- PARANÓIA -
PARTE II: O COMEÇO DO FINAL
Capítulo 19
"Boa noite... A todos", voz de Draco soou falha, depois de praticamente ser empurrado por Ginny, escada abaixo.
Um silêncio anormal caiu sobre o aposento, como se um feitiço tornasse aquela sala imperturbável. Draco sentiu os diversos pares de olhos que o encaravam lhe perfurarem o peito como se fossem flechas incandescentes. Sua respiração não estava correta e os batimentos de seu coração estavam mais acelerados que um carrinho de Gringotes.
Nesse ponto, sua visão começou a embaçar.
O primeiro que apontou a varinha foi Harry. Draco, apesar do nervosismo, não conseguiu controlar um sorriso debochado. Sempre o Potter Perfeito.
Ao Harry, seguiram-se os demais. No final de tudo, os únicos que não tinham varinhas a postos eram o próprio Draco e Ginny, que imediatamente se colocou entre ele e os familiares e amigos.
"Desculpem o susto, mas... Noite agradável, não?", perguntou começando a ficar vermelha.
"O que ele está fazendo aqui?", perguntou Ron.
"Nós vamos explicar".
"Na verdade a intenção era só de explicar aos dois ali", Draco apontou para o Sr. e a Sra. Weasley. "Mas a sardenta esqueceu que hoje era um dia especial, não é mesmo?", ele a encarou de novo.
"Mãe, pai... Será que vocês podem vir com a gente um minutinho?", Ginny perguntou, já sabendo a resposta.
"O que ele está fazendo aqui, Ginny?", Arthur repetiu a pergunta de Ron, sem baixar a sua guarda.
"Pai, eu e o Draco..."
"Ele comprou uma poção do amor e deu para Ginny, pai!", George revelou.
"Não!", Draco berrou. "Eu não..."
"Ele comprou sim!" Fred concordou. Os murmúrios encheram a sala, antes silenciosa. "E ainda insinuou que usaria com a Ginny. Accio Poção do Amor!"
Uma caixinha cor de rosa saiu do bolso das vestes do loiro, atravessou a sala e parou nas mãos de Fred, que a exibiu triunfante. Mais sussurros audíveis e olhares reprovadores. Draco se sentiu como um punhado de mofo no canto da sala.
"Se vocês prestarem atenção, a caixa está lacrada", Ginny falou. "Ele não usou nada contra mim".
"Minha filha, o que você está dizendo é verdade?"
"É, mamãe".
"Mas ele... Ele ainda é um Comensal, Ginny! Não devia trazê-lo aqui novamente, você sabe disso. Nós acreditamos nele, demos proteção, ouvimos Dumbledore, a quem ele-"
"Potter, ela sabe perfeitamente quem sou eu, não precisa ficar lembrando. E o motivo para eu estar aqui vai além dessa guerra. Nem tudo em nosso mundo tem a ver com você", provocou.
"Não pedi para que falasse alguma coisa, Malfoy".
"Não preciso de sua permissão para falar, Potter".
Os dois se encararam, com uma fúria verdadeira. Hermione baixou a varinha.
"Ginny", ela se aproximou. "Você tem noção do que está fazendo ao trazer ele de volta? Todas as precauções para reforçar os feitiços depois que ele saiu já tinham sido tomadas e você o trouxe de volta para uma das bases, tem certeza do que está fazendo?"
"Sim, Mione. Eu não estou louca, sabe? Eu e o Draco brigamos o dia inteiro, tentando chegar a um pensamento comum, mas não deu certo".
"Ginny, por Deus... Que loucura é essa? Sobre o que conversaram? Depois que ele foi expulso ficou terminantemente proibido o contato com ele", Molly baixou a varinha e se aproximou da filha, segurando-a pelos ombros. "Mesmo sendo membro da Ordem, você não tinha permissão para interferir nos planos dessa forma, não podemos mantê-lo protegido".
"Olha, já deu um imenso trabalho de convencer a sua filha a me aceitar de volta, se é que entende o que eu digo. De qualquer forma, vou repetir: não tem nada a ver com vocês. Não estraguem tudo".
"Seu filhote de cobra, é melhor que fique longe da minha irmã", Fred, compreendendo a situação, e ainda com a varinha apontada para o peito de Malfoy, berrou.
"Vou fingir que não ouvi isso, tudo bem? Ginny está insegura, com medo, passou o dia todo tentando me convencer que eu estava do lado errado... Não ferrem com tudo! Eu quero ficar com ela e ela quer ficar comigo! Pronto, acabou! Só estamos comunicando, porque já chegou o momento de parar de esconder, mas fiquem sabendo que se quiséssemos continuaríamos juntos como ficamos todo esse tempo sem que vocês sequer desconfiassem. Olhem, eu não vou me meter nos negócios de vocês, não vim aqui para isso, não vim implorar, nem preciso de proteção..."
