22. Draco

Como?

Com certa indiferença, Draco encarou as paisagens que passavam pela janela do trem. Na mesma cabine, Crabbe e Goyle riam grotescamente de alguma piada contada por Blaise Zabini, enquanto Pansy Parkinson insistia em pendurar os braços no pescoço do herdeiro da família Malfoy.

Depois daquele descanso forçado na Mansão de Wiltshire, Draco retornava à escola. Tudo preparado, tudo muito comum, não fosse o fato de que não planejara fazer essa viagem de volta. Ele partira em dezembro – via flu – sem se importar em voltar, sem querer voltar.

O destino, entretanto, é um eterno gozador – e o obrigou a mudar os planos por completo. Aquela escapada infantil junto a Potter acabara de uma maneira que só não fora mais trágica porque Snape interviera.

Seu pai ainda desconhecia esse pequeno detalhe – parecia acreditar que aqueles Comensais estúpidos tinham livrado Potter por estarem sob Imperius ou simplesmente por terem feito algum acordo com o Ministério, covardes que eram – e não seria ele a revelar a verdade, perdendo qualquer vantagem que tivesse na situação.

Para manter tal controle e não acusar injustamente o Diretor da própria Casa, Draco engolira as próprias palavras, aceitando as humilhações de Lucius com uma boa dose de submissão. Repetia para si mesmo que o pai tinha razão, que fora insensatez se envolver com Potter... ignorância até. Ingenuidade por acreditar que poderia desafiar o pai de tal maneira, ou, pior, desafiar o Lord de tal maneira.

Nos últimos dias, a realidade assumira seu papel e as coisas voltaram ao devido lugar. Ele não pensaria mais em Potter e continuaria com todos os planos feitos para o futuro. Assumiria a Marca Negra, seguindo o pai em suas crenças, e ignoraria por completo qualquer ilusão que pudesse ter construído em relação àquele grifinório.


Ignorar Harry não era algo tão fácil de se fazer, Draco logo percebeu. Bastou desembarcar no trem na estação de Hogsmeade para começar a ouvir os murmúrios e boatos que rondavam o Menino-Que-Sobreviveu. Alguns diziam que ele saíra da escola para treinar contra Voldemort; outros, que estava planejando um golpe secreto para conquistar Ministério, e o Profeta Diário publicava que Potter fugira por não agüentar a pressão da fama. Certo.

O único problema é que, em meio a esses rumores, alguém aparentemente espalhara a verdade, que Harry Potter fugira com Draco Malfoy por ter um caso com o sonserino. Alguns alunos foram perspicazes o suficiente para apontar que ambos haviam sumido da escola antes mesmo das aulas terminarem – e que nenhum dos professores oferecera justificativa alguma para esse fato.

Bastaram alguns poucos minutos (Draco sequer alcançara o Salão Principal) para que outros estudantes começassem a fazer-lhe perguntas embaraçosas, exigindo saber cada mínimo detalhe sobre o dito relacionamento que ele tinha (tivera!) com Potter.

Aproveitando que a maioria desses alunos era mais nova – e o seu poder como monitor –, Draco não hesitou em tirar pontos das outras casas ou em ameaçar deixá-los em detenção com Snape. Isso foi suficiente para calar alguns dos estudantes, os outros. Bem, os outros acharam um assunto muito mais interessante para discutir no instante em que encontraram Harry Potter, na mesa da Grifinória, agarrado com Cho Chang.