- PARANÓIA -
PARTE I: TRATOS E TRUQUES
CAPÍTULO 8
Passos. Um, dois, três.
Passos na água; na lama.
Um, dois, três.
Leves, distantes... Únicos.
"Você pode me ouvir? Você está bem?"
Sim, ele podia ouvir, mas, não... Ele não estava bem.
Tudo era resumido a borrões e tons de cinza. E de vermelho.
"Mamãe, ele está aqui!"
Sentiu que flutuava e que aos poucos o frio ia embora; o medo ia embora. Imaginou-se sentado diante da lareira de sua casa, no meio de uma enorme sala aconchegante, onde provava uma xícara de chocolate quente com menta. Sua mãe sorria. Seu pai ria de alguma piada que ele havia contado. Estavam felizes... Estavam felizes.
"Acho que ele está acordando, mamãe", Ginny falou baixo, enquanto segurava um pano úmido em sua testa.
"O que está havendo?", Draco questionou, abrindo os olhos devagar. Percebeu, então, que Molly e Ginny o encaravam, muito próximas e apreensivas.
"O que aconteceu?", Molly questionou.
"Eu..." Draco parou por alguns segundos para pensar, mas ainda estava tonto. Levou sua mão à cabeça e tentou se sentar. Foi então que agradeceu a boa idéia de não ter jantado, pois, se tivesse, sua refeição estaria sobre o tapete da senhora Weasley.
"Não precisa se levantar, Malfoy", Molly pediu. "Onde Moody está?"
Um barulho do lado de fora da casa foi suficiente para tudo se agitar e a mulher desviar as suas atenções. As duas correram para fora e Draco, mesmo tonto, foi atrás, cambaleando e se apoiando na parede externa da casa.
Ele ouviu barulhos e, assustado, olhou ao redor, mas era apenas o vento farfalhando as árvores e os arbustos. Respirando fundo, tentou alinhar seus pensamentos e, levantando a cabeça, viu a senhora Weasley e Ginny correndo na direção de dois vultos cambaleantes: um era magricelo e de estatura mediana, o outro era enorme e desengonçado.
"Harry?", Molly gritou. "Você é o verdadeiro Harry? O que houve? Onde estão ou outros?"
"Como assim? Ninguém mais está de volta?", Harry se desesperou.
Molly permaneceu em silêncio diante da pergunta de Harry e, em sua expressão, estava clara a resposta. Ninguém tinha voltado.
"Ninguém importante, ao menos", pensou Draco, com rancor.
"Vamos entrar".
"Os Comensais da Morte estavam nos esperando", Harry começou, seguindo as duas mulheres. "Nós fomos abordados no momento em que levantamos vôo... Eles sabiam que seria esta noite! Eu não sei o que aconteceu a nenhum dos outros, quatro deles correram atrás de nós, foi tudo o que pudemos fazer para fugir, e então Voldemort apareceu..."
Os olhares de espanto trouxeram ao relato um clima de apreensão e Draco podia perceber o tom de justificativa que existia na voz de Harry, como se necessário para que Molly entendesse o porquê dele não saber o que acontecera com os outros. O que para ela era muito, afinal, pois metade das pessoas que compunham aquele plano era sua família. Mas, ao contrário do que Draco esperava, a mulher sorriu...
"Graças a Deus você está bem", ela disse, puxando-o para um abraço que não era merecido.
Hagrid foi o último a entrar na casa, precisando se abaixar para conseguir passar pela porta. Draco se sentou sofá e apoiou os cotovelos nas pernas, baixado a cabeça e cruzando as mãos. Estava exausto mentalmente.
"Você tem algo forte para beber, Molly?" perguntou Hagrid, que estava agitado. "Você sabe... Para fins medicinais?"
Draco ergueu a cabeça a tempo de vê-la acenar que sim, nervosa, antes de se retirar para cozinha da casa torta e Harry a seguiu com os olhos, apreensivo. Molly Weasley parecia fugir dos presentes, como se desejasse esconder seu rosto para evitar que eles notassem que ela estava à beira das lágrimas. Então, Harry se voltou para Ginny, e ela respondeu ao seu pedido de informações silencioso como se lesse sua mente:
"Ron e Tonks deveriam ter voltado primeiro, sabe? Mas eles perderam sua Chave de Portal, ela voltou sem eles", disse, apontando uma lata de óleo enferrujada que jogada em um canto. "E aquele ali", apontou para um tênis encardido. "Devia vir junto com papai e Fred, eles deviam ser os segundos. Você e Hagrid eram os terceiros e, se eles tiverem conseguido, George e Lupin estarão de volta em um minuto".
Molly reapareceu carregando uma garrafa de conhaque, o qual ela entregou a Hagrid, que a abriu e o tomou imediatamente.
"Mamãe!", Ginny gritou, apontando para janela.
Uma luz azul apareceu no meio da escuridão e de repente Lupin e George apareceram, girando e então caindo. Draco se levantou para olhar pela porta e não precisou chegar mais perto para notar que havia algo muito errado ali: Remus estava carregando um dos gêmeos, que permanecia inconsciente e tinha a face completamente coberta por sangue.
Harry passou por Draco como um raio e atravessou a porta, correndo até os recém chegados. Sem perguntar nada, agarrou as pernas de George e, junto com Lupin, carregaram o rapaz para dentro da casa, na sala, onde o colocaram sobre o mesmo sofá onde Draco havia deitado antes, também inconsciente.
Quando finalmente puderam observar o rosto do rapaz, Ginny prendeu a respiração e o estômago de Draco embrulhou. Faltava uma orelha e aquele lado da cabeça e pescoço estavam banhados de um sangue escarlate.
Depois, tudo aconteceu muito rápido e Draco foi empurrado por Lupin, que parecia cego de raiva, e caiu no chão, muito perto da lareira, derrubando um vaso, Ginny gritou pelo susto, mas o seu alvo era outro: ele pegou Harry pelo braço e o arrastou, sem muita gentileza, para a cozinha, onde Hagrid bebericava seu conhaque, inquieto. Draco levantou-se rápido e os seguiu. Ginny estava ao seu lado:
"Hey!", Hagrid exclamou indignado. "Solte ele! Solte Harry!"
