- PARANÓIA -
PARTE I: TRATOS E TRUQUES
CAPÍTULO 7
Draco chegou ao quarto e a luz do sol já morria no horizonte, dando ao céu um tom alaranjado. Foi apenas quando fechou a porta atrás de si que percebeu que não tinha como escrever uma carta: sequer possuía pena e pergaminho. Andou de um lado para o outro, enquanto as dúvidas retornavam a passear por seus pensamentos. Sentiu o conhecido nó na garganta lhe impedir de respirar e foi até a janela. Através dela podia ver todos...
E sentiu inveja.
Estavam em guerra! Como podiam jantar ao ar livre, como em uma reunião de velhos amigos? Entre sussurros e conversas preocupadas, havia sorrisos, havia esperança.
"Não para mim", sussurrou. Sentindo-se ainda mais sozinho.
Draco queria contar a Snape. Sabia que o professor de alguma forma iria ajudá-lo, mas como poderia trair a confiança das únicas pessoas que lhe estenderam a mão quando necessitou? Ainda assim, tinha consciência de que não pertencia àquela vida, não tinha ligação com aquelas pessoas e pouco se importava com a história do mundo bruxo se ele e seus pais estivessem bem. Sabia que aquele pensamento era egoísta, mas não poderia negar que se tratava o de instinto de sobrevivência característico de todo slytherin.
"Ginny, poderia levar alguma coisa para Malfoy?", Draco ouviu Molly solicitar, no meio das outras vozes. "O menino deve estar com fome".
"Mas mamãe..."
"Eu preciso terminar as coisas e você é a única que não está no plano. Pode perder alguns minutos, por favor, venha comigo até a cozinha e me ajude".
Draco saiu da janela e se sentou no chão, logo à frente. Apoiou o braço em um dos joelhos e esticou a outra perna, que só notara naquele momento o quanto estava dolorida. Em pouco tempo ela subiria para trazer sua comida, talvez conversar, trocar algumas informações. Por mais estranho que pudesse parecer, e por mais peças que ela tivesse pregado, Ginny Weasley era a única pessoa naquela casa que não o ignorava.
Ouviu um clique e a porta se abriu fazendo barulho. Àquela altura quase não havia iluminação no quarto e ela andou devagar até a mesa ao lado da cama, para apoiar a bandeja.
"Pensei que você ficaria feliz por eu ter aceitado participar", ele falou baixo, e ela se virou, lentamente, colocando as mãos na cintura. Sua expressão era serena.
"Na verdade, tanto faz", deu de ombros. "Eu sei que é o certo... Digo, conscientemente, eu sei que é a decisão correta, porém não acho justo ficar de fora de tudo".
"Você é igual a mim", ele concluiu, tentando distinguir a expressão dela à meia luz.
"Perdão?"
"Essa coisa de querer sempre se provar, mostrar que não é inútil..."
"Malfoy, você não me conhece para ficar me analisando dessa forma", falou parecendo ofendida, mas Draco percebeu que o tom era muito mais de surpresa.
"Realmente não conheço, mas posso dizer que nesses últimos dias prestei mais atenção em você do que qualquer um deles", confessou. "Por mais insensível que tenha sido, ao menos, você conversa comigo e isso eu não vou esquecer. Se há algo que aprendi é a ser grato por aqueles que me consideram".
Ginny apenas o observou em silêncio e Draco não sabia dizer o que estava se passando na cabeça dela. Mas achou estranho ela parecer tão confusa com aquilo, desconsertada. Então ele sorriu:
"Acho que você passou tempo demais lutando por atenção e, quando finalmente a tem, não sabe o que fazer com ela".
"Como-"
"Já disse, você é igual a mim".
Ginny deu um sorriso sem graça e colocou as mãos no bolso, encolhendo os ombros, desviando um pouco o olhar para observar os últimos raios de sol através da janela.
"Malfoy, seu jantar vai esfriar. Mais tarde alguém vem pegar a bandeja", informou virando-se para sair.
Então ele percebeu que ela diminuiu o passo e parou diante da porta, segurando a maçaneta.
"Você fez a coisa certa", ela olhou para trás, quando ele começou a se levantar, apoiando-se na cama. "Quero dizer, sobre pedir ajuda".
"Estou começando a acreditar nisso", respondeu, ficando admirado por perceber que aquelas palavras eram sinceras.
