- PARANÓIA -

PARTE I: TRATOS E TRUQUES

CAPÍTULO 4


No dia seguinte Draco acordou com o barulho de uma pedra caindo no chão do quarto, após ser arremessada pela janela. Ainda desnorteado e sonolento, sentou-se na cama e avistou o pequeno rochedo no meio do aposento, embrulhado com um papel que aparentemente se tratava de um bilhete. Ela era doida e Draco já tinha isso como uma verdade universal. Ginny-Sapinho-Weasley não tinha um pingo de juízo na cabeça ruiva.

Ele se levantou e apanhou o bilhete, desenrolando-o da pedra e lendo as primeiras linhas: "Desculpe o mau jeito", ela começava o texto.

"Só dessa vez ou em todas as outras?", questionou, com sarcasmo, em voz alta.

"Mas Mione está quase sempre comigo, então aproveitei uns instantes para te mandar o recado. Houve mudanças no plano para buscar o Harry e, por esses dias, eu ouvi algo sobre incluir você no plano. Você não será obrigado, mas aconselho que aceite.

Sai desse quarto!

Ginny".

Se tinha uma coisa que ele precisava admitir é que ela era persistente. Muito, até. Irritantemente persistente. Sair do quarto. Para quê? Para ser convidado a arriscar sua vida para trazer Potter para o mesmo teto que ele? Ou para ser humilhado mais uma vez? Não conseguia decidir qual era a pior alternativa e não duvidava que da próxima vez as duas estariam juntas em uma prova de que seus dias de má sorte estavam apenas começando.

No instante seguinte ouviu alguém batendo na porta e se adiantou para atender, irritado.

"Weasley, você quer parar de-", ele parou de falar imediatamente. "O que você quer?"

"Vim trazer seu café, Malfoy", Hermione respondeu, com calma, entrando no quarto sem pedir licença.

"Por que todos aqui entram nos quartos sem pedir licença?", questionou contrariado, mas a garota ignorou.

"Hoje passaremos na loja dos gêmeos", ela começou. "Seria bom se viesse conosco", completou, displicentemente.

"Nem em sonho", deixou escapar antes de pensar em qualquer resposta. "Vou ficar aqui, Granger. Obrigado", concluiu fazendo um gesto displicente, abanando a mão, pedindo que ela se retirasse.

Hermione empinou o nariz e saiu do quarto com dignidade, sem responder às grosserias de Draco.

"Até parece que vou deixar eles me fazerem de idiota de novo", pensou alto, quando começou a comer seu café da manhã.

"Toc, toc, toc", ele escutou a voz de Ginny do outro lado da porta.

"Vai embora!", berrou.

"Que humor desagradável, Malfoy", comentou, abrindo a porta e colocando a cabeça para dentro do quarto.

"Quando você vai me deixar em paz? Que inferno!", resmungou, colocando um pedaço de pão na boca.

"Estou aqui para o seu bem", ela começou, fechando a porta atrás de si. "Eles não querem que você saiba, porque acham que vai fazer algo estúpido, mas sua mãe vai estar no Beco Diagonal hoje, com a sua tia Andromeda".

"Sério?", perguntou, quase engasgando com o suco de abóbora.

"Eu ouvi papai falando que não seria bom falar para você, ou acabaria dando o jeito de escapar para vê-la. Mione tentou te chamar, sutilmente. Fazer você ir conosco para a loja dos meus irmãos e tentar arrumar um encontro... Sabe como Mione é", comentou, resignada.

"Você aconselha que eu vá também?"

"Você quer ver sua mãe, não?", questionou, com firmeza.

"Claro que sim. Preciso ver como ela está, quero-"

"Primeiramente vamos para loja. Daremos um jeito de levar a sua mãe até lá".

"Certo", concordou.

"Malfoy, eu quero que as coisas dêem certo. Quero que fique bem com todos aqui, nunca esqueça disso".

"Você não me deixa esquecer", resmungou.

"Viu a mensagem que mandei hoje cedo?"

"Como não veria? Notou o tamanho do pedregulho que você atirou pela janela?"

"Quando eles fizerem a proposta, pense, considere realmente ajudar. Será bom para você e tenho certeza de que o Harry ficará grato", revelou.

"Eu não preciso da gratidão do famoso Potter, Weasley".

"E da minha?", questionou. Em seus olhos castanhos Draco notou uma mistura de tristeza e esperança.

Ela era doida.

"Você a terá de parar de me importunar, Weasley".

"Considere feito!", exclamou sorridente e girando em seus calcanhares antes de sair do quarto.

Dois segundos depois ela abriu a porta de novo, atravessou o quarto e pegou a bandeja – com a refeição praticamente inteira.

"Acho que já terminou, não?", questionou, parecendo menos animada que antes. Quase mal humorada, até.

"Você é maluca", Draco comentou.

Ela se virou para ele, fez uma careta e saiu do quarto carregando a bandeja, sem se importar em respondê-lo.

