CAPÍTULO II
Hermione olhou para o próprio reflexo no espelho do bar e quase chorou. Seus cabelos estavam arruinados. Simplesmente arruinados!
Ora, por que havia tentado pintar sozinha a raiz dos cabelos? A cabeleireira não lhe advertira que era difícil fazer a pintura pegar em seus cabelos?
Mas o que uma garota devia fazer quando duas polegadas de raízes negras estavam aparecendo e ela não tinha tempo para ir até um salão de beleza em Broken Hill? Na tarde anterior Hermione vira um kit de tintura para cabelos na loja do Mac e decidira tentar resolver o problema. Então, já à noite, subira para o quarto depois de fechar o pub e seguira todas as instruções da embalagem.
Já era tarde demais quando descobriu que o prazo de validade do produto estava vencido há três anos...
Descera as escadas naquela manhã para servir o café da manhã queixando-se amargamente. Augusto até havia dito que ela estava ótima. Mas o que Augusto entendia sobre aquilo?
E como poderia entender? Afinal de contas, ele passara dos sessenta anos! E tivera uma vida dura, tentando sobreviver naquele lugar e criando uma criança que nem era sua filha.
Desde que a mina havia fechado, dez anos antes, Drybed Creek deixara de ser uma comunidade promissora para se transformar num povoado que se resumia a uma oficina, uma loja, um bar, uma sala de aula e um posto de gasolina.
Nada se movia naquele lugar, a não ser as moscas. Hermione era a única mulher solteira com menos de cinqüenta anos, e nunca encontrara ninguém em Drybed Creek que pudesse considerar um candidato a marido e pai de seus filhos.
Compreensível, considerando-se o tipo de homem selvagem que vivia nas cercanias, sem mencionar os que freqüentavam o Hotel Drybed Creek. Sujeitos suados, com jaquetas cobertas de poeira, e caminhoneiros rudes não faziam exatamente o coração de uma garota disparar...
Hermione sonhava com coisa muito melhor do que aquilo!
Pensara ter encontrado o príncipe encantado alguns meses antes, quando vivia em Broken Hill. Mas se enganara. E arrependia-se amargamente daquilo...
Mesmo assim, casamento não fazia parte de seus planos agora. No momento, tudo em que podia pensar era em consertar os quartos que ficavam nos fundos do bar para alugá-los aos forasteiros que passavam pela cidade.
Era engraçado, mas a quantidade de jovens viajantes que passavam pelo vilarejo era cada vez maior. Aparentemente achavam o lugar tranqüilo, até mesmo romântico.
Não que Hermione achasse Drybed Creek romântico. Mesmo assim, era seu lar. A familiaridade com o ambiente não permitia um julgamento preciso. Talvez as pessoas em Sidnei pensassem a mesma coisa sobre a cidade deles. E, apesar de romântica, as notícias sobre a cidade grande sempre eram recheadas de queixas sobre o barulho, o tráfego, os crimes e as drogas, certo?
Hermione admitia que não havia muito tráfego ou barulho em Drybed Creek, a não ser quando o trem passava, E quanto a crimes e drogas... A população esparsa e a pobreza abjeta do lugar eram o bastante para desencorajar bandidos e traficantes.
O único vício na cidade era a bebida. E o torneio de dardos das noites de sexta... Pensando bem, muitas coisas ilegais aconteciam nas noites de sexta... Podia ser considerado caso de polícia.
Se a cidade tivesse um...
A verdade era que Drybed Creek era praticamente uma cidade-fantasma.
Talvez fosse por isso que os turistas achavam o lugar romântico, por ser o completo oposto da cidade grande. Mas, na opinião de Hermione, tratava-se apenas de um lugar morto. De qualquer forma, nos últimos tempos, oferecer comida e hospedagem para os forasteiros até que estava rendendo um certo lucro.
Augusto, por sua vez, não estava entusiasmado com a idéia. Ele vivia dizendo que não queria preocupações adicionais. Mas Hermione o convencera, dizendo que cuidaria de tudo sozinha. Ela pintaria e prepararia os quartos. Cozinharia e iria cuidar do trabalho extra na lavanderia. Afinal de contas, era jovem e forte!
Além disso, sentia um tédio imenso...
Seria bom se o número de turistas realmente aumentasse, para que ela pudesse conversar com pessoas diferentes das que viviam em Drybed Creek.
Só tinha percebido o quanto aquele lugarejo era entediante depois de conhecer outra cidade. A atmosfera provinciana dos arredores não lhe incomodara durante a infância, mas depois que fora estudar em Broken Hill suas idéias haviam mudado muito.
De qualquer maneira, os anos que passara acompanhando o pai de um lado para o outro não tinham feito nenhum bem para o histórico escolar de Hermione, que acabou optando por fazer um curso técnico em vez da faculdade.
Mas logo a menina do interior percebera que não gostava de ser uma pequena engrenagem, trabalhando no departamento de contabilidade de uma grande empresa. Alguns meses depois, porém, surgiu o emprego como recepcionista num hotel movimentado perto do aeroporto de Broken Hill.
Quando o gerente demitiu-se inesperadamente, Hermione foi incumbida temporariamente do cargo e descobriu qual era sua verdadeira vocação.
