- PARANÓIA -
PARTE I: TRATOS E TRUQUES
Capítulo 2
Assim que Ginny saiu do quarto, Draco comeu a sua primeira refeição. Devagar. Usando aquele tempo para pensar no que a menina Weasley havia falado. Sair. Respirar um pouco do ar dos jardins, tomar um pouco de sol, conversar com alguém... Não poderia ser tão ruim, ou com certeza não seria pior do que ficar trancado naquele quarto o dia inteiro deixando o tédio invadir, tornando a sua mente ainda mais frágil e aberta às preocupações.
"Não que eu esteja considerando seguir os conselhos dela", falou alto, consigo mesmo.
Draco parou o copo de suco na metade do caminho para a boca e suspirou.
"Merda, estou falando sozinho", riu de si mesmo, colocando o copo em cima na mesa, desistindo de tomar o resto do conteúdo.
Levantou-se e decidiu que ao menos andar pelo corredor seria um avanço. Abriu a porta devagar e viu que o local estava vazio e silencioso, algo bem raro de acontecer. Nas três semanas que passara ali uma das únicas constantes daquela casa era o barulho de pessoas indo e vindo por aquele corredor, pelas escadas, nos jardins. Quase podia diferenciar cada um dos habitantes pelos passos, pela voz, pela forma como batia na porta... Estava apenas se acostumando com os sons. Estava aprendendo a escutar melhor, pois essa era toda a sua diversão.
Olhou para os dois lados do corredor e colocou o pé para fora. Ficou parado ali, por cinco segundos e voltou a entrar no quarto, fechando a porta atrás de si.
"No que eu estou pensando? Em socializar com eles?", questionou-se.
Claro que era nisso que Draco Malfoy estava pensando, só não conseguia admitir. Ele sentia falta de falar, de contar vantagens para os outros, de ser o centro das atenções e ficar naquela situação – em que claramente estava em desvantagem – o enlouquecia. Ele só não conseguia ser humilde o suficiente para admitir que realmente estava precisando de ajuda. De companhia.
"Certo, só vou até o final do corredor", decidiu.
Desencostou-se da porta e abriu devagar, e as dobradiças fizeram um pouco de barulho. Ele fechou a porta rapidamente.
"Droga! Porta estúpida", ele ralhou. Como se aquele pedaço de madeira tivesse alguma culpa por ranger.
Tentou mais uma vez, abrindo mais rápido e as dobradiças foram mais silenciosas. Draco olhou novamente para os dois lados e saiu para o corredor, dando dois passos inseguros. Respirou fundo e acelerou a caminhada, chegando ao topo do primeiro lance da escada meio torta. Ouviu vozes lá embaixo. Vozes femininas. Reconhecia duas delas e a outra, mesmo que não fosse comum naquela casa, lembrava de já ter ouvido também. Abaixou-se para ouvir melhor.
"Por que você não vai buscar a bandeja, querida? Ele já deve ter terminado".
"Por que eu mamãe? Sempre sou eu...", resmungou.
"Se quierr eu pego parra você, Ginny", a voz com um sotaque francês se sobrepôs aos resmungos da outra garota.
Draco tentou identificar as vozes...
"Uma é a Weasley-mãe", pensou alto. "A outra é a Weasley-sapinho..."
Ele ainda não estava preparado para primeiros nomes e também não tinha decorado todos, por isso aos homens ele atribuíra números mais o Weasley-pai, que ele sabia que se chama Arthur, mas era mais divertido pensar nele dessa forma. Ginny ele chamava de Weasley-sapinho porque jamais esqueceria o poema idiota que ela havia escrito para Harry Potter quando ele estava no segundo ano.
"Sapinhos Cozidos", relembrou, rindo sozinho, abafando o barulho com as mãos.
"Ficou doido, Malfoy?"
Draco se assustou e quase caiu sentado, mas conseguiu se apoiar na parede. A menina ruiva estava em pé, com as mãos na cintura e um risinho de satisfação no canto dos lábios. Estava feliz em vê-lo em uma situação tão ridícula. Ele se lembrava perfeitamente de quando estava no quinto ano e ela, liderando a corja de amigos de Harry Potter, fizeram ele e o restante do esquadrão da diretora Umbridge de bobos. Lembrava que ela gostava de azarar as pessoas, mas também sabia que ali ela não poderia fazê-lo se quisesse. A menina ainda não podia fazer magia fora da escola, disso ele tinha certeza. Já tinha ouvido-a reclamar disso.
"Ficou mudo?", insistiu, mas ele continuou sem responder. "Vamos, Malfoy, o que está fazendo?"
'Espiando vocês. Tentando me enturmar. Tentando ver mais do que as paredes daquele quarto...' ele gostaria de dizer tudo isso, mas apenas bufou, ficou de pé e cruzou os braços, fazendo o caminho de volta para o quarto.
"Pronto, agora vai ficar todo emburradinho", Ginny provocou.
Malfoy estacou onde estava e voltou a encará-la.
"O que você sugere, então? Weasley-Sapinho?"
"Quê?", perguntou sem entender o significado daquilo.