"Você sabe que precisa", Lupin desafiou.
Draco se mexeu inquieto. Sim ele sabia que não estava seguro. Sabia perfeitamente bem que precisava continuar fugindo, sumir de Londres, ir ao encontro de seus pais que ainda permaneciam escondidos, mesmo que sem a proteção da Ordem.
Ele sabia de tudo isso porque escutava coisas onde não havia ruídos;
Porque andava olhando para trás por medo de ser surpreendido;
E que qualquer estalo ou voz alterada fazia seu coração pular.
Sim. Ele sabia que precisava de proteção.
"Não sei o que é pior: se é ter você por perto de novo após ter nos traído e se arrependido ou descobrir que está de volta não por arrependimento, mas porque mantém um relacionamento com minha filha", Arthur falou mais para si mesmo do que para os presentes.
"Espero que entendam a situação: eu não quero que pensem que eu ainda estou trabalhando para eles, porque eu não estou. Também não colocarei a vida de ninguém em risco, e muito menos tentarei convencer a Ginny a tatuar uma marca no braço. Eu só quero ficar com ela, às claras".
"Então, você assume que é um Comensal da Morte e que ainda tem a Marca Negra tatuada em seu braço?", Lupin perguntou, só esperando a confirmação.
"Sim, eu tenho. Mas da mesma forma que não estou do lado de vocês, mas também não estou do lado deles!"
"Quem nos garante? Você, Malfoy?", Harry questionou com acidez.
"Não vamos começar com esse interrogatório de novo, não é mesmo? Vocês já me fizeram essa pergunta da outra vez, isso aqui não sai!", gritou. "É algo para a vida toda, não se pode simplesmente deixar de ser um Comensal, mas eu estou aqui tentando dizer para vocês, de novo: eu não estou do lado deles!", acrescentou, ainda com o tom de voz elevado.
"Draco, você não está em condições de ficar berrando", Ginny o segurou pelo braço.
"E você dizendo que não era contagioso" tentou respirar, depois de sua explosão. "Tem certeza que eu não estou ficando ruivo?", ele apontou para o próprio cabelo. "Eu fico com uma leve tendência a fazer coisas gryffindors e idiotas quando estou apavorado. O ar desse casebre não está me fazendo bem, acho que é alguma alergia, está acontecendo exatamente como da outra vez e-"
"Lave a sua boca ao falar da minha casa", Charlie também se mostrou irritado. Coisa que era muito rara de se ver.
"Draco, por favor, não provoca", Ginny implorou mais uma vez.
"Não estou provocando. Não é uma coisa intencional, eu só vou falando e vai saindo e..."
"Então cala a boca e deixe que eu falo".
"OK, eles são todos seus".
Ginny deu mais um passo em direção aos convidados, ficando ao lado de sua mãe, que era a mais próxima. Todos ainda a encaravam com um ar de desagrado e reprovação que lhe doía o peito. Ela retribuiu com o olhar firme e reuniu toda a coragem gryffindor que existia dentro de si.
"Nada do que falarem vai adiantar, eu sei. Entendo que existe toda uma questão estratégica e desconfianças, medo até, por tê-lo entre nós, mas a questão nesse momento é outra. Por dois segundos esqueçam a guerra e os lados... A questão nesse momento é que estou confessando que eu estou completamente apaixonada por esse idiota", Draco se mexeu atrás, em reprovação, mas ela continuou: "E o que o que nós dois vivemos não é recente, apenas era escondido e decidimos que dadas às circunstâncias é perigoso manter em segredo o nosso relacionamento".
"Ginny, isso é errado", Ron tentou começar, mas foi interrompido.
"Eu e Draco já discutimos sobre isso, Ron. Já passamos dessa fase de certo e errado, não quero viver isso de novo. Eu já tinha desistido da gente, mas ele me convenceu de que pode dar certo. A parte difícil é conseguirmos respeitar a filosofia de vida de cada um, mas eu prefiro me arrepender por ter tentado".
"Essa louca quase desistiu de mim! Isso seria insano da parte dela e, eu não acredito que vou falar isso, não acredito mesmo, mas vou... Eu realmente gosto dessa mulher e... Não olhem para mim com essas caras, os Malfoy também são capazes de amar, certo? Pode parecer estranho para vocês e para o seu preconceito, mas eu também tenho família, e eu faço qualquer coisa por eles e eu sei como são essas coisas. É só por isso que eu estou aqui hoje, eu entendo vocês. Entendo o medo de vocês porque o meu é exatamente o mesmo".
