- PARANÓIA -

PARTE II: O COMEÇO DO FINAL

Capítulo 18


"Isso, definitivamente, não se parece com o Caldeirão Furado", Draco falou levantando uma sobrancelha, olhando a sua volta.

"É porque, obviamente, não é o Caldeirão", respondeu com simplicidade.

"Por que me trouxe para o meio do mato?", perguntou olhando em volta e não vendo sinal algum da velha Londres.

Ginny havia aparatado, carregando-o junto. Nunca gostara daquela sensação que experimentava todas as vezes que fazia uso daquela forma de transporte, talvez por isso não tivesse percebido de imediato onde se encontravam, pois, se tivesse prestado atenção, saberia exatamente a localização. Vivera naquelas redondezas tempo demais para esquecer...

Ela não respondeu ao questionamento, apenas ficou observando o céu que estava extremamente claro e sem nuvens, ignorando completamente a pergunta do jovem Malfoy.

"OK, eu fiz a pergunta porque eu queria que você, inocentemente, me respondesse, mas eu sei exatamente o que viemos fazer", ele a puxou pelo braço e encostou-a em uma árvore.

"Enlouqueceu, Malfoy?", perguntou, empurrando-o.

"Você está incrivelmente difícil hoje, meu amor", às últimas palavras ele acrescentou certa dose de veneno.

"Eu não sou o seu amor, Draco".

"É a minha namorada".

"Não, eu não sou".

"Por que está tão temperamental?"

"Talvez por ter descoberto que você é um comensal?"

"Ei, mas isso você já sabia. Desde Hogwarts, sempre soube. Pensei que já tinha superado isso, quando me agarrou no Beco Diagonal".

"Superei em parte, o que não significa que eu aprove. E sim, eu sabia, mas eu não sabia que você continuava-"

"Eu. Não. Sou. Um. Espião!", gritou, pausadamente, cada uma das palavras.

Ginny não respondeu no primeiro momento. Respirou lenta e profundamente antes de confessar:

"Eu estou cedendo, Draco. Estou aceitando você com o pacote completo, por isso-"

"Sabia que tinha coisa", interrompeu. "Não tente bancar a espertinha, Ginny. Você me traz para o meio do nada, onde eu só vejo montanhas, árvores e essa grama mal cortada, e quer que eu pense o quê?"

"Vai ter que me aceitar também, Malfoy".

"Quê? Como assim?"

"Eu gosto de você, Draco", ela falou em tom sério.

O rapaz gelou. Não que ele não soubesse, mas era extremamente diferente escutá-la dizer isso.

"Bem, eu sei, mas... Eu não esperava que você... Minha nossa, você disse isso mesmo?" perguntou atrapalhado.

"Não, foi a sua imaginação".

"É sério mesmo o que você falou?"

"Claro que é! Do contrário não teria falado, mas... Você entende que no nosso caso isso não é o bastante".

"E do que mais precisamos? Diga-me, porque eu juro como não agüento mais você se fazendo de difícil. Você não costumava ser tão durona", ele a segurou pela cintura e beijou-lhe o pescoço, sentindo o aroma floral ao qual já havia se habituado.

"Eu até posso tentar viver com o peso de estar junto de um homem que mata as pessoas que eu tento defender..."

"Eu não mato pessoas. Nunca matei ninguém", relembrou.

Ela ignorou.

"Um homem que ferrou tudo", continuou. "E perdeu a proteção da Ordem da Fênix, mas..."

"Mas...", sussurrou entre os beijos que ainda pousava sobre o pescoço da jovem.

"Você terá que convencer meus pais também".

"O quê?" ele se afastou em um impulso, praticamente berrando.

Parecia que tinha levado uma descarga elétrica, deu três passos para trás e caiu no chão ao tropeçar em um tronco de árvore caído. Os olhos dele estavam arregalados e Ginny não pôde conter o riso.

"Meus pais não são mais assustadores do que Você-Sabe-Quem, isso eu garanto".

"Não estou com medo do seu pai".

"Então o que é?", ela se aproximou, estendendo a mão para que ele se apoiasse para levantar.

"Não me faça ter que enfrentar seus dez irmãos, seus pais e provavelmente a Ordem inteira mais uma vez. E ainda tem a sangue-ruim, que agora é uma Weasley também e..."

"Eu não tenho dez irmãos".

"Sei lá, são tantos que não faz diferença. Por Deus, Ginny... Tenho até medo de ficar ruivo também".