Lupin o ignorou.
"Qual criatura estava no canto de minha sala quando Harry Potter a visitou pela primeira vez em Hogwarts?", questionou, dando-lhe umas sacudidas. "Responda-me!"
"Um Grindylow no tanque, não era?"
Lupin soltou Harry e caiu contra um armário na cozinha, levando as mãos ao rosto.
"O que acabou de acontecer aqui?" Hagrid berrou.
"Desculpe, Harry, mas eu tinha que conferir se era realmente você", disse Lupin, cansado. "Precisamos ter cuidado. Voldemort sabia que você seria transportado hoje e as únicas pessoas que poderiam ter contado estavam diretamente ligadas ao plano. Você podia ser um impostor e..."
"Então por que você não conferiu se eu era eu mesmo?", perguntou Hagrid, esforçando-se para manter a voz impassível.
"Porque você é meio-gigante e a poção não faz efeito em você porque só funciona em humanos".
"Ninguém da Ordem diria a Voldemort que eu estaria sendo transportado esta noite", disse Harry.
A ele, a idéia de que alguém da Ordem fosse traidor era desprezível, pensou Draco. Harry Potter não acreditaria se soubesse que alguém da Ordem era um Comensal da Morte, ou até mesmo que mantivesse ligações que pudesse comprometer o plano. Então Harry olhou para Draco, desconfiado.
"O que você fez?", questionou.
"Nada, Potter".
"Você é o único que-"
"Poderia ter dedurado?", perguntou ofendido. "Quase morri por causa desse plano. Arrisquei minha vida para salvar você... Não faço idéia do que houve!"
"Voldemort só sabia que era realmente eu! Ele veio atrás de mim, diretamente!"
"Voldemort alcançou vocês?", Lupin questionou aterrorizado. "E o que houve? Como você escapou, Harry?"
O rapaz explicou rapidamente como os Comensais da Morte o reconheceram como verdadeiro Harry, como eles abandonaram a perseguição, e depois voltaram com Voldemort, que apareceu pouco antes dele e Hagrid chegarem à casa dos pais de Tonks.
"Por sinal, Malfoy, a sua mãe está bem", falou com desinteresse. "Eu a vi. Ela nos ajudou quando caímos lá. Foi ela quem nos viu primeiro nos jardins e, depois, os pais de Tonks nos levaram para dentro da casa".
"Eles reconheceram você? Mas não possível... Vocês deveriam estar iguais, não?", Ginny questionou preocupada.
"Eu..." Harry parecia tentar se lembrar do que havia acontecido.
Draco, então, pegou-se pensando que ele próprio não se lembrava dos detalhes de sua própria jornada. Tudo era um borrão de pânico e confusão.
"Eu vi Shunpike... E... Eu tentei desarmá-lo ao invés de... Bem, ele não sabia o que ele estava fazendo, sabia? Ele devia estar sobre efeito da Maldição Imperius!"
"Potter, a hora de desarmar passou!", exclamou em um surto de coragem. Todos o encararam, surpresos. "Eles estão tentando te capturar e nos matar no processo!"
"É o que você faria, Malfoy? Mataria a todos nós se pudesse?", questionou o rapaz.
"Não! Eu não disse isso, Potter", tentou se justificar. Passou a mão no rosto, nervoso. "Eu nunca matei ninguém, mas... Ao menos os faça ficarem inconscientes se não esta preparado para matar!"
"Nós estávamos centenas de pés no ar, Malfoy! Shunpike não era ele mesmo, e caso eu o tivesse feito ficar inconsciente ele teria caído, e teria morrido da mesma maneira que se eu tivesse usado Avada Kedavra! Expelliarmus salvou-me de Voldemort dois anos atrás e-"
"Harry...", Lupin interrompeu, educadamente. "Naquele momento, no cemitério, um grande número de Comensais da Morte testemunharam aquilo acontecendo! Perdoe-me, mas é uma coisa muito pouco usual, sobre o caso de morte iminente. Repetir isso hoje na frente dos Comensais os quais já haviam testemunhado ou ouvido falar sobre a primeira ocasião foi quase suicídio!"
"Desarmar é praticamente a sua marca registrada, Potter. Até mesmo eu sei disso", e depois acrescentou, pois todos pareciam fazer a mesma pergunta silenciosa: "Não esqueçam que...", ele hesitou por alguns segundos, mas continuou: "Meu pai estava naquele cemitério".
Lupin encarou Draco e depois Harry.
"Que seja... Mas, nesse ponto, Harry, Malfoy tem razão".
Harry fitou Lupin de forma desafiadora. Seu ex-professor o estava lembrando o aluno da Lufa-Lufa Zacharias Smith, que havia rido de Harry quando tentava ensinar a Armada de Dumbledore como desarmar o oponente.
"Lupin, então você acha que eu deveria ter matado Shunpike?", Harry questionou, bastante nervoso.
"Claro que não, Harry, mas os Comensais da Morte esperariam que você atacasse de volta! Expelliarmus é uma magia muito útil, Harry, mas é como Malfoy salientou: essa é a sua marca registrada, e eu o alertaria para não deixar que isso aconteça".
Lupin estava fazendo com que Harry se sentisse idiota, e ainda havia um grão de desafio dentro dele.
"Eu não vou acabar com pessoas só porque elas ficam no meu caminho. Esse é o trabalho de Voldemort!"
"Sempre o Potter Perfeito", Draco resmungou baixinho, apenas Ginny o ouviu e lhe lançou um olhar estranho que o garoto não soube interpretar. Quando pensou em abrir a boca para falar com ela, a menina desviou o olhar e questionou:
"George ficará bem?" todas as preocupações de Lupin em relação à Harry pareceram se esvair com a pergunta dela.
"Espero que sim. Quero dizer... Ele ficará bem, mas não há como restaurar sua orelha porque foi arrancada por-"
Houve barulho do lado de fora e Lupin saiu correndo pela porta da cozinha, Harry pulou as pernas de Hagrid e saiu para o jardim. Ginny fora tão rápida que Draco nem a viu passar e ele seguiu para o quintal também. Mais alguém havia chegado e a ansiedade e expectativa o havia dominado também.