Ginny deu um sorriso torto, mas sincero e abriu a porta, fechando-a devagar assim que atravessou o portal. Draco se sentou na cama e encarou a sopa de legumes, que cheirava bem em um prato fundo. Só agora a fome parecia realmente evidente. Pegou a colher e mexeu um pouco, deixando esfriar com alguns minutos antes de provar. Quente. A cada colherada ficava com mais calor e, ao contrário do esperado, a temperatura não diminuiu tanto quando o sol baixou. A noite prometia ser abafada... Quem preparava sopas no verão? Pensou, enquanto tirava a camisa de mangas compridas.
"E quem é o imbecil que usa casaco essa época do ano?", perguntou-se, em voz alta, jogando a peça de lado, qualquer jeito.
Então seu olhar caiu sobre seu braço e se lembrou o porquê. Desviou os olhos para o seu jantar, segurando a vontade de chorar. Pensou nos seus pais, em Harry Potter, em Dumbledore e em Ginny: "Você fez a coisa certa", ela disse, sorrindo de forma sincera. Naquele segundo, a idéia de informar Snape evaporou dos seus pensamentos. Não podia traí-los. Tinha feito a coisa certa.
Tinha feito a coisa certa.
Depois de terminar sua refeição ficou feliz por estar sozinho e ter a cama para esticar o corpo. Afastou as cobertas e deitou-se. A calça que usava também era de tecido grosso e fazia calor, mas preferiu continuar com elas. Usar roupas de segunda mão que se assemelhavam tanto com as peças trouxas o incomodava, mas não tinha muita escolha. Fechou os olhos e ficou completamente quieto, respirando lentamente e torcendo para que esfriasse um pouco. Então, alguns minutos mais tarde, ele já não sabia mais se estava dormindo ou acordado.
No instante seguinte, Draco se viu escrevendo furiosamente em pedaços e mais pedaços de pergaminho. Possuía tinta e papel, pois ele conseguira pegar escondido em um dos quartos enquanto todos dormiam. Desceu com cuidado, deu um doce a uma coruja muito pequena e ela, dócil, empoleirou-se no seu braço. Seguiu para os jardins e a noite continuava abafada.
Céu estrelado;
Poucas nuvens;
O vento se recusava a soprar.
Prendeu o pequeno bilhete na perninha minúscula da coruja e falou baixo, olhando para os lados, desconfiado, como se pudesse ser pego a qualquer segundo:
"Entregue apenas para Severus Snape".
Acordou em um sobressalto, suado, coração acelerado e com o sol batendo em seu rosto. Ficou sentado por alguns segundos, encarando a parede fixamente, tentando recompor sua respiração, tentando afastar o pesadelo.
"Consciência pesada, Malfoy?", Ron questionou. Ele estava levando a sua bandeja do jantar da noite anterior.
"Não interessa", resmungou, deitando-se novamente e cobrindo os olhos.
"Ron, desocupa logo essa mesinha, eu preciso apoiar o café da manhã dele!", Draco escutou a voz de Ginny e tirou as mãos do rosto, para encará-la.
Então notou que o olhar dela pousava sobre seu braço esquerdo, onde a Marca Negra, vívida, estava tatuada, ocupando praticamente toda a parte interna de seu antebraço. Num impulso, buscou a camisa de mangas compridas que vestira no dia anterior e cobriu a marca. Ginny desviou o olhar e Ron o encarava com uma expressão de nojo.
"O que foi?", Draco perguntou de forma arisca. "Você 'tá olhando o quê?", então vestiu a camisa apressadamente.
"Nada, Malfoy", falou em tom de sarcasmo. "Vamos, Ginny. Deixe a bandeja aí e vamos".
"Papai disse para-"
"Depois eles atualizam Malfoy das coisas. Vamos! Mione está esperando, temos muita coisa para arrumar".
Draco olhou para comida e torceu o nariz. Não estava com fome. Na verdade estava enjoado e censurava-se por ter ido dormir logo depois de comer: tivera pesadelos e acordara enjoado.
"Mas que belo começo de dia", falou alto, se levantando.
Pegou roupas limpas – vestes evidentemente bruxas, dessa vez – e seguiu para um banho frio. Queria se refrescar. Se tinha uma coisa que o irritava era ficar suado e vestir roupas sujas. Olhou para seus pés enquanto se lavava e viu que estavam sujos, como se tivesse andado descalço durante horas, mas então olhou novamente e não... Era só imaginação.
