- PARANÓIA -

PARTE II: O COMEÇO DO FINAL

Capítulo 20


Draco não soube exatamente por quanto tempo ficaram daquele jeito, apenas abraçados, enquanto ele chorava todo seu desespero e alívio. Podia jurar que ela também chorava, mas não se atreveu a sair dos seus braços. Só se sentiu seguro para esboçar qualquer reação quando percebeu que tinha parado de tremer, mas foi ela que deu o primeiro passo.

No mesmo silêncio em que haviam chegado ao quarto, Ginny saiu do abraço e beijou-lhe os lábios, levemente.

Ela se afastou e seguiu até a cama, onde se sentou.

Ele atravessou o quarto e ficou de pé diante da janela.

Em silêncio.

Draco queria calar as vozes que insistiam em empurrá-lo para longe daquela casa, que precisava fugir e se esconder até que fosse seguro colocar o nariz para fora. Quando estivesse salvo. Quando a guerra acabasse. Mas, por outro lado, quem melhor para oferecer-lhe proteção?

"Acha que eles vão me aceitar de volta?", ele perguntou, tentando esconder a preocupação.

"Não tenho certeza", confessou, sem encará-lo. Não queria que visse o quanto seus olhos estavam vermelhos também. "Se você tivesse procurado um deles antes, falado que havia um engano, que queria novamente proteção-"

"Eu não iria voltar me arrastando, Ginny", ralhou.

"Eu sei que não", tentou sorrir, mas a tentativa apenas lhe rendeu um sorriso sem graça. Ela suspirou. "Espero que eles considerem que, se você não ficar, eu não fico".

"Não se arrisque por mim. É idiotice", encarou-a, com censura.

"Eu sei que é", comentou displicente, encolhendo os ombros. "Mas uma vez na vida eu realmente preciso lutar pelo que eu quero, não?"

Draco a encarou com a sobrancelha erguida.

"Esse assunto de novo, Ginny?", perguntou, se aproximando. "Não fique se torturando por isso, você sabe..."

"Não consigo deixar de pensar que nunca fiz o que eu realmente quis", sussurrou, forçando-se a não chorar.

"Bem, não sou exatamente um bom exemplo", falou se sentando na cama.

"Mas você teve coragem para desafiar seus pais e fazer algo por eles, mesmo sendo algo ruim", ela começou. "Eu nunca fiz nada".

Mais uma vez o silêncio.

Draco não sabia exatamente o que dizer naquele momento, apenas sabia que era uma sensação semelhante a que tinha todas as vezes em que pensava sobre o que sentia sobre Ginny. Ele não sabia o que sentia por ela, apenas sabia que não poderia suportar ficar longe. Eram tão iguais que, até mesmo em suas diferenças mais gritantes, havia algo que os atraía de forma natural. E ela esteve ao seu lado quando ninguém mais esteve.

Sempre.

"Está fazendo algo por você agora", ele falou, tentando sorrir.

"É, eu estou", suspirou, apoiando a cabeça no ombro dele.

Draco passou a mão por suas costas e a segurou pela cintura, delicadamente, e nada mais falaram. Os dois sabiam que, independente do que decidissem a respeito do destino dos dois, as coisas seriam muito mais complicadas. Ela provavelmente teria que abandonar o time mais cedo ou mais tarde, pois não adiantava fingir que eles estavam em segurança após uma colega muito querida para Ginny ser morta e não duvidava que ela própria estivesse na lista dos considerados alvos principais. Seus irmãos fechariam a loja por alguns meses e todos viveriam mudando de local de tempos em tempos, exatamente como já tinham feito antes.

Sempre escondidos.

Não era paranóia. A falsa sensação de segurança que os poucos meses sem ataques efetivos e sem sinais dos Comensais ruíram após a morte de uma colega de time. Uma amiga antiga de escola, que fora parte da vida de Ginny e dos seus irmãos durante Hogwarts. As coisas estavam voltando. Tudo estava voltando muito rápido...

Os tempos difíceis decidiram pôr fim à trégua e Draco nem podia imaginar como Ginny estava se sentindo. Apenas ficou ali, ao seu lado, e segurou a sua mão.

Em silêncio.

xxx

Esperaram até que o silêncio se estendesse à casa inteira.

Deitados na cama e aguardaram, abraçados, os ruídos diminuírem. Ginny pediu que ele tentasse dormir um pouco, enquanto a Ordem ainda estava na sala de estar, mas sempre que fechava os olhos Draco se via em outro lugar. E nesse outro lugar era escuro e ele sempre estava sozinho. Em seus pesadelos, Ginny estava sempre longe e ria dele, nos seus pesadelos estava frio. Ele estava cansado, mas não queria dormir, então abraçou ainda mais forte a mulher deitada ao seu lado e entrelaçou suas pernas às dela, tentando espantar as imagens ruins que grudavam em sua mente após cada noite de sono. Beijou-lhe um dos ombros e fechou os olhos, murmurando para si mesmo que tudo iria dar certo.

