15. Em um quarto

Onde gestos e palavras
contam diferentes histórias

Deitado no chão, Harry pôde ouvir a porta do banheiro sendo trancada e o chuveiro sendo aberto. Draco lhe dera as coisas e o deixara ali, como se fosse algo completamente desprezível – um simples ornamento do quarto. Um simples objeto que poderia ser usado conforme conveniência e descartado como qualquer coisa fútil da vida.

Ainda abalado pelo que acabara de acontecer, inspirou tremulamente e não se deu ao trabalho de levantar. Mordia com força o lábio, que a essa altura já sangrava, e tentava conter as lágrimas que teimavam em cair sobre o tapete. Não demorou muito para que se entregasse ao sono.

De banho tomado e completamente vestido, Draco retornou ao quarto uma hora depois e soltou um suspiro ao vê-lo. Compadeceu-se pelos tremores que percorriam o corpo do grifinório, pela gelidez de sua pele, pelas lágrimas que ainda não haviam secado em seu rosto – e abaixou-se para pegá-lo no colo e colocá-lo sobre a cama.

Antes que pudesse fazê-lo, entretanto, levou um susto: Harry deixou um grito escapar de seus lábios. Em desespero, alheio à preocupação do loiro, o grifinório segurou a testa com toda a força. Draco tentou acordá-lo, tentou disfarçar os gritos que deveriam estar sendo ouvidos por metade dos hóspedes àquela hora da madrugada.

A reação de Harry ao seu toque não poderia ser mais inesperada. Sentando-se abruptamente, abriu os olhos e usou os braços para empurrar Draco, procurando afastá-lo. Vomitou violentamente sobre o chão, assustando ao máximo o namorado.

Crendo que sacudir Harry seria uma péssima idéia, Draco agarrou seu braço com firmeza. O gesto passou um pouco de conforto e serviu para que Harry se firmasse na realidade.

– Que aconteceu, Potter? – perguntou Draco, buscando o olhar do outro.

– O Sr. Weasley... droga! Voldemort... eu ataquei ele! – respondeu Harry, praticamente revivendo o sonho em confusão.

– Não seja idiota, Potter, você ficou aqui o tempo todo, não pode ter atacado alguém.

Você não entende. Voldemort... – Harry tentou livrar-se das mãos em seu braço e levantar-se, mas Draco o impediu. – Eu preciso avisar Dumbledore ou o Sr. Weasley vai morrer!

– Dá pra você parar com essa histeria? Ele não vai morrer, agora se acalme! Seja lá o que aconteceu, não tem nada que possamos fazer. O que você pretende? Achar uma coruja em um hotel trouxa? Ou, quem sabe, usar magia para conjurar uma, entregando nossa localização diretamente ao Ministério? Não seja patético, Potter!

– Patético, é? É o melhor que você pode fazer agora?

Draco deu um sorriso desdenhoso.

– Ah, sim, minha querida, é o melhor. Porque você realmente não quer ver quando eu fizer o pior.

Com um tom agressivo na voz, Harry recuou, afastando-se e mantendo as mãos no ar, em advertência.

– Não me toque – ordenou.

– O que foi Harry? Fui muito homem pra você? – incitou Malfoy, ainda que sentasse na cama.

– Só... não me toque, está bem?

Aparentando indiferença, Draco deu de ombros. Sentou-se na cama e pegou uma pasta preta que estava na gaveta do criado-mudo.

– Acha que é prudente descermos para o desjejum, ou é melhor usarmos o serviço de quarto? – analisando a pasta, o loiro perguntou levianamente, como se não houvesse nada de mais importante no momento.

– Não me preocupo com comida às duas e meia da manhã – Harry respondeu, mantendo sobre Draco um olhar cheio de acusação.

– Bom, acontece que eu me preocupo quando passo quase um dia inteiro sem comer e tudo que tenho no meu estômago, às duas e meia da manhã, é meio copo de uma bebida alcoólica – em um tom muito mais rude, Draco insistiu no assunto.