Molhou a cabeça e fechou os olhos. A idéia de mandar a carta para Snape ainda martelava seus pensamentos; tanto que sonhara com isso. De qualquer forma, sua decisão estava tomada e já tinha decidido ser fiel aqueles que o acolheram enquanto isso mantivesse ele e seus pais a salvo.
Secou-se e se vestiu, saindo para o corredor onde encontrou Ginny esperando por ele:
"Papai pediu para avisar que quer falar com todos hoje e pediu que almoçasse conosco", depois falou muito baixo. "Eu acho que será hoje de noite".
Draco parou na posição em que estava, no meio do corredor, segurando as roupas sujas e a toalha molhada, a boca aberta em espanto. "Tem certeza?" era o que ele queria perguntar, mas não o fez. "Será que estou preparado para isso? Será que vai dar certo?"
"Vai dar certo", ela pareceu ler os pensamentos dele.
"Você diz isso porque não vai estar lá, correndo perigo", falou sem pensar e a expressão amistosa no rosto de Ginny desapareceu tão rápido que Draco mal teve tempo de processar.
"Então vamos torcer para não acontecer nada com o senhor corajoso", foi sarcástica. "Agora me dê essas roupas que vou levar para juntar com as outras", ele obedeceu. Ela parecia realmente muito irritada. "A toalha também".
Assim que pegou as peças saiu pisando forte, sem olhar para trás. Draco se lamentou após aquela conversa, pois sabia que tinha tocado em um ponto frágil dela. O maior desejo de Ginny era poder ajudar, se provar, atuar como membro da Ordem da Fênix, mas por ser a mais nova e ainda menor de idade, acabava não participando. Ele tinha notado naqueles dias – enfurnado naquela casa – que ela parecia uma sombra orbitando ao redor de Hermione Granger e Ronald Weasley, sedenta por informações, por não ser mantida de fora, dando respostas espertas e rápidas, sendo a garota de personalidade forte...
"Ela é igual a mim", pensou. Mas diferente dela, provarei o meu valor e não deixarei que pensem que sou um peso.
Foi para o quarto e ficou escutando as conversas que vazavam pelas paredes durante toda manhã, quando a hora do almoço se aproximou quem foi chamá-lo foi Granger. E ele se pegou pensando que se Ginny Weasley realmente tivesse ficado brava com ele e não mais quisesse vê-lo, sentiria falta.
Ele seguiu Hermione e todos já estavam à mesa. Ele entrou na cozinha em silêncio e se sentou perto da cabeceira da mesa, onde estava Arthur. À sua frente estava Bill, o mais velho, e à sua esquerda Ginny Weasley. Molly colocava a refeição na mesa enquanto os gêmeos tagarelavam ao som dos risos de Hermione e dos protestos de Ron. Então Arthur o chamou e ele desviou sua atenção das brincadeiras dos demais ocupantes da mesa.
"A ação iria acontecer hoje, mas não tivemos tempo de preparar tudo", começou. "Mesmo assim, creio que até depois de amanhã tudo estará dentro do desejado, incluindo as roupas que vocês precisarão usar para se passar por Harry".
"Boa sorte, Malfoy. Seu par será realmente Moody", provocou Fred Weasley.
"Verdade. Se fizer qualquer gracinha, vai acabar sendo atacado por ele", riu George.
"Vocês dois, parem!", reclamou Molly. "Malfoy, você está deixando esfriar", ela alertou, apontando para a torta de frango e o purê de batatas que estava no prato do rapaz.
"Sim, senhora", atendeu, provando a comida.
No restante da refeição, Dracro se limitou a escutar as instruções de Arthur e ser atualizado com informações acerca da guerra, dos que haviam desaparecido e dos que estavam mortos. Não tivera notícias de sua mãe, pois Tonks não havia passado nada a eles sobre Narcissa, mas Draco lembrou que não fazia nem um dia que tivera notícias e entendia que não funcionava do jeito que ele gostaria.
Terminado o almoço, os gêmeos, o amigo de Harry Potter, Hermione Granger e Ginny foram para os jardins e Draco para o quarto. De lá ele pôde ver o grupo sentado debaixo de uma árvore se refrescando com suco gelado de abóbora e, depois de descansarem um pouco, começar a desguinomizar os jardins sob altos protestos de Ron.