Gostava de responsabilidades. E tinha nascido para ser uma líder.
Embora nunca tivesse sido oficialmente nomeada gerente, era ela quem realmente administrava o hotel. Foi então que recebeu a notícia de que Augusto estava com pneumonia e teve que voltar para Drybed Creek para cuidar dele e do pequeno hotel.
Hermione sabia que iria voltar para Broken Hill um dia... mas achava que aquilo não aconteceria tão depressa. Augusto fingia que estava bem, mas isso não bastava para enganá-la. Ele ainda tossia muito pela manhã.
E o pior de tudo, sempre que ela não estava olhando bebia demais, fumava demais e comia todo o tipo de comida que não podia. O homem precisava de alguém vigiando-o por algum tempo, observando sua dieta e certificando-se de que ele tomava as vitaminas.
Se não fosse pela presença de Hermione, ele provavelmente teria morrido no último inverno. Os homens eram incorrigíveis naquele aspecto, nunca sabiam cuidar da própria saúde. Bastava lembrar-se do que tinha acontecido ao próprio pai, que a deixara para trás, sob os cuidados de Augusto, aventurando-se sozinho numa viagem de exploração de petróleo...
— Precisam de uma babá — ela murmurou. — Todos eles.
— Falando sozinha, amor?
Hermione ergueu a cabeça para encarar Augusto, notando que os olhos dele estavam mais vermelhos que o habitual.
— Você andou tomando Bourbon outra vez, não é? — ela acusou, olhando com suspeita para a garrafa na prateleira, a qual parecia mais cheia do que na noite anterior. — E ainda encheu a garrafa... Certamente com uísque mais barato.
— Cale-se — Augusto resmungou. — Não quer que nossos fregueses ouçam esse tipo de coisa, não é?
— Que fregueses? — Hermione replicou secamente, apoiando as mãos nos quadris.
Apenas uma pessoa estava no bar naquela hora da tarde de terça-feira, e era o velho Jim, o beberrão oficial da cidade. Ele estava sentado sozinho num canto escuro, tomando seu drinque habitual sem prestar atenção a nada nem a ninguém.
O lugar era quieto como uma tumba.
Justamente por isso Hermione pôde ouvir claramente um som de motor aproximando-se pela rua principal. Parecia ser potente, talvez uma caminhonete ou picape.
Provavelmente turistas, ela concluiu.
Hermione esperava que os forasteiros fossem do tipo que achavam o lugar romântico. Aquele era o tipo de turista que sempre gastava mais dinheiro... Pena que o dia não estava muito quente. Ela sempre vendia mais cerveja e refrigerante durante o verão.
Ao ouvir o guincho dos freios bem diante da entrada do bar, suas esperanças redobraram. Em seguida ouviu a porta do carro batendo, e alguns passos ecoaram no chão de madeira na varanda que dominava toda a fachada do Hotel Drybed Creek.
Uma figura alta finalmente materiaLizou-se do outro lado das portas do saloon, e os raios de sol recortaram perfeitamente uma silhueta enorme e, sem dúvida alguma, máscula. O estranho ficou parado por um momento antes de empurrar as portas e entrar no bar.
O brilho dourado do crepúsculo cegou Hermione por alguns segundos, impedindo-a de enxergar o recém-chegado com clareza.
Depois disso, sem poder se conter, ela examinou o forasteiro com muita atenção. Claro, afinal nunca vira um homem como àquele em Drybed Creek antes.
Ele parecia ter saltado de uma revista de moda, mais especificamente de uma página anunciando aqueles finíssimos ternos italianos.
Sem dúvida ele vestia-se de forma impecável e sofisticada.
Também era incrivelmente bonito, com o rosto finamente esculpido, fronte altiva e a boca sensual. Seus cabelos eram de um loiro-platinado brilhante, penteados para trás num estilo ao mesmo tempo elegante e casual.
Mas o detalhe mais atraente era a cor azul-acinzentada de seus olhos. Olhos muito brilhantes, separados por um nariz romano que lhe emprestava um ar indisfarçável de nobreza.
Poucas vezes Hermione vira um homem tão lindo. E, para piorar, ele parecia ter nascido para o pecado.
Se não fosse pela experiência com Ronny, o coração dela teria disparado à vista de um forasteiro tão atraente. Se não fosse por Ronny ela teria começado a se preocupar com seus cabelos arruinados. Teria agido como uma tola, tentando fazer o homem notá-la.
Hermione achava que nunca teria motivos para ficar agradecida a Ronny. Mas era o que sentia no momento. Ele lhe ensinara da maneira mais difícil uma lição sobre o que a fraqueza feminina podia causar, especialmente quando tal fraqueza levava uma garota a se envolver com homens daquele tipo... Homens que não queriam nada de uma mulher a não ser o óbvio.
O coração dela acelerou-se perceptivelmente quando o magnífico forasteiro adentrou o bar, mas a reação instintiva não era nada se comparada à curiosidade que tal presença despertava.
Na verdade, a única pergunta na mente de Hermione era: Que diabos um homem como esse está fazendo aqui em Dribed Creek?
