12. Por uma lareira
Onde as coisas tão simplessão, ao mesmo tempo, tão complicadas
Harry o encontrou no final da noite, depois da detenção de McGonagall. Estava furioso por algum motivo e absteve-se de comentar sobre o que seus amigos haviam lhe dito durante a aula da tarde. Sem oferecer justificativas, aprovou imediatamente a sugestão do outro, e os dois decidiram deixar Hogwarts ainda naquela noite.
Procurando evitar o zelador da escola, Harry foi até o Salão Comunal para juntar suas coisas. Draco desceu até as masmorras antes de subir novamente para o segundo andar, onde encontraria o namorado uma hora depois. Precisavam fugir o mais rápido possível – e fazê-lo de forma discreta também, durante a madrugada, antes que os corredores da escola se enchessem de alunos curiosos e os professores os surpreendessem.
Seria uma verdadeira tentativa de suicídio se continuassem naquela sala até a manhã seguinte – considerando que Draco tivera a genial idéia de usarem a lareira de Dolores Umbridge, por ser a única não-vigiada do castelo (ou, ao menos, foi o que ele alegou).
Harry não sabia, mas a intenção dele era outra. A lareira havia sido escolhida por ser a única na escola a ter ligação direta com o Ministério da Magia. Antes que o grifinório insistisse que deveriam esperar mais algumas horas para ir ao Beco Diagonal (que, àquela hora, "deveria estar vazio e escuro", segundo as palavras de Harry), Draco não teve dúvidas. Pegou-o pelo braço e, com uma certa dose de gentileza, levou-o até a lareira.
Enquanto Harry repetia que não era a hora mais apropriada para aparecerem em um beco vazio e escuro ("Você tem medo do bicho-papão, Potter?", provocou Draco, apenas para fazê-lo calar-se), o sonserino jogou o pó-de-flu na lareira e gritou: "Sala do Ministro".
Devido à usual graciosidade dos Malfoy, Draco não teve problema algum para sair da lareira e usar um feitiço simples para repelir as cinzas de sua roupa. Com Harry, entretanto, a história foi bem diferente. O grifinório havia tropeçado, caído sobre o tapete e ficado com as roupas cobertas de cinzas.
– MALFOY! – ele repreendeu, levantando-se, enquanto Draco lhe lançava um olhar divertido.
– Levante-se – disse Draco, estendendo-lhe a mão.
Harry recusou friamente a ajuda.
"O que foi, Potter? Você não queria sair de Hogwarts?"
– Você é louco ou o quê? Não podemos simplesmente entrar no Ministério no meio da madrugada!
– Acredito que acabamos de entrar... – sorriu Draco mais uma vez, limpando as roupas de Harry com uma sacudidela da varinha.
– Acha que isso é uma brincadeira? – Harry respondeu com raiva. – Já disse, você é louco, nós poderíamos ser presos por isso!
– Presos, Potter? Você tem andado muito com os trouxas. Acha realmente que me colocariam em Azkaban por ter entrado no escritório do Fudge? Cai na real, Harry, eu sou um Malfoy.
– E eu sou um Potter – Harry revirou os olhos.
– Não um Potter, você é o Santo Potter, ninguém o prenderia só por entrar no Ministério... se bem que... hum... eu posso dizer que é culpa sua por eu estar aqui a essa hora.
– Não viaja, Malfoy! Vamos, vamos sair daqui antes que alguém nos veja.
Pensando em algo muito diferente de sair dali, Draco manteve o sorriso no rosto o tempo todo, divertindo-se com o nervosismo do outro. Aproximou-se. Antes que Harry pudesse recuar e arrastá-lo para fora da sala, Draco enlaçou sua cintura e puxou-o mais para perto. Olharam-se.
– Eu já mencionei que você é louco? – perguntou Harry em voz baixa, cedendo.
– Obrigada pelo elogio, Harry... o que vem agora? Sarcástico e presunçoso? – sussurrou ele, o olhar fixo nos lábios do grifinório. – Não me elogie tanto ou meu ego pode não passar pela porta quando sairmos...
– Seu ego não pode passar pela porta, Malfoy. Nenhuma parte sua pode passar pela porta.
Sem fazer objeção alguma às idéias do namorado, ao menos não naquele instante, Draco fechou os olhos e mergulhou em sua boca. Encontrou resistência, não pelos lábios de Harry, que estavam entreabertos, mas pelo próprio corpo do grifinório, que o empurrava com a mesma força depositada naquele beijo, que nada tinha de simples.
Sem prestar atenção, Draco deixou-se ser empurrado pelo outro – dois passos para trás fizeram-no colidir com a mesa de Fudge. Harry beijava-o com urgência, tirando desajeitadamente sua gravata e abrindo os botões da camisa como lhe fora mais conveniente – arrancando quase todos. Sem abandonar os lábios de Draco, passou a mão por seus ombros com entusiasmo e deixou seu tórax nu por completo.
As mãos do sonserino mal tinham tempo de fazer o mesmo com Harry. Ocupavam-se com seu pescoço, seu cabelo, seu rosto. Ficaram emaranhadas nos fios negros enquanto o resto de seu corpo sucumbia às vontades do outro. Harry afastou o rosto e pôs-se de joelhos antes que Draco sequer notasse o que ele estava fazendo.
Draco ofegou ao sentir o toque de Harry – e então percebeu que a parte de baixo de sua roupa já estava a seus pés. Procurando se conter, puxou ainda mais os fios sedosos que estavam entre seus dedos. Mordeu o lábio inferior e decidiu no mesmo instante que não poderia ceder tão facilmente.
Afastando Harry um pouco, Draco ajoelhou-se e ficou com os olhos no mesmo nível do namorado. Encarou-os por um momento e, em seguida, avançou sobre o outro, inclinando-o a ponto de deitarem-se no chão. Usando apenas a força – não a vontade – Harry resistiu.
Por um tempo, ao menos, já que Draco sabia muito bem que artifícios usar para minar suas defesas. Deixou-se, por fim, ser mais uma vez dominado, mesmo depois de toda a resistência que demonstrara.
Essa submissão pareceu afastar Draco por completo. Ele levantou, deixando Harry no chão sem entender nada, e recolheu a camisa que tinha sido jogada sobre a escrivaninha. Vestiu-se e, com feitiços, encolheu a bagagem que havia trazido consigo e deixado esquecida em um canto.
Ainda no chão, Harry inspirou profundamente, recompondo-se antes de levantar. Manteve o olhar sobre Draco o tempo todo.. Queria alguma explicação, mas não a pediu com palavras. Tampouco recebeu. O loiro distraía-se com alguns feitiços de dissimulação que aplicava para mascarar sua verdadeira aparência. Desistindo, Harry aproximou-se, transfigurou por completo as roupas que vestiam (ainda nitidamente bruxas) e deixou que Draco mudasse o comprimento de seus cabelos e a sua aparência – serem parados pela polícia trouxa na rua por serem menores não faria bem algum.
Ao terminar, o sonserino anunciou que era melhor que saíssem dali antes que o pessoal do Ministério aparecesse para o trabalho. Chegaram ao Caldeirão Furado e, antes de atravessarem o portal que os levaria ao Beco Diagonal, decidiram que precisavam de dinheiro – dinheiro trouxa – se quisessem sobreviver fora da Londres bruxa.
Harry pegou a mão de Draco e o levou até Gringottes. De lá, puseram-se a procurar por um lugar discreto o bastante para que não fossem facilmente encontrados, fora do mundo bruxo – cujos integrantes, sem dúvida, por-se-iam à procura deles sem demora.