"Você está louca, Ginny", Harry foi direto.
"Pode ser, mas eu poderia continuar escondendo isso e vocês jamais saberiam. Só que eu e Draco fizemos um trato e eu não gosto de mentir para a minha família, e isso inclui você e Hermione. Não era momento para ser egoísta, decidimos enfrentar. Além do mais... Ele continua precisando da nossa ajuda".
"E eu só concordei em vir aqui porque vocês são, teoricamente, os bonzinhos da história. Ela me convenceu de que vocês seriam capazes de me dar uma segunda chance".
"Eu ainda posso te matar, Malfoy", George era um dos poucos que continuavam a apontar a varinha para o slytherin.
"Mas não vai, porque se fizer isso sua irmã nunca vai perdoar você e você é bonzinho, lembre-se disso. O malvado da história sou eu. Eu é que traio, torturo, faço criancinhas chorar... Certo?"
"Como você agüenta tanta asneira, Ginny?", Fred perguntou.
"É suportável. Esse defeito eu agüento".
"Olha, nós vamos contar para os meus pais também, mas só quando for seguro porque eles estão bem escondidos, nem mesmo sei onde estão e tenho certeza de que qualquer passo em falso vão cair em cima deles. Eu só concordei em falar tudo para vocês porque acredito que, de alguma forma, estou garantindo a proteção dos meus pais também".
George baixou a varinha, assim como Lupin e Charles.
"Ginny, minha filha, isso é tão... Tão inesperado e estranho que... Como foi que isso começou? Como não percebemos, se estávamos todos no mesmo local, como-"
"Ah, mamãe... A história é um pouco comprida e eu não quero atormentar mais vocês. Harry, essa é a sua festa e eu acho que já estragamos o suficiente, embora eu acredite que ainda há conserto".
"Só a sua situação não tem conserto, Ginny", ele devolveu, de forma tão fria que nem parecia o mesmo Harry que lembrava conhecer. Mas ela sabia: merecia o tratamento.
"Em outra oportunidade Ginny pode fazer um seminário sobre como as coisas chegaram até aqui, tudo bem? Mas, por favor, digam que vocês vão pelo menos fingir que aprovam o que estão vendo porque, se não for assim, serei obrigado a fugir com ela e isso eu realmente não quero, porque vamos acabar mortos e não vai adiantar de nada", argumentou. "Eu não prometo ajudar vocês com informações porque não as tenho. Tudo o que eu poderia passar para vocês eu já passei da primeira vez, mas garanto que não vou prejudicar".
"Pai, mãe, eu nunca entendi o motivo disso tudo, mas é tão bonito que eu realmente decidi enfrentar a insegurança, o medo de encarar vocês, só para provar para mim mesma que era verdadeiro e que eu realmente quero ficar com esse imbecil".
"Poderia, por favor, parar de me insultar a cada frase que você fala?"
"Desculpe".
"Bem, é isso", ele segurou a mão de Ginny. "O vilão pegou a mocinha e agora eles viverão felizes para sempre", ele já começava a subir as escadas, puxando a namorada. "Até que o Lord das Trevas nos separe, o que eu espero que jamais aconteça".
Em seguida ele parou e retrocedeu alguns degraus, como se lembrasse de alguma coisa.
"Mas que falta de educação a minha... Bem, eu espero que todos se divirtam na festa de aniversário do Sr. Cicatriz. Infelizmente não poderemos ficar mais porque temos uns pequenos assuntos pendentes, mas não se preocupem porque estaremos lá em cima", ele apontou para o teto. "Nós não sairemos do quarto, não faremos barulho e não vamos atrapalhar ninguém".
Em seguida voltou a subir as escadas, apressado e praticamente arrastando Ginny, deixando para trás metade da Ordem da Fênix anormalmente silenciosa.
Ginny sentia o tremor nas mãos de Draco, mas nada falou, apenas se deixou conduzir. Quando chegaram ao seu quarto, ele abriu a porta e entraram rapidamente.
Ele a abraçou. Tão forte que ela acreditou que estava se partindo ao meio. Ele nada fez e nada falou sobre aquilo, apenas chorou. E entre os soluços desesperados ela podia jurar que o tinha ouvido dizer "obrigado".
N/A.: Capítulo curto, rápido, mas a tendência é ficar maior, visto terei mais tempo para desenvolver a história. Espero que tenham gostado do capítulo e mesmo que não, comentem XD.