"A cor dos meus cabelos não é uma doença para ser contagiosa, Malfoy", resmungou ofendida. "E vai ser assim, eu te compro com a sua marca, com sua família fugitiva, e você me compra com a minha família. Assim ficamos quites".

"Isso é muito injusto! Vocês são mais numerosos que uma família de coelhos. Minha marca é só uma e tenho uma família pequena!"

"Uma marca que vai pôr em risco a vida de muita gente, incluindo a minha vida, a sua e a da sua família. Você já ferrou tudo uma vez, trocando a nossa proteção por promessas das quais não quero saber... Você sabe que isso é o mínimo que pode fazer", intimou.

"Eu sei de tudo isso, mas também preciso lembrar que a sua também estará em perigo, se contar para eles. Se o Lord das Trevas souber que realmente estou envolvido com você, não virá apenas atrás de mim... Ele me mata, mata você e todos os outros coelhos!"

"Eu não sou um coelho!"

"Você me entendeu", ele falou cruzando os braços e sentando no tronco caído, com uma expressão idêntica a de uma criança que foi colocada de castigo.

"Ei", ela o chamou carinhosamente, e se aproximou, sentando-se ao lado do rapaz. "Vamos consertar as coisas, tudo bem? Não é tão ruim assim, minha família não vai sair espalhando que estamos juntos, até porque eles não terão o menor orgulho disso. E de qualquer forma. você já ficou sob a proteção da Ordem uma vez e pode conseguir convencê-los novamente".

"Então..."

"Só não fico a vontade em continuar mentindo para eles".

"Ginny, preste atenção: nós vamos morrer!", falou com seriedade, encarando os olhos cor de chocolate.

"Pensei que você não se importasse com isso, mas cada vez mais acredito que falou que estava disposto a morrer só para me convencer".

"Em parte foi, mas..."

"Em primeiro lugar, Draco, você é burro!"

"Também não precisa me ofender", reclamou, desviando o olhar.

"Mas você é! Onde estava com a cabeça? Você acabou com a sua vida quando decidiu-"

"Você não entende, não é mesmo?", ele a interrompeu, encarando-a firmemente. "A única certeza que eu tinha em minha vida desde que comecei a raciocinar foi que eu queria ter uma dessas!", ele levantou a manga das vestes. "Não que eu quisesse servir ao Lord, ou ser um comensal importante... Eu apenas precisava provar que podia fazer algo. Mas isso mudou, porque vi que era perigoso demais. Eu não queria isso, Ginny. Juro que eu daria qualquer coisa para não ter esse destino, só que ele me convocou, em grande parte para se vingar do meu pai. Você não pode simplesmente dizer "não" para o Lord".

"Você é tão tolo, Draco", murmurou enquanto passava seus dedos nos cabelos dele. "Nós dois pensamos de forma tão diferente".

"Nossas filosofias são diferentes, não podemos mudar o que somos, Ginny. Você sempre será a gryffindor, traidora do sangue bruxo, eterna namoradinha do Harry Potter e eu..."

"Um idiota", ela completou com simplicidade, sorrindo gentilmente.

Draco ficou quieto. Desviou o olhar e baixou a cabeça.

"Eu não sou um idiota", falou baixinho. "Sou apenas diferente de você".

"Você é um Comensal, filho de um Comensal e, como você mesmo falou, comensais são assassinos. Vai ver essa sua maldade é genética e eu não quero isso para meus filhos".

"Nós vamos ter filhos?", perguntou sem conseguir conter um sorriso.

"Não" respondeu secamente.

"É uma pena, porque iam ser lindos..."

"Malfoy..."

"OK, você quer falar sério, não é?", questionou, segurando a mão da garota. "Pois então saiba que você está simplificando as coisas. Somos preconceituosos, matamos – embora eu nunca tenha matado ninguém – mas tudo isso é por uma causa nobre".

"Exterminar pessoas que não tem o sangue puro é algo nobre?"

"Se você tivesse nascido em uma família com valores diferentes das que a sua possui talvez soubesse, e entendesse, o que eu sinto a respeito disso".

"Malfoy, não preciso entender. E você nem precisa pensar muito para perceber que está do lado errado".

"O lado errado só depende do ponto de vista, Weasley. Não vai adiantar ficarmos discutindo isso, porque não levará a lugar nenhum".

Ela suspirou, também passando a encarar o chão e, resignada, deitou sua cabeça no ombro do rapaz.