Eram duas pessoas. Draco demorou a identificar, mas, conforme se aproximou, percebeu que eram Hermione, agora voltando a sua aparência normal, e Kingsley. Harry correu até os dois, assim como Lupin. Ginny foi até eles, mas não correu... Parecia mais ansiosa agora. Draco viu Hermione se jogar nos braços de Harry, mas Kingsley não mostrou prazer nenhum ao vê-los: Draco o viu levantar sua varinha e apontar diretamente para o peito de Lupin.
"Quais foram as últimas palavras que Dumbledore falou para nós dois?"
"Harry é a maior esperança que nós temos. Confiem nele", disse Lupin calmamente.
Kingsley apontou sua varinha rapidamente para Harry, fazendo o garoto se sobressaltar. Lupin interrompeu.
"É ele, eu já conferi!"
"Certo", disse Kingsley enquanto guardava sua varinha no bolso interno de suas vestes. "Mas alguém nos traiu! Eles sabiam, Remus, eles sabiam que seria essa noite!"
"Mas aparentemente eles não sabiam sobre os sete Harrys-"
"Isso não é grande consolo. Quem mais voltou?"
"Somente Harry, Hagrid, George, eu e Malfoy".
O olhar que Kingsley lhe lançou foi tão mortal que Draco não conseguiu sustentar e olhou para qualquer outro canto que não fosse para o auror. Percebeu, então, que Hermione tinha um enorme ferimento nas costas de sua mão e que este sangrava.
"O que houve com vocês?", perguntou Lupin se dirigindo à Kingsley.
"Fomos seguidos por cinco, consegui ferir dois deles, e tive de matar um e nós vimos Você-Sabe-Quêm também, nós o perseguimos, mas ele conseguiu escapar rapidamente".
"Eu o vi também, ele veio atrás de mim e Hagrid".
"Então foi por isso que ele fugiu, pra te seguir!"
Draco observava atentamente. Era tão estranho observar a guerra de outra perspectiva. Eles eram tão mais preocupados uns com os outros, como se fossem realmente uma grande família, que se sentiu vazio. Eles não pareciam ter necessidade de provar uns para os outros que era o mais fiel e o mais poderoso... Simplesmente uniam forças.
"É tão diferente...", pensou alto, mas Ginny ouviu.
"O quê, Malfoy?"
"Nada, Weasley..."
Ela sorriu.
"Você está pensando se poderia ser você do outro lado? Lutando contra nós?", questionou, em tom de desafio.
"Não era nisso que eu pensava, mas... Se eu não tivesse aceitado ajuda de Dumbledore, provavelmente eu estaria agora do outro lado, encolhendo de medo a cada vez que o Lord levantasse a voz e culpasse alguém pelo fracasso na captura de Harry. Mais uma vez vocês venceram".
"Nós ainda não vencemos, Malfoy. Ainda tem gente que não voltou. Nós não teremos vencidos se eles não voltarem todos sãos e salvos", falou com firmeza, mas havia lágrimas em seus olhos.
Draco não soube o que fazer, então apenas deu uma tapinha sem jeito no ombro da garota, dizendo que ia ficar tudo bem, mesmo que não tivesse tanta certeza. Eles se importavam uns com os outros e ficou surpreso ao pensar que ficaria feliz se essa preocupação se estendesse a ele também.
"Mas o que houve com você, Remus? Onde está o George?"
"Ele perdeu uma orelha", respondeu Lupin, sombrio.
"Perdeu uma...?" Hermione não conseguiu terminar a frase, levando a mão que não estava machucada à boca.
"Foi Snape", revelou Lupin.
"Snape?", Draco se sobressaltou. "Não pode ser..."
Não podia ser. Draco não acreditava que Snape iria atacar daquela forma, e se o Harry atingido fosse ele? Snape não faria isso sabendo que Draco poderia ser um dos Harrys...
"Ele perdeu sua capa, durante a perseguição. Sectumsempra foi sempre uma
especialidade do Snape. Queria poder dizer que revidei à altura, mas todos meus esforços após isso voltaram para manter George na vassoura depois que ele foi machucado, estava perdendo muito sangue..."
Todos permaneceram em um silêncio incômodo, contemplando o céu escuro e sem nuvens. Não havia nenhum movimento, não havia estrelas reluzentes, e a lua nova brilhava timidamente. Onde estariam os outros? Metade dos Weasley ainda estavam desaparecido e a aflição de Ginny só aumentava a cada segundo. O que havia acontecido a Moody... Ele não se lembrava. Não lembrava. Estariam todos mortos?
"Harry, uma ajuda aqui!", Hagrid chamou da porta da cozinha.
E mais uma vez todos correram em direção à casa, entrando apressados, atravessando a cozinha e chegando à sala, onde a senhora Weasley ainda continuava olhando George, limpando o sangue – apenas Hagrid e Kingsley permaneceram na cozinha. Draco olhou para o gêmeo desacordado e, com o ferimento limpo, pôde um buraco onde deveria estar uma orelha de George.
"Como ele está?", Hermione questionou.
"Ele está bem, na medida do possível, mas eu não posso fazê-la crescer. O ferimento foi feito por Magia Negra... Mas podia ser pior... Digo, ele está vivo".
"É...", Ginny murmurou. "Graças a Deus".
Seus olhos se encontraram e Draco sentiu um misterioso desejo de abraçá-la, sem sequer se importar com todos que estavam ali, mas não o fez. Apenas lhe tocou o ombro e disse:
"Eles vão chegar a qualquer momento"
Ela sorriu, agradecida e, antes que conseguisse responder houve um grande 'crack' na cozinha.
"Eu provarei que sou verdadeiro, Kingsley, mas só depois de ver meu filho, agora saia da minha frente se não quiser que eu faça alguma loucura!"