Draco sentou-se no chão e quase torceu para que o dia do resgate chegasse logo, pois, quem sabe, um pouco da sua rotina sem graça mudasse. Ele sabia que, aos poucos, se continuasse daquele jeito, não sobreviveria.
Conforme seu desejo, a esperada noite chegou rápido. Estava deitado na cama, se preparando mentalmente quando escutou as batidas na porta. Como esperado, era Ginny.
"Boa noite", ela falou baixo. Em seguida, olhou para bandeja: "Você não comeu nada?"
"Estou com o estômago dando voltas. Não consegui sequer olhar", confessou.
"Imagino", suspirou. "Estou nervosa e ansiosa e nem sairei de casa".
"Bem, é melhor eu descer".
"Moody estava repassando o plano pela terceira vez, acho. Ele não gosta de ser pego desprevenido... Está lá embaixo bradando que foi melhor mudar o plano mesmo, porque um tal de Thicknesse estava de olho no rastreador de Harry..."
Ela parou, notando que Draco estava nervoso. Ela se aproximou insegura e pegou a mão do rapaz, apertando-a.
"Força", sorriu. "Vai dar tudo certo".
Dizendo isso, deu mais um passo e ficou na monta dos pés, beijando-lhe a bochecha. Draco ficou parado, congelado por aqueles segundos. Mesmo com o quarto iluminado apenas pelos últimos raios de sol podia notar o quanto ela estava vermelha. A garota se afastou e saiu do quarto rapidamente. Só então Draco se permitiu respirar novamente.
"Isso não aconteceu", murmurou para si mesmo. "Estou delirando", complementou quando abriu a porta e saiu do quarto, pronto para encontrar o grupo que resgataria Harry Potter. Mas ainda podia sentir o rosto queimar.
Desceu as escadas e todos já estavam lá. Moody fazia exatamente o que Ginny tinha dito e ela ria de forma nervosa.
"Pronto, estamos todos aqui! Vamos!", anunciou o auror. "A essa altura os Dursley já foram levados e Harry estará sozinho. Não podemos nos demorar, pois em breve o feitiço cairá. Uma vez fora da casa dos tios, Harry não mais poderá chamar aquilo de lar... Vamos!"
Ginny e Molly abraçaram e cumprimentaram cada um dos presentes na casa, mas na sua vez a garota apenas apertou a sua mão formalmente e desejou sorte, desviando o olhar como se tivesse vergonha. Molly o segurou pelos ombros e o agradeceu visivelmente emocionada.
"Vamos desiludir a todos", Draco escutou Arthur avisando do jardim e se apressou em sair da casa, segurando a última vassoura que havia ficado encostada na parede. "Por favor, me ajudem".
Uns foram usando o feitiço nos outros até que não passassem de massas disformes. Draco montou na vassoura e sentiu alguém lhe cutucar o ombro.
"Estou de olho em você, moleque!", ralhou. "Mesmo desiludido".
Então houve uma contagem e, no três, estavam todos partindo para a noite.
Draco sobrevoou céus desconhecidos. Estava praticamente colado à vassoura de Moody, concentrando-se para não perdê-lo de vista. A escuridão parecia estar se agitando, o ar estava tremulo devido a todas aquelas pessoas enfeitiçadas por suas magias de desilusionamento.
Pousaram fazendo barulho e à porta dos fundos de uma casa igual a todas as outras ao redor, viu a figura confusa de Harry Potter. Aos poucos todos foram ficando visíveis novamente e o meio gigante dominava a cena, parecendo desengonçado enquanto permaneceu sentado em naquela enorme motocicleta. Em toda a sua volta, outras pessoas estavam desmontando de suas vassouras e em esqueléticos cavalos pretos com asas.
Abrindo a porta dos fundos, aparentemente atordoado, Harry correu até o meio deles e Draco se viu no meio de uma comoção geral de cumprimento, enquanto Hermione jogava os braços em volta do pescoço magricelo de Harry; Ron deu uma olhada meio enciumada, mas se aproximou do amigo dando uma tapinha em suas costas. Então, o meio gigante disse:
"Tudo certo Harry? Pronto para irmos?", sua voz era rouca e Draco se sentiu incomodado. Não gostava dele.
"Claro," disse Harry, olhando todos à sua volta. Estava muito feliz. "Mas eu não esperava tantos de vocês!"
"Mudança de planos", Moody ralhou, que estava segurando dois enormes sacos cheios, e o qual o olho girava rapidamente, alternando entre Harry, Draco, a casa, o jardim e o céu... "Mas vamos para um lugar coberto antes de falar disso", alertou desconfiado.
