21. Justificativas
Onde definir talvez seja
mais importante que explicar
Depois daquela conversa, ninguém mais na casa interrogou Harry – talvez querendo evitar atritos, talvez por ordem de Sirius, ou talvez apenas por acreditarem que a experiência tivesse sido suficiente para Harry aprender a lição e desistir de Malfoy.
Com o resgate de Harry, não somente Rony e Hermione haviam sido trazidos para o Largo Grimmauld, como também metade dos Weasley se mudara para lá. Alguns membros da Ordem, como Tonks, Lupin e até mesmo Kingsley participavam constantemente dos jantares.
Na maior parte do tempo, a casa se enchia de vida pela algazarra dos gêmeos ou simplesmente pelos descuidos de Tonks, que volta e meia derrubava alguma coisa, provocando os gritos da Sra. Black. Em meio a isso, era difícil para Harry permanecer indiferente ou ficar ponderando por horas sobre as repercussões da discussão que tivera com o padrinho.
Em alguns momentos, entretanto, Sirius conseguia ser tão irritantemente rabugento que, nem Harry, nem os outros moradores da casa ousavam se aproximar. Por incrível que pudesse parecer, algumas palavras de Sirius eram suficientes para causar tensão entre todos – com algo que deixava Harry extremamente desconfortável.
Como se não bastasse isso, um dia antes do retorno a Hogwarts, Snape aparecera na sede da Ordem da Fênix, informando a Harry que começaria a ensinar-lhe Oclumência no início do semestre.
Isso não contribuiu em nada para levantar o humor do garoto e, quando o Sr. Weasley voltou para casa no início daquela noite, os Weasley comemoraram sem a presença de Harry. Quando Sirius se pôs a procurá-lo no começo da noite, precisou subir até o último andar da casa e entrar no sótão, onde Bicuço era escondido.
Chamou pelo nome do afilhado e obteve como resposta apenas um olhar. Um olhar, pois Harry, do chão onde estava sentado, apenas o encarara mudamente. Decidindo que o jantar não era prioridade naquele momento, Sirius encostou a porta e se aproximou.
– Harry, me desculpe, eu não devia ter deixado você ficar no meio da briga, mas aquele Snivellus me tira do sério – falou com força na voz.
Sem ter resposta naquele instante, soltou um suspiro e foi sentar-se junto ao afilhado.
– É um absurdo que você tenha de passar horas aturando ele em vez de poder ficar aqui, sabe? Eu falei com Dumbledore, mas... – Sirius se interrompeu com um novo suspiro. – Bem, eu sinto muito que você tenha de voltar para a escola amanhã.
Depois de apenas observar o padrinho por intermináveis segundos, Harry disse:
– Eu também não estou pulando de felicidade por ter aulas particulares com Snape.
– É, eu sei. Ouça... eu quero que você me avise se ele estiver sendo mais nojento do que o normal, ok?
Harry franziu o cenho ao ver Sirius colocar em suas mãos um embrulho de papel pardo extremamente amassado. Assentindo, o padrinho o incentivou a abrir o pacote.
– É um espelho de dois sentidos. Eu tenho o par, Tiago e eu usávamos para cumprir detenções separadas. Você só precisa segurar o espelho e dizer meu nome.
Hesitante, Harry mordeu o lábio inferior e perguntou:
– Você não vai ter problemas por causa disso? A Ordem sabe sobre esse espelho?
– Nah, não se preocupe com isso. Quanto à Ordem... bem, Remus sabe desse espelho, não é? E se acontecer alguma coisa, nós preferimos que você use ele do que as lareiras vigiadas pelo Ministério.
– Você conversou com Lupin, então? – incitou o garoto, entrando no assunto que Sirius parecia querer evitar.
– Eu não sei do que você está falando – Sirius desconversou imediatamente.
– Certo. Sirius, eu não quero que você vá junto com os outros para King's Cross, Snape tem razão, você já foi visto-
Sem encará-lo, Sirius levantou-se impetuosamente, assustando até Bicuço.
– Snape tem razão? Snape tem razão?! Aff, não me venha você também com essa história! Já não chega Remus passar dois meses insistindo com isso nos meus ouvidos, agora você também?
– O que você quer? – Harry replicou com a mesma rebeldia, largando o espelho no chão. – Ser encontrado pelos Comensais ou ser preso pelo Ministério? Me desculpe, mas eu acho que nenhuma dessas duas é uma boa alternativa.
– Ficar louco dentro dessa casa também não é uma boa alternativa, Harry. Quem sabe você fica preso dentro da casa da sua família por um ano sem poder sair e vamos ver o que você acha?
– Esquece que eu fiquei onze anos praticamente preso na casa dos meus tios trouxas? E que isso continua acontecendo todo verão? Você ao menos sabe por que isso, Sirius? Sabe? Porque você já foi inconseqüente demais indo atrás de Pedro Pettigrew, porque você agiu por impulso e não pensou.
– E você queria que eu deixasse o assassino dos seus pais solto por aí?
– Caso não tenha percebido, o assassino dos meus pais continua solto por aí. Aliás, ele ganhou um corpo ano passado e já está atacando novamente, e você não está ajudando.
– E você está ajudando tanto dormindo com um Malfoy.
– Ao menos eu consigo dormir com alguém, não é mesmo?
– E o que você quer que eu faça? Vá até Remus e declare meu amor infinito por ele? – perguntou Sirius, com a voz cheia de sarcasmo.
– Seria um ótimo começo – a risada divertida de Harry quebrou um pouco da tensão entre eles.
Ao ver as feições do padrinho relaxarem um pouco, ele continuou:
"Falando sério, Sirius, conversar com Lupin seria um bom começo".
Sirius engasgou-se com a própria fala.
– Eu estava brincando, Harry! Não tenho o que falar com Remus.
– Qual o problema? Quero dizer, por que você não quer falar com ele sobre isso? Você nem sabe se ele-
– Sente a mesma coisa que eu? – perguntou, rindo por puro nervosismo. – Não seja ingênuo, Harry.
– Por quê? Por que é ingenuidade acreditar que Lupin também gosta de você?
– Tem coisas demais acontecendo agora para nos preocuparmos com idiotices como essa.
– E você vem dizer isso pra mim? Mas não tem por que ignorar isso só por causa da guerra ou de qualquer outra desculpa que você queira dar depois... Voldemort, a Ordem, nada disso impediu que meus pais ficassem juntos, não foi?
– Lílian e Tiago... era diferente, Harry. Tiago sempre gostou dela, e depois que ele começou a se comportar, Lílian também se interessou. Eles ficaram amigos...
– E você quer chegar aonde com isso? – o garoto perguntou, sem desviar a atenção por um segundo sequer.
– Eu não sei – admitiu Sirius, derrotado.
– Lupin não vai ficar... er... com você aqui quando voltarmos pra Hogwarts?
Querendo encarar qualquer outra coisa que não o olhar de Harry, Sirius aproximou-se um pouco de Bicuço. Silenciosamente, assentiu com a cabeça.
"Ele vai lhe fazer companhia... quem sabe vocês não conversam?", diante do silêncio, continuou: "O que você quer dele? Porque, se quiser continuar só como amigo, então é isso o que você vai ser."
