- PARANÓIA -
PARTE I: TRATOS E TRUQUES
CAPÍTULO 6
O ar parecia ter faltado naquele aposento, pois todos pareciam incapazes de respirar. O tempo parecia ter parado durante aqueles segundos em que aguardavam a resposta de Draco. E ele se lembraria de cada uma das expressões que o encaravam: Lupin estava tenso, Arthur ansioso, os gêmeos o fitavam com curiosidade, Ronald desviou o olhar, Hermione tinha os olhos bem abertos, como se repetisse mentalmente "aceite, aceite, aceite" e Ginny, deixou de dar atenção às suas mãos machucadas para encará-lo, lentamente. Ainda havia dor contida em sua expressão. "E isso a deixa mais bonita", pensou.
"Malfoy?", Lupin insistiu.
Draco retornou do seu transe e voltou a olhar para Lupin. Piscou duas vezes e colocou seus pensamentos em foco novamente e, tirando o rosto sofrido de Ginny da sua mente, olhou para o chão.
"Senhor Malfoy, qual é a sua-"
"Sim", falou baixo. Depois ergueu a cabeça e encarou Remus: "Eu vou com vocês".
"Excelente..."
"Mas acho justo que me digam o que estou aceitando fazer e peço o direito de rever minha decisão, caso julgue inapropriado".
"Acho que não tem problema em voltar atrás, desde que não deixe para fazê-lo na última hora", alertou Kingsley.
"Não, acredite. Só preciso ouvir o que têm a me dizer e preciso de um tempo para pensar, mas sim, estou disposto".
"Sente-se, Malfoy", Arthur pediu.
Draco se deslocou devagar entre as pessoas na sala lotada e abafada. Sentou-se no sofá, que estava coberto por uma manta colorida e cheio de almofadas em cima, ao lado de sua prima Tonks de sangue sujo. Era estranho pensar nela daquela forma: prima. Até pouco tempo ignorava a existência dela, no entanto, agora era a pessoa que geralmente trazia noticias de sua mãe.
"O plano já está traçado e vamos buscar Harry assim que ele completar dezessete anos, na virada da noite", Lupin começou, mas foi Arthur quem completou:
"Assim ele não vai possuir o rastreador".
"Entendo".
"Iremos em um grupo composto por seis pessoas para escoltá-lo, semelhante ao plano que utilizamos no seu quinto ano", Moody tomou a palavra para si e acrescentou com desdém: "Não que você saiba algo sobre aquela ocasião".
"O fato é que deu certo uma vez, mas teremos que ser muito mais cuidadosos porque, na época, fomos num grupo de nove pessoas", Tonks lembrou.
"Por isso precisamos de sua ajuda, alguém que conheça o inimigo de perto caso haja alguma eventualidade", Arthur mostrou seu ponto.
"Ou que sirva de isca", Moody riu sozinho, em sua voz rasgada.
Lupin retomou a palavra, falando mais alto para abafar a risada de Moony.
"Er... Ampliaremos a segurança e chegaremos tranquilamente aqui, onde Harry ficará sob nossa-"
"Não é uma boa idéia", Draco interrompeu.
Moony parou de rir imediatamente e, mais uma vez, o rapaz se sentiu perfurado por milhares de olhares.
"Perdão?", espantou-se o auror.
"Não vai dar certo dessa forma. Não sei como foi no passado, mas agora é diferente", ele falou, tentando se mostrar seguro.
"E o que faz você pensar dessa forma?", Arthur Weasley se aproximou, questionando de forma bondosa, e se sentou em uma mesinha de centro em frente a Draco. De alguma forma aquele homem parecia preocupado com ele. "Você sabe de alguma coisa?"
"Não tenho certeza, mas eles sabem que vocês vão buscar Harry... Não, eu não sei como eles descobriram", ele adiantou-se na resposta quando percebeu que Kingsley questionaria. "Eu apenas ouvi no beco. Estava desiludido, passaram por mim falando algo sobre isso", mentiu. Deixaria Snape fora disso. "Mas não é difícil imaginar que tenha gente infiltrada, não? Quero dizer, o Lord sempre se aproveitou do Ministério para ocultar seu retorno... Só que agora não precisa mais disso, então o faz às claras. Não seria exagero dizer que mais da metade do governo está corrompido".