Precisava se agarrar àquela realidade para não perder sua lucidez diante dos seus medos.

"Draco", ela chamou, muito baixo. "Está acordado?"

"Sim".

Ela se virou para ele e encarou os olhos cinzentos:

"Acho que podemos ir falar com eles agora".

"Claro".

Desceram as escadas tentando não fazer barulho. Eles tinham esperado e já era bastante tarde; sendo assim, não havia sinais da convenção que tinha o pretexto de ser festiva, mas que na verdade era uma reunião para debater acontecimentos recentes e lamentar a morte de Alicia. De qualquer forma, Ginny sempre duvidava de qualquer idéia de festa naqueles tempos, pois sempre tinham como principal característica o agrupamento de membros da ordem sob o mesmo teto para discutir estratégias.

Na sala, Bill e Lupin conversavam aos sussurros e Arthur estava sentado em uma poltrona, encarando a lareira apagada. Vez ou outra olhava para o relógio da família, como se esperasse que o ponteiro de Ginny fosse se mover para "perigo mortal" a qualquer momento. Draco apreciou o silêncio como nunca, pois em poucas situações em sua vida esteve tão desconfortável quando naquele dia, diante da Ordem. Ironicamente, ele sempre acabava falando mais do que devia por conta do nervosismo. Era uma característica sua desde criança, dificilmente iria mudar. Contar vantagem, mesmo sobre algo que não existia, era quase uma defesa quando se sentia ameaçado.

Na cozinha, Molly terminava de guardar os últimos pratos, anormalmente silenciosa.

"Mãe, pai, podemos conversar direito agora?", Ginny perguntou, apertando a mão de Draco com mais força.

Arthur e Molly se entreolharam e assentiram. Bill e Lupin se levantaram e ensaiaram sair da sala, mas Ginny fez sinal para que eles se juntassem à conversa na cozinha. Todos se sentaram à mesa, e o silêncio perdurou até que Ginny o quebrasse.

"Acho que antes de falar sobre como ficamos juntos é importante que vocês saibam em que condições Draco se tornou um Comensal".

"Nós já sabemos disso, afinal não é a primeira vez que a Ordem estende a mão para ele, não é mesmo?", Lupin expressou suas impressões.

"Além do mais, voltar assim, nessa circunstância... Não é como se vocês dois fossem feitos um para o outro", Bill expôs seus argumentos.

"Draco e eu somos muito mais parecidos do que vocês podem imaginar", rebateu.

"Ginny", Draco começou. "Eu não acho que isso-"

"É importante que eles saibam de tudo", cortou.

Ele suspirou. Não queria falar de suas fraquezas para aqueles estranhos que sempre odiou. Não precisava remoer mais uma vez os motivos que o levaram a tomar as decisões que tomou. Não queria falar das noites em que ficou acordado, dos pesadelos, do medo de perder seus pais e de morrer. Não queria expor tudo isso, pois fazia com que parecesse mais fraco do que já era.

"Não foi uma escolha", ele sussurrou, resolvendo que pior seria se não falasse.

Ele já tinha falado sobre aquilo, mas não diretamente para os Weasley. Sua conversa fora com outros membros da Ordem e, por mais irônico que pudesse parecer, teve apoio de Harry Potter para que aceitassem seu pedido de ajuda – reforçado pela recomendação de Dumbledore.

"Como sabem, meu pai estava em Azkaban. Foi por vingança que o Lord me convocou. Eu já imaginava que algum dia eu fosse me unir a eles, mas não esperava que fosse tão cedo e com uma missão suicida", começou.

"Dumbledore sabia", Ginny completou. "Draco disse que quando estavam na Torre ele prometeu que protegeria ele e a mãe, caso mudassem de lado e que Lucius estava seguro em Azkaban. Dumbledore queria ajudar".

"E eu aceitei! Engoli meu orgulho, mesmo que não estivesse raciocinando direito. Eu estava com medo e tudo ficou muito pior depois daquela noite. Por minha culpa Snape revelou sua identidade de agente duplo naquele momento. Naquela mesma noite eu pensei em fugir e alertei minha mãe a fazer o mesmo, mas Harry me encontrou antes que eu conseguisse formular algum plano. Eu estava assustado demais para pensar em qualquer coisa".

"Essa parte da história vocês sabem, porque Harry o levou para enfermaria. Harry também estava na torre, viu que tinha se arrependido, que tinha aceitado a proposta de Dumbledore..."

"E eu o procurei pelo castelo. Quase morri na tentativa, mas quando ele me encontrou pedi que intercedesse por mim junto à Ordem. Fiquei sob proteção de vocês, minha mãe foi devidamente escondida e meu pai se juntou a ela quando saiu de Azkaban".