Era a voz de Arthur. Draco nunca imaginou que o senhor Weasley pudesse falar daquele jeito. Ele parecia sempre tão calmo e, de certa forma, bobo, que escutá-lo ameaçar um dos companheiros lhe pareceu estranho, mesmo que não o conhecesse de fato. O homem magro, ruivo e alto entrou na sala de estar, sua cabeça quase careca estava suada e o outro gêmeo estava logo atrás dele, ambos pálidos, mas não estavam feridos.
"Arthur!" exclamou Molly, se levantando em um salto. "Oh... Graças a Deus".
"Como ele está?", fez a mesma pergunta que todos os outros.
Logo após abraçar a mulher, ficou de joelhos ao lado do filho. O outro gêmeo, que se chamava Fred, estava sem palavras. Ele se assustou atrás do sofá olhando o estado do irmão, como se não quisesse acreditar no que estava vendo. Talvez pelo som da chegada dos dois, George soltou um ruído. Estava acordando.
"Como se sente, meu filho?" murmurou Molly, acariciando seus cabelos.
"Como um anjinho", falou com dificuldade.
"Qual o problema dele?", perguntou Fred, parecendo horrorizado. "Perdeu o
juízo? O cérebro foi afetado?"
"Um anjinho", George repetiu, abrindo os olhos e olhando para seu irmão. "Veja bem,
sou 'sangrado'. Sangrando, sagrado... Santo, Fred. Entendeu?"
A senhora Weasley soluçou mais do que nunca. A cor pareceu voltar ao rosto pálido
de Fred.
"Patético!", disse para George. "Patético e sem graça! Com todo o enorme mundo de piadas relacionadas a orelha, você diz 'sangrado'? Com tanta piada melhor..."
"Ah, bem...", disse George limpando a lagrima da mãe. "Você agora vai poder nos
diferenciar, mamãe".
Ele olhou em volta.
"Oi, Harry. Você é Harry verdadeiro, certo?"
"Sim, sou", respondeu Harry chegando perto do sofá.
"Bem, pelo menos nós conseguimos trazer você à salvo. Por que Ron e Bill não estão em volta do meu leito de enfermo, chorando e se lamentando como todos vocês?"
"Eles ainda não voltaram, George", Ginny respondeu. Draco olhou para Ginny novamente. Ela parecia ainda mais aflita. "Eu vou lá fora, esperar".
Draco pediu licença e a seguiu, Harry e Hermione foram atrás. Enquanto caminhava pela cozinha ela falou em voz baixa.
"Ron e Tonks devem voltar daqui a pouco. Eles não tiveram uma viagem longa,
Tia Muriel não é muito longe daqui".
Ninguém disse nada. Draco vinha tentando afastar seu medo desde que chegou à casa, mas agora parecia completamente dominado por ele, dentro da sua pele, incomodando a garganta e machucando o peito. Harry estava ansioso e pálido, enquanto caminhava pelo jardim, ao lado de Ginny. Então, ela pegou a mão dele.
Por algum motivo, Draco não gostou da visão e desviou sua atenção para Kingsley, que caminhava de um lado para o outro, olhando para o céu toda vez que se virava. Hagrid e Lupin se juntaram a eles e todos estavam em pé ombro a ombro, observando em silêncio.
Ninguém olhou em volta quando Harry e Ginny, aproximaram-se novamente se juntaram ao silêncio. Os minutos passaram como se fossem anos. A brisa mais delicada os fez sobressaltarem e virarem em direção ao vento ou a alguma árvore com a esperança de que algum membro da Ordem pudesse aparecer entre as folhas. E então uma vassoura se materializou diretamente sobre eles e foram em direção ao chão.
"Chegaram! Oh, meu Deus!", gritou Hermione.
Tonks aterrissou no chão, jogando terra pra todos os lados.
"Remus!", gritou ela, enquanto largava a vassoura e se jogava nos braços de Lupin.
O rosto de Lupin estava branco. Parecia ser incapaz de falar, mas a abraçava com força, como se fosse parti-la ao meio. Ron caminhava em direção a Harry e Hermione.
"Você esta bem?", perguntou, antes de Hermione abraçá-lo com força.
"Oh, meu Deus, Ron... Eu pensei que... Pensei que-"
"Eu estou bem, Mione", disse, dando um tapinha de leve nas costas de Hermione. "Estou ótimo".
"Ron foi muito bem", Tonks revelou de forma amável ainda abraçada em Lupin. "Uma
maravilha. Acertou um comensal bem na cabeça, e isso é difícil quando você está diretamente sob ataque em cima de uma vassoura".
"Mesmo?", Hermione perguntou mirando Ron, ainda com seus braços em volta
do pescoço do ruivo.
"Sempre o tom de surpresa", disse irritado, se soltando do abraço. "Somos os
últimos a voltar?"
"Não", Ginny respondeu. "Bill, Fleur e Moody ainda não voltaram. Eu vou avisar o papai e a mamãe que você está bem, Ron".
Então, ela correu para dentro da casa.
"Então, o que aconteceu com vocês?", perguntou Tonks, virando-se para Harry,
Hermione, e Kingsley. Draco se sentiu completamente excluído.
Eles recontaram suas estórias, mas continuaram com a sensação de preocupação
com Bill, Fleur e Moody.
"Malfoy, você estava com Olho-Tonto. O que houve?", Ron questionou, analisando-o.
"Eu não sei... Não lembro de quase nada do que aconteceu. Quando eu caí da vassoura-"
"Você caiu da vassoura?", perguntou Tonks, escandalizada. "Como sobreviveu?"
"Não, eu... Não estava alto, acho. Eu estou todo sujo de lama, então acho que amorteceu, mas tudo o que eu lembro são flashs e luzes e gritos, eu..."
"Tudo bem, Malfoy, não force a memória agora. Você deve ter batido a cabeça", diagnosticou Lupin".
"Eu preciso partir agora, voltar ao Ministério Trouxa. Deveria estar lá há mais de meia hora" Kingsley disse, formalmente, após dar uma olhada para o céu. "Por favor, mantenham-me informado".
Lupin assentiu. Com um aceno para os outros, Kingsley saiu pelo portão torto da velha cerca que ficava alguns metros à frente.
Arthur e Molly vieram correndo e todos abraçaram Ron antes de se virarem para Lupin e Tonks.