Não precisou de nada além disso, pois Draco já havia tomado a sua decisão. Se havia algo que ainda o mantinha sob controle era a esperança de – em um breve espaço de tempo – conseguir reunir sua família de novo, mesmo que escondidos. Queria apenas se sentir em casa e não um convidado desagradável que escondiam em um quarto pequeno, fingindo que não existia na maior parte do tempo.

Trocou de roupa, arrumou os cabelos e esfregou as mãos no rosto cansado, tentando despertar. Passava a maior parte dos seus dias dormindo... Mais um pouco e desaprenderia a usar os olhos.

Suspirou ao segurar a maçaneta da porta, ainda brigando com seu amor próprio. Não durou muito, pois logo estava no corredor, onde se deparou com Weasley-Amigo-do-Potter. O que chamavam de Ron. Odiava aquela criatura. Odiava de verdade. Ele era o responsável por humilhá-lo centenas de vezes, fora por causa dele que Harry Potter não apertara a sua mão no primeiro ano, Ronald Weasley era o responsável pela primeira de suas inúmeras falhas.

"Resolveu sair do esconderijo, Malfoy?", questionou, passando direto.

"Ron, não seja tão maldoso", Hermione pediu.

"Granger, seria muito menos irritante se você parasse de tentar me defender a cada passo que eu dou", Draco reclamou.

"Certo, vou me lembrar disso", rebateu, empinando o nariz e seguindo direto, deixando os dois para trás. Ron foi atrás dela e Draco fez o mesmo caminho, mas de forma lenta – quase como se tentasse adiar o momento em que chegaria à sala de estar.

Mas, por mais devagar que andasse, em um momento haveria de chegar. A não ser que andasse para trás, o que de fato cogitou a certa altura da escada.

Draco sentiu o peso no ar e o silêncio repentino soou como um grito quando foi notado pelos que já estavam na sala de estar. Hermione sorriu rapidamente, como um incentivo; Ron virou o rosto e Ginny revirou os olhos. A senhora Weasley se adiantou e parou diante dele.

"Vai conosco?", questionou de forma seca, mas sem ser grossa.

"Sim".

"Precisa se disfarçar, Malfoy", Arthur lembrou-lhe.

"Como querem que-"

"Vamos desiludir você, simples, mas por precaução coloque esse casaco com capuz", o senhor Weasley ofereceu.

Draco obedeceu às instruções e esperou que o desiludissem. No momento em que sentia como se tivessem estourado um ovo no topo da sua cabeça, indicando o início da desilusão, arriscou olhar rapidamente para Ginny, mas ela tinha desviado o olhar. Estava estranhamente tensa e não parecia nem um pouco à vontade. Foi o primeiro alerta que os instintos dele mandaram, mas que ele resolveu ignorar.

"Vamos aparatar no jardim", anunciou o senhor Weasley.

"Eu já sei aparatar", rebateu, ofendido.

"Mas não vamos deixar você sair aparatando por aí sozinho", informou. "Medida de segurança", Arthur completou.

"Minha ou de vocês?", o rapaz bufou irritado.

"Nossa. De todos nós, Malfoy", Molly respondeu, áspera. "Ginny, você vem comigo. Ron, você vai com Hermione".

Ele já ia protestar, mas Hermione se adiantou:

"É por precaução. Todo mundo vai aparatar em duplas, para não sermos pegos desprevenidos. Não reclame agora, Ron", falou em tom divertido e o rapaz corou.

"Certo, mas na volta eu aparato sozinho", resmungou contrariado.

Todos se dirigiram para os jardins e andaram um pouco até que estivessem fora dos limites da barreira mágica que impedia aparatação. Draco, a contra gosto, segurou no braço do senhor Weasley e, no três de uma contagem rápida, as duplas aparataram ao mesmo tempo, para o mesmo destino: Gemialidades Weasley.

Em poucos segundos estavam no local correto, juntos e seguros. Draco nunca tinha entrado na loja dos gêmeos Weasley e ainda não sentia a mínima vontade de conhecer aquele pedaço do Beco Diagonal, mas precisou admitir – no instante em que colocou os pés dentro da loja – que era um espaço interessante.

Colorido, barulhento e incrivelmente descontraído. Exatamente o oposto do que era visto nas demais lojas do centro comercial. O contraste era assustador. Os demais espaços estavam fechados e os que ainda permaneciam abertos pareciam querer passar despercebidos, mas não a loja deles. Tudo ali era feito de travessuras e risadas. Draco achou que aquilo, no fim das contas, era uma piada de extremo mau gosto.

Enquanto a senhora Weasley esmagava os filhos com abraços e o senhor Weasley os aconselhava em termos de segurança, Draco se aproximou de Ron, Hermione e Ginny, com cautela.

"Essa é a idéia que vocês têm de diversão?", questionou contrariado.

No primeiro momento os três se assustaram, esquecendo que Draco estava por ali.

"Malfoy, não mata a gente de susto", Hermione pediu, olhando para os lados tentando ver se alguém tinha notado.

"Tinha esquecido que sua idéia de diversão é torturar e matar pessoas", Ron divagou, em voz propositalmente alta.

"Eu nunca matei ninguém, Weasley. Nunca!", rebateu.