"Tudo isso é tão triste...", murmurou. "Às vezes eu me lembro da foto com a formação da primeira Ordem e penso se, daqui a dez anos estaremos todos vivos ou se vai ser como antes", ela virou-se para encarar os olhos cinzentos e continuou: "Queria que dessa vez fosse diferente e que ninguém precisasse morrer... Queria poder fazer alguma coisa para que eles mudassem de opinião sobre você, Draco. Que o aceitassem de volta... Mas você também teria que mudar tanto..."

"Sinto muito, mas não há muito a fazer. A maioria das coisas está longe do nosso alcance... Principalmente porque eu já não tenho um lado nessa guerra".

"É... Eu sei".

Passaram alguns minutos em silêncio. Era difícil prever qualquer reação, difícil definir qualquer momento para que tomassem uma atitude sobre contar qualquer coisa, difícil dar um passo em qualquer direção, porque todos os caminhos eram incertos e perigosos. Permanecer daquela forma talvez fosse o mais simples, mas, com o tempo, sabiam que a relação não se sustentaria em segredo no meio daquela guerra.

"Vamos contar hoje", Draco sussurrou, para surpresa de Ginny.

"Você tem certeza?", questionou, usando o mesmo tom.

"Não, mas, quero acabar com isso logo. De qualquer forma, que escolha eu tenho? Além de tudo o que envolve nós dois, tem o fato de que eu não sobreviverei sozinho".

"Não sei por que, mas, no fim das contas, eu sabia que você tomaria essa decisão", ela sorriu.

Draco adorava aquele sorriso.

"Pode me levar para a sua casa, se quiser. Acha que chegamos antes de escurecer?", questionou.

"Sim, estamos bem perto, basta atravessarmos aquelas árvores", explicou com naturalidade. "Podemos entrar pela janela do meu quarto", acrescentou, se levantando e estendendo a mão para que ele levantasse também.

Draco o fez, mas não sem resmungar.

"Você, realmente, é gosta de manipular as pessoas".

Ela sorriu mais uma vez e apertou forte a sua mão. Guiando-o para o caminho correto de sua casa, que ele jamais encontraria sozinho devido à quantidade de feitiços que protegiam o local.

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Só ouvia o silêncio e encarava o teto. À meia luz, distinguia as formas do quarto que conhecia em detalhes.

Suspirou.

"E eu, inocentemente, achando que íamos passar uma tarde feliz no Caldeirão Furado, esquecer do mundo, só eu e você...", murmurou. Estava deitado na cama de Ginny e o teto de madeira ainda era o alvo do seu olhar.

O clima amistoso se dissolveu assim que pisaram no quarto dela. Draco, que havia feito todo o caminho em silêncio, começava a mostrar traços do verdadeiro pânico que o consumia.

"Não comece a reclamar, Draco", censurou. "Precisamos pensar no que vamos dizer", sentou-se na beira, tentando se postar a uma distância segura do rapaz.

"Então", ele continuou sem dar ouvidos, ainda falando baixo. "A ruiva fatal e espertinha me faz de bobo, leva-me para as proximidades da toca dos coelhos e me informa que só fica comigo se aceitar o pacote completo... Que por sinal é um enorme pacote completo", ele a encarou.

"Malfoy-"

Alterando o tom de voz, ele continuou, interrompendo-a:

"E eu, muito idiota, como ela sempre faz questão de frisar, acabei concordando porque provavelmente fui drogado no meio do caminho ou estou sob a maldição Imperius".

"Quer parar de falar bobagem?", questionou irritada. "Daqui a pouco eles vão chegar e eu não quero que te escutem antes que eu tenha tempo para prepará-los".

"Weasley, poderia respeitar o meu momento de desespero?", perguntou educadamente.

"Oh, desculpe".

"Obrigado".

Ela bufou, irritada. Levantou-se e começou a dar voltas pelo quarto. Draco parou de resmungar para observá-la.

"Quer me deixar tonto?"

"Você é irritante!"

"E mesmo assim você me ama! Eu sou muito bom mesmo", falou, colocando as mãos atrás da cabeça, ainda deitado.

"Juro... Juro de verdade que se ninguém naquela sala matar você, eu mesma farei isso".

"Não faz nada. A única coisa que você vai fazer é sentar aqui e tentar me acalmar, porque eu estou morrendo de medo de enfrentar seus doze irmãos", ela o mirou furiosa e andou apressada até a cama, sentando-se perto dele.

"Eu tenho seis irmãos, ouviu bem?", perguntou dando tapas no rapaz.

"E além de me obrigar a enfrentar as feras e ainda me bate... Weasley, você me drogou? Usou poção do amor comigo? Não entendo o que ainda me faz..."