Harry guiou-os para dentro da casa e Draco se viu na cozinha onde todos pareciam bastante a vontade: rindo e batendo papo; assentados em cadeiras ou sobre as brilhantes superfícies dos móveis impecavelmente limpos. Draco notou que Harry observou cada um dos presentes com satisfação, podia jurar que ao redor de Harry parecia existir uma aura de felicidade, até que seus olhos caíram sobre ele e sua expressão ficou séria e contida, mas ao menos não pareceu a Draco que ele estivesse disposto a estrangulá-lo, como em diversas vezes anteriores.
"Kingsley, eu pensei que você estava cuidando do Primeiro Ministro" ele disse do outro lado da sala, após desviar suas atenções de Draco. Ignorando-o.
"Ele pode se virar sem mim por uma noite" disse Kingsley "Você é mais importante".
"Claro que é. Harry Potter era sempre o mais importante", pensou Draco.
"Oh, Harry, adivinhe?" disse Tonks, que estava sentada em cima da maquina de lavar, mostrando, um anel em sua mão esquerda.
"Você se casou?" Harry gritou, olhando do lobisomen para ela.
"Casou! Pronto!", se intrometeu Moody. "Ok, ok, nós teremos tempo para uma conversa agradável depois". Após as gentis palavras do auror, e o silêncio reinou sobre a cozinha.
Então ele pôs os sacos gigantes no chão, à sua frente e se virou para Harry:
"Assim como Dedalus provavelmente te contou, nós abandonamos o plano A. Thicknesse se debandou para o lado de lá, o que nos trás um grande problema".
"Segundo problema", explicou Arthur "É que você é menor de idade, o que significa que ainda tem o rastreador sobre você."
"O quê?"
"O rastreador, Potter, o rastreador!" disse Alastor impacientemente "É o encanto que detecta atividades mágicas praticadas por menores, é desse jeito que o Ministério encontrar menores infratores! Se você, ou qualquer um aqui, utilizar uma magia para resgatar você, Thicknesse vai saber disso, e junto com ele os Comensais da Morte."
"Nós não podemos esperar o feitiço ser quebrado", foi Lupin que continuou explicando. "Porque no momento em que você atingir a maior idade, você perderá a proteção que sua mãe lhe deu. Resumindo: Thicknesse pensa que encurralou você"
"Então o que faremos?"
"Nós iremos usar o único método que nos restou, o único método que o rastreador não pode detectar, pois não dependemos de magia para utilizar: Vassouras, testrálios, e a moto de Hagrid".
Harry podia enumerar milhares de defeitos naquele plano, Draco viu que ele não parecia convencido, mas mesmo assim ele segurou suas observações para dar a Moody a chance de continuar:
"Agora, o feitiço de sua mãe somente irá quebrar sobre duas condições: quando você atingir a idade, ou quando você não chamar este lugar de casa. Você, sua tia e seu tio terão os caminhos separados, em total entendimento que jamais verão um ao outro novamente, concorda?"
Harry afirmou, com um aceno simples.
"Então dessa vez, não haverá volta, e o encanto se quebrará assim que você sair do raio de visão. No plano inicial que passamos para você, íamos manter seus tios aqui, mas não seria seguro para eles, tem gente vigiando e tem comensais preparados para pegar você assim que for maior de idade... Malfoy informou que eles viriam pegar você, decidimos então quebrar o feitiço mais cedo".
"Mas-"
"Harry, a única alternativa é esperar por Você-Sabe-Quem vir e te matar quando completar dezessete anos", Hermione falou calmamente. "E certamente virão. O nosso plano A vazou, Harry. Por isso bolamos essa segunda alternativa".
"O que nós temos ao nosso favor é que Você-Sabe-Quem não sabe que estamos te transportando esta noite. Nós deixamos escapar uma falsa pista para o ministério, reforçando a informação que eles já tinham: todos acham que você não sairá até que o encanto seja desfeito. Contudo, estamos lidando com Você-Sabe-Quem, então nós não podemos contar com que ele realmente saiba a data errada. Como já disse, provavelmente tem comensais patrulhando os céus em toda essa área, só para o caso. Então, nós providenciamos para uma dúzia de casas diferentes toda a proteção que poderíamos. Todas elas parecem possíveis lugares os quais usaríamos para te esconder, todas tem alguma ligação com a Ordem. Acrescente na lista a minha casa, a casa de Kingsley, os Weasley... Entendeu?"