"Obrigado", agradeceu a senhora Weasley. "Por nossos filhos".
"Não seja boba, Molly", disse Tonks.
"Como está George agora? Está melhor?", perguntou Lupin.
"O que há de errado com ele?", perguntou Ron.
"Ele-"
Mas a senhora Weasley parou de falar quando escutou um estalo estridente, um pouco à frente. No local, havia um testrálio que acabara de pousar há alguns metros. Bill e Fleur desceram, cansados, mas sem ferimentos.
"Bill! Graças a Deus, Graças a Deus!", a senhora Weasley correu para lhe dar um abraço.
Mas o rosto do rapaz estava sério, pálido e ele segurava a noiva pela cintura, de forma protetora. Adiantou-se e, olhando direto para seu pai, disse:
"Olho-Tonto está morto".
O ar faltou a Draco e ninguém falou nada. Ninguém se moveu. Draco sentiu alguns olhares caírem sobre ele, como se o acusassem de algo, mas o mais velho dos filhos dos Weasley continuou:
"Nós o vimos", disse, Fleur assentiu, com o reflexo das luzes da cozinha iluminando seu rosto perfeito marcado por lágrimas. "Aconteceu depois que nós quebramos o círculo, Olho-Tonto e Malfoy estavam perto da gente, eles estavam indo para a direção norte também..."
"Você disse que não lembrava de nada, Malfoy!", Harry explodiu. "Foi para encobrir essa-"
"Harry, Malfoy nom teve culpa", Fleur pontuou.
"Ele e Olho-Tonto voaram juntos, até que ele pediu que Malfoy voasse mais rápido. Malfoy estava desarmado, mas eles fizeram uma boa dupla até que mergulharam para se esquivar e um dos feitiços atingiu Olho-Tonto".
"Malfoy continuou voando e o perdemos de vista",
"Eu caí... Não lembro de nada, apenas que caí. Não sabia onde estava e-", Draco não conseguiu continuar. A pessoa que formara dupla com ele estava morta e mesmo que nunca tivesse se importado com Alastor, jamais desejaria isso... Poderia ter sido ele!
"Não havia nada que pudéssemos fazer. Tinha meia dúzia para cada um de nós...", a
voz de Bill falhou.
"Claro que vocês não podiam ter feito nada. Ninguém podia", lamentou Lupin.
Draco não conseguia entender toda aquela comoção ao perder um companheiro. Ficaria assim, claro, se tivesse perdido um amigo ou seus pais, mas eles eram tantos e pareciam tão chocados que o rapaz sentiu o ar pesar e, aos poucos, foi invadido pela mesma sensação de tristeza que parecia tomar conta do coração de todos os outros. Alastor Moody estava -Tonto, como chamavam, lhe pareceu tão resistente, corajoso, tão bravo... Por último, teve a impressão de que todos pensavam a mesma coisa, embora ninguém dissesse nada.
Em silêncio, eles seguiram Arthur e Molly para dentro da casa, e para a sala de estar, onde Fred e George estavam rindo juntos.
"O que está errado?", perguntou George varrendo o riso de suas faces instantaneamente. "O que aconteceu? Quem está-"
"Olho Tonto... Morto!", informou o senhor Weasley.
Os gêmeos ficaram em choque.
Ninguém sabia o que fazer. Tonks estava chorando silenciosamente. Hagrid que tinha sentado no chão num canto onde havia mais espaço, estava limpando os olhos com um lenço feito sob medida que mais parecia uma toalha de mesa. Bill rodeou a mesa e pegou uma garrafa de Whisky com alguns copos.
"Aqui", disse ele entregando copos cheios para cada um deles, elevando o
décimo terceiro ao alto "Ao Olho-Tonto!"
"Ao Olho Tonto!", eles disseram e beberam.
O whisky de fogo queimou a garganta de Draco. Fazia tempo que não bebia algo tão forte. Pareceu queimar por dentro, amenizando o clima e dando uma sensação de irrealidade, queimando-o como se sentisse coragem. A coragem típica dos griffyndors e que estava aprendendo aos poucos a internalizar.
"Então... Quem nos traiu?" – Lupin questionou, quem tinha esvaziado o copo para
pegar outro.
A atmosfera mudou pela primeira vez. Todos olharam tensos, observando Lupin,
esperando que ele fosse adiante, e Draco teve medo do que iria ouvir.
"Eu sei o que você está pensando, Remus", disse Bill. "E eu quero saber também, de
alguma maneira eles parecem estar esperando por nós, não estão? Mas Malfoy não abandonou a gente. Eles não sabiam que nós éramos Sete Harrys, o que os confundiu quando nós nos separamos, e no, caso de se esquecerem, Malfoy estava aqui, nesta mesma sala, quando o plano foi modificado: por que ele não contaria o ponto principal?"
"Você-Sabe-Quem atuou exatamente como Olho Tonto esperava", guinchou Tonks. "Ele sempre disse que Você-Sabe-Quem esperaria que Harry estivesse em uma vassoura..."
"Sim", cortou Fleur, "Mas isso ainda não explica como eles sabiam que nós estávamos mudando o Harry hoje à noite, explica? Alguém deve ter se descuidado. Alguém deixou escapar a data para alguém de fora. É a única explicação para eles saberem sobre a data, mas não sobre o plano inteiro".
Ela brilhou em volta deles todos, mesmo com os cortes, seu rosto ainda estava
bonito, silenciosamente ninguém ousou contradizê-la. O único som que quebrou o silêncio foi o soluço de Hagrid atrás de seu lenço. Draco percebeu que Harry olhou de relance para Hagrid. Aquele gigante tinha toda confiança de Potter, Draco sabia disso, mas era impossível não descartar a possibilidade daquele homem enorme ter falado para alguém e que a informação tenha chegado ao Lord.
"Não", disse Harry alto e todos olharam para ele, surpresos. O whisky de fogo
parecia ter ampliado a sua voz. "Eu quero dizer... Se alguém cometeu um erro e deixou
alguma coisa escapar, eu sei que se eles não deixaram escapar porque queriam". Harry repetiu mais ruidosamente tanto quanto ele deveria ter falado. "Nós temos que confiar uns nos outros. Eu confiei em todos vocês, até mesmo em você, Malfoy, e eu não acho que alguém nesta sala queria me entregar ao Voldemort".