"Então o que você sugere, menino?", Moody perguntou de forma ignorante.
"Eu não sei... Vou tentar ajudar, mas não sei como-"
"Primeiro de tudo: precisamos mudar a data", decidiu Kingsley.
"Mas já tínhamos todo cronograma e os aurores escalados..."
"Tonks, provavelmente um deles abriu a boca, mesmo que sem querer sobre nosso plano de resgate. Tinha que ser um deles, pois não acredito que tenhamos um traidor entre nós", Arthur argumentou.
"Então iremos apenas eu, Moody e Kingley?", Tonks questionou preocupada.
"Podemos substituir os aurores por nós, membros da Ordem. Eu, Lupin e Hagrid podemos fazer isso", Arthur escalou-se.
"Acha prudente incluir Hagrid nesse plano? Já tínhamos entrado em acordo em mantê-lo fora até que-"
"Alastor, não vejo muitas opções. Tenho certeza de que Lupin ficará satisfeito em vir conosco e, com a mudança de data, não haverá problemas, visto que não será lua cheia, como seria se o resgate fosse ao dia do aniversário de Harry".
"Ainda assim é pouca gente", Draco se meteu. "Acreditem quando eu digo que, se for para capturar Harry, o Lord virá pessoalmente para matá-lo", nas últimas palavras sua voz foi morrendo e o rapaz sentiu que estava encolhendo diante dos olhares inquisidores.
"Mas com a mudança de data-"
"Malfoy está certo, Nymphadora", Alastor admitiu de forma relutante. "Se, de alguma forma, descobriram o plano uma vez, nada impede que o façam novamente mesmo com todas as precauções. Precisamos de mais gente e precisamos confundi-los. Eles não podem encostar um dedo em Harry Potter".
"Bem... Sugestões?", Lupin abriu os braços e aguardou em silêncio.
Hermione, devagar e timidamente levantou a mão, quase como se estivesse em uma sala de aula e Draco segurou o riso com muito esforço. Era um comportamento tão típico que parecia deslocado em uma situação como aquela.
"Eu... Bem... Eu acho que tenho uma idéia", ela começou. "Mas será realmente perigoso".
"Hermione, querida, a essa altura, o que não é perigoso para vocês que estão no meio do furacão?", Molly questionou com ar sombrio, enquanto enfaixava as mãos de Ginny.
"Prossiga", Arthur pediu.
"Bem...", ela começou. "Eles querem Harry e para isso farão de tudo, nos atacarão com o que têm de melhor e mais letal... Mas não poderão matar Harry se não souberem quem é Harry Potter. Qual é o verdadeiro Harry Potter".
Draco notou que a garota estava ansiosa e parecia não ter a idéia completamente formulada, pois falava pausadamente, como se estivesse medindo cada uma das silabas. Ou talvez ela já tivesse aquele plano na cabeça há tempo suficiente para saber que era absurdo e, talvez por isso, falasse com calma para que a idéia não parecesse tão estúpida e suicida:
"Vamos precisar de muita gente", continuou. "Pelo menos nove pessoas; dez se contarmos com Harry".
"Hermione, do que diabos você está falando?", Moody questionou impaciente, sem conseguir acompanhar o raciocínio da amiga. Mas Draco percebeu que Ronald já sabia daquilo e suas suspeitas de que aquilo já fora premeditado se confirmou... Arthur encarou o filho e Hermione e compreendeu. Seus olhos não escondiam o espanto, mas respirou profundamente e – quando falou – sua voz era firme, já recomposta:
"Não podemos forçar ninguém. O risco é muito grande, afinal..."
"Senhor Weasley, eu sei que as pessoas que estiverem disfarçadas de Harry Potter estarão correndo perigo de vida, mas... É a única solução".
"Não, não é a única", advertiu Moody, compreendendo o que aquilo significava. "Mas é a estratégia mais apropriada. Eles não poderão pegar Potter se não souberem qual deles é o verdadeiro".