"Nada, Weasley. Nada". Ele voltou a andar e se enfurnou novamente no quarto.
De lá pode escutar os passos pesados da menina.
"Toc, toc, toc, Malfoy", ela falou.
"Vai procurar outra coisa para fazer, Weasley", gritou.
"Acho implicar com você mais divertido", respondeu abrindo a porta.
"Percebi", comentou emburrado.
Ginny suspirou, cansada. Atravessou o quarto e pegou a bandeja com farelos e o copo de suco de abóbora, metade vazio. Apoiou a bandeja na cintura e abriu a porta, mas antes de sair se virou e olhou para Draco.
"Sabe, ninguém vai julgar ou condenar você por sair daqui", informou. "Não estamos aqui para isso".
"Bom saber".
"Falo sério, Malfoy", insistiu. "Pode descer comigo agora, se quiser. Só estamos eu, a mamãe, Fleur e Bill em casa", falou em tom amigável e sincero. "Você estará seguro e ninguém vai implicar".
"Como se você não fosse fazer isso por todos eles. Tenho certeza que só está esperando uma oportunidade para-"
"Quer continuar falando sozinho?", ela questionou incisiva.
Draco arregalou os olhos, surpreso. Ela sabia que ele ficava falando sozinho. Os outros sabiam também? Será que era motivo de piada? Claro que era...
"Não se preocupe. Eu não falei para ninguém, certo? E também não vou falar. Eles mantêm segredos demais entre eles, então por que eu deveria contar tudo o que eu sei?", confessou.
De alguma forma Draco notou que havia ressentimento ali. Não sabia identificar exatamente o que era, mas estava ali. Suspirou e se levantou. Ginny não sorriu ou fez cara feia. Apenas virou as costas e saiu do quarto, deixando a porta aberta para que ele passasse. O silêncio perdurou até começarem a descer os degraus da escada, que rangiam. Tudo naquela casa fazia barulho. As pessoas, os móveis, o chão, as escadas, as panelas... Draco não gostava daquilo. Sentia falta do silêncio da sua casa. Da sua privacidade e da sua cama grande e confortável. Também sentia falta dos doces que a sua mãe sempre deixava à vista, e dos pratos elaborados feitos pelos elfos.
Quando finalmente pôs os pés na sala atulhada de almofadas, sofás e mantas coloridas, Draco sentiu uma imensa vontade de voltar correndo para o sossego visual do seu quarto simples.
"Como se não bastassem os cabelos chamativos o restante da casa tinha que ser assim também", murmurou para si mesmo.
"Guarde seus pensamentos para você, Malfoy", Ginny aconselhou, antes de se virar e seguir para cozinha.
Na sala estava apenas o Weasley-Filho Número Um. Ele não sabia quantos eram exatamente, mas tinha certeza de que eram muitos e que de mulher só tinha a Weasley-Sapinho. Aquele, definitivamente era o Número Um. Conhecia a voz dele e sabia que era o Weasley que estava na enfermaria por ter sido atacado pelo lobisomem.
"Cansado de ficar no quarto, Malfoy?"
"Não tive como contestar... Ela é muito persistente, então descer foi o jeito mais simples de fazê-la calar a boca", falou apontando para a cozinha.
Draco se arrependeu no instante seguinte de ter falado daquele jeito, pois por mais que fosse desagradável estar ali, tinha que ser menos ríspido. Acabara de destratar a menina na frente do irmão mais velho dela, mas ao contrário do que ele esperava o homem sorriu.
"Ginny é um pouco difícil, às vezes", concordou. "Ela tem um gênio forte".
Ginny. Draco pensava em como aquilo poderia ser nome de gente. Bem como todos os seus irmãos, pois – por mais que ele não conseguisse decorar o nome de toda aquela criação de coelhos ruivos – ele sabia que todo mundo era chamado pelo apelido... Aqueles não poderiam ser nomes de verdade.
"Para quê dar um nome a uma pessoa se vocês insistem em chamá-la apenas pelo apelido?", Draco questionou mais para si mesmo do que para Bill, mas o rapaz tomou a responsabilidade da resposta para si.
"É uma forma carinhosa, quero dizer... Todo mundo que não é próximo nos chama pelo sobrenome, ou pelo nome. Quando me chamam de Bill, por exemplo, eu sei que estou em casa. Perto das pessoas que amo".
Draco não tinha um apelido.
Ele nunca achou que precisasse de um, pois gostava do próprio nome. Achava forte, único, nome de um vencedor, de alguém importante... Exatamente tudo o que ele não era.
"Nunca precisei de um apelido", comentou, distraído.
"Não é questão de precisar, Malfoy. Ninguém precisa de um apelido para viver, mas ter um significa que você é importante para alguém".
"Existem apelidos indesejáveis", Draco lembrou.
"Você entendeu o que eu quis dizer, Malfoy", Bill falou, se levantando do sofá.
"O que pensa que está fazendo, Bill?", Fleur entrou na sala e logo tratou de empurrar o noivo para o sofá.
"Fleur, querida, eu não estou inválido", respondeu misturando divertimento e indignação. "Eu posso andar até a cozinha, os danos maiores foram no rosto, não em minhas pernas".