"Eu quis", pensou Draco. "E quase fiz isso, mas desisti".
Mas não houve nenhuma manifestação e mais silêncio seguiu às palavras de Harry. Mas cada um dos presentes ainda o encarava e Draco sentiu um pequeno calor novamente, e bebeu mais um pouco para fazer efeito. Enquanto bebia, ele pensou que Olho-Tonto teria dispensado a voluntariedade de Dumbledore para confiar nas pessoas. Alastor tinha desconfiado dele até o ultimo minuto, como cada um deles naquela sala.
"Muito bem, Harry!", disse o gêmeo que tinha orelha, de forma inesperadamente.
"É apoiado, apoiado!", seguiu o outro, olhando rápido para o irmão, cujo canto da boca
contraiu-se.
"Vocês devem achar que eu sou um tolo, não é mesmo?", Harry questionou a Ron, Hermione e Ginny, mas foi Draco quem respondeu:
"Não, Potter", falou baixo e com seriedade. "Eu acho que nunca esperaria outra coisa de você... Digo, você sempre teve confiança em seus amigos, não iria mudar agora".
"Malfoy tem razão, Harry", foi Hermione quem falou, com um sorriso nervoso. "Ninguém aqui nessa sala te traiu conscientemente".
"E se eu o fiz inconscientemente?", questionou-se Draco. Temendo que seus sonhos fossem mais do que simples sonhos.
As conversas elevaram-se e Draco permaneceu onde estava, mesmo sabendo que Harry e os amigos não ousariam falar nada importante diante dele. De repente a morte era uma presença iminente. Draco a vira bater em sua porta mais vezes do que gostaria... E tinha apenas dezessete anos.
"Eu tenho que ir", disse Harry, de forma inesperada.
Todos os pares de olhos presentes naquela sala se viraram para ele.
"O quê?", perguntou disse a senhora Weasley.
"Eu não posso ficar aqui", informou, enquanto esfregava a cicatriz. "Vocês estão em perigo enquanto eu estiver aqui. Eu não quero-"
"NÃO SEJA TOLO!", berrou a senhora Weasley.
"Potter, o objetivo hoje era trazê-lo em segurança para cá...", Draco começou. "Não acha que seria falta de consideração com todas essas pessoas o fato de você simplesmente sair daqui agora para virar alvo para os comensais lá fora?"
"Eu não-"
"Harry, meu filho, Fleur concordou em fazer o casamento aqui, também. Nós arranjamos tudo, então nós podemos ficar juntos e cuidar de você..."
"Se Voldemort descobrir que estou aqui-"
"Potter, você é burro?", Draco estava perdendo a paciência. "Existem dezenas de lugares que você poderia estar agora!"
"Malfoy tem razão, Harry", concordou Hermione. "Não existe jeito de saber qual casa você está".
"Eu não estou preocupado comigo, estou preocupado com vocês!"
"Nós sabemos", disse Ginny, inquieta. "Mas se você sair por aquela porta, teremos que
nos arriscar igual essa noite. Todos já se arriscaram o bastante por você, Harry. Fique aqui e todos estarão bem".
"Ele não vai a lugar algum", rosnou Hagrid. "Depois de tudo o que fizemos você
quer sair daqui?"
"É , e a minha orelha sangrando?", questionou George.
"Eu sei que-"
"Pare de bancar o herói corajoso, Potter!"
"EU SEI!", berrou Harry.
Ele queria socar Harry Potter naquele momento, mas estava em terreno hostil. Mas não duvidava, pela expressão de Ginny e de Ron que os dois também estivessem pensando exatamente a mesma coisa. Provavelmente Harry se sentia incompreendido, que todos pensavam que ele não sabia o que tinham feito por ele, que não entendiam que essa era precisamente a razão que dele querer ir agora, antes que eles sofressem mais, etc e etc. "Bobagem", pensava Draco. Todos ali estavam em uma guerra e na guerra não há como evitar sofrimento...
"Independente do lado em que você está". Suspirou.
"Não seja mais estúpido do que o necessário, Potter. Você realmente acha que Você-sabe-Quem já não está atrás de todos aqui? Você realmente acha que ele não sabe quem são seus amigos depois de todos esses anos?" perguntou Malfoy, exasperado. "Ele não é burro! E com você aqui ou não, todos estariam em perigo do mesmo jeito. Você só estaria fazendo um favor a ele saindo daqui e se tornando um alvo fácil!"
Havia um silêncio inábil, até que todos entenderam que aquela conversa havia acabado. Cada um tomou seu rumo e Draco viu Harry ir para os jardins, seguido por Ron e Hermione. Ginny os olhou, desolada, mas parecia entender que não deveria segui-los. Draco decidira que já estava na hora de ir para o quarto, meditar e tentar focar sua mente nos últimos acontecimentos. Tinha falado com Snape no beco, mas ali não sabia de nada, até então e Snape prometeu que iria ajudá-lo... A carta que tinha enviado em seus sonhos... Fora mesmo um sonho? Claro que sim! Não tinha como ser real, fora apenas seu desejo inconsciente.
Subiu as escadas acompanhando Ginny, que, ao chegar no primeiro patamar parou e o encarou:
"Obrigada", murmurou, com um sorriso triste. "Eu imagino que foi difícil para você... Para todos nós".
"Eu disse que farei o que puder para ajudar e, enquanto essa ajuda significar proteção a mim e aos meus pais, vocês terão a minha fidelidade..."
"A guerra tem que acabar", falaram ao mesmo tempo.
Ele riu.
"De um jeito ou de outro", falou.
"Não, Malfoy. Só tem um jeito de acabar e é com Você-Sabe-Quem morto. Enquanto isso não acontecer, vai haver guerra sempre".
Ele quis concordar, mas não conseguiu dizer nada, apenas deu os ombros, então ela concluiu:
"Boa noite. Durma bem e descanse. Acho que mamãe não vai poupá-lo dos afazeres do casamento".