"Vocês vão todos disfarçados de Harry, então?", um dos gêmeos, que Draco não sabia dizer qual era, questionou.
"Temos estoque de polissuco no departamento, posso conseguir um pouco sem que levantemos suspeitas", Tonks informou.
"Mas somos poucos. Mesmo incluindo Hagrid, seremos apenas sete", Arthur falou e em seguida numerou, contando nos dedos: "Eu, Remus, Kingsley, Tonks, Moody, Bill e o próprio Hagrid. Não somos suficientes para-"
"Senhor Weasley, quando propus esse plano não excluí meu nome da responsabilidade de ser um dos falsos Harrys", Hermione falou com seriedade.
"Não ficaremos de fora... E não adianta me olhar assim, mamãe", Ron estava irredutível em sua decisão. "Vocês não vão sem mim e sem Mione".
"Nós também vamos", Fred e George falaram ao mesmo tempo e depois se cumprimentaram, batendo as mãos.
"Eu também", Ginny se alistou.
Molly Weasley não perdeu tempo e Draco viu o desespero estampado no rosto da mulher:
"Não, Ginny!", vetou. "Fred, George, Ron... Vocês são maiores de idade, eu não posso impedi-los, mas Ginny, você fica! Podem fazer isso sem você!"
"Mas mamãe..."
"Não, Ginny! Essa é minha palavra final", sentenciou.
A menina bufou, cruzou os braços e as pernas com raiva e desviou o olhar. Draco achou engraçado, ela fazia escândalo, mas não contestava e suas mãos enfaixadas faziam com que ela parecesse alguém pronta para brigar.
"Estamos em onze pessoas, é um bom número; doze, se contarmos Harry", Lupin lembrou.
"Eu ficarria satisfeita se pudesse ajudarr", Fleur falou pela primeira vez, segurando na mão de Bill. "Não deixarria você sozinho nessa horra tam difícil".
"Tudo bem, meu amor", sussurrou, beijando-lhe a testa.
"Somos treze. Alguém vai sobrar se você não se manifestar, seu vermezinho", Moody ralhou para Draco.
"Você não precisa ir, Malfoy", Lupin lembrou.
"Por que ele? Ele não quer ajudar Harry! Por que ele pode ir e eu não?", Ginny resmungou novamente, encarando Draco.
E ele entendeu aquilo como um desafio. Ela queria que ele fosse, o aconselhou a fazê-lo...
"Ginny, eu já disse que-"
"Eu vou", Draco anunciou.
"Você pode pensar, Malfoy. Podemos dar um tempo para-"
"Eu vou", insistiu.
Então ele percebeu que Ginny o encarava. Os olhos lembravam os de um felino acuado, como se analisasse a presa, mas conseguia ver um sorriso sendo contido no canto dos lábios.
"Seremos quatorze. Sete de nós disfarçados de Harry Potter", Hermione retomou a palavra. "Quando eu e Ron começamos a articular esse plano, não imaginávamos tantas pessoas e tínhamos incluído Ginny", disse, lançando a Ginny um olhar cheio de desculpas. "Creio podemos ajustar os pares para-"
"Eu vou com o moleque", Moody falou apontando para Draco. "Não vou me sentir seguro se tiver que tirar os meus olhos dele por mais que um segundo".
"Podemos arranjar isso, Alastor", Arthur falou em tom conciliador. "O que precisamos decidir é a data, pois precisamos fazer isto antes do aniversário de Harry".
"Sugiro que façamos ainda essa semana, antes da segunda quinzena", Hermione, sugeriu.
"Podemos organizar isso rápido, assim também não haverá tempo para que qualquer tipo de notícia vaze através de, por exemplo, Hagrid", Ron, falou e Hermione lhe censurou com um olhar, mas ele se justificou: "Mione, Hagrid sempre entrega tudo".
"Sabemos, mas não vamos deixá-lo de fora. Arthur, você poderia marcar com ele para informá-lo da mudança de planos? De preferência, convoque-o apenas no mesmo dia da notícia e o leve com você", Kingsley sugeriu.
"Perfeito", o senhor Weasley concordou.