"Sim..." disse Harry, mas Draco não acreditou que ele estava confiante.
"Nós iremos para a casa dos pais de Tonks. Uma vez que é a casa mais preparada para nos receber e devido aos encantamentos de proteção que lá colocamos, você poderá utilizar uma chave de portal até a casa dos Weasley. Dúvidas?"
"Bem... Sim" disse Harry "Talvez eles não saibam a qual das doze casas eu estou indo primeiro, porém não ficará óbvio? Vai ter catorze de nós indo em direção a casa dos pais de Tonks?"
"Ah!", exclamou Moody. "Eu me esqueci do detalhe principal do plano. Catorze de nós não estarão voando para a casa dos pais de Tonks. Serão sete Harry Potters voando através dos céus hoje a noite, cada um deles com um companheiro, cada par indo para uma casa diferente"
De dentro de sua capa Moody agora retirou uma garrafa do que parecia lama. Não havia motivos para ele dizer qualquer outra palavra, pois ficara óbvio que Harry havia entendido todo o plano imediatamente.
"Nem pensar!" exclamou de forma audível, sua voz ecoando pela cozinha. "Corta essa!"
"Eu disse a eles que você reagiria dessa forma, Harry" disse Hermione.
"Se vocês pensam que eu deixarei seis pessoas se arriscarem dessa forma-"
"Como se fosse a primeira vez para qualquer um de nós," Ron pensou alto.
"Dessa vez é diferente, fingindo ser eu-"
"Bem", Fred interrompeu. "Nenhum de nós deseja isso Harry. Imagina se algo dá errado e ficamos pra sempre com a sua cara?"
Harry não riu.
"Vocês não podem fazer isso sem minha cooperação, vocês precisam de mim para lhes dar alguma-"
"Exatamente, não tem como nós continuarmos com o plano sem você cooperar" famentou George, em tom de zombaria.
"Pois é! Treze de nós contra um cara que não pode usar magia... Nós não temos nenhuma chance", brincou Fred.
"Engraçado", bufou Harry. "Muito engraçado".
"Todos aqui são maiores de idade, Potter, e estão todos dispostos a se arriscar... Até mesmo eu", Draco ousou se manifestar.
"Não vamos mais discutir. O tempo está passando. Eu quero um pouco de teu cabelo, garoto, agora!"
"Mas isso é ruim, não há necessidade-"
"Não há necessidade?" gritou Moody "Com Você-Sabe-Quem lá fora e metade do Ministério ao seu lado? Potter, se nós tivermos sorte, ele terá engolido a falsa pista e estará planejando te pegar somente em seu aniversário, mas ele provavelmente tem um ou dois comensais te vigiando, é o que eu faria se fosse ele. Eles podem não ter sido capazes de pegar você ou a esta casa enquanto o encantamento de sua mãe ainda existe, mas é só ele se quebrar e eles terão posse desse lugar. Nossa única chance é usar estes chamarizes. Até mesmo Você-sabe-quem não pode se dividir em sete".
Draco percebeu uma estranha troca de olhares entre Harry e Hermione, mas eles desviaram logo após.
"Então, Potter, um pouco de teu cabelo, por favor"
Harry olhou para Ron de relance, este sinalizou um "anda logo".
"Agora" irritou-se Moody.
Com todos o observando, Harry estendeu sua mão até sua cabeça, agarrou um punhado de cabelo, e puxou.
"Excelente" disse Moody, pegando o vidro de poção. "Logo aqui, por favor".
Harry jogou o cabelo no liquido lamacento. No momento em que houve contato em sua superfície, a poção começou a se modificar e então se tornou uma cor clara dourada e brilhante.
"Ah, você parece muito mais gostoso do que Crabbe e Goyle, Harry" disse Hermione, antes de focar as sobrancelhas levantadas de Ron. Corando levemente ela disse "Ah, você entendeu o ponto – a poção de Goyle parecia-"
"Espere aí!", pediu Draco, que a encarou com surpresa também: "Vocês usaram polissuco para se disfarçar de Crabbe e Goyle? Quando? Para quê? O quê-"
"Certo então", Moody interrompeu. "Falsos Potters, alinhem-se aqui, por favor" disse Moody. Ron, Hermione, Fred, George, Draco e Fleur se alinharam em frente a impecável pia de Tia Petúnia.