Em seguida ela subiu para o patamar seguinte e ele foi para o quarto pequeno e escuro ao qual já se habituara. Agora, com a casa tão cheia de gente, pensava se teria que dividir aquele quarto com alguém e a idéia não o agradou.
Entrou no quarto e ouviu alguma coisa nos jardins. Correu até a janela para observar e viu Harry caído no chão.
"Harry?", era a voz de Hermione.
Harry se levantou na escuridão, e Draco sentiu o seu coração disparado. Sabia que estava presenciando algo importante, pois Hermione estava lívida e Ronald pálido o suficiente para que a diferença fosse notada mesmo no escuro.
"Tá tudo bem?", perguntou Hermione, perto o suficiente olhando para a face de
Harry. "Você apagou, você por acaso-"
"Eu estou bem", disse Harry. "Provavelmente pareço melhor do que Olivander".
Draco então se esforçou para ouvir o relato que ele fazia. Harry Potter acabara de ter uma visão, onde Olivander era questionado e torturado... Os comensais o tinham pegado! Fora isso que tinham ido fazer no beco naquele dia...
Quando ele terminou de contar o que tinha visto, Ron o encarava normal, mas Hermione, Draco notou, parecia assustada.
"Mas isso tinha que ter parado! Sua cicatriz... Você não devia estar fazendo isso mais.
Você não deve fazer conexão com ele de novo. Dumbledore queria que você fechasse sua mente!"
Então ela prendeu o abraço dele.
"Harry, ele está tomando o Ministério e os jornais e metade do Mundo Bruxo! Não deixe que ele invada sua cabeça também!"
Hermione lançou um olhar rápido em direção a sua janela, mas ele se escondeu a tempo. Quando voltou a olhar para os jardins os dois já não estavam mais lá. Sentou-se na cama e tentou dormir, mas naquela noite ele sabia que o sono demoraria muito a chegar.
Quando o dia do casamento chegou, Draco já estava quase habituado a convivência com aquela família, até mesmo Harry Potter já não incomodava. Ele e Ginny conversavam bastante e ela sorria e o entendia. Havia uma ligação estranha com eles e a garota parecia não querer que transparecesse aos demais, ignorando-o quando havia mais alguém por perto e lançando-lhe olhares de lado quando pensava que ele não estava olhando.
Quando o relógio bateu três horas ele, Harry, Ron, Fred e George estavam em pé fora de uma grande e branca tenda armada no pomar, esperando a chegada dos convidados do casamento. Harry e Draco haviam ingerido uma larga dose da Poção Polissuco e agora eram a cópias de dois cidadãos trouxas ruivos que viviam na vila local, Ottery St. Catchpole, onde Fred roubara tufos de cabelo utilizando um feitiço convocatório. O plano era apresentar Harry como "Primo Barny" e Draco como "Primo Boris", torcendo para que a existência de um grande número de parentes dos Weasley os camuflasse.
Todos os cinco possuíam um mapa de assentos, assim auxiliando as pessoas a encontrarem seus lugares e Malfoy se sentiu completamente estranho dando uma de parente dos Weasley e ainda colaborando com a festa de casamento. Por ele, ficaria em seu quarto, que havia dividido com Bill e Charles nas últimas noites, mas tinha ajudado nos preparativos da festa e uma noite de distração o faria bem.
Em meio às conversas que os seus companheiros de atividade trocavam, Fred Weasley exclamou:
"Quando eu me casar, não me preocuparei com nada dessas besteiras. Vocês podem usar o que quiserem", falou afrouxando o colarinho. "E eu irei lançar um feitiço do corpo preso na mamãe, antes de tudo acabar".
"Ela até que não estava tão mal essa manhã", disse Jorge. "Chorou um pouco por Percy não estar aqui, mas quem o quer? Nossa, preparem-se que lá vêm eles, olhem".
Foi então que os convidados começaram a chegar, um após o outro. E logo todos os locais estavam tomados. Harry, Ron e Hermione pegaram seus assentos na segunda coluna, atrás de Fred e George. Ele, a contra gosto, sentou ao lado de Hermione, que parecia bem vermelha e as orelhas de Ron, por algum motivo, ainda estavam escarlate.
Então, uma sensação de ansiedade preencheu a tenda quente, o burburinho terminou em ocasionais risadas excitadas. Arthur e Molly Weasley subiram para o altar com passadas largas, sorrindo e acenando para seus familiares; um momento depois, Bill e Charles ficaram em guarda à frente da tenda, os dois usando casacas, com largas flores no buraco dos botões; Fred assoviou e teve uma explosão de risadinhas das primas veelas. Então a multidão ficou silenciosa enquanto a música parecia surgir dos balões dourados.
"Minha nossa!", exclamou Hermione, virando-se para olhar para a entrada.
Fleur estava mais bonita do que pensava ser humanamente possível e deslizava a caminho do altar em seu vestido branco e simples que parecia emitir um forte brilho prateado. Enquanto sua luminosidade natural normalmente diminuía todos ao redor, hoje ela parecia embelezar a todos que tocava. Ginny estava a frente dela, usando vestido dourado, e parecia ainda mais bonita
"Senhoras e senhores", disse, em uma voz levemente musical, um homem pequenino. "Estamos reunidos aqui hoje para celebrar a união dessas almas..."
E no meio tempo da cerimônia, Draco não tirou os olhos de Ginny, que parecia radiante em seus gracejos em resposta às alfinetadas de uma de suas tias que resmungava o quanto o vestido dela estava curto... Draco não achou curto. Draco achou perfeito. E riu sozinho do pensamento. Hermione, ao seu lado, chorava a beira de soluços, no altar, Molly e a mãe de Fleur estavam a ponto de desidratar e ele pensou que continuar olhando para Ginny Weasley era muito mais interessante.
"... Então vos declaro ligados pela vida".
O bruxo de cabelo de penacho abanou sua mão sobre as cabeças de Gui e Fleur e
uma chuva de estrelas prateadas caiu sobre eles, espiralando ao redor da figura agora ligada. Os gêmeos iniciaram uma rodada de aplausos, os balões dourados
explodiram. Quando todos se levantaram, o salão formalmente organizado se transformou em mesas e em uma pista de dança em um piscar de olhos.