"Gostar de mim? Nossa, eu sou muito boa mesmo", respondeu com a ironia usada pelo rapaz.

"Essa frase é minha", resmungou em falsa indignação.

"Então me deixe roubá-la de vez..." sussurrou inclinando-se para alcançar os lábios de Draco, que parecia já esperar por aquela atitude, deixando que ela caísse sobre ele.

O que era mais mágico entre os dois, era como eles se beijavam como se nunca houvesse feito antes. Sempre uma nova sensação, a ansiedade, a procura que existe em um primeiro beijo. Como se nunca os mistérios de cada um pudessem ser desvendados pelo outro, por mais que tentassem. Era a melhor sensação do mundo.

"Não seja mal educado, Ron", eles ouviram alguém berrar no andar inferior. Ginny saiu de cima de Malfoy com um único movimento.

"Molly, controle-se", era a voz de Arthur. "Nosso filho não é mais criança".

"Não se preocupe, Sra. Weasley, eu já me acostumei. Ron é cheio desses comentários impertinentes, mas não faz por mal", ela pôde ouvir a voz de Hermione.

"Minha filha, não defenda esse mal educado..."

"Mamãe!" Ron exclamou indignado.

"Os dois se entendem, Sra. Weasley. Eu convivi com eles sete anos em Hogwarts, todos os dias. A senhora pode acreditar. Eles se entendem dessa forma e, se mudar, vai estragar a fórmula".

"Obrigado, Harry. Está vendo, mamãe? O Harry me conhece mais do que a senhora".

"Onde estão Fred e George? Eles prometeram que fechariam a loja mais cedo para..."

Draco se levantou desesperado, encarando Ginny mais aflito do que estivera em qualquer momento anterior a este.

"O Potter está aqui? Como?"

"Eu não sei! Eles não davam notícias há tanto tempo, os três andam tão misteriosos...".

"Precisava me trazer aqui em um dia em que estivessem todos eles presentes? Eu não sou uma atração de circo!"

"Eu não sabia!", ela falou também temerosa, tentando arrumar os cabelos.

"Você vai tentar me convencer que foi sem querer?"

"Não, eu... Ai, que droga!", ela bateu de leve na própria testa.

"O quê?"

"Hoje é o aniversário do Harry!"

"Quê?"

"É o aniversário do Harry", repetiu mais alto.

"Você só pode estar brincando comigo..."

"Não, eu não estou. Ele quase sempre comemora aqui. Desde que terminamos Hogwarts, só o aniversário de dezenove anos não foi comemorado conosco por causa do curso de Aurores... Não pensei que com toda essa confusão, com a morte de Alicia e com as misteriosas missões que estão desempenhando para o Ministério, eles parassem para sequer pensar na idéia de comemoração".

"Oh, céus... Aniversário do Harry Potter significa reunião dos membros da Ordem da Fênix?"

"Pelo menos de metade, eu acho".

"Espero que eles ignorem o fato de terem me expulsado daqui, que acham que eu sou traidor, de eu ser o responsável indireto pela morte de Dumbledore e também ignorem-"

"Por favor, não me faça lembrar aquela noite em que um de seus amigos quase matou o meu irmão".

"Não me faça ficar mais nervoso do que eu já estou!", ele passou a mão nos cabelos, impaciente.

"Vamos descer?", ela perguntou já sabendo a resposta.

"Não!", respondeu desesperado. "Obvio que não!"

"Draco, eles não vão matar você, mas se tentarem eu juro que fico na frente. E a mim, realmente, eles não vão matar".

"Eles vão achar que eu a enfeiticei".

"Não, eles não vão", negou imediatamente. Draco a encarou, antes de revirar os olhos. "Certo, eles vão. Mas têm maneiras de provar que o meu sentimento é legítimo".

"Ginny, eu estou apavorado".

"Eu também, mas você ainda me deve essa! Ainda estou com raiva de você e... Pacote completo. Lembra? Uma troca justa de sua Marca Negra e sua família, pela minha e por proteção".

"Sua família não inclui o resto da Ordem!"

"Sua Marca Negra também não vem sozinha, não é mesmo?"

"Eu acho que estou passando mal", falou afrouxando os botões das vestes.

"Oras, Draco! Aja como um homem!"

"Eu sou um homem e estou agindo como um que tem amor à própria vida e... Por Deus, Ginny, eu não sou gryffindor, portanto não exija tanta coragem de mim".

Ela revirou os olhos, mas se pegou refletindo: ele tinha razão.