"Mesmo assim. Querro você bem parra o nosso casamento", argumentou, empinando o seu nariz francês.
"Sente-se, Malfoy", Bill pediu, também voltando a se sentar. "Vou precisar de um pouco de companhia e tenho certeza que você também".
Draco pensou se estava tão desesperado por não ficar sozinho para ter que aturar a conversa séria com o Weasley-Filho Número Um. Então ponderou e pensou se o ruivo à sua frente não estaria pensando a mesma coisa. Draco sabia que não era bem vindo, mas aquela família estava se esforçando para não causar nenhum tipo de constrangimento e era bem verdade que o deixavam em paz, para fazer o que quisesse – desde que não descumprisse nenhuma das regras de segurança. No geral o deixavam sozinho, queriam que ele tomasse atitudes de aproximação, se assim quisesse. Mas Draco não queria.
Ao menos antes de começar a se sentir tão solitário.
Fazia tempo que não escutava o seu primeiro nome. Todos ali lhe chamavam de Malfoy e em alguns podia sentir o nojo escorrendo nas letras do nome da sua família. Nojo. Ele nunca pensou que essa palavra seria usada para se referir a um sangue-puro, a um Malfoy.
Os Weasley não exigiam nada dele, apenas questionavam algumas coisas para a ordem e geralmente era o Weasley-Pai que o fazia. Os demais o deixavam em paz e a pessoa com quem mais tinha contato era a caçula, Weasley-Sapinho – como ele gostava de chamá-la. Ginny, como os demais a chamavam.
Ouviu risadas do lado de fora e a porta se abriu, deixando um pouco da brisa quente do verão entrar. Malfoy continuou onde estava e tentou não olhar para o grupo que chegava: Hermione Granger acompanhada do Weasley-amigo-do-Potter e dos dois gêmeos encrenqueiros que saíram de Hogwarts voando em vassouras de segunda categoria.
"Oh!", Granger exclamou, surpresa. "Olá, Malfoy", cumprimentou, educadamente.
Draco não respondeu. Hermione corou. Ron o encarou com raiva.
"Ela falou com você, doninha saltadora", adiantou-se, já se preparando para falar tudo o que guardara naqueles dias em que precisou aturar a presença do slytherin em sua casa.
"Ron, por favor, não vale a pena", Hermione interferiu.
Ron, que estava decidido a não contrariar Hermione, acatou. Os dois passaram direto e foram para cozinha, os gêmeos encararam Draco de forma ameaçadora e saíram confabulando planos para pegá-lo desprevenido, propositalmente em um tom de voz que o fizesse escutar claramente as más intenções. Um minuto depois, Ginny apareceu na sala, irritada.
"O que você fez, Malfoy?", questionou.
"Eu não fiz nada".
"Então por que meu irmão está furioso daquele jeito?"
"Provavelmente por isso: por eu não ter feito nada", revelou, indignado.
"Ginny, Malfoy não respondeu quando Hermione o cumprimentou", Bill explicou.
"Oh... Não pensei que fosse tão mal educado", provocou.
"Quer saber? Fiz mal em ter decido e tentado alguma socialização. É impossível!"
"Não faz drama..."
"Quero dizer, eu sei que não me querem aqui, então por que escolheram justamente esse lugar para eu ficar? Por que não escondido com outro membro da Ordem?", questionou, levantando o um pouco o tom de voz.
"Por que ninguém quis você, Malfoy", ela revelou.
Draco emudeceu. Estava confirmado: ele realmente era uma criatura não desejada. Apenas os Weasley. Só tinha sobrado aquela família para acolhê-lo, escondê-lo. Apenas eles quiseram aceitar aquela missão, porque ninguém mais o queria. Mentira. Sua tia Andromeda provavelmente gostaria que ele ficasse com ela, mas Narcissa precisava de abrigo também. Estava sozinho. Tão sozinho...
"Com licença", ele pediu, atravessando a sala e subindo em silêncio pelas escadas tortas.
Caminhou pelo corredor, devagar e entrou em seu quarto temporário que a cada dia parecia mais definitivo. Fechou a porta atrás de si, deitou-se na cama fitando o teto e remoendo pensamentos angustiantes. Queria sair dali, mas estavam atrás dele. Queria se sentir querido, não queria mais ser um inútil que só serve para colocar a família em maus lençóis... Não era inútil.
"Eu não sou inútil. Não sou", murmurou para si mesmo, engolindo o choro.
"Então prove", escutou alguém falar do outro lado da porta.
Naquele momento ele soube.
Ela nunca iria deixá-lo em paz.
N/A.: Comentáriooooos! Plz Plz! Espero que tenham gostado. Se não, avisa. Se tiver algum erro, me avise também. Obrigada por todos os comentários até agora, respondo na medida no possível. Muito, muito obrigada, pessoal. Leiam Marcas também, outra DG que estou escrevendo. Além dessas duas minhas existem outras muito boas que fazem parte do Projeto Like Always da sessão Draco/Ginny do Fórum 6V, então entrem lá e sejam felizes \o/