"Agora, por que todos nós não comemos alguma coisa?", Molly se levantou. "Tivemos um dia estranho e levamos um grande susto, fiquem para o jantar e falemos de assuntos mais agradáveis", sugeriu.
"Claro, Molly, querida", Arthur sorriu, cansado e agradecido. "Podemos todos nos sentar à mesa lá fora e tomar algumas decisões com relação à operação".
"Já tínhamos decidido que Dedalus, Hestia e Elifas, por segurança, não mais participariam. Mas eu ainda não consigo acreditar que qualquer um deles poderia ter vazado informações", Lupin comentou desolado.
"Elifas está ficando velho...", Moody lembrou. "Ele já não é mais tão cuidadoso".
"De qualquer forma perdemos membros importantes nos dois últimos anos. Se Emmelline estivesse viva e Podmore não estivesse sendo tão vigiado pelo ministério após ser preso, não precisaríamos usar essas crianças", Moody reclamou.
""E ainda tem os tios de Harry", Lupin lembrou. "Será que não seria interessante transferir a missão dos dois para levar os Dursley para um local seguro?"
"Sim, agora que sabemos que os Comensais estão preparados para atacá-los... Não podemos deixá-los lá sob vigilância. Os comensais já estavam vigiando aquela área e começo a pensar que apenas deixar gente de guarda não será suficiente após Harry partir".
"Verdade, Tonks", Arthur concordou, trazendo mais cadeiras. "Fica decidido, então? Os dois passam a se ocupar dos tios de Harry e, agora que escalamos Lupin – já que não mais será lua cheia – e Hagrid".
"Vamos fazer tudo rápido, mas precisamos despistar os comensais e fazê-los acreditar que o plano está mantido", Bill ressaltou sua preocupação. "Quando eles chegarem lá, no dia do aniversário de Harry, ele já estará seguro, conosco".
"Vou agilizar essa questão", Tonks falou levando a mão ao queixo. "Comunico Dedalus e Hestia amanhã discretamente no departamento".
"Humf! Perder os dois na escolta de Potter para deixar que eles levem aquela família de trouxas... Desperdício de pessoal qualificado, é o que eu digo", Moody resmungou enquanto agitava a varinha para ajudar Molly e Arthur a deslocar mais mesas para o jardim.
"Eles também precisam ser protegidos", Hermione lembrou, ajudando com os talheres.
Draco observava tudo à distância, sentindo-se ainda mais fora daquele lugar. Estava dividido entre falar ou não sobre a situação para Snape, pois, no fim das contas, se o Lord conseguisse capturar Harry Potter graças a uma informação dele tudo voltaria para o devido lugar e ele poderia ver a guerra terminar longe daquilo tudo.
"Você tem sorte", ele ouviu Ginny falar, arisca. "Daria qualquer coisa para estar no seu lugar, sabe?"
"Fique à vontade para tomar toda a minha vida, Weasley", falou baixo e cheio de mágoa.
"Não foi isso o que eu quis dizer", justificou-se. "De qualquer forma, foi corajoso da sua parte".
"Estou começando a acreditar que vocês confundem coragem com burrice", falou, afastando-se. "Se precisarem de mim estarei no quarto".
Então, Draco se afastou e entrou novamente na casa. Aquele clima de conspiração, planos e cumplicidade só o deixava pior. Estava ali pela consideração deles a Dumbledore e por mais nada. Sabia que não prezavam por sua vida, pouco ligavam para a saudade que tinha da sua mãe e do seu pai e nada, absolutamente nada, sabiam sobre o medo e o peso da responsabilidade que ele carregava nas costas.
Queria ser útil. Seu maior pecado, sempre, era querer se provar. Antes de subir as escadas com uma decisão tomada, olhou para trás. Ginny Weasley ainda o encarava, seriamente, como se tentasse ler o que estava se passando em sua mente.
Draco, de alguma forma, sabia que eles eram muito parecidos, mas por mais que ela confabulasse idéias mirabolantes jamais se aproximaria do que estava prestes a fazer...
Ele só precisava encontrar uma coruja.
N/A.: Capítulo dedicado à Diana Prallon, que betou e pitacou. Obrigada!
