Cap I

Kai estava de frente para a janela, olhava para a pasta em suas mãos. A porta se abriu e ele se virou para olhar. O homem ruivo de olhos vivamente azuis usava um terno preto sóbrio com a camisa social branca e a gravata vermelha com listras diagonais em prata.

- Você parece um defunto pronto pro velório. – Comentou descontraido, se aproximou do outro. – Sério, você tinha que estar todo de preto?

Kai bufou e se virou para o Ivanov. O terno negro com risca tão fraca de cinza que mal era visivel a camisa social de seda negra e a gravata de um pano mais grosso da mesma cor.

- Algo mais?

- Sim, as suas olheiras te dão um aspecto medonho. Tem certeza que não está morto? – Sorriu.

- Tem certeza que você ainda trabalha aqui? – Retrucou em tom frio.

- Mal humor? – Se sentou na poltrona em frente a mesa.

- Hn…

- Bem, acho melhor você ficar mais sociavel. – Brincou com uma caneta. – Fui informado que eles chegaram.

A secretária esperava perto da porta de folha dupla. Estava abraçada a uma pasta preta, enquanto os dois homens se aproximavam.

- Eles já estão a espera dos senhores. – Estendeu a pasta para Tala.

- Hn… - Kai empurrou as portas.

O grupo conversava animadamente, mas silenciou quando as duas figuras param no portal. Tyson se levantou estendendo a mão para Kai.

- Vejo que parou de brincar com as tintas. – Sorriu. – Mas precisa se barbear. Não foi uma troca muito inteligente, continua com o rosto sujo.

- Hn… - Kai retribuiu o aperto de mão. – Pelo menos eu posso, agora você trocar o seu egocêntrismo por inteligência é um pouco mais dificil.

Tala rolou os olhos para o teto enquanto falava:

- Eu peço pra você ser sociável e você me faz isso com menos de 5 minutos de conversa?

- Sr. Insuportavel. – Tyson deu um passo para traz.

Max apareceu ao lado do moreno e comentou:

- É melhor você parar agora, sabe ficar só com o primeiro.

Tyson se afastou soltando um muxoxo, Max sorriu e estendeu a mão:

- Kenny não pode vir, tivemos um problema lá.

- Sem problemas. – Apertou brevemente a mão.

Enquanto o loiro se afastava para comprimentar Tala outro moreno se aproximou do Hiwatari.

- Kai.

- Ray.

Trocaram um breve aceno de cabeça e um longo olhar.

- Melhor começarmos. – Kai se desviou para Tyson.

- Na verdade estavamos conversando. – O ex-campeão do mundo sorriu. – Sobre tudo o que se passou desde que nos afastamos.

- Hn… - Se dirigiu até a cabeceira da mesa com Tala em seu encalço.

- E sobre o que falavam? – Tala abriu a planilha.

Kai retirou o paletó o colocando no encosto da cadeira.

- Ray estava contando que ele e Mariah se separaram. – Tyson bocejou.

- Ty, você poderia parecer menos animado. – Ray se recostou.

- Desculpa. – Riu, olhou para Max. – E você?

- Nada de mais. – Deu de ombros. – O trabalho me consome de mais e quando não to trabalhando tento surfar um pouco.

- Surfar? – Tyson riu.

- É legal.

- E você e a Hillary? – Ray olhou para Tyson.

- Brigando. – Suspirou. – O tempo todo. Tem dias que só fazemos isso.

- Que péssimo cara. – O loiro sorriu solidário.

- É. – Olhou para Kai que fitava a parede. – E você Kai?

- Hn…

- Está com alguém, o que anda fazendo?

A secretária entrou nessa hora, foi na direção de Kai.

- Posso mandar servir um café? – A voz macia e sedosa.

- Claro. – Olhou para Tala que continha o suspiro de escárnio. – Pode se retirar.

A mulher parecia insatisfeita com algo, estava na porta quando Kai falou.

- Se o Sr. Scott ligar, passe a ligação e apenas essa ligação.

- Kai?

- Digamos que o Kai não está em uma relação. – Tala interviu, sorria de modo malicioso. – Está mais para sexo casual.

- Quem é a infeliz? – Tyson se curvou sobre a mesa. – Ou devo dizer, sortuda?

O telefone deu um toque, Kai o retirou do gancho. Os olhos dourados estreitaram levemente.

- Sim. – Ouviu a breve resposta. – Pode passar.

Tala tampou o rosto e soltou um suspiro.

- Você não vem? – Kai utilizou um tom frio. – Já deveria estar no avião. – Respirou fundo. – Faça como quiser.

Bateu o telefone, Tala o olhou e logo se voltou para Tyson:

- Eu diria que nesse instante ele é um infeliz.

- Ele? – Quase engasgou.

- Algum problema? – Kai o fitou com raiva.

- Nenhum. – Se apressou em responder. – Apenas surpreso.

