarde e acabei dormindo em cima dos livros na Sala de Requerimento! – insistiu Harry, tentando manter a voz baixa para não atrair a atenção dos colegas.

– Você não quer que nós acreditemos que você matou aula do Snape por ter ficado estudando até tarde, não é, Harry? Nem ele vai acreditar nisso! – Hermione continuou pressionando, querendo descobrir a verdade por trás dos "sumiços" do amigo.

– Pois é a verdade, Hermione! Agora vamos parar de conversar e revisar o conteúdo de Poções? Ou você esqueceu que o nosso último teste é segunda-feira? – disse ele como desculpa para que a amiga parasse de falar naquele instante. Não queria discutir ainda mais com os amigos e precisava urgentemente controlar a vontade de sair correndo do Salão Comunal.

– Dá para você parar de mentir, Harry? O que pode ter de tão errado no que você fica fazendo que não pode contar pra gente?

– Nada, Hermione, não tem nada de errado! – "Não tem nada de errado mesmo em ter um caso com o filho de um Comensal da Morte, Hermione, nada de errado", pensou para si mesmo.

– Então nos conte, Harry. Nós somos seus amigos, pare de fugir de nós.

Ele baixou a cabeça e enterrou as mãos no cabelo, decidido a ignorar a amiga e desejando nada menos do que desaparecer. Por sorte, Rony fez a Hermione uma pergunta relativamente inútil sobre uma redação e a atenção da garota se desviou de Harry.


Durante o almoço do dia seguinte (a que Harry compareceu só para não deixar tão óbvios seus "sumiços" com Malfoy), a situação não foi muito diferente. Além de ter ganhado uma detenção com McGonagall para aquela mesma noite por causa das aulas que faltara, tivera de lançar olhares letais a Hermione o tempo todo para que ela ficasse calada por alguns minutos.

– Deixe Harry em paz, Mione – Rony defendeu-o em um momento. - Se você continuar pressionando, além de não descobrirmos nada, ele vai acabar fugindo de novo do almoço, como andou fazendo durante toda a semana.

– Ele só não almoçou conosco porque estava se encontrando com essa garota, Rony. O fato de ele não ter aparecido não tem nada a ver com quantas perguntas eu faço!

Harry, em um misto de irritação e desesperança, soltou um muxoxo antes de responder:

– Não dá para você parar com esse assunto, Hermione? Desde quando faz alguma diferença para você se estou ou não me encontrando com uma garota?

– Faz diferença se esses encontros estão prejudicando seu desempenho na escola! – retorquiu ela, indignada, atraindo alguns olhares curiosos de outros grifinórios.

– Não está prejudicando meu desempenho na escola e, mesmo que estivesse, isso seria problema meu.

Olhando para Rony em busca de apoio – e não encontrando –, Hermione falou:

– É problema nosso também, porque somos seus amigos, Harry! Por que não nos diz simplesmente quem é a garota que você anda encontrando?

Harry, apoiando os cotovelos na mesa, enterrou as mãos nos cabelos negros, visivelmente irritado pela insistência e pelo tom de voz de Hermione, que não era nada discreto.

– Porque não é uma garota que estou encontrando, Hermione – respondeu, sussurrando entre dentes. – É um garoto. Agora-

– QUÊ?! – interrompeu Rony, escandalizado.

Qualquer paciência que Harry tinha para se dispor a dar explicações aos amigos acabou no mesmo instante em que Rony praticamente gritou, atraindo a atenção de metade do Salão Principal. Ignorando os olhares incrédulos de Rony e Hermione e deixando o jantar pela metade, ele se levantou, saindo o mais rápido que pôde.

Não se importou para onde ia, desejava apenas que fosse algum lugar bem longe dali. Não sabia se eram apenas raiva e indignação que comandavam seus passos – e também não queria descobrir se havia algum outro sentimento.

Há muito tempo queria contar para os amigos... e pensara em inúmeras formas de fazê-lo. No final, o que importou não foi a forma como contou, mas sim a reação deles.

Não esperara para ouvir os comentários da amiga e não estava disposto a ouvir a reprovação já claramente demonstrada no tom de voz de Rony. Esperava que tal reprovação fosse se manifestar apenas quando confessasse que estava ficando com Malfoy, não quando contasse que estava saindo com um garoto. Talvez fosse melhor dar um tempo para que Hermione colocasse um pouco de bom senso na cabeça do amigo.

Ainda a passos apressados, entrou em uma sala abandonada do último andar. Tinha grandes janelas com vista para o sul e ele passou a observar a imensa brancura dos pátios, desejando que sua própria mente não passasse de um branco.

– Harry... – alguém chamou de forma urgente, apressada, às suas costas.

No mesmo instante em que se virou, foi envolvido por um abraço muito forte, que o fez cambalear. Draco presenciara os acontecimentos no Salão Principal e o seguira... agora, era ele que estava ali a seu lado, não Rony e Hermione. Por que então não mantivera tudo no mais absoluto segredo?

– Eu contei a eles – murmurou no ouvido de Draco.

– Eu sei...

Se é que fosse possível, Draco o segurou com ainda mais força, oferecendo-lhe todo o conforto de que precisava. Não houve tempo para que a respiração descompassada de Harry voltasse ao ritmo normal – em questão de segundos, sua boca foi tomada pelos lábios de Draco, que a invadiram com propriedade, expurgando de si qualquer insegurança.

Confiando na única certeza palpável daquele momento – Draco –, Harry fechou os olhos e retribuiu o beijo com igual intensidade. A disputa de forças logo os levou de encontro à parede. Com toda a sua vontade, Harry encurralou Draco mais uma vez.

A respiração entrecortada do sonserino e seus olhos de entrega, confiança e submissão fizeram Harry agir sem se importar com as conseqüências. Puxou a gravata de Draco, ainda que com delicadeza, e em poucos minutos já tinha aberto a camisa do loiro.

As mãos de Draco agarravam sua cintura, puxando-o sempre mais para perto. Harry tentou controlá-las, tentou determinar quando sua roupa poderia ser tirada... em vão. Diante da força inconsciente do namorado, mais uma vez cedeu.

Ignorando o sentimento de frustração que ameaçava tomar conta de seu ser, Draco continuou a exploração do corpo de Harry com suas mãos, seu próprio rosto e até mesmo seus pensamentos.

O sinal de início das aulas tocou pouco tempo depois, antes que sequer estivessem deitados no chão. O suspiro de Draco, dessa vez, não foi contido, e Harry encostou-se na parede mais próxima, reclinando a cabeça e deixando que o ar entrasse lentamente em seus pulmões. Aquele seria um longo dia, e ele precisava muito de um banho gelado antes de encarar dois períodos de Transfiguração.