Os garçons começaram a servir, segurando bandejas prateadas de suco de abóbora, cerveja amanteigada, uísque de fogo, pilhas de sanduíches e tortas. Draco se apoiou contra um dos pilares dourados e observou Ginny, que dançava com Jordan, um garoto que narrava os jogos de quadribol quando chegou em Hogwarts e até um tempo depois. Não sabia por que, mas seus pensamentos apenas gritavam que ele sabia dançar muito melhor do que aquele narrador esquisito e griffyndor. E essa sensação, por um momento, lhe pareceu importante; Draco não podia explicar nem para si mesmo, mas mesmo assim sentia que soava quase como uma mentira não admitir que sentisse algo sempre que a via. E ela era a única que parecia enxergá-lo.
Como se ouvisse os seus pensamentos, ela olhou para ele e sorriu, deixou Jordan na pista e se aproximou, encarando-o com curiosidade:
"Você parece menos idiota assim", falou se referindo a sua aparência.
"Assim como?"
"Ruivo", ela riu. Draco também.
"Quer dançar, primo? Você não se moveu um palmo sequer desde que se levantou e o baile começou".
"Bem..."
Ele a encarou, mal notando o que acontecia ao seu redor, e mal percebeu que
Hermione Granger surgira da multidão e passara entre os dois, deixando-se cair em uma cadeira ao seu lado. Mas Ginny olhou para ela e riu também.
"Eu simplesmente não posso mais dançar..." ofegou Hermione, tirando um dos sapatos e esfregando a sola do pé. "Ron foi procurar mais cervejas amanteigadas. É um pouco estranho, eu acabei de ver Victor se afastando do pai de Luna, parecia que eles
tinham discutido..." ela baixou a voz, olhando para a outra pessoa que estava na mesa ao seu lado. Só então Draco percebeu que o rapaz estivara ali o tempo todo: "Harry, você está bem?"
Mas Harry Potter parecia não saber por onde começar, mas isso não importava, naquele momento Ginny segurou a sua mão e disse:
"Vamos dançar. Geralmente essa é a hora em que eles falam de alguma coisa secreta e me expulsam dos lugares".
Mas eles sequer deram dois passos na direção da pista de dança, pois alguma coisa grande e prateada baixou do dossel. Gracioso e brilhante, o lince pousou levemente no meio dos dançarinos atônitos. Cabeças se viraram, os mais próximos congelaram no meio da dança. Então a boca do patrono se abriu e ele falou com a voz profunda e lenta de Kingsley Shaklebolt:
"O Ministério caiu. Scrimgeour está morto. Eles estão chegando..."
Ele podia estar errado, provavelmente havia algum som naquele ambiente, mas não os ouviu. Em sua mente, tudo parecia desfocado e devagar. Percebeu então que Ginny já não segurava a sua mão. Um pouco atrás, Harry e Hermione pularam e sacaram suas varinhas. Muitas pessoas acabavam de notar que alguma coisa estranha tinha acontecido. E Draco notou que o silêncio não era só em sua mente, ele se espalhava ondas frias ao redor do lugar onde o patrono apareceu.
Então alguém gritou.
E uma onda de pânico crescente tomou conta de todos os convidados, que corriam em todas as direções. Alguns estavam desaparatando, os feitiços de proteção ao redor da casa dos Weasley por algum motivo tinham sumido.
"Ron!", Hermione gritou. "Ron, onde você está?"
Draco também correu, esbarrando em Hermione no meio do caminho. Enquanto eles passavam pela pista de dança, Draco viu figuras mascaradas e vestidas com capa aparecendo na multidão, então ele viu Lupin e Tonks, suas varinhas erguidas, e escutou os dois gritarem, "Protego!", um choro ecoou por todos os lados.
"Ron! Ron!", Hermione gritava, meio soluçando, enquanto ela, Draco e Harry eram
empurrados pelos convidados aterrorizados. Harry segurou a mão dela, como que para ter certeza de que eles não seriam separados enquanto os traços de luz passavam pelas suas cabeças.
Draco não sabia o que era feitiço protetor ou se era alguma coisa mais sinistra. E estava desarmado.
E então eles avistaram Ron. Ginny estava próxima e corria em direção a eles, mas não chegou a tempo, seu salto quebrou e ela parou para jogar os sapatos fora.
"Não!", ela gritou para Harry, Ron e Hermione; Draco desviou a atenção dela para o trio.
Naquele momento Ronald agarrou o braço livre de Hermione e Harry. Os três desapareceram em um estalo. Aparataram para algum lugar seguro e desconhecido e Draco entendia o que Ginny sentia naquele momento. Então, virou-se para ela, que estava parada e com os olhos chorosos e furiosos. Desatenta. Atrás da garota, podia ver um comensal se aproximar, varinha em punho, pronto para atingi-la.
Ele correu até ela e jogou-se em cima, derrubando os dois, caindo da grama do lado de fora do toldo onde a festa acontecera. Os olhos de Ginny se arregalaram quando algo explodiu exatamente em cima do local onde estava dois segundos antes. Draco não falou nada, apenas se levantou e segurou a sua mão, ajudando-a a se levantar.
"Corre!", gritou, puxando ela.
Ginny não protestou. Draco sentia o sangue escorrer por sua testa, sentia seu coração bater mais rápido do que em qualquer outro momento de sua vida, sentia o medo tomar conta de cada célula do seu corpo, mas, naquele instante, ele era todo o apoio que Ginny Weasley possuía e o seu trabalho era não deixá-la se quebrar em pedaços.
"Mesmo que sua alma já estivesse estraçalhada".
NA: Obrigada especialmente aos leitores de primeira viagem, em DG. Obrigada pelos comentários, pois são eles que estão me incentivando horrores! Eu sei que tem bastante gente que nunca leu DG e que se aventurou em Paranóia... OBRIGADÃO! Tks especiais para Diana Prallon que beta a fic e, nesse capítulo, além de betar ainda colaborou com um parágrafo huhuhu
- PARANÓIA -
