20. Desculpas
Onde qualquer um pode
criar novas escusas
Talvez pressentindo que a reunião na cozinha terminara, Dobby desaparatou sem despedidas. Quase que imediatamente, Sirius entrou no quarto, nada surpreso por encontrar Harry desperto.
– Sirius, ouça. Draco... – por algum estranho motivo, Harry tentou justificar.
– O que você estava pensando, Harry? Fugir para Londres com Malfoy? Que poção ele deu para confundi-lo desse jeito?
– Ele não me deu poção alguma-
– Como pôde se deixar enganar desse jeito? – insistiu Sirius.
Os dois mantiveram seus olhares firmes um no outro por segundos. Sem obter uma resposta, o bruxo mais velho então abrandou a expressão e perguntou:
"Como você está?"
– Ótimo – respondeu Harry e, com um sussurro, continuou a partir de suas próprias conclusões: – Snape me tirou de lá, não foi?
– É, foi... – visivelmente contrariado, Sirius continuou: – Dumbledore disse que não é seguro Madame Pomfrey vir aqui. Snape tem fornecido... hum, as poções que demos para você nos últimos dias.
– Últimos dias? Quantos?
– Snape o trouxe sábado, hoje é quinta-feira.
Cinco dias... mais as horas que passara em cativeiro. Não recebera notícia alguma do mundo exterior, mas ocasionalmente algum Comensal se aproximava para dar-lhe um pedaço de pão, ou somente para zombar da sua fuga para Londres – Lucius Malfoy demonstrava um prazer sórdido nessa última atividade em especial.
Todas as vezes que parava para pensar, notava que Draco parecia tê-lo manipulado perfeitamente, em todos os aspectos. Conseguira fazer com que Harry saísse da escola por livre vontade e o iludira com seus gestos e palavras. Aquela última noite no hotel... Draco lhe oferecera uma tentativa de explicação para depois, através de palavras, revelar outras intenções; para depois, através de gestos, permitir que Comensais da Morte tomassem controle da situação.
Sentindo a boca seca, Harry teimosamente relutou em aceitar que as palavras de Lucius Malfoy – e de Sirius – fossem verdadeiras, em aceitar que ele tivesse, de fato, deixado enganar-se de tal forma. Certo, Draco lhe entregara aos Comensais, mas a fuga... aquela idéia ridícula de fuga, ele que aceitara. Por um impulso idiota, um momento de irritação, mas ele aceitara, consciente do que estava fazendo.
Não havia poção ou feitiço feitos por Draco. Fora uma decisão idiota e infantil, fugir em meio à guerra, mas, por Merlin!, haviam motivos pra isso. Tinham ficado juntos por duas semanas e o fato da guerra jamais ter se tornado um assunto quando se encontravam deveria ser o maior indicativo de que não importava, simplesmente não importava para o relacionamento deles.
– Draco não teria por quê... – acabou pensando em voz alta, recebendo um olhar de incredulidade de Sirius.
– Não teria, Harry? Ele é um sonserino, é o filho de Lucius Malfoy, pelas barbas de Merlin!
– E daí? Isso não quer dizer absolutamente nada! Draco não é como o pai dele.
Mais do que incrédulo, Sirius pareceu decepcionado.
– Nós falamos com Rony e Hermione quando você... hum, desapareceu. Eles nos disseram que você estava iludido em relação a Malfoy-
– Não estou iludido!
–... e que pensava que ele gostava de você – continuou Sirius, ignorando-o. – Não sei como pôde se deixar enganar desse jeito-
– Já disse que não estou iludido e, muito menos, fui enganado! Draco não fez um plano maléfico para me entregar aos Comensais-
– Mas ele fez! Não percebe, Harry? Ele fez e colocou em prática o plano, causando a detenção com Snape, levando você para Londres e entregando-o aos Comensais!
– ELE FOI OBRIGADO! – Harry explodiu, tirando a explicação do nada e percebendo, no mesmo instante, que condizia perfeitamente com as atitudes de Draco.
Com isso, Sirius olhou para o afilhado como se realmente não o conhecesse. Depois de ter agredido Snape na reunião da Ordem para defendê-lo das mentiras que aquele seboso contava, agora o próprio Harry se prestava a defender o loiro azedo que ajudara no seqüestro.
– Harry, você nem percebe o que está dizendo?! – Sem pensar, Sirius agarrou seu braço com força. – Você está encontrando desculpas para Malfoy. Malfoy! Pomfrey precisa dar mais uma olhada em você, não é possível-
– Não é possível o quê? – livrando o braço e afastando-se de Sirius, Harry rebelou-se. – Que eu esteja do lado dele? É tão incompreensível assim que eu veja mais do que aquele boato de Comensal? Ele sequer tem a Marca Negra, sabia? É mais do que se pode dizer do professor de Poções que vocês mantêm na Ordem!
– Acha que não sei disso? Mas você esquece de um pequeno detalhe, Harry. Snape salvou você, e não podemos dizer o mesmo de Malfoy, que o entregou para ser torturado por quatro dias pelos Comensais da Morte.
– Ah, sim, muito obrigado por me informar isso, Sirius. Muito obrigado mesmo. Porque, se você não tivesse me dito, eu sequer teria percebido quantas Cruciatus sofri antes que vocês pudessem fazer alguma coisa!
– Se não tivesse feito a estupidez de fugir com Malfoy, sequer teríamos de fazer alguma coisa, pra começo de conversa.
– Se não implicassem tanto com o fato de eu gostar de um garoto, sequer teríamos de fugir, pra começo de conversa – Harry retrucou, sem medir as palavras. Detestava ser atacado desse jeito. – Mas, sabe, Sirius, é realmente engraçado o jeito como me condena por eu ter assumido isso. É inveja por você não ter conseguido fazer o mesmo com Lupin ou o quê?
– Você não tem idéia do que está falando, Harry.
– Será mesmo? Acha que ninguém percebeu o jeito que você olha pra ele? Ou como se abraçam toda vez, mesmo sem um motivo? Acredita que alguém na Ordem ainda veja a relação de vocês como amizade?
– Pare com isso – determinou Sirius. – O que eu tenho ou deixo de ter com Remus não é da sua conta.
– Claro que não é. Assim como não é da sua conta o que tenho ou deixo de ter com Draco.