"Todos juntos, agora..."
Ron, Hermione, Fred, George, Fleur e Draco beberam. Todos eles engasgaram e fizeram caretas de nojo à medida que a poção atravessava suas gargantas. Pouco depois havia seis Harry Potters engasgando e cuspindo. Draco não lembrava de ter tomado algo tão ruim em toda a sua vida e, ainda com o ar faltando, viu Fred e George olhar um para o outro e dizer ao mesmo tempo: "UAU! Estamos idênticos!"
Moody voltou a falar:
"Aqueles os quais as roupas estão um pouco largas, eu tenho menores aqui" disse Moody, indicando o primeiro saco, "E vice versa. Não esqueçam os óculos, há seis pares no bolso lateral. E quando estiverem vestidos, há bagagem no outro saco".
Draco pensou que aquilo era a coisa mais estranha que ele já havia visto, e ele já havia visto coisas extremamente estranhas. Ele observou como as outras cinco cópias vasculharam os
sacos, procurando as roupas, pondo óculos. E se sentiu bizarro e sem coragem de olhar para o próprio corpo. Torceu para não precisar olhar para nenhum espelho, quando virou de lado e encarou o verdadeiro Harry...
"Você está ficando verde, Potter", provocou.
Harry parecia estar pedindo mentalmente para que eles ao menos demonstrassem um pouco mais de respeito pela sua privacidade à medida que começaram a se trocar, deixando a vista seu corpo.
"Eu sabia que Ginny estava mentindo sobre aquela tatuagem," Draco ouviu Ron falar, olhando para baixo para seu peito nu.
Draco riu sozinho daquela descoberta.
Uma vez vestidos, os falsos Harrys pegaram suas bagagens e gaiolas de corujas, cada uma contendo uma coruja branca empalhada, vindas do segundo saco.
"Ótimo. Perfeito!" disse Moody, quando o sétimo Harry terminara de se vestir.
"Os pares vocês já sabem, mas vamos relembrar: Malfoy viajará comigo, de Vassoura..."
"Por que ele está com você?" questionou o verdadeiro Harry.
"Porque é um dos que precisa ser vigiado," rosnou Moody. Draco não saiu da mira de seu olho mágico por nenhum segundo, desde que chegaram àquela casa. "Arthur e Fred..."
"Eu sou George," disse o gêmeo para o qual Moody estava apontando "Vocês não podem parar de nos confundir nem quando somos Harry?"
"Desculpa, George."
"Só estou enchendo você, sou o Fred na verdade".
"Chega de inutilidades", Moody gritou furioso. "O outro, George ou Fred, ou qualquer um que seja você está com Remus. Senhorita Delacour-"
"Fleur vai comigo em um testrálio," disse Bill. "Ela não é muito fã de vassouras"
"Senhorita Granger com Kingsley, também de testrálios."
Draco notou que Hermione pareceu tranqüilizada ao responder o sorriso de Kingsley.
Draco observou que Ron não parecia tão satisfeito por ir com Tonks. Ele já manifestara isso em uma conversa que tinha ouvido entre ele e Hermione, mas não expressou em voz alta para ninguém que não fosse a amiga. Tonks parecia empolgada.
"Você esta comigo, Harry. Tudo certo?" disse Hagrid, parecendo ansioso. "Nós estaremos na moto, vassouras e testrálios não suportam meu peso, veja só. E você não cabe no assento comigo junto, todavia, portanto você irá sentado no carrinho lateral."
"Está ótimo" disse Harry.
"Nós achamos que os Comensais da Morte estarão esperando que você esteja em uma vassoura," disse Moody, que pareceu adivinha como Harry se sentia. "Snape teve muito tempo para dizer a eles tudo que ele nunca disse antes, então caso sejamos perseguidos por qualquer Comensal, estamos crentes que ele irá escolher um dos Potters que está em uma vassoura, tudo certo então", ele continuou, carregando o saco com as roupas dos falsos Potters e caminhou para a porta. "Depois da idéia inicial de Hermione, eu refiz os detalhes desse plano três vezes e repassei outras três com todos antes de sair", ressaltou. "Não tranque a porta de trás, pois isso não manterá os Comensais da Morte fora quando eles vierem".
"Vamos!", Lupin exclamou e todos atenderam.
