24. Noite
"Onde a noite diz: é tarde
e as nuvens respondem: é cedo."¹
A reunião com McGonagall terminara um pouco mais tarde do que o previsto e, com isso, Rony e Hermione foram dispensados de patrulhar os corredores àquela noite. Subiram para a Torre da Grifinória para encontrar o Salão Comunal praticamente vazio. Quase todos alunos pareciam já ter se acomodado nos dormitórios.
Rony, não tendo feito o dever de Poções – que deveria ser entregue em três dias – não teve a mesma sorte. Com algumas frases categóricas e um pouco de persuasão, Hermione o convenceu a tentar escrever um pouco antes de deitar-se. Foi ao quarto e, sem encontrar Harry, desceu novamente para o Salão Comunal.
Demorou duas horas para convencer a amiga que já fizera o bastante por aquele dia e que era melhor descansarem. Na verdade, Hermione até admitia que o garoto escrevera o suficiente por hora, mas, preocupada com o fato de Harry ainda não ter retornado, não achou que era uma idéia tão genial assim irem dormir.
Com isso, quando largou os livros e pergaminhos ao lado da cama, aproveitou para procurar, nas coisas de Harry, o Mapa do Maroto e a capa de invisibilidade. Hermione insistia que deviam procurar o amigo e, por mais que as intenções fossem boas, Snape não perdoaria tão facilmente se estivessem fora do Salão Comunal depois do horário de recolher.
Ao ver o nome "Harry Potter" parado próximo ao lago, sozinho, Hermione não teve dúvidas. Quis imediatamente saber o que acontecera – e arrastou Rony consigo, sob a capa.
Saíram para o vento frio da noite e cruzaram, em poucos minutos, o caminho de grama úmida. Ao se aproximarem, a própria Hermione largou a capa de invisibilidade no chão e chamou, hesitante:
– Harry?
Ao ouvi-la, ele levantou-se de onde estava sentado, mas manteve o olhar fixo em direção ao chão.
"Aconteceu alguma coisa? Por que você não voltou para a Torre?", continuou ela.
– Não, eu... – ele parou, com a voz embargada. – Já estou subindo.
– Então vamos logo, você sumiu e Mione me fez escrever quase toda a redação de Poções sem consultar o livro! – Rony disse, e Harry deu uma risada contida. – Quem sabe agora você me empresta a sua para eu ver como ficou?
Harry começou a andar em direção ao castelo e estava prestes a passar pelos amigos quando o braço de Hermione se interpôs à sua frente, fazendo-o parar.
– Você não está pensando em fugir de novo, não é, Harry? Porque o que você fez com Malfoy foi-
– Estupidez, eu sei – completou ele, sempre desviando o olhar.
– Bem... – Hermione mordeu o lábio inferior por um segundo antes de continuar: – Sim, isso também. Mas, Harry, ficar com a Cho foi mais estupidez ainda.
– É mesmo? Como? – desafiou, por mais que sua postura fosse defensiva.
– Antes de fugir, você nos disse que gostava de garotos, não foi?
Estranhando um pouco que ela ainda lembrasse aquela explosão sua no Salão Principal, Harry preparou-se para responder e ouviu um murmúrio muito claro de "Hermione, pare de insistir nisso", vindo de Rony.
– Eu estava confuso e...
– E o quê, Harry? – ela pressionou. – Você acredita mesmo que estava confuso? Fez a besteira de fugir com Malfoy só para se decidir, foi isso?
– O que você está insinuando, Hermione? Ele foi e se decidiu, não está vendo? Por isso ele ficou com a Cho... – Rony interveio, meio confuso.
– Cho não tem nada a ver com isso – respondeu Harry, sem pensar.
– Então por que você a colocou nessa história, Harry? – perguntou Hermione e, depois de minutos sem ter uma resposta, continuou: – Sirius disse que Malfoy o entregou pros Comensais, é verdade?
Meio chocado por Hermione estar duvidando de algo tão óbvio quanto a traição de um Malfoy, Rony fez menção de responder pelo amigo, mas a garota não permitiu.
"Foi por isso que vocês brigaram?", ela fez mais uma pergunta.
– Por que nós brigamos? – Harry riu sem emoção. – A pergunta, Hermione, é quando nós brigamos, porque até agora não sei.
– Como assim, Harry? – perguntou a garota, tentando ser objetiva.
– Eu diria que foi no hotel, quando ele avisou que iria me trair... – respondeu ele, o olhar desligando-se da realidade. – Ou talvez tenha sido depois, quando não respondeu às minhas cartas. Você acha que foi por isso?
– Cara, você não 'tá fazendo muito sentido – comentou Rony.
– As minhas cartas... pode ter sido por elas, eu não sei. Sirius insistiu que eu não escrevesse...
– Qual o problema com as cartas? – inquiriu Hermione gentilmente.
– Elas podem ter caído nas mãos de Lucius Malfoy, não percebem? Se isso aconteceu, Draco-
– Se isso aconteceu, provavelmente o pai daquela doninha acabou com todo esse besteira – interrompeu Rony, com um certo alívio.
– Ronald! – Hermione deu-lhe um tapa no braço. – Continue, Harry.
– Merlin... – surpreendendo os amigos, Harry sussurrou e escondeu o rosto nas próprias mãos.
– O que foi? – pressionou Hermione, lançando um olhar de censura ao garoto ruivo.
– Quando ele disse que ia me entregar... Merlin, ele só não respondeu às cartas porque não pôde... e então chegou aqui e me viu com Cho...
Harry fechou os olhos, ainda que estes estivessem escondidos por suas mãos.
"Merlin", repetiu.
Então, em um tom de súplica, pediu:
"Como eu conserto isso, Mione?"
A/N: Epígrafe desse capítulo por Luiz Coronel.