– Certo – conformou-se Harry, desistindo de encará-lo e levantando-se do chão.

Harry tentava controlar o nervosismo, a raiva e qualquer outro sentimento que contribuía para confundi-lo daquela forma. Ao permanecer sentado, Draco pareceu lhe delegar a autoridade da situação, embora suas próximas palavras indicassem que não aceitaria ser subjugado.

– Sente-se, vamos pedir algo para comer.

Harry continuou apenas a encará-lo.

"O que foi? Está com medo?"

Ainda em silêncio, Harry cedeu e se aproximou. Sentou, mas reagiu quando Draco tentou pegar sua mão.

"O que foi agora? Não gosta mais? É isso?", insistiu ele, sem ter uma resposta. "Está com vergonha do que fizemos esta noite?"

– Você não entende... você não entenderia! – ouviu o sussurro.

– Será? – ignorando o desejo de Harry, Draco tocou-o, pegando de leve sua mão e puxando-o para perto de si. – Que parte eu não entendo? A parte em que você gostou de ser tratado como uma prostituta, ou aquela em que você teve um orgasmo gritando como uma mulherzinha?

Harry virou o rosto, tentando afastar-se. O aperto de Draco em sua mão, entretanto, intensificou-se, puxando-o de volta com força e fazendo-o deitar-se.

- Eu não estava... só cale a boca, merda!

- Por que, Harry? – Malfoy, curvando-se, fez com que seu rosto ficasse próximo daquele que estava em seu colo. – Não consegue admitir que gostou?

– EU ODIEI, está bem? O que você acha que eu sou? Uma putinha que você pega em qualquer esquina?

– Oh, coitadinho do Potter... se sentiu ofendido por ser a mocinha. Cresça, Harry! Achou que seriam só rosas e champagne entre nós? Eu não sou o Weasley.

– Claro que você não é. Ele nunca seria tão perversamente nojento como você.

– Por que não volta para ele, então? Assim ele e todos aqueles traidores podem fazer com que você se sinta o heroizinho que é... a não ser que queira a sangue-ruim. É isso que quer, Harry? A imunda da Granger beijando seus machucadinhos?

– E daí? Talvez seja... porque talvez eu estivesse errado sobre você por todo esse tempo...

Olhou para Draco e buscou em sua face qualquer sinal de sentimento. Encontrou olhos cinzentos cheios de decepção. Draco mordeu o lábio inferior e, em um gesto que poderia ser confundido com um carinho, mexeu nos cabelos negros, puxando a cabeça de Harry para seu colo.

– Por que... por que você começou a agir assim de repente? – perguntou Harry em meio às lágrimas silenciosas que teimavam em alcançar a calça de Draco.

– Assim como, Harry? Tudo que fiz foi lhe dar o que você queria.

– De onde você tirou essa idéia absurda? De onde, Draco?

Sem ter resposta, Harry continuou:

"Eu achei que você... mas você nunca..."

– Nunca o quê? Eu nunca o amei, é isso que acha? – Draco suspirou complacente. – Ah, Harry, você sequer entende o que é amor.

Acariciando os cabelos do namorado, Draco continuou:

"Você sabe o que vi no dia em que estraguei a sua poção? Vi um garoto que, mesmo tendo alguém para estragar sua tarefa, não se deixou derrubar. E, mesmo sendo um grifinório, conteve-se para não reclamar da injustiça daquela detenção, porque sabia que a culpa não era do Professor Snape."

"Sabe o que mais eu vi, Harry? Vi que você sentiu outra coisa, não raiva, quando toquei em você aquele dia. E vi você ficar confuso por isso."

"Só que você não está apaixonado por mim, não é mesmo? Você não sente amor por mim... ou sente?"

Apenas considerando aquelas palavras, Harry não respondeu. Draco suspirou mais uma vez.

"É, achei que não. Amor, Harry, é quando você começa a ver as pessoas tal como elas não são. E, até agora, você não parou de me ver como o Comensal da Morte prestes a trair você..."