23. Harry
Por quê?
Sua intenção não fora chocar ou simplesmente acabar com os rumores, não. Ele ficara com Cho apenas porque...
Para começo de conversa, ele tivera a oportunidade. Ok, isso não era suficiente para justificar, oportunidade poderia ter com a maioria das garotas de Hogwarts no momento em que quisesse, o que não poderia afirmar em relação a Draco Malfoy, que, por sinal, devolvera intactas as duas cartas enviadas via Edwiges.
Depois disso ele sinceramente desistira de tentar. De tentar buscar uma justificativa, um perdão ou uma simples explicação. Draco preferia ignorá-lo? Perfeito. Faria o mesmo. Fingiria com todas as suas forças que nada acontecera e, bem, seguiria em frente. Onde estava mesmo antes daquela detenção armada por Malfoy? Ah, sim, convidaria Cho para sair...
Então, foi o que fez ao encontrá-la na entrada da escola àquela noite. Ignorando a expressão embasbacada de Rony e as palavras de censura que pareciam querer escapar da boa de Hermione, Harry convidou-a para sair. "Próximo fim-de-semana em Hogsmeade", ele dissera. Cho, aparentemente, entendera algo bem longe disso e, desde então, a garota estivera grudada em seu braço, sentando, inclusive, na mesa da Grifinória, sem cerimônia alguma. Já estava começando a ser irritante.
Somando-se a isso, a expressão que Malfoy lhe ofereceu ao entrar no Salão Principal só colaborou para piorar seu humor. Quando o jantar terminou, teve de se conter para não ser rude ao afastar Cho e fazê-la caminhar ao seu lado (sem estar dependurada em seu pescoço, por Merlin!). E, no entanto, ela insistiu em segurar a sua mão, para aborrecimento de Harry.
Sozinho, já que os dois amigos monitores estavam supostamente em alguma reunião com a Professora McGonagall, Harry se pôs a caminho da torre da Grifinória. Ao menos, a torre ainda era seu objetivo quando chegou às escadas do terceiro andar.
Seus passos rápidos foram subitamente interrompidos quando alguém puxou sua capa, fazendo-o cambalear e ter de buscar o apoio do corrimão para não cair.
– Malfoy...
Draco não desistiu de atingi-lo e, ainda pela capa, puxou Harry de volta para perto de si. Seu rosto estava contorcido em uma expressão de absoluto nojo e, quando finalmente falou, foi como se cuspisse as palavras:
– Tão grifinório de você, Potter. Não agüentou se tratado como merece e foi correndo chorar para uma garotinha. Ou será que seu querido padrinho arrumou ela como prêmio de consolação, já que a sangue-ruim trocou você pelo Weasel?
Harry caminhava ignorando o som que seus passos faziam sobre as folhas secas. A cabeça baixa, os ombros caídos, o olhar perdido no nada. Ficara com Cho porque era o mais fácil, o mais aceitável, o mais certo. Não era?
Tudo indicava que haveria segurança no que quer que existisse entre ele e Cho, mas não era assim que ele se sentia. A cada palavra, a cada movimento, parecia andar por um território extremamente desconhecido. E com Draco, entretanto, não era assim. Por mais que tivesse se aproximado há tão pouco tempo dele, havia sempre um senso de familiaridade em suas ações, até de previsibilidade, Harry poderia dizer. Sabia exatamente quando Draco falaria alguma coisa totalmente arrogante apenas para fazê-lo rir, ou como estaria do seu lado em qualquer momento, sem que Harry precisasse dizer uma palavra.
Draco era tão, tão previsível que conseguira surpreendê-lo, por mais contraditório que isso fosse. Ele cuspira as palavras na sua cara e o fizera com tanto sentimento que tudo o que Harry pôde fazer foi empurrá-lo, afastando-se sem olhar para trás uma vez sequer.
No vazio do pátio – e da noite – Harry sentiu-se cair. As palavras de Draco não mostravam alguma decisão que o sonserino tomara, só apontavam covardemente o enorme erro que Harry fizera ao procurar Cho. E agora, entre eles, erguera-se uma barreira instransponível que não podia ser vista pelos olhos, mas que cumpria sua função de impedir qualquer tentativa de aproximação da parte de Draco – ou até mesmo de desculpas pela parte de Harry.
Por que tinham de ter mentido, por que tinham de ter fugido? Por que tinham de ter se beijado?
Ele tinha mentido, inventado, acreditado... por quê?
Por quê?