Procurou o olhar dos outros, Max sorria, Ray olhava para Kai de maneira serena.

- Ótimo, vamos nos concetrar na reunião. – Puxou a pasta que estava na frente de Tala. – Teremos mais tempo para isso no jantar.

- Jantar? – O moreno esfregou o estômago.

- Sim, esfomeado. – Lhe lançou um olhar debochado. – Estou convidando vocês para um jantar, hoje na minha casa.

A tarde e o jantar foram tão calmos, conversaram sobre várias coisas, Kai acabou por convida-los a passar a noite na mansão. Já passava da uma da manhã e ele estava na sala, com um copo de uísque na mão. Max parou na porta e se encostou no batente.

- Incomodo?

Kai se virou para ele fez um leve aceno com a cabeça.

- De maneira nenhuma.

Max se aproximou, enquanto Kai servia outro copo.

- Aceita?

- Claro. – Murmurou tomando um gole.

- O inocente Max agora bebe? – Arqueou uma sobrancelha.

- O inocente Max se tornou um homem de negócios. – Sorriu de leve.

- Como devo entender essa frase? – Ficou de lado para a janela, de frente para o homem.

- Como melhor lhe convir. – Max soltou uma risada. – E não eu não faço nada fora da lei.

- Hn… eu sempre achei que você faria algo relacionado ao oceâno. – Suspirou. – Nunca te imaginei como seguindo carreira em escritório, terno e gravata.

- Nem eu. – Tomou mais um gole. – Quando eu estava decidindo fazer Biologia Marinha, minha mãe me pediu para assumir o lugar dela.

- E você aceitou?

Max o olhou, suspirou e disse com a voz quase um murmúrio:

- Ela sacrificou tanto, por que não posso sacrificar um pouco?

- Por que esse pouco é a sua vida.

- Então por que você assumiu a Biovolt? Você sempre odiou essa empresa e tudo o que ela significava.

- Eu mudei bastante os rumos da empresa, agora somos uma multinacional de respeito e completamente limpa.

- E esse era o seu sonho?

- Não. – Sorriu.

Ficaram em silencio olhando pela janela, até que Max perguntou o que estava lhe incomodando.

- Esse Sr. Scott, é o dono da consultora que a BBA é cliente?

- Minha empresa também é cliente dele. – Kai tomou um gole. – E sim é ele.

- Chateado? – O olhou pelo canto do olho, observou o maxilar tenso.

- Sinceramente? – Soltou a respiração pela boca. – Estou irritado por que não consigo me sentir chateado por ele não vir.

- Não o ama?

- Não. – Deu de ombros. – Apenas carência.

Max soltou uma risada curta atraindo o olhar do mais velho.

- Hn? – Não entendeu.

- Você não percebe? – Max sorriu. – Kai Hiwatari, carente? É hilário.

Kai rolou os olhos, abafando o riso.

- Ta é um pouco engraçado.

- Engraçado? – Max parou. – Eu diria improvavel. Então?

- Hn… nesse caso. – Kai parou pensando. – Também seria improvavel o Tyson ter se tornado presidente da BBA.

- Ta, isso também é um pouco improvavel. – Max riu novamente.

- Improvavel ou impossivel? – Arqueou uma sobrancelha.

- Ele é o presidente, não é? – Max olhou para o fundo do copo. – E você se sentiu carente.

Kai tornou a abafar o riso.

- O que? – Max tomou o ultimo gole.

- Agora que você disse, eu realmente não sei porque me envolvi com ele. – Se recompôs.

Mergulhou o saquinho de chá na água fumegante, apoiou o rosto sobre uma das mãos absorvendo o cheiro que subia.

- Sem sono? – A voz de Tyson se fez presente no aposento pouco iluminado.

- Hey. – Sorriu. – Pensando. E você acordado a essa hora?

- Fome. – Esfregou o estômago, abriu um armario próximo.

- Novidade. – Sorriu de leve, pegou a xícara a guiando até os lábios. – Tenta não acabar com a comida toda da casa.

- Hunf. – Tyson tentou esconder o sorriso.

- Velhos hábitos são dificeis de se esquecer. – Comentou distraido.

- Ray. – Tyson deu meia volta na mesa, suas mãos livres de qualquer alimento. – Posso falar com você?

- Achei que era isso que estavamos fazendo. – Tomou mais um gole.

- Só porque estamos na Rússia, você não precisa agir como o Sr. Insensível. – Bufou cruzando os braços sobre a mesa.

- Fala logo. – Soltou uma breve risada.

- Queria pedir desculpas pelo jeito que eu falei hoje.

- Do meu divórcio?

- É. – Tyson se sentiu pouco a vontade.

- Sem problemas. – Passou o dedo pela borda da xícara. – Não me incomodei.