"De qualquer forma, no meio dessa história – enquanto ele viveu entre nós - nos aproximamos durante esse ano e nos prometemos que não deixaríamos nossas convicções interferirem em nosso relacionamento. Draco prometeu não se envolver com os Comensais e..."

"Mas você não pode simplesmente deixar de ser um", ele a interrompeu. "E mesmo que eu fugisse, mudasse de lado, meus pais ainda podiam correr riscos. Eu estava com vocês, mas eles estavam escondidos, sabe-se lá onde... Se o pegassem... Eu não podia deixar que eles pagassem pelo que eu fiz, então continuei tentando contato com o professor Snape, para tentar conseguir o apoio dele. Para que ele desviasse os outros comensais da rota dos meus pais".

"E por que confiaria em Snape?", Lupin questionou.

"Snape pode estar com eles, mas eu sei que tem algo mais por trás disso", explicou, inseguro de suas palavras, esperando que não soar tão absurdo. "Ele fez um voto, precisa me proteger, então não poderá fazer nada contra mim, mesmo que isso signifique trair o Lord".

"Você esteve no ataque de ontem?", Arthur perguntou.

"Não! Faz tempo que não me envolvo com esse tipo de coisa. O Lord não vê muita utilidade em mim, a não ser a de alvo. Eu não sirvo para eles, eu me aliei a vocês, lembram? Sei que ele me quer apenas para lembrar ao meu pai do que ele é capaz, e para fazê-lo sair do esconderijo", falou desviando o olhar. "Minha mãe não é Comensal e meu pai só continuou com isso para nos proteger, porque desertar é o mesmo que morrer. Por isso estamos condenados".

"Nós dois queremos que vocês saibam disso porque não queremos que restem dúvidas sobre as intenções dele comigo. Queremos que fique bem claro que Draco não está aqui para extrair informações, até porque eu nunca passarei nada para ele. Nunca passei nada em todo o tempo que esteve conosco", acrescentou.

"Eu fui sim um Comensal, eu tenho a Marca no meu braço, mas acima de tudo eu estou do lado da minha família e, mesmo já tendo feito isso uma vez, estou disposto a aceitar a oferta de Dumbledore novamente, e prometo não estragar tudo, se vocês estiverem dispostos a honrá-la uma segunda vez".

Arthur e Molly se entreolharam.

"Eu só quero proteger meus pais", falou baixo. "E ficar com Ginny", completou.

"Vamos dar um jeito nisso", comunicou Arthur. "Sempre conseguimos dar um jeito, mas o primeiro passo é deixar Lucius ciente da nova situação".

"Tem certeza de que isso é necessário?", Draco perguntou.

"Absolutamente".

"Mas eu não tenho idéia de onde eles estão. Depois que vocês retiraram a guarda eles estão foragidos, vivem mudando de lugar, ninguém-"

"Tonks tem pistas, ela fará uma aproximação adequada e pode reorganizar a guarda em menos de um dia", Bill informou.

"Isso... Isso seria bom", falou tentando sorrir.

Ginny apertou a sua mão com mais força.

"Só queremos que fique claro que as decisões da Ordem não dependem apenas de nós. Precisamos nos reunir, levantar as questões... Mas intercederemos por você, Malfoy", Arthur garantiu.

"Só fique certo de que dessa vez será muito mais difícil convencê-los, já que não tem mais os argumentos de Harry ao seu favor", Lupin lembrou. "Você perdeu nossa proteção por traição-"

"Mas eu não traí ninguém!"

"Isso é algo que você precisava provar e não conseguiu da primeira vez. No fim das contas, você mesmo confessou que tinha contato com Severus", Molly lembrou.

"Isso... Isso eu não nego".

"Malfoy, dessa vez a Ordem com certeza vai querer algo em troca", Arthur alertou. "Não pedimos nada em troca da sua proteção na primeira vez em que recorreu a nós além de algumas informações, você se lembra disso, não?"

"Perfeitamente, nada me foi cobrado".

"Não tenha certeza de que será assim dessa vez, se eles aceitarem você provavelmente vão querer algo em troca", Molly informou.

"Está disposto a trabalhar para a Ordem da Fênix, Malfoy?", Lupin perguntou.

Draco apertou a mão de Ginny e respirou profundamente antes de responder.

"Pela segurança da minha família eu faço qualquer coisa", ele começou. "Qualquer coisa".


N/A.: O que vem agora? Palpites? Qualquer idéia do vem adiante? Entenderam a mudança que eu fiz, não? Sobre o Draco aceitar a proposta de Dumbledore, ao contrário do que aconteceu no livro - quando ele não aceitou a ajuda. Durante a fic as coisas vão se explicando, se encaixando, até esse quebra cabeças dessa Realidade Alternativa estar completamente formado. Espero que continuem acompanhando. COMENTEM!