Draco viu Harry se apressar, pegar suas bagagens, Firebolt e a gaiola da coruja no escuro jardim. Por todos os lados, vassouras estavam levantando vôo, mas continuavam perto da casa, apenas planando. Hermione já havia recebido ajuda de Kingsley para subir no grande testrálio negro. Fleur subira no outro com Bill. Hagrid estava parado, pronto para partir ao lado de sua moto, óculos postos.
Draco deu um pequeno impulso se colocou no alto ao lado de Moody, vendo Harry trocar algumas palavras com o gigante antes de subirem na a moto barulhenta.
"Boa sorte, para todos." Gritou Moody. "Vejo vocês todos em uma hora na casa dos Weasley. No três. Um... Dois... TRÊS!"
Houve um grande rugido de moto, mas Draco não olhou para trás. Apenas limitou-se em se preocupar consigo mesmo e em seguir Moody. Eles estavam voando cada vez mais alto, adentrando no céu. E então, de nenhum lugar, do nada, eles estavam completamente cercados. Draco não teve tempo de contar, mas eram pelo menos trinta figuras encapuzadas, voando, formando um grande circulo em volta deles, no qual os membros da Ordem estavam.
Vários raios verdes;
Próximos;
Muito próximos.
Draco se encolheu na vassoura e ouviu Moody ralhar, gritando para que ele voasse rápido enquanto disparava diversos feitiços. Draco se sentiu indefeso. Estava sem varinha e sua vassoura não era tão rápida. Ouviu gritos e passando por eles, viu Tonks voar tão rápido que parecia apenas um borrão, colada com o Harry que era Ronald Weasley. Os dois voavam juntos como os jogadores bem entrosados de um time de quadribol.
Então algo riscou o céu muito perto. E Harry, o verdadeiro Harry, gritou. O feixe de luz fora verde, a maldição da morte. E, com alívio, Draco viu que o que tinha sido atingida fora apenas a coruja branca.
"Não – NÃO!", ouviu Harry gritando, mas sua voz sumiu na imensidão da noite.
Draco vislumbrou os encapuzados Comensais da Morte espalhando-se à medida que ele e Moody dispararam através do circulo, mergulhando com as vassouras e olhou por cima de seu ombro. Pode ver uma massa de gente se movendo, feixes de luz verde, dois pares em vassouras se afastando, mas ele não podia mais dizer quem eram... Então notou que ele e Moody eram seguidos de perto por dois homens encapuzados.
Mais Avada Kedrava passaram pela cabeça de Draco vindos dos dois Comensais, mas notou que ambos estavam mirando em Moody, que revidava com feitiços variados. Vermelho e verde colidiram no meio do ar, em um espetáculo de faíscas multicoloridas, como fogos explodindo no céu.
À medida que os feitiços iam passando por eles, Moody desviava, mas em algum momento algo deu errado... Muito errado.
Foi muito rápido e Draco jamais poderia dizer como realmente aconteceu. Em um momento, Moody estava voando veloz três metros acima de sua cabeça, no seguinte, ele estava caindo da vassoura. Parecia um boneco de pano, lançado ao chão através da escuridão da noite. A vassoura voou desgovernada até bater na copa de algumas árvores e Draco colou seu corpo à sua para ganhar mais velocidade. Sentia lágrimas em seus olhos e sentia que os comensais ainda estavam em seu encalço.
"Vamos... Vamos... Vamos... Eu sei que está perto", choramingava.
Então, como que atendendo aos seus pedidos, os comensais desapareceram, e ele, em dois segundos de alívio, perdeu a direção da vassoura e tentou frear bruscamente. Com um barulho estrondoso, ele caiu direto em um poço de lama. Fechou os olhos e chorou aliviado.
Estava salvo.
NA: Obrigada por todos os comentários! Estou escrevendo tão empolgada que o capítulo 8 vai chegar rapidinho, creio que pelo meio da semana. Obrigada mais uma vez a Diana Prallon, que está betando essa fic, e a todos do Fórum 6V que estão lendo e participando do Fawkes e fazendo as coisas para a fic. Obrigada!
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Esse capítulo foi infinitamente inspirado no capítulo 4 de As Relíquias da Morte. Reli várias vezes o capítulo para retratar o cenário tal qual foi escrito por JK, mas de forma diferente e com outro ponto de vista, então, qualquer semelhança não foi coincidência. A cena da casa dos Dursley realmente existiu no livro, mas diferente.
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Beijos. Espero REVIEWS!