- Então…

- Quer saber porque terminamos? – Olhou para os olhos castanhos. – Fácil, eu não a amava, só me casei por que era o que todos achavam o certo. Mas eu nunca a amei, pelo menos não como mulher.

- Entendo.

- E a Hillary?

Tyson suspirou, passou a mão pelos cabelos parecia cansado.

- Não sei, tudo agora vira motivo pra briga. Tenho vontade de nem voltar pra casa. – Suspirou encarando as próprias mãos. – Acho que ela ta me traindo.

- Por que acha isso?

- Distante, totalmente. Mal me deixa tocar. – O olhou.

- Bem, se você quer a minha opnião. – Tomou mais um gole de chá. – Pergunta abertamente de uma vez, Tyson vocês são noivos e não casados.

- Melhor saber agora?

- É.

- E essa história do Kai. – Franziu o cenho. – O que você acha?

- A vida é dele. – Encolheu os ombros.

- No dia do casamento do Ray… - Olhou para o fundo do copo. – Eu não achei que ele estivesse realmente feliz.

Kai olhou para Max antes de se servir de mais uma dose.

- Talvez não estivesse.

- Mas ele tava se casando, não deveria ser um momento feliz? – Max se sentou em uma poltrona.

- Depende do que essa pessoa realmente sente. – Kai se sentou na poltrona ao lado dele.

- Para, ta me assustando. – Fechou os olhos com um sorriso nos lábios.

- Por que?

- Ta sentimental. – Max virou o rosto para ele. – Por que você não foi?

- No casamento?

- É.

Encolheu os ombros, olhando para o copo.

- Tinha muita coisa para fazer, Voltaire era uma ameaça, não podia me afastar da empresa.

- E o Khan?

- Bem, ta morando sozinho agora. – Bebericou a bebida. – E se eu bem conheço ele, deve aparecer por aqui.

- Seria legal. – Riu com gosto. – Ver o Tyson levar umas bengaladas.

Kai soltou uma breve gargalhada.

- Certeza que não tem problema ficarmos por aqui?

- A casa é grande. – Encolheu os ombros. – Não tem sentido vocês ficarem em um hotel.

- Bem… - Max esvaziou o copo. – Nesse caso eu peço licença, to exausto.

- Boa noite, Tate.

- Boa noite, Hiwatari.

Pousou a xícara na pia, suspirou molhando as mãos no jorro de água gelada e depois as levando à nuca. Fechou os olhos relembrando o toque, os beijos, o corpo, as caricias, o cheiro…

- Merda. – Resmungou sentindo a calça lhe apertar. – Esquece isso, Kon.

- Esquecer o que? – A voz baixa e rouca veio da porta.

Ray se virou surpreso, estava escuro Kai nunca perceberia a leve elevação da calça.

- Nada.

- Já disse que você é um péssimo mentiroso. – Puxou a cadeira se sentando.

Ray cruzou os braços, permanecendo em silêncio.

- Como você está?

- Depois de quase 10 anos você me pergunta isso?

Kai suspirou, descansou o rosto na palma da mão.

- O que eu deveria falar? – Resmungou. – Desculpa por não ter ligado esses anos, sabe como é a sua esposa.

Permaneceu quieto.

- Ray. – O chamou tentando se controlar. – Você casou, eu presumi que não me quisesse por perto.

- Você me afastou, Kai. – Rosnou de repente. – Você não me quis por perto.

- Seria maravilhoso ter você por perto enquanto o psicopata do meu avô queria me atingir de qualquer maneira. – Alterou o tom de voz, ficando irritado.

- Você não me deixou escolher.

- Bela escolha: Viver com uma ameaça de morte pairando sobre a cabeça ou ficar seguro e vivo. – Argumentou com escárnio.

- E o que eu queria não importa?

- Desde que você estivesse seguro, não.

- Bem, aparentemente o Sr. Scott não se importa em correr riscos. – Desdenhou.

- Quando Henry apareceu, meu avô já estava morto. – Retrucou mais calmo.

- Bem, desejo felicidades ao casal. – Falou com frieza começou a ir para a porta.

- Ciúmes, gatinho?

- Não seja prepotente, Hiwatari. – Rosnou. – Como se você fosse importante a ponto de me deixar enciumado.

- Aparentemente sou.

- Aparencias enganam. – Continuou andando.

Kai se levantou o pegando pelo pulso.

- Se não é ciúmes, o que é?

- Nada, apenas algo que ficou guardado por muito tempo. – Continuou com o tom bravo. – Boa noite.

- Noite, gatinho. – Murmurou para o vazio.

XxXxXx

Então, to de férias o/

Deus, tenho tempo livre agora, pelo menos até dia 1º de fevereiro.

Gostaram?

O prólogo eu fiz pra ficar confuso mesmo, agora eu prometo que vou ir exclarecendo as coisas.

Bjs, comentarios e favoritos sempre bem-vindos.