"Certo, Malfoy, você pode não ter matado diretamente, mas não pense que vamos esquecer o que você fez com-"

"Parem, por favor", Ginny pediu. "A situação já é complicada sem que os dois fiquem trocando gentilezas".

"Ginny tem razão. Não viemos aqui no Beco para que vocês dois começassem a brigar", Hermione adicionou o ponto.

"É. Vocês já fazem isso normalmente lá em casa", Ginny lembrou. "Estamos aqui por outros propósitos... Por sinal, será que eles ainda têm daqueles caramelos? Se eu realmente tiver que voltar para Hogwarts, preciso estar bem preparada para certas eventualidades. E você, Malfoy, porque não se distrai um pouco?", comentou, se esgueirando pelos poucos espaços que a quantidade de gente enfurnada na loja permitia.

"Siga esse conselho, Malfoy. Viemos aqui para nos distrair", Hermione incentivou e seguiu Ginny. Ron não falou nada, apenas fez cara feia e foi atrás da amiga.

Draco, sozinho, suspirou e se deu por vencido. Mal não ia fazer.

Cutucou algumas coisas, sentiu curiosidade por outras, mas não desejou comprar nenhuma. Quando finalmente alcançou o trio, percebeu que eles estavam ouvindo uma explicação sobre como funcionava determinado produto e parou no canto, próximo à Ginny, para ouvir.

"E aí, Malfoy? Vai querer uma?", Fred sussurrou meio de lado, tentando provocar Draco.

"Só se for para usar com a sua irmã, Weasley", revidou de forma distraída. "Quanto custa?"

"Um soco nesse seu nariz com certeza vai servir como pagamento", respondeu agressivamente.

Fred ficou vermelho e George logo percebeu o que tinha acontecido. Para não estragar o disfarce de Draco, falou alto sobre outro produto – Capas e Chapéus com Feitiços Escudo – distraindo as atenções dos demais. Aproveitando a brecha, Ginny segurou o braço de Draco e arrastou Ron e Hermione com ela.

"Não podemos ficar chamando atenção", relembrou.

"A culpa não foi minha, seu irmão é que-"

"Não me interessa de quem é a culpa, Malfoy", respondeu irritada.

"Ginny, já está tudo bem, ninguém percebeu", Ron lembrou.

"Isso é o que você pensa. Se realmente tiver alguém vigiando acha mesmo que vão pular de trás de uma prateleira e matar todo mundo?"

"É isso que eles geralmente fazem, não?", Ron respondeu, calmamente.

"Acho que dessa vez é diferente", Hermione começou. "Estão tomando o Ministério, querem ser discretos, querem Draco vivo para torturá-lo até extraírem alguma coisa sobre a Ordem".

"Muito tranqüilizador", o loiro comentou por comentar, fingindo estar calmo.

"Você nem deveria estar aqui, Malfoy", Ron disse sem tentar disfarçar o desgosto por ter o slytherin como companhia.

"Eu vim porque me chamaram. Vim porque esse era o plano".

"Quem foi o idiota que chamou você?", Ron questionou irritado.

"Quem mais? Sua irmã. Vai mentir de novo, Weasley?", Draco perguntou e Ginny o encarou. Os olhos pareciam duas fendas.

"Ginny, o que você tem? Não cansa de tentar incluir ele, não?", Ron perguntou ainda surpreso.

"Não desconte em Ginny, Ron. Fui eu quem deu a idéia", Hermione informou.

"E quando vai ser?", ele perguntou.

"Quando vai ser o quê, Malfoy?", Ginny perguntou, ríspida.

"Quando vocês vão me levar até a minha mãe, onde ela está escondida? O encontro será no Caldeirão Furado?", insistiu.

"Você bebeu, Malfoy?", Ron questionou, achando engraçada a confusão do slytherin.

"Claro que não", rebateu, virando-se para Ginny: "Fala pra eles!"

"O que eu devo falar? Que você está delirando?"

Draco a encarou, desconfiado.

"Não... Eu não vou deixar você fazer isso de novo, Weasley".

"Fazer o que, Malfoy?"

"Você disse que minha mãe estaria aqui e que-", ele encarou o olhar descrente de Hermione e o ar de riso de Ron Weasley e se rendeu. "Quer saber? Esquece! Não acredito que você fez isso de novo... Não acredito mesmo".

Ele virou as costas e saiu andando pelo Beco. Draco sabia que os três ficariam sem saber por onde ele tinha ido, por conta do feitiço de desilusão. E eles ficariam perdidos. E ele torcia para que os três permanecessem ali parados, sem ter uma desculpa para dar quando perguntassem onde Draco Malfoy tinha ido.


N/A.: Creio que voltarei a normalidade em atualizações. Comentem, espero que estejam gostando dessa história. Se estiver confusa me avisem. Se estiverem gostando, me avisem. Se tiverem teorias, digam também. Falem! Falem! Falem! Tia Kolly gosta de ouvir/ler vocês. Leiam as demais fics do projeto Like Always da Seção DG do fórum